Se nos voltarmos ao projeto em engenharia, buscando identificar os espaços de subdeterminação, nos quais o desenvolvimento tecnológico é escolhido ou definido muito menos por uma necessidade ou inevitabilidade técnica do que pela incidência de valores sociais, percebe-se que o espaço principal para esse tipo de incidência social se situa, no âmbito da engenharia normal de Vincenti, nos níveis mais elevados da hierarquia do projeto, particularmente nos dois primeiros: definições do projeto e projeto geral. É lá que as necessidades e restrições do contratante, juntamente com restrições sociais (de ordem jurídica, ética etc.), são traduzidas em características a serem buscadas pelo artefato a ser produzido.
O impacto de tal coisa nas etapas seguintes do projeto dá-se principalmente em dois âmbitos: na seleção da solução satisfatória que mais se adequa às condições de contorno assumidas (e que traduzem a perspectiva de valor que se está buscando reforçar ou perseguir); e na pressão para se desenvolverem os conhecimentos (técnicos e científicos) que eventualmente não estejam disponíveis, mas que se mostram necessários para o tipo de
solução que se busca (ainda que essa solução demore para ser alcançada ou, por fim, nem venha a sê-lo).
A verificação do primeiro desses dois âmbitos é mais simples, decorrendo, se nos ativermos à formulação de Simon, do caráter satisfatório das soluções técnicas encontráveis. De fato, na medida em que boa parte dos problemas que buscamos resolver tecnicamente são proibitivamente complexos, não temos como encontrar a solução ótima – e única – deles. Ao contrário, existiriam múltiplas soluções possíveis para cada um, e que se mostrariam mais ou menos satisfatórias em função das condições de contorno assumidas. O que as perspectivas de valor (ou estratégias de poder que as suportam) incidentes sobre a definição do projeto fazem, então, é simplesmente traduzir suas demandas nas restrições/condições técnicas que operarão como critério demarcatório entre o aceitável/satisfatório e o não.
O segundo âmbito do impacto dos valores sociais nos níveis mais altos do projeto técnico é de percepção mais sutil, até porque só podemos notá-lo nos níveis hierárquicos subsequentes, através dos conhecimentos mobilizados e produzidos para se fabricar a solução técnica que se busca. O entendimento aqui, não obstante, é bem claro e de fácil enunciação: até certo ponto, como veremos, é possível produzir-se conhecimento (pela engenharia e/ou pela ciência) capaz de dar lugar a soluções técnicas mais ou menos condizentes com as condições de contorno assumidas. Para isso, basta que a pressão que incide sobre definições do projeto e projeto geral seja não apenas traduzida e transferida para os níveis hierárquicos inferiores do design, como também incida sobre a atividade científica54.
No que concerne aos componentes não científicos do projeto técnico, essa sensibilidade deles a valores sociais (incidentes nas fases iniciais do projeto) não é de difícil constatação. Começando com os conceitos fundamentais, se assumirmos a perspectiva simondoniana de desenvolvimento técnico, o que se verifica, neste âmbito, é uma de três
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Veremos um exemplo concreto dessa pressão sobre a ciência nos fóruns híbridos que analisaremos na próxima seção. Seja como for, o que se está dizendo aqui é essencialmente o mesmo que já se disse anteriormente, de que não existe a possibilidade de os cientistas – ou quaisquer pessoas/profissionais – atuarem em um vácuo de poder. Assim, lutar por uma ciência que possa produzir um conhecimento mais amplo da realidade, de sorte a também dar conta de subsidiar perspectivas tecnológicas plurais, é o mesmo que lutar pela construção de espaços nos quais grupos sociais não bem servidos pelo conhecimento científico produzido possam fazer-se escutar e, em alguma medida, ser atendidos em suas demandas técnicas e por conhecimento.
coisas. Pode-se ter: a construção de uma nova mediação entre humanidade e o mundo, ou seja, um novo princípio operacional; um aumento de concretização do indivíduo técnico, que impacta o princípio operacional dele ou sua configuração normal; ou uma inovação que desvirtua a funcionalidade técnica, em função de um uso específico intencionado, afetando, com isso, a configuração normal do artefato e/ou o princípio operacional de algum/ns do(s) seus componentes.
Em cada um desses três casos de desenvolvimento técnico, como tivemos chance de analisar no capítulo anterior, temos a incidência de valores sociais, seja através de elementos que compõem o meio associado que o objeto técnico constitui e ao qual ele precisa se adaptar, seja nas tensões entre a ordem do real e do antecipado que o inventor experimenta ou que é mais sensível a perceber, seja, para o caso dos desenvolvimentos não autênticos, nos valores que nortearão a construção do artefato enquanto uso ou sentido social específico. Nesses três casos – e, ao que parece, apenas neles –, o princípio operacional e a configuração padrão, usualmente estáveis no projeto normal, são alterados ou estabelecidos. E tal coisa se processa não apenas em meio a valores, como aqueles incidentes nas etapas iniciais do projeto normal, mas, em alguma medida não desprezível, também em resposta a eles.
