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Uma interessante classificação e caracterização da vertente social do pensamento indigenista encontramos no antropólogo mexicano Díaz-Polanco (1991), que também teceu duras críticas ao indigenismo integracionista do seu país nos anos 1970, mas que, ao contrário de outros antropólogos de sua geração, que aderiram ao oficialismo de Estado, assessora hoje movimentos indígenas que demandam a regularização e autonomia de gestão de seus territórios (exemplo: Frente Zapatista de Liberación Nacional - FZLN). Embora o campo de referência para construir esta tipologia do indigenismo seja particularmente o México, suas conclusões são suficientemente gerais como para serem incorporadas na análise de outros contextos nacionais e regionais. Ele observa que ao longo dos dois últimos séculos o indigenismo esteve orientado por distintas perspectivas ideológicas. No século XIX, por

exemplo, predominou entre as elites e governantes liberais a vertente do “indigenismo liquidacionista”. Os governos liberais, diz Díaz-Polanco, colocaram em prática

“uma política que se propunha incluir aos indígenas na vida nacional, mas excluindo a manutenção de suas particularidades culturais. A política indigenista neste caso é liquidacionista, e nessa medida etnocida. Nesse período [de constituição dos Estados nacionais independentes] não se trata de negar qualquer autonomia as etnias sobreviventes, senão a possibilidade mesma de existência de tais configurações sócio-culturais no marco nacional. Incorporação na nação e conservação das características que fundam as outras identidades convertem-se em propósitos incompatíveis. Se nega a validade e a viabilidade dos sistemas de identidade indígena. A solução para ‘o problema’ dos índios é [desta perspectiva] seu desaparecimento enquanto identidades diferenciadas” (...). Busca-se converter ao índio em um membro a mais da sociedade nacional, eliminando qualquer foro de ‘privilégio’. (...) daqui para frente existem cidadãos, não índios” (Díaz-Polanco 1991: 88-89).

No plano das medidas socioeconômicas, busca-se que os indígenas adotem os princípios da livre competição, do lucro e da propriedade privada. Na visão do liberal-indigenismo, a “comunidade indígena” é vista como uma “corporação civil” que obstaculiza o livre fluxo da propriedade.

Ao indigenismo liquidacionista seguiu-se o “indigenismo integracionista”. Segundo Díaz-Polanco, para Aguirre Beltrán, um de seus principais ideólogos, o indigenismo integracionista se propôs a “corrigir” as idéias etnocêntricas da política anterior e introduzir “um elemento de justiça social na política indigenista” (idem: 92). Os comportamentos da cultura indígena em princípio são aceitos como válidos, mas postula–se a “integração dos índios à sociedade nacional, a ser realizada respeitando os valores de suas culturas e sua dignidade de homens” (idem: 92).

O indigenismo integracionista nasceu com uma grave e insolúvel contradição interna: ao mesmo tempo em que postularam o “relativismo cultural”, os integracionistas não desejaram abandonar a meta de “incluir aos índios” na sociedade nacional. As tábuas de salvação passam a ser os postulados evolucionistas que haviam servido de base aos liberais:

“O resultado foi que o integracionismo converteu seu original conteúdo relativista em discurso ideológico, enquanto fundou sua prática em uma percepção evolucionista que imputava a superioridade em todos os planos” (idem: 95).

Temos assim um discurso ideológico relativista encobrindo uma prática integracionista. Separam-se os “aspectos positivos” das culturas indígenas daqueles que devem desaparecer, pois são “contrários” ao bom andar do processo de “integração nacional” e do “progresso”. O indigenismo integracionista, continua Díaz-Polanco, se converteu na política indigenista oficial dos Estados latino- americanos:

“Armados de um discurso racionalizador (no qual se mantinham retoricamente os tópicos relativistas), durante décadas os governos criaram as condições para desmantelar todos os aspectos das culturas indígenas que não eram compatíveis – a juízo dos indigenistas – com os fundamentos estratégicos da ‘cultura nacional’” (idem: 96).

De elemento chave na estratégia do Estado mexicano para promover a integração nacional, criar uma identidade nacional, e atender as demandas sociais dos indígenas após a Revolução de 1910-1920, o indigenismo integracionista é “transportado” para o campo internacional, tornando-se a base do discurso de agências internacionais de “cooperação técnica”, que viam ali um “gancho” para desenvolver e introduzir políticas “modernizadoras” das áreas rurais na América Latina. No ano de 1940, em Pátzcuaro, Michoacán (México), no I Congresso Indigenista Interamericano, o indigenismo integracionista é alçado à condição de paradigma para uma ação articulada em diferentes países e regiões do continente.

