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Principes fondateurs de la constitution de 1791

Um universo perfeito demais, artificial, apenas um frag- mento, uma montagem que quase sempre se distancia muito da realidade. Um ambiente de férias repleto de superlativos em cor-de-rosa é o que as pessoas gostam

Evitem dizer que, algumas vezes, “cidades diferentes suce- dem-se no mesmo solo e com mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si” (CALVINO, 1990, p. 30).

Esses fragmentos – um contido na obra de Krippendorf e outro no livro Cidades Invisíveis (1990) de Ítalo Calvino – quando aqui associado à atividade turística promove uma discussão quanto aos resultados da inserção desse setor não mais nos planos e promessas do governo e na iniciativa privada, mas na realidade - no cotidiano do cidadão comum, que deveria ser o princípio e o fim dos louros do turismo. Entretanto, assim como o entendimento de desenvolvimento, e a forma de participação popular, o resultado no dia-a-dia do autóctone é, muitas vezes, tímido ou imperceptível.

Normalmente, o residente passa a deparar-se com um muro – um apartheid ora invisível, ora concreto – que o separa dos espaços turísticos (que, em muitos casos, antes lhes pertencia) e dos empregos formais e bem remunerados oferecidos pela atividade. E o que está além desse muro é o exercício da descaracterização de sua representação cultural pelo turismo, atendendo aos interesses dos gestores do turismo. Criando de fato, cidades espetacularizadas e diferenciadas de seu entorno, que ocupam o mesmo espaço das “originais”, que de fato são batizadas com o mesmo nome, mas que desdobram seus dias sem se relacionar diretamente, a partir da edificação de guetos turísticos.

Os turistas em guetos formam reservas artificiais, construídas sob medida. Essa categoria compreende todos os novos complexos hoteleiros, as cidades, parques e loteamentos de férias que não nasceram do desenvolvimento de uma aldeia [...] com exceção de alguns empregados autóctones. Os centros bastam-se

a si mesmos. Não há necessidade de sair, pois lá dentro existe tudo o que se quer. Turistas chegam pelo caminho mais curto, inclusive no melhor dos casos que é a via aérea (KRIPPENDORF, 2003, p. 56).

As formas de apropriação do turismo pelo destino – ou seria do destino pelo turismo? – são diversas, e, nem sempre, respeitam os direitos humanos, ou seja, o direito de SER. Essa apropriação implica conhecimento e investimento e, ao mesmo tempo, a expulsão, explícita ou não, de antigos ocupantes. Essa expulsão, guiada pelos altos investimentos, gera mudança em todas as esferas do cotidiano local, promovendo todas as formas de valoração do TER. Além da destruição das formas de trabalho tradicionais, a chegada do turismo pode promover a carestia de bens e serviços agora oferecidos no lugar, a transformação urbana, a desvalorização dos hábitos, cultura do autóctone, a segregação e possível desestruturação social local como um todo, e perca inclusive da autenticidade paisagística e arquite- tônica construída ao longo de sua história.

O confronto entre o patrimônio que se tem construído ao longo dos anos com a aquisição de um valor histórico, e novas formas de exploração toma proporções trágicas. Mal sabemos de exemplos de integração bem-sucedida de novas construções em um ambiente original4

(KRIPPENDORF, 1977, p. 70, tradução nossa).

Assim, receber a atividade turística em determinados lugares, quando mal planejado, sobretudo sem a participação

social popular, é reconhecer o risco de tais impactos ocor- rerem, sendo necessário levar em consideração as recorrentes mudanças no cotidiano dos residentes, que deixam suas ativi- dades tradicionais em nome do turismo.

Para além disso, ocorre o aumento do consumo de energia elétrica, água, e, consequentemente, o padrão de vida daquele lugar. E nem sempre se faz tais ressalvas para promover esses novos destinos turísticos. Inúmeros são os casos de regiões litorâneas do nordeste brasileiro, por exemplo, onde os ofícios tradicionais como pescador ou artesão, deram lugar a subem- pregos na área da hotelaria, recreação e restauração.

Dessa forma, apegar-se ao discurso de que o turismo gera emprego e renda, nessas regiões, é equivocadamente acreditar que pessoas, na maioria das vezes, com baixa instrução, experiência alguma em qualquer outra atividade se não a que sempre fez e que lhes garantiu a subsistência, e desinformadas quanto aos seus direitos de cidadão e traba- lhador, terão oportunidades coerentes no turismo. Quando, na verdade, não são bem-vindas, e se assim o forem, serão em cargo de baixa remuneração.

A atividade turística é exigente, e com ela, se instaura também toda uma infraestrutura de lazer, restauração, hospe- dagem, apoio e acesso, nos agora destinos turísticos. Torna-se rapidamente evidente a nova dinâmica urbana que se mostra no dia a dia do lugar, e a chegada desses representantes do “desenvolvimento”, da “evolução”, da “civilidade” trazem também agravos para a permanência do antigo morador. Seguido da energia, a água encanada, a linha telefônica, chegam as “contas” desses benefícios, importâncias que nem sempre o residente tem condições de assumir. Isso compromete direta- mente a liberdade que está a se mostrar, conforme Amartya

Sen, liberdade essa que se constitui enquanto fim primordial e meio para o desenvolvimento.

