“Todo diálogo verdadeiro contém silêncios. Ora, um silêncio não deixa traços semióticos. Como, então, interpretá-lo, que significa ele?”
(Boutet, 1997: X)
Em qualquer situação linguageira, a atividade de linguagem se desenvolve no seio de contextos sociais e a maneira como as palavras são colocadas no discurso não têm o mesmo significado para enunciador e interlocutor, porque os indivíduos não se confrontam com uma palavra já elaborada anteriormente; porque o sujeito do discurso é constitutivamente heterogêneo, múltiplo, clivado; porque o discurso é lugar privilegiado para manifestação de uma ideologia, além de o texto ser um efeito discursivo. Isso tanto
pode gerar aproximação, como ambigüidade, variação semântica, conflito lingüístico
(Boutet,1997: VII). A heterogeneidade social é constitutiva da construção de sentido pelos participantes da troca verbal e a situação de pertinência de um locutor a uma determinada classe social, assim como a posição que ele ocupa na relação de forças, tudo isso se manifesta no seu discurso. Esta maneira de teorizar a situação coloca os limites da
competência do lingüista: ele não tem como objeto situações concretas mas apenas as suas representações simbólicas (ibid.: 55) e deve levar em conta, na análise das interações verbais, um “já-dito” que as precede e que as caracteriza parcialmente. Por outro lado, há sempre opacidade no sentido, uma vez que ele é construído embasado num processo que, além de sócio-cultural, também é ideológico, marcado pelo modo de ser e pela visão de mundo de cada um e, portanto, está inscrito em múltiplas temporalidades, na
heterogeneidade dos estratos simbólicos, na diversidade dos indivíduos implicados e seu respectivo status (Souza-e-Silva, 2001:139).
A interpretação e a análise dos dados de pesquisa são atividades que o pesquisador faz em um tempo diferente do da ação: ele toma como objeto de análise uma interação já construída. A interpretação do lingüista constitui uma atividade metalingüística e não
lingüística, segundo Boutet (1997: 27), e resulta de dois deslocamentos: um, entre a interpretação que um enunciador constrói de seus enunciados e a interpretação construída na interação pelo co-enunciador; e outro, o deslocamento feito pelo pesquisador lingüista, confrontado com esses enunciados e construindo interpretações sobre eles, de fora da
situação empírica em que eles aconteceram, baseando-se em regularidades formais e observáveis dos dados a serem analisados.
Nessa análise, leva-se em conta que há uma dependência entre as propriedades organizadoras dos gêneros de atividade - ligadas ao contexto da ação -, e algumas formas lingüísticas recorrentes: as interações profissionais estão submetidas a um princípio muito
generalizado e comum: a máxima de polidez de Grice, que se aplica particularmente às
profissões de prestação de serviços (Boutet, 2005b: 11). Sendo a comunicação verbal também uma relação social, ela se submete a regras de polidez:
transgredir uma lei do discurso (falar fora do assunto, ser hermético, não dar as informações solicitadas, etc.), o fato de dirigir a palavra a alguém ou monopolizar a atenção do interlocutor, já é uma intrusão no seu espaço, um ato potencialmente agressivo. Esses fenômenos de polidez estão integrados na teoria “das faces”, desenvolvida desde o final dos anos setenta, principalmente por P. Brown e S. Levinson, que se inspiraram no sociólogo americano E. Goffman (Maingueneau, 2002: 38).
No gênero de atividade do dentista, que também é uma relação de serviço, isso se aplica especialmente, já que a interação que se estabelece entre os atores sociais é assimétrica tanto no sentido de conhecimento científico, como no de nível sócio-cultural, colocando em evidência as relações de forças e de dominação de um locutor sobre o outro. Visto que uma mesma fala pode ameaçar a face positiva de um, com o intuito de preservar a do outro, os interlocutores são constantemente levados a buscar um acordo, a negociar, a gerir conflitos, com o dentista procurando um meio de preservar a própria face sem ameaçar a face negativa do paciente. Nessa situação, os discursos exigem, do profissional, competências desenvolvidas em quatro registros: competências técnicas e regulamentares (procedimentos técnicos, letramento para textos escritos e orais referentes ao gênero profissional), competências contratuais (colocar-se de acordo com a instituição e com o paciente), competências sociais (gerir a interação face a face). Os dois últimos conjuntos de competências remetem a competências de natureza comunicativa (Boutet, 2005b: 11), em que os discursos nunca acedem à univocidade, e traduzem a desigualdade entre os interlocutores, cada qual com uma maneira própria de interpretar seu Outro.
As noções de assimetria dos interlocutores nos diálogos se inscrevem numa história de idéias lingüísticas e filosóficas que parecem evoluir a partir de problemáticas de poder e dominação. Elas estão no fundamento da constituição de disciplinas como a sócio-lingüística e a análise do discurso, e colocaram em discussão noções como as de relação de forças, de hierarquia, de autoridade, de desigualdade: dominação de um grupo social sobre outro, ou de um locutor sobre outro em situações sociais como as consultas nos consultórios médicos, por exemplo (Boutet, 2005a).
No consultório odontológico, a relação de serviço poderia ser definida como a posição de um “eu-dentista” que sabe, oposta a um “você-paciente” que não sabe, posição na qual o profissional-agente é reconhecido por uma competência que o paciente-cliente não possui, o que autoriza o profissional a questionar, prometer, avaliar, dar as ordens (Grosjean, 1993: 37).
Além disso, na interação face a face que acontece no consultório odontológico, definida pela co-presença dos participantes, está implicada, também, uma prática na qual ocorrem manifestações semióticas não verbais (olhar, mímicas, gestos, entonação),
próprias à oralidade e estreitamente imbricadas à atividade de trabalho que ela acompanha ou realiza (Grosjean, 2001: 143).
Na atividade do dentista, como em toda enunciação situada, a palavra está sujeita a escolhas e à variação, e permite marcar as relações de intersubjetividade pelo jogo dos tempos, dos modos, das pessoas, pelas escolhas lexicais, pelos acentos de valor apreciativo, etc.: a palavra da ação nunca é puramente funcional, ela carrega também um acento
sociolingüístico (Lacoste, 1995: 25).
O trabalho do profissional de Odontologia coloca em evidência as heterogeneidades sociais, o confronto de normas implicadas na vida no trabalho, as trocas simbólicas que acontecem entre as pessoas direta ou indiretamente envolvidas nesse trabalho, a co- construção dos sentidos que os atores sociais vão desenvolvendo, no decorrer da interação linguageira dentista-paciente.
A construção de sentido na atividade de pesquisa, pela escolha dos dados para a pretensa análise da atividade de trabalho do dentista, por sua vez, coloca o pesquisador frente a múltiplos desafios: a interpretação dos discursos do dentista pelo paciente e vice- versa, e a interpretação que o pesquisador faz dos discursos de cada um, por exemplo, na seleção do que lhe pareça mais ou menos importante, mais ou menos recorrente, mais ou menos significativo para o propósito do seu estudo.
Terceira parte
Metodologia
Capítulo 5
A construção dos dados de pesquisa
Valendo-se de suas relações pessoais e profissionais com a coordenadora da Escola de Aperfeiçoamento Profissional e com a dentista responsável pela triagem de pacientes para os cursos ministrados nas clínicas da EAP, a pesquisadora teve um encontro com ambas, na sala da Coordenadoria, no 4º andar da EAP, em agosto de 2004. Foi feita uma entrevista para que um espaço dialógico pudesse ser co-construído e, desse modo, se transformasse a atividade de trabalho dos atores sociais no núcleo do desenvolvimento de uma situação de pesquisa.