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Primitive types

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16.2 Primitive types

Para a televisão, importa tanto a forma de mostrar o esporte como seu conteúdo; a fragmentação e a distorção do espetáculo esportivo é uma conseqüência imediata, pois a televisão seleciona imagens e as interpreta ao público, propondo um "modelo" do que é o "esporte" e "ser esportista". (BETTI, 1998, p. 34)

Lançando o olhar sobre o ambiente escolar na perspectiva de espaço social, preocupamo-nos com a reprodução acrítica do esporte. A Educação Física escolar vem sendo confundida e baseada em prática essencialmente voltada ao esporte rendimento, reproduzindo desta forma o discurso da mídia.

Hoje em dia, ninguém mais faz "aula de educação física", mas de aeróbica, hidroginástica, musculação, esporte, dança. A terminologia "educação física" só subsiste na escola, onde, todavia, já é quase sinônimo de "esporte". (BETTI, 1998, p. 16)

Nos próximos parágrafos, buscaremos identificar os principais fatores que remetem à educação física problemas decorrentes da estreita visão que alunos e até mesmo educadores possuem sobre a Educação Física.13

13 Ao grafar "Educação Física", com iniciais maiúsculas, nos referimos a uma prática verdadeiramente

Segundo Tubino (1987), o primeiro texto que, ao ser publicado, provocou reações contra o uso negativo do esporte foi o Manifesto do Esporte,14 de 1964. Daí

em diante, surgiram outros documentos que proporcionaram a ruptura com o conceito anterior de esporte, o qual tinha como única perspectiva o rendimento. O esporte passou então a constituir um conjunto interdependente de três perspectivas: Esporte Educacional, Esporte Participação e Esporte de Rendimento (alto- rendimento ou profissional). Nota-se de imediato o quão recente é a idéia do esporte na dimensão educacional. Significa dizer, em outras palavras, que a idéia concebida do esporte educacional permanece impregnada com a visão do esporte de rendimento. "Estabeleceu-se uma relação de mútuo condicionamento: ao componente curricular educação física é colocada à tarefa de funcionar como o alicerce do esporte de rendimento." (BRACHT & ALMEIDA, 2003, p. 91)

Como se não bastasse a herança histórica, Bracht (1997) realça o quanto o Estado contribui para a permanência de um modelo institucionalizado de rendimento esportivo na educação física, apoiado pelo sistema esportivo internacional, uma vez que a obtenção de resultados esportivos expressivos em plano internacional é uma forma de transferência de capital simbólico para capital político. Nessas condições, o sistema esportivo (federações, confederações e Comitê Olímpico, entre outras instituições) historicamente tornou-se fiel parceiro dos governos federais.

Para Bourdieu (1983, p.146), a cúmplice relação entre Estado e o sistema esportivo internacional ocorre de maneira "cada vez mais dissimulada à medida que o reconhecimento e a ajuda por parte do Estado aumentam juntamente com a aparente neutralidade das organizações esportivas e dos responsáveis por estas organizações".

No Brasil, por exemplo, tivemos a promulgação da Lei nº 11.345/2006, que dispõe sobre a "Timemania", nova modalidade de concurso público. Segundo o artigo 4º desta lei, a Timemania foi especialmente criada para que os clubes profissionais de futebol quitassem seus débitos com o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). O inciso II do artigo 2º estabelece o repasse na ordem de 22% de remuneração dos concursos para as entidades desportivas (exclusivamente de futebol) que cederem os direitos de uso de suas denominações, marcas, emblemas, hinos e símbolos.

14 Editado pelo Conseil Internationale d´Education Physique et Sport (Cieps) da Unesco, o Manifesto

Em vigor desde 2001, a Lei nº 11.264 oferece anualmente ao Comitê Olímpico Brasileiro a renda líquida total de um dos testes da Loteria Esportiva Federal. Mais recentemente ainda, o governo Lula promulgou a Lei nº 11.438, de 29 de dezembro de 2006 (Lei de Incentivo Fiscal ao Esporte), