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O mapa enquanto concepção abstrata e simbólica é uma representação, e independente das transformações da técnica atual, continua sendo uma representação espacial ou espacializada. Todavia, face ao atual meio técnico-cientifico-informacional, torna-se evidente que alguns aspectos de uma concepção estruturalista acerca do fazer e do uso do mapa sofrem mudanças significativas, entre as quais podemos elencar: a virtualização do mapa; a fragmentação rizomática dos seus elementos; e, a mudança na sua concepção face sua fluidez, em contraposição ao exercício da fixidez e do estruturalismo que assinala o mapa convencional/tradicional.

A primeira mudança que se coloca é que, diante deste crescente processo de virtualização cartográfica, o mapa convencional (baseado no papel enquanto suporte físico), representa um espaço fixo e limitado, tanto do ponto de vista da sua escala como em termos representacionais.

Mesmo alguns mapas representados através de meios digitais que se colocam como produto destas mudanças provocadas pelas geotecnologias, já não conseguem objetivamente representar ou expressar em termos práticos e conceituais aspectos das práticas cartográficas executadas na contemporaneidade, a exemplo dos mapas de visualização online (HAKLAY, SINGLETON et al., 2008), de mapas dinâmicos e colaborativos em rede (MACEACHREN, Alan M e BREWER, 2004; CRAMPTON e KRYGIER, 2006; CRAMPTON, 2009), e de alguns que se utilizam da informação geográfica para a construção de uma “cartografia computacional” colaborativa (GOODCHILD, 2007).

Ao mesmo tempo, aspectos estruturais e essenciais à constituição do mapa contemporâneo, a exemplo da precisão e da acurácia, tornam-se fundamentais neste processo de virtualização cartográfica ante esta sociedade tecnológica. Principalmente ao incorporar cada vez mais a informação geográfica das ações humanas sobre o espaço, acentuando sua importância no contexto de uma tecnociência.

Contudo, não se trata de um descarte dos modos, práticas e instrumentos tradicionais, nem de uma crítica desmedida e esvaziada em relação ao caráter essencialmente estruturalista e hegemônico que assinala o fazer cartográfico ocidental moderno, em específico do mapa tradicional, pois, eles têm/terão seu lugar segundo as

conveniências, objetivos e finalidades desejadas pelos diversos atores sociais em suas práticas espaciais.

Embora o mapa – enquanto representação –, concebido sob a perspectiva da cartografia convencional esteja tecnicamente limitado a uma escala fixa e às dimensões físicas do papel enquanto suporte, sob a ótica da cartografia virtualizada (em rede) – que conforma nossa concepção de Cartografia Geográfica, o mapa online está para muito além destas limitações, ampliando as possibilidades para seu fazer e uso.

Como resultado, evidenciamos o segundo aspecto destas mudanças, pois, o mapa na contemporaneidade adentra num processo que denominamos de fragmentação rizomática dos seus elementos básicos e essenciais. Isto porque, já não é possível afirmarmos que o mapa numa perspectiva ocidental moderna se constitua enquanto tal da mesma forma como era há três ou quatro décadas, a exemplo das proposições de Robinson (2010 [1952] ) e Robinson, Morrinson et al. (1978), portanto, de um viés centrado em torno de práticas fundadas num fazer e uso que evidenciam uma abordagem exclusivamente geométrica e estruturalista em torno da construção deste e de seus elementos.

Num outro extremo, dado as condições técnicas atuais, não se pode conceber um fazer geográfico que se configure exclusivamente em torno da dimensão social sem levarmos em conta a importância do mapa e de alguns elementos simbólicos e geométricos.

No estágio atual de desenvolvimento técnico-científico, até mesmo alguns aspectos das inúmeras propostas de estabelecimento de métodos e/ou de um modelo coerente de comunicação cartográfica – conforme apresentados por inúmeros autores, dentre os quais: Bertin (1971; 1978; 2010 [1967]), Koláčcný (1977), Ratajski (1971), Petchenik (1977), Salichtchev (1983), etc. –, que permitiram pensar uma cartografia diferente em meio aos movimentos de renovação cartográfica, demandam respostas coerentes relativas às aceleradas transformações que as geotecnologias e as Tecnologias da Informação e da Comunicação exercem sobre o fazer e o saber cartográfico, por conseguinte, sobre o uso do mapa enquanto representação cartográfica134. Ainda que a