Finalmente, para Díaz-Polanco, passa-se das práticas abertamente etnocidas para uma complexa “estratégia etnófaga”. Como regra, se inicia o abandono dos programas e as ações explicitamente encaminhados para destruir a cultura dos grupos étnicos, e se adota um projeto de mais longo prazo, que aposta no efeito absorvente e assimilador das múltiplas forças que a cultura nacional dominante põe em jogo. Ela não supõe o abandono da meta integrante, senão sua promoção por outros meios que se desdobram do Estado e de um grande número de instituições da sociedade civil para atrair as etnias aos padrões e valores reputados como nacionais. A “etnofagia” - define nosso autor -

“expressa então o processo global mediante o qual a cultura dominante busca engolir ou devorar as múltiplas culturas populares, principalmente em virtude da força de gravitação que os padrões ‘nacionais’ exercem sobre as comunidades étnicas. Não se busca a destruição mediante a negação absoluta ou o ataque violento das outras identidades, senão sua dissolução gradual mediante a atração, a sedução e a transformação” (idem: 97).

Nem o genocídio nem o etnocídio são completamente abandonados. Trata-se de ênfase. O Estado leva seu projeto “etnófago” enquanto manifesta respeito ou aparente “indiferença” frente à diversidade. Além da pressão por hegemonia cultural, há a “participação” e o “consenso” como meios de inclusão dos membros dos grupos étnicos nas estratégias econômicas e organizacionais em curso – daí o surgimento do chamado “indigenismo de participação”. Há uma intenção de fazer com que cada um deles se converta em promotor da sua própria integração, “por vontade própria”, estejam eles convencidos ou não da superioridade da “cultura nacional”, cada vez mais globalizada e impregnada de valores e relações sujeitas à lógica da acumulação do capital. Aqui, com uma visível regularidade, o “Mercado” aparece como o meio mais adequado para se promover a “inclusão social” e a superação da condição de “pobreza” dos índios. O “Mercado” aparece como o melhor ambiente para educar e disciplinar os indígenas no controle e gerenciamento do uso do dinheiro, base das relações econômicas em um mundo economicamente globalizado. 11

Com a entrada em crise dos pressupostos do integracionismo no final dos anos setenta, uma parte dos Estados latino-americanos teria passado a responder as pressões advindas dos “levantamientos” e demandas indígenas com um discurso etnicista e uma “práxis etnopopulista” renovados, buscando garantir seu controle sobre uma situação de constante e crescente pressão “desde abaixo”. O etnicismo populista funda-se no “essencialismo cultural”, pensa-se e age aparte das discussões mais amplas sobre a política nacional, e tem por foco de ação político-institucional o aprimoramento e a promoção de mudanças nas “atitudes” e “erros” das políticas étnicas dos Estados. Nada mais que disso. O “etnicismo” se limita, salienta Díaz-Polanco, a declarações ambíguas acerca do projeto ‘étnico’, sem especificar as condições, as premissas e os recursos políticos para alcançá-lo. “Isto explica porque na América Latina seja cada vez mais freqüente que os governos não só assumam um discurso e um estilo de corte etnicista, senão que chamem para ingressar em seus aparatos a muitos destacados ideólogos desta corrente: quem melhor que os próprios etnicistas para apontar e inclusive

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Esta não é de todo uma tese absurda. Max Weber ressalta que nem todas as ações (e decisões relacionadas) são motivadas por interesses puramente econômicos. Por outro lado, como existem eventos, normas e instituições cujo significado cultural reside no seu aspecto econômico, são “processos ou instituições econômicas”, há também aquelas que eventualmente podem ser ou tem uma “relevância do ponto de vista econômico”, e outras que não derivam de qualquer intenção de fundo econômico, embora sejam “fenômenos economicamente condicionados” (Weber 1987: 29-30). Se pensarmos que as relações mercantis e monetárias se expandem aceleradamente sobre os espaços material e simbólico indígenas, se torna cada vez mais “necessário” a eles dominar estes códigos econômicos.

coordenar a pratica etnopopulista, mais sintonizada com a nova fase etnófaga do indigenismo?” (Díaz- Polanco 1991, p. 104)

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