Assim, mesmo que princípio operacional e configuração normal sejam (preponderantemente) alterados ou estabelecidos em projetos radicais, e mesmo que eventualmente não seja possível apresentar os estágios desse tipo de projeto segundo essas mesmas cinco etapas com que Vincenti apresenta o projeto normal, ainda assim, consegue- se ver que tais elementos são sensíveis a perspectivas de valor (ou a estratégias de poder subjacentes a elas), e que elas são precisamente do mesmo tipo daquelas que atuam sobre as primeiras etapas do projeto normal.
Dentre as demais categorias de conhecimento requeridas ou produzidas nos níveis inferiores da hierarquia do projeto, em resposta às demandas socialmente enviesadas apresentadas aos níveis superiores, em ao menos mais uma os valores sociais podem desempenhar um papel importante, a das instrumentalidades do projeto. E isso, nas três subcategorias apresentadas por Vincenti, principalmente em seus componentes tácitos ou não teorizáveis. Com efeito, para que o projeto dê os frutos esperados dele, tanto procedimentos estruturados, quanto modos de pensar e habilidades avaliativas precisam
privilegiar os conhecimentos particularmente úteis para o tipo de seleção axiológica que os níveis superiores da hierarquia do projeto estão buscando. De fato, seja no ordenamento/ sequenciamento tornado canônico no projeto de determinada área da engenharia, seja nas analogias ou estruturações mentais mais utilizadas aí, ou nos pontos específicos a serem considerados em uma boa avaliação desse tipo de design – e nos critérios de beleza/elegância também associados aos juízos construídos aqui –, o projeto só tem êxito se, nesses procedimentos (ou habilidades), privilegia-se, de alguma forma, aquilo que é mais profícuo com respeito ao tipo de soluções técnicas que são esperadas/buscadas. Nesse sentido, por exemplo, uma engenharia agroecológica parece demandar um conjunto de instrumentalidades sensivelmente diferente do de uma engenharia agrícola transgênica. A estruturação do projeto, as imagens e metáforas válidas ou úteis e o senso estético (ou intuição) requeridos para a avaliação do design parecem ser, de fato, significativamente dissimilares em um caso e no outro.
Como parêntese neste ponto, vale chamar a atenção para o fato de que o tipo de ruptura característico de uma invenção simondoniana, e que, seguindo com a analogia de Vincenti para o projeto radical, estabelece-se em torno de um novo paradigma, de uma nova forma de enxergar a realidade, percebendo nela uma mediação até então não possível, ou uma concretização (apenas) nesse momento viável, essa ruptura parece estar fortemente relacionada a – ou ser grandemente tributária de – aquilo que, no projeto técnico, constitui a sua parte mais criativa e que, de acordo com Ferguson (1977), é bastante dependente de habilidades não verbais e muito fortemente imagéticas. Kuhn (2006 [1962]), aliás, também apelará para o dado imagético/visual, no uso que fará da Gestalt, também conhecida como teoria das formas, na apresentação da sua teoria. Para ele, com efeito, após o advento de uma revolução científica, de uma quebra paradigmática, é como se passássemos a enxergar pato, lá onde, até então, enxergávamos coelho. Na prática, para ele, isso teria sido exatamente o caso, por exemplo, com a revolução copernicana, após a qual os cientistas passaram a ver heliocentrismo, lá onde, por séculos, seus antepassados viam, a partir dos mesmos dados observacionais, geocentrismo.
No projeto em engenharia, o lugar dessas rupturas paradigmáticas – seja um princípio operacional novo, seja uma nova configuração padrão – parece estar, desse modo, profundamente associado às instrumentalidades do projeto, à arte da engenharia. É, com efeito, nelas que, como se viu, encontram-se tanto os modos de pensar (as habilidades
mentais fundamentais para imaginar os projetos e que – essa é a nossa hipótese aqui – irão nos fazer enxergar pato ou coelho, dependendo da conformação que apresentem), quanto as habilidades avaliativas (e o senso estético (ou intuição) a elas subjacente, capaz não apenas de nos fazer farejar algo mais afinado com ele, como de nos levar a identificar limites (já) não (mais) aceitáveis nas soluções existentes – e que apontam para, ou constroem a crise anunciadora e possibilitadora da, quebra do paradigma vigente) e os procedimentos estruturados (e os passos assumidos como canônicos na construção do projeto técnico). Com isso, e como já havíamos visto no capítulo anterior, seguindo uma outra trajetória, dependendo das perspectivas de valor a permear ou conformar a produção técnica – e as instrumentalidades do projeto, em particular –, algumas invenções vão se tornar mais suscetíveis de serem percebidas, ao passo que outras tornar-se-ão menos prováveis.