134 Não adentramos na problemática das representações cartográficas dado que: Primeiro comprometeríamos a da

objetividade cientifica que esta nossa investigação demanda. Segundo, porque embora os mapas online se constituam enquanto representações cartográficas, adentrar especificamente nesta temática, em nossa concepção, significa adentar à um conjunto de entrelaçamentos teóricos e interdisciplinares. Compreendemos – não diminuindo a importância destas contribuições - que do ponto de vista teórico, isto imputa em repensar, trazer

pertinência destes modelos e de alguns métodos sejam incontestes e se façam imprescindíveis no campo das representações cartográficas, eles não previram, nem tampouco poderiam prever o atual estágio de desenvolvimento tecnológico e principalmente os avanços técnicos no seio da cartografia.

Consequentemente, a forma como se concebe o mapa mudou, conforme evidenciam diversos autores (HARLEY e WOODWARD, 1998; CRAMPTON, 2002; WOOD e FELS, 2008; PICKLES, 2012 [2004]), como também o seu fazer e uso, implicando em sabermos o que é isto (mapa) que estamos fazendo e usando em meio à uma cartografia cada vez mais virtualizada.

Neste contexto, ainda que na atualidade o mapa135 muitas vezes seja concebido e produzido sob um viés estruturalista no que diz respeito à representação formal de suas características e elementos básicos, à exemplo de: escala, projeção, elementos gráficos, simbologia, texto, etc., – estes enquanto aspectos intrínsecos e imprescindíveis ao que se constitui formalmente enquanto mapa, sofrem um processo de fragmentação rizomática.

Tal assertiva se conforma porque estes podem ser alterados/configurados de maneira dinâmica e instantânea, acrescendo ou limitando características, elementos, textos e simbologias através de filtros/camadas ou, compartilhando136 informações com outros mapas ou dispositivos eletrônicos em rede.

Portanto, isto não diz respeito tão somente ao processo de virtualização do mapa em si, mas da sua capacidade dinâmica e rizomática de desfragmentação e fragmentação imediata que os remete à condição de fluidos, no sentido de fluidez137. Ou seja, da capacidade de fazer-se e desfazer-se constantemente de modo instantâneo, de apresentar-se de inúmeras formas e em múltiplas escalas, de prover usos e aplicações simultâneas a diversos utilizadores – inclusive em lugares distintos e distantes –, de comunicar-se e ser comunicado através das redes eletrônicas, por conseguinte de replicar- se ou ser replicado.

aportes à alguns conceitos, categorias e modelos de comunicação da informação cartográfica considerados centrais, para que, em meio às transformações da técnica e da sociedade, as teorias envolvidas neste processo se coadunem com a prática e vice-versa. Portanto, isto demanda outra(s) investigação(ões), as quais, enquanto construção, se interconectam com os fundamentos teóricos da Cartografia Geográfica nos moldes aqui propostos. Todavia, isto não invalida o que se apresenta.

135 Decorrente de padrões cartográficos validados pelo Estado e suas instituições.

136 Através de associação por hipermídia (link) e protocolos e padrões que permitem interoperabilidade de sistemas

e/ou mapas.

O fundamental, neste movimento, é que o mapa continua sendo uma representação nesta sociedade permeada por um meio digital, mas ainda assim, uma representação espacial ou espacializada, uma informação do espaço, e/ou sobre o espaço. Independente das inúmeras interpretações atribuídas esta característica isto não sofreu alterações. O que mudou foi o seu suporte. É a isto que denominamos de virtualização, ou seja, em termos cartográficos nos referimos à um processo de virtualiza ção crescente do mapa, implicando no online138, nos remetendo à sincronicidade do tempo ou em termos gerais, à uma dimensão temporal na qual o mapa assume uma fluidez, colocando-se num processo de desconstrução e reconstrução permanente (fragmentação rizomática), ou seja, de uma dimensão temporal autodestrutiva, que se refere à sua capacidade de mutação em termos de autoconstrução.

Isto implica do ponto de vista cartográfico convencional – por exemplo – que toda uma operação mental realizada para comparar lado a lado uma carta de 1:100.000 com outra de 1:250.000, ou com uma de 1:50.000 (por vezes, com sistemas de projeções distintos) constitua um processo lento, manual e meticuloso, requerendo do usuário/cartógrafo/geógrafo todo um conjunto de conceitos e conhecimentos técnicos que demandam: aprendizado teórico, tempo e experiência em termos práticos. Neste cenário, hipoteticamente imaginemos, pois, outras implicações adicionais se considerarmos os momentos (tempo) distintos e não equidistantes em que estes mapas foram produzidos.