Para além disso, têm-se também questões de desapro- priação dos espaços para o turismo, terras compradas pelo capital internacional, que as adquirem por preços ínfimos e subfaturados. Tal movimento também acelera a expulsão dos autóctones que, unidos a todos esses fatores anteriormente referenciados, acaba por se deslocar para áreas distantes da turística, e não mais passa a fazer parte do processo como um verdadeiro beneficiado pela atividade, como antes se acreditava. A população perde espaço para o poder do capital turístico, e segue o caminho da periferia, do gueto, da marginalização, da favelização, do desemprego, da segregação até dos seus valores, cultura, história.

Do outrora desses lugares, às vezes resta muito pouco, a não ser a parcela local que se insere na atividade, e fragmentos desse passado - que também é apropriado pelo turismo, e que serve de recurso para a experiência fictícia turística. O que se apresenta agora nesses espaços é a negação de sua condição cultural, identitária e muitas vezes econômica. Mesmo em regiões de difícil acesso, o turismo se apropria com voracidade e alta tecnologia promovendo grande mudança no destino, que passa a assumir nexos sofisticados e espetacularizados, como também com hegemonia na apropriação de toda espécie de recurso que possa lhe servir no processo de acumulação de riqueza e, portanto, de geração de lucro. Por outro lado, nosso entendimento é que o desenvolvimento associado ao turismo

Inseridos nessa bolha turística, onde toda a experiência de viagem é manipulada para o “desencontro” entre turistas e residentes, em que o autóctone se encontra na condição de estranho em sua própria região, eles são enquadrados pelo turismo como uma classe de “pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético, portanto, por sua simples presença, deixam turvo o que deve ser transparente [...] elas poluem a alegria com a angústia” (BAUMAN, 1998, p. 27).

O resultado é uma relação maquiada, superficial, e mani- pulada da viagem pelos operadores turísticos. Normalmente, o turista não aprende nada, ou quase nada, acerca do cotidiano e realmente das regiões visitadas. Isola-se à sobra dos guarda-sóis da indústria do turismo. Essa que cria e recria cenários para atender às exigências do que foi criado como expectativa no turista ainda no seu local de emissão. A viagem ganha status de filme em replay, que reproduz exatamente todas as fantasias – em muitos casos distante da realidade local – assumidas no momento da compra da viagem. “Assim, nascem as localidades turísticas de operetas que não têm mais nada a ver com a reali- dade e não passam de meras montagens de cenários artificiais” (KRIPPENDORF, 2003, p. 55).

E, à medida que o sistema de mercado turístico sobrepõe e subjuga o local, a construção socioespacial da comunidade se perde na especulação desses equipamentos e novos costumes que, unidos a cada vez maior ausência de residentes, abre caminho para os interesses apenas do capital. Capital esse que objetiva tornar o destino apoteótico e mais convidativo aos olhos do turista. Trata-se de verticalidades e induções que via-de-regra desvalorizam e muitas vezes suprimem o que existe de articulação social, coletiva e horizontal. São, portanto, forças e vetores de hegemonia tal que são capazes de estabelecer

controle total sobre determinados espaços, citadinos ou não, praias, montanhas, territórios diversos.

Entretanto, em muitos casos, o máximo que se consegue é reproduzir algo sem atribuir-lhe o sentido que o mesmo merece, fazendo da cultura do lugar alegorias fora do contexto, inserindo elementos desconectados para representar o destino ou, ainda, padronizando espaços para atender ao turismo internacional. Sobra, para o autóctone, evidências da desintegração de sua identidade e tradição. Enquanto para o visitante, o imaginário de um destino perfeito, mas pirata, genérico, falsificado, que se “firma em uma série repetitiva que pode dar a impressão de que está tudo ficando com a mesma cara” (YAZIGI, 2002, p. 17).

Em países subdesenvolvidos, essa padronização de espaços e descaracterização da cultura local, se delibera pela escolha do uso do simulacro (BAUDRILLARD, 1981), e não da realidade local, sendo mais prático, tanto para empresários quanto para governantes investir no primeiro (simulado), do que ordenar em todos os aspectos o espaço, encobrindo seu legado, suas tramas, problemas infraestruturais e sociais do povo.

Não se quer aqui descolorir os evidentes pontos positivos da atividade turística em inúmeras localidades. Todavia, muitos estudos de caso descrevem a população residente timidamente ou nada valorizada, com a sua identidade negligenciada, esque- cida ou manipulada, quando não também pouco beneficiada pela infraestrutura e oportunidades oriundas da atividade, que acaba permitindo a coexistência de dois lugares dessemelhantes em um mesmo espaço – o lugar do turismo e o lugar do coti-

2.4. Um ideal de “turismo inclusivo”