Fechando o parêntese, nas categorias de critérios e especificações e dados quantitativos prescritivos, tem-se quase que uma mera tradução automática dos valores que incidem sobre a etapa de definição do projeto, de sorte que se pode esperar que, mudando- se tais valores, esses dois conjuntos de saberes naturalmente se desenvolvam no sentido de se adequarem, o tanto quanto possível, às (novas) demandas do projeto. Por fim, as considerações práticas e os dados quantitativos descritivos, parecem apenas muito indiretamente afetadas por valores sociais, respondendo, de todo modo, a eventuais demandas por mais conhecimento de forma análoga às duas categorias anteriores.
Sinteticamente, então, no nível do projeto técnico normal, o desafio de algo como a democratização ou popularização do desenvolvimento tecnológico – e da produção de tecnologia social – radica-se preponderantemente nos valores que lograrmos incorporar, seja aos níveis mais altos do design, seja ao âmbito de boa parte daquilo que identificamos com a arte da engenharia (e que parece estar associada também aos tipos de invenções, isto é, princípios operacionais e/ou configurações padrão, possíveis). No geral da produção tecnológica convencional, há uma grande sintonia entre os valores incidentes nessas duas instâncias. Valores que, ademais, são os usualmente ensinados nas escolas de engenharia, mascarados de neutralidade, por meio dos códigos técnicos canônicos a que vão sendo apresentados – e conformados – os futuros engenheiros. Nas práticas de produções técnicas contra-hegemônicas, porém, essa sintonia pode não ser obtida – ou sequer percebida como
necessária. E tal discrepância pode tornar o projeto inexequível, ineficaz ou deficitário para produzir o tipo de solução buscada. Voltaremos a isso na próxima parte deste capítulo.
3.4 Experiências de controle democrático/popular interno à produção técnico- científica
No que vimos neste capítulo até aqui, a condição, em Lacey, para que a ciência seja capaz de produzir conhecimento útil a produções técnicas conformadas por múltiplas perspectivas de valor é a máxima metodológica do pluralismo55. No âmbito da produção técnica em si, a capacidade de se construírem soluções legítimas para distintos atores sociais – com distintas estratégias de poder e, provavelmente, diferentes perspectivas de valor a encarná-las – é que o projeto (segundo a tipificação de Boon) seja aberto e sensível aos valores empunhados por esses atores (tanto no nível hierarquicamente superior da tradução das demandas dos contratantes em requisitos técnicos, quanto na dimensão das instrumentalidades do projeto). Assegura-se, com isso, que também os outros âmbitos não científicos implicados na atuação em engenharia – incluindo as ciências da engenharia de Boon – sejam instados ou desafiados, a partir das orientações provindas dos níveis superiores do projeto, a mobilizar e/ou produzir conhecimento que suporte o design pretendido, segundo as diretivas ou condições de contorno que se definiram para ele.
Em ambos os casos, porém, a possibilidade de que tais atividades (ciência e engenharia) provejam os frutos plurais, democratizados ou populares que elas são passíveis de prover não implica que isso venha de fato a ocorrer. Falta, de uma parte, e naquilo que se refere ao âmbito externo à produção técnico-científica em si, que se assegurem diversas condições para tanto, como, por exemplo, recursos de distintas ordens. No caso da ciência multimodal (nos termos de Lacey, multiestratégica), assim como de algo como a tecnologia social, isso significa, dentre outras coisas, garantir repasse de verbas públicas para essas atividades. De outra parte, como tentamos evidenciar no caso da ciência, e naquilo que se refere ao âmbito interno dessas atividades ou instituições, falta também motor ou causa
55 Pluralismo de modos de pesquisa, sensíveis ao contexto e descontextualizadores. Modos que Lacey chama
eficiente, isto é, instância que mobilize os profissionais envolvidos (cientistas e engenheiros), de sorte a que eles atualizem, em algum nível, as potencialidades democráticas ou populares dos conhecimentos/artefatos que produzem, e em conformidade com as urgências ou demandas do grupo popular a que buscam servir.
O modo como esse desafio interno pode ser trabalhado é diferente em cada um dos dois casos (produção científica, de um lado, e produção técnica, seja normal ou revolucionária, de outro). Analisaremos e ilustraremos isso nas duas próximas seções. Em ambas as situações, porém, a tarefa das instâncias democratizantes sobre cientistas e engenheiros não é essencialmente muito diferente: ajudá-los a enxergar o mundo com outras lentes. No primeiro caso, isso significa um cientista que não apenas é capaz de ver e considerar contextos ou ecossistemas, como também as urgências e necessidades reais das pessoas (sobretudo, das socialmente mais fragilizadas ou excluídas). No caso da engenharia, essas novas lentes significam, no limite, não só identificar as urgências e necessidades do grupo popular com o qual se trabalha, mas também a capacidade de, na busca por encaminhá-las tecnicamente, incorporar, nas soluções construídas – e no modo de construí- las, assim como no ferramental cognitivo mobilizado para tanto –, saberes, modos de vida e valores próprios desses grupos.