Entretanto, o mapa online frente à este processo de virtualização cartográfica torna fluída esta operação ao executar tais procedimentos referentes à mudança de escala, sistema de projeção, coordenadas geográficas, ou inúmeros elementos e operações de forma automática ou assistida139.

Portanto, guardados os objetivos e finalidades para os quais são produzidos, o mapa online porta em sim mesmo, como característica desta fragmentação rizomática, uma flexibilidade escalar, que permite ao seu usuário/produtor acessar em termos de representação as “n” escalas de uma dada realidade/espacialidade.

Dessa forma estamos nos referindo à uma flexibilidade dinâmica e relacional com que se pode mudar a escala do mapa online na cartografia virtualiza da em termos de representação do(s) lugar(es), do(s) território(s), etc. Mas também, de elementos tais como: imagens orbitais, aerofotos, simbologia, rotulagem, feições e a dinâmica dos fluxos

138 Online no sentido de estar em rede, em conexão ou em espera de uma ação/comando para tal. 139 Segundo inferências de um algoritmo baseado num conjunto de técnicas previamente sistematizadas.

e da informação online, por vezes, em tempo real. Estes, elementos essenciais à conformação do mapa online – conforme apresentamos previamente – no contexto da Cartografia Geográfica, mas sobretudo da Cartografia como um todo.

Della Dora (2009, p. 240), propõe “uma reconceitualização de mapas como objetos fluídos que estão sempre em formação”140, entretanto, esta perspectiva ancora-se em aspectos sociais e performáticos em torno das relações entre atlas141 e seus usuários “através de diferentes tipos de encontros pessoais que são ao mesmo tempo visuais e táteis”, o que não invalida tal assertiva. Entretanto, compreendemos que o caráter fluído caracterizador do mapa – como se ele estivesse sempre por se fazer –, é um traço do acelerado processo de virtualização cartográfica, e especificamente do mapa online enquanto caminho conceitual do que aqui se apresenta.

Diante destas considerações, propomos um esquema interpretativo para a dimensão conceituação do mapa online com vistas à uma tipologia de diferenciação do mapa digital (figura 24).

Figura 24 – Dimensão conceitual para uma tipologia do mapa online

Elaborado pelo autor.

Neste esquema consideramos que o mapa online se diferencia do convencional e do mapa digital pela dinâmica de atualização da informação espacial cartografada. A dinâmica refere-se a fluidez da informação cartografada e representada no mapa através de seu suporte de representação.

A dimensão conceitual do mapa online, se inicia na instância 0 (zero) que equivale ao ambiente digital e percorre uma direção para a instância “n” (infinita), dado a

140Do original em inglês: “[…] a re-conceptualization of maps as fluid objects thet are always in the making”.

141 Conceituados pela autora “como ferramentas mnemônicas” (Della Dora, 2009, p. 240).

Dinâmica de atualização da informação espacial cartografada

Estática Dinâmica

MAPA ONLINE Mapa Digital

Mapa convencional

multiplicidade de configurações e tipologias possíveis. Portanto, a tipologia do mapa online tende ao infinito dado a variedade e possibilidade de aplicaç ões.

No mapa convencional a dinâmica conceitual é menor que 0 (Zero) ele é estático, como também seu suporte. Restringe-se à ordem dos fixos.

O mapa digital tem uma dinâmica estática e adentra na dimensão dinâmica, pois, seu suporte e relativamente fluídico. Ou seja, ele pode moldar-se a um suporte, pode ser replicado na rede, nos dispositivos, mas sua dinâmica será limitada em termos de escala que será fixa ou com relativa escalabilidade e fluidez dinâmica. Assim, o mapa digital pode ser/estar online, mas o mapa digital não é um mapa online.

A dimensão conceitual do mapa online é totalmente dinâmica em termos de atualização da informação espacial cartografada, e sua fluidez dinâmica em termos de suporte e de atualização que se inicia na instância 0 (Zero) tende a instância “n” (infinita) considerando a finalidade e o objetivo do cartógrafo ao elaborar sua representação.

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