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Chapitre 1 : Synthèse bibliographique

4. Problématique : couplage d’images hyperspectrales pour la compréhension de la corrosion sur le

Findos os anos de governo de Itamar Franco, em 1993, é eleito presidente da República, concorrendo com Luiz Inácio Lula da Silva, o então ex-ministro da Fazenda do governo Itamar, Fernando Henrique Cardoso. Após o malogro das primeiras eleições presidenciais após o regime militar, que colocaram Fernando Collor de Melo na presidência, a população volta às urnas em outubro de 1993 para escolher seu novo governante. O então candidato do PSDB, um partido originado depois da dissenção do MDB, com o fim do bipartidarismo, durante o processo de reabertura política, em meados dos anos 1980, chega à presidência da República após derrotar, já no primeiro turno, o candidato da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT; durante os anos de chumbo do regime militar, FHC e Lula lutaram juntos contra os desmandos do regime, seguindo caminhos diferentes após o processo de desmembramento dos partidos políticos no Brasil. FHC sobe à presidência com grande apoio da população, que havia visto com bons olhos o Plano Real – plano econômico lançado durante o governo Itamar, cuja moeda era a URV, que tinha valor equiparável ao dólar, ajudando a elevar a economia brasileira.

Em seu pronunciamento de posse uma coisa nos chama a atenção: o lexema “povo” aparece apenas seis vezes, ao longo dos cento e vinte e um parágrafos que compõem seu pronunciamento; isso, para nós, já é um vestígio significativo que afetará a construção do sentido dessa palavra ao longo do pronunciamento. Além disso, vale a penas observarmos

o que aparece no lugar desse termo, quando o sujeito se refere ao povo; assim, observemos os recortes a seguir:

(FHC 1) Os trabalhadores brasileiros souberam enfrentar as agruras do arbítrio e da recessão e os desafios das novas tecnologias

(FHC 2) Reorganizaram seus sindicatos para serem capazes, como hoje são, de reivindicar seus direitos e sua parte no bolo do crescimento econômico

(FHC 3)Ao escolher a mim para sucedê-lo, a maioria absoluta dos brasileiros fez uma opção pela continuidade do Plano Real, e pelas reformas estruturais necessárias para afastar de uma vez por todas o fantasma da inflação

(FHC 4) Mas, ao contrário de Nabuco, eu tenho bem presente que o meu mandato veio do voto livre dos meus concidadãos. Da maioria deles, independentemente da sua condição social.

(FHC 5) Mas veio também, e em grande número, dos excluídos; os brasileiros mais humildes que pagavam a conta da inflação, sem ter como se defender; dos que são humilhados nas filas dos hospitais e da previdência; dos que ganham pouco pelo muito que dão ao país nas fábricas, nos campos, nas lojas, nos escritórios, nas ruas e nas estradas, nos hospitais, nas escolas, nos canteiros de obra; dos que clamam por justiça porque têm, sim, consciência e disposição para lutar por seus direitos - a eles eu devo em grande parte a minha eleição.

Nesses cinco recortes apresentados, podemos verificar que não há a presença de “povo” em nenhum deles; em seu lugar, verificamos o aparecimento de “os trabalhadores brasileiros”, “sindicalizados”, “a maioria absoluta dos brasileiros”, “os meus concidadãos”, “excluídos”, “os brasileiros mais humildes”, “os que são humilhados nas filas dos hospitais e da previdência”, “os que ganham pouco”, “os que clamam por justiça porque têm (…) consciência e disposição para lutar por seus direitos”. Todos esses sintagmas nominais estão em uma relação de predicação para com “povo”, uma vez que pode haver a substituição deste, na cadeia parafrástica, sem alteração significativa de sentido, pelos substantivos, nos sintagmas “brasileiros mais humildes”, “os que ganham pouco pelo

as agruras da recessão e os desafios das novas tecnologias, uma vez que é ele que sempre quis “e com urgência a modernização do Brasil” (COLLOR, 1990), foi ele – o povo – que reorganizou seus sindicatos, em busca das melhorias sociais e trabalhistas.

