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Problèmes de coordination

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O universo em que a obra de McGann se insere é o universo do ensino e da ecdótica. Seu motivo inicial é ir de encontro à redução desse universo a “cenas de leitura,” em vez das “cenas de escrita” que constituiriam seu caráter primário, material como socialmente. Publicado em 1991, a introdução a seu The Textual Condition começa com uma acusação ao postulado demaniano de que um texto literário não é um evento fenomenal, que de modo algum possui uma “existência positiva” porque a leitura é pura cognição e não pode ser observada. Primeiro vejamos o que diz De Man:

Prior to any generalization about literature, literary texts have to be read, and the possibility of reading can never be taken for granted. It is an act of understanding that can never be observed, nor in any way prescribed or verified. A literary text is not a phenomenal event that can be granted any form of positive existence, whether as a fact of nature or as an act of the mind. It leads to no transcendental perception, intuition, or knowledge but merely solicits an understanding that has to remain immanent because it poses the problem of its intelligibility in its own terms (DE MAN, 1971, p. 107).

O que importa reter aqui é, em primeiro lugar, o estatuto de objeto intencional conferido ao texto literário, que implica a neutralização do suporte material. O suporte não é, de todo, relevante para a designação do literário. Em segundo lugar, importa perceber que a recusa da condição “fenomenal” é ao mesmo tempo uma recusa do referente (cf. supra I.1.4), e com ele a história, e da estética (cf. infra I.4.2) como possibilidade de um saber especulativo experienciado de forma sensível. Literatura é uma forma puramente autorreferencial. Contra isso responde McGann:

In fact, the textual aporias that emerge through reading and hermeneutics are a function of the peculiar textual model these traditions tend to work with. This textual

model (…) is sketched in the passage from De Man which I have already cited. It is a model in which there is only one agent, the solitary “reader,” whose pursuit of meaning involves an activity of ceaseless metaphoric production. (1991, p. 6)

De Man também predicava uma não-identidade ao objeto, só que, na crítica de McGann como na nossa, isso restringia-se ao problema semântico-pragmático, ali correspondendo ao caráter tropológico inerente à linguagem por contraposição à empresa “gramatical,” a qual por seu turno faria da instabilidade do tropo um accidens da linguagem (e não o inverso). McGann prossegue, então, criticando a partir de uma compreensão estética e não estritamente semântico- linguística da literatura o que ele chama de idealismo textual, basicamente aquilo que nos permite equipará-lo a Gumbrecht.

Por sua parte, sua defesa do materialismo do texto literário inclui em si um postulado linguístico, isto é, o da impossibilidade de uma langue fora de uma cena textual feita de trocas e, no processo, transformações, variações, ruídos e diferenças, inscritas de um e de outro lado do processo, no leitor como no texto. (É importante notar aqui, de passagem, que existe uma clara absorção da ideia de sistema na de universalidade e da instanciação na de particularidade. A linguagem, por si só, está dividida sempre entre o universal necessário à sua constituição enquanto mediação social e o particular que ela medeia; a diferença entre o literário e o não- literário seria, aí, aquela entre o estético e o inestético: a concretude do primeiro dissolvendo a universalidade do segundo pelo adensamento dos elementos da experiência.) No fundo, essa primeira ideia não vai longe da de uma textualidade pós-estruturalista. Todavia, conforme elabora seu programa, McGann propõe a necessidade de um afastamento do programa linguístico da teoria literária: “the work,” diz a respeito da crítica da hermenêutica do século XX, “has been largely confined within the material horizon of the text as that was imagined in

romantic hermeneutics” (1991, p. 12), dando como exemplo de herança romântica os elementos

“paratextuais” (verbais) de Gérard Genette. A pergunta é: por que seriam “paratextuais” não fosse a noção predeterminada de texto a promover a secundarização desses elementos? Qualquer produção de sentido não depende deles para constituir-se? Como resposta à questão, McGann postula o elemento não-linguístico indissociável da instanciação dos textos na forma de um código bibliográfico. O programa que propõe, ele nomeia-o hermenêutica materialista, já que imputa, em meio à necessidade de pensar o texto como nó de relações sociais de natureza variada, uma capacidade semiótica às convenções bibliográficas. (Mas capacidade semiótica já não é a melhor forma de pensar a medialidade, parecendo-nos hoje simples dado.)

de constantemente revisar as premissas de seu trabalho. Será que caráter social é assim tão evidente? Os argumentos propostos em The Textual Condition, como dissemos, são um ponto de chegada de outras discussões. Em 1988, McGann parecia ter concebido um programa, incluindo retroativamente as publicações de 83 e The Beauty of Inflections (1985) – obra que lhe valeu a designação de novo historicista (FRY, 2012, p. 246–258) –, para o que ele ainda chamava de hermenêutica crítica. McGann, discutindo uma das versões da crise com que introduzimos nosso trabalho, considerava que “[t]he chief problems facing literary studies

today do not seem (…) theoretical ones; they seem, rather, social, institutional, and methodological” (1988, p. x). Sendo esse o nível da discussão, o livro ensaia críticas à

desconstrução, ao formalismo, ao marxismo, novo historicismo, viz., às trends da theory naqueles em grande parte decorridos 80, e tematiza os problemas do referente, do discurso crítico, do método dialético, etc., como possibilidades de resolver os impasses daqueles programas. O livro todo é o registro de um blitzkrieg teórico fundamental para o modelo que irá desenvolver mais tarde (cf. infra II.2.1).

Há uma interessante comparação a fazer aqui: enquanto a radicalidade da crítica de Gumbrecht levou-o variadamente à elaboração de propostas, “paradigmas,” o trabalho de McGann é caracterizado por uma obstinação revisionista, talvez conforme o interesse de permanecer junto a um programa mais fundamental de crítica. O problema do interesse é toda a evidência de um caráter social que sempre precisou se justificar, na formulação da teoria literária, pela hipóstase de tais e tais conceitos, a exemplo de forma e texto. Se tivermos isso em mente, podemos facilmente associá-lo às autoras antes mencionadas, Johanna Drucker e Marjorie Perloff. Há um nó, nesses autores, no que toca ao desenvolvimento da preocupação com a materialidade em conjunção com o problema da não-identidade, já que não adotaram a postura excêntrica do observador gumbrechtiano em relação à matéria teórica. A discussão torna-se deveras interessante, porém, quando a tematização dessas dificuldades leva à passagem da não-identidade como simples predicado estético para a não-identidade como um problema metodológico. A pergunta é simples, mais ou menos: como fazer uma pergunta sem que se lhe antecipe a resposta? Se há mais na coisa do que é previsto nela, se há algo contingente em relação às expectativas cognitivas, como conhecer aquilo que necessariamente excede as condições de saber? Ou: como praticar uma hermenêutica sem que a “fusão de horizontes” reenvie ao círculo hermenêutico da compreensão, isto é, sem que o produto da assimetria

provocada pela disjunção temporal, espacial e/ou cultural seja qualquer coerência indevida?55 Ou: como produzir uma técnica que não o seja só dentro da técnica? Ou, num formato adorniano: como identificar o não-idêntico sem perpetrar-lhe a violência da identidade?

Em termos práticos, na slang crítico-literária atual,56 tratar-se-ia de elaborar uma compreensão textual que se adequasse aos elementos particulares de uma obra sem lhe impor um aparato analítico nem os preconceitos a ele atrelados. Mas o ideal metodológico de abrir-se à experiência sem o recurso à metalinguagem consegue ser mais do que um ideal?

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