Dessarte, verificamos que há uma caracterização do trabalhador brasileiro, no pronunciamento de Fernando Henrique Cardoso, marcada por predicações relativas ao seu pertencimento ao povo, concomitantemente a uma definição caracterizada pela marginalização deste como “excluídos”, “brasileiros mais humildes”, “os que ganham

pouco pelo muito que dão ao país”, “os que clamam por justiça”, ao mesmo tempo em

que procura valorizar esse mesmo povo, ressaltando sua “consciência e disposição para

lutar por seus direitos”.

Contudo, ao designar seus eleitores como sendo “a maioria absoluta dos

brasileiros”, alegando que seu mandato veio do “voto livre dos meus concidadãos (…) independentemente da sua condição social”,temos aí uma homogeneização da sociedade

brasileira, que produz um efeito de sentido de que os “excluídos”, “os brasileiros mais

humildes” eram, também, seus concidadãos, e caracterizados como o povo brasileiro.

Esses brasileiros mais humildes são também caracterizados como sendo “os que ganham

pouco pelo muito que dão ao país nas fábricas, nos campos, nas lojas, nos escritórios, nas ruas e nas estradas, nos hospitais, nas escolas, nos canteiros de obra”. Fica evidente,

assim, que sentidos de povo como sendo os excluídos socialmente, para quem é preciso que se lute, a fim de restituir-lhes os direitos que são garantidos por lei, são retomados de pronunciamentos anteriores, como o de Sarney e de Fernando Collor; além desses, “povo” também são:

POVO 1: parcela da população que soube enfrentar as necessidades e vencê-las; POVO 2: trabalhadores que souberam reivindicar seus direitos;

POVO 3: os excluídos, humilhados por não terem acesso devido a vários dos serviços públicos básicos, como saúde, educação e moradia;

POVO 4: aqueles que têm consciência de suas necessidades e, por isso, escolheram pelas reformas estruturais necessárias.

Nos recortes a seguir, também encontramos um outro sentido para povo, presente igualmente nos pronunciamentos anteriormente analisados, qual seja, “povo” como sinônimo de “nação”. Observemos os recortes em que tal sentido ocorre:

(FHC 6) Nós, brasileiros, somos um povo com grande homogeneidade cultural. Nossos regionalismos constituem variações da nossa cultura básica, nascida do encontro da tradição ocidental-portuguesa com a africana e indígena.

(FHC 7) Nossos intelectuais, nossos artistas e nossos produtores culturais são a expressão genuína do nosso povo.

(FHC 8) Nós, brasileiros, somos um povo solidário.

(FHC 9) Às mulheres, que são a maioria do nosso povo e às quais o país deve respeito, oportunidades de educação e trabalho.

Nos enunciados acima, podemos substituir o sintagma “povo” por “nação” ou “país” mantendo o efeito de sentido de generalização da população como um todo, ou seja, tomando como sentido todas as pessoas pertencentes a um mesmo território nacional, isto é, um país, uma nação. Assim, o país é caracterizado por uma suposta “homogeneidade cultural”, valorizada por seus intelectuais, e não pelo que se tem por “povo”, ou seja, pelos trabalhadores, por aqueles que são excluídos, que lutam por suas necessidades básicas, além da solidariedade existente em toda nação brasileira, em toda sua gente; o sentido de solidariedade também está presente nos pronunciamentos de Tancredo Neves, quando este afirma que o povo deu “o seu apoio inequívoco” (NEVES, 1985 apud BONFIM, 2002, p. 319) e José Sarney, ao afirmar que “(...) nenhum governo terá sucesso sem a confiança do

país. Para isso, deve ser responsável. Dizer a verdade, e obter a solidariedade do povo.”

que nos faz aventar a hipótese de presença de formações discursivas referentes àqueles dois presidentes no pronunciamento de Fernando Henrique, garantido pelo princípio do “Primado do Interdiscurso” (MAIGUENEAU, 1998) – uma FDtn13, em que o “povo” é um

fiel depositário da confiança no governo, independentemente de receber em troca algo; outra FDjs, em que o “povo” é um fiel depositário da confiança no governo, desde que este seja digno de sua confiança, que será obtida em troco da verdade e da responsabilidade para com a coisa pública.

Fernando Henrique Cardoso finaliza seu pronunciamento de posse agradecendo

“Ao povo do meu país que, generoso e determinado, elegeu-me já no primeiro turno.”;

vemos, nesse enunciado, o sentido de “povo” sofrer uma coerção pela presença da relativa e do aposto, que delimitam seu sentido. Aí, o “povo (…) que elegeu-me já no primeiro turno” caracteriza o vocábulo “povo” como se referindo àqueles que o apoiaram durante a campanha e que, de acordo com suas propostas de governo apresentadas, viram-se representados por ele. Uma outra determinação ocorre sobre o vocábulo “povo”; dessa vez, pelo aposto “do meu país”, haja vista que só podem ser eleitores os “brasileiros natos”, ou seja, que tenham nacionalidade brasileira. Não bastassem tais caracterizações, o “povo” ainda é adjetivado como “generoso e determinado”, características eufóricas, que marcam os seus eleitores; dessa forma, os que votaram em FHC e o elegeram possuem características que demonstram suas benesses.

Pudemos observar que, das seis ocorrências do lexema “povo” no pronunciamento de FHC, em 1994, apenas duas significam a parcela da população que o elegeram já no primeiro turno das eleições. Essa parcela está marcada linguisticamente pelo uso do artigo definido junto ao nome “povo” ou ao nome que, por metáfora, signifique “povo”, como em “Os trabalhadores brasileiros”, “a maioria absoluta dos brasileiros”, “os meus concidadãos”, “os excluídos”, “os brasileiros mais humildes”, “os que são humilhados”, “os que clamam por justiça”; discursivamente, a presença desses determinantes produz um

efeito de pré-construído, fixando, em alguma medida, o sentido de “povo” presentes em seu discurso. A palavra “povo” no singular, no plural nu ou um plural acompanhado de artigo, bem como quando a temos precedida de outro determinante, como ocorre nas seguintes formas: “um povo”, “do nosso povo”, verificamos, em ambos os casos, que “povo” significa, por metonímia, “nação” ou “país”, de modo que no enunciado em FHC 8, tenhamos um efeito de sentido de “nação”, isto é, “conjunto de pessoas que dividem o mesmo espaço geográfico nacional”. O mesmo ocorre no enunciado FHC 9, em que “mulheres” é parte do todo da população, representado metonimicamente por “nosso povo”.

Dessa feita, para o pronunciamento de Fernando Henrique Cardoso (1994), são produzidos os seguintes efeitos de sentido para “povo”:

POVO 1: parcela da população que soube enfrentar as necessidades e vencê-las; POVO 2: trabalhadores que souberam reivindicar seus direitos;

POVO 3: os excluídos, humilhados por não terem acesso devido a vários dos serviços públicos básicos, como saúde, educação e moradia;

POVO 4: aqueles que têm consciência de suas necessidades e, por isso, escolheram pelas reformas estruturais necessárias.

POVO 5: parcela da população alijada de seus direitos sociais; POVO 6: nação, país;

POVO 7: aqueles que apoiaram FHC durante a campanha e que, de acordo com suas propostas de governo apresentadas, viram-se representados por ele;

POVO 8: os que votaram em FHC e o elegeram por ele possuir características que demonstram suas benesses.

2.2.6 Análise dos sentidos de “povo” no pronunciamento de Fernando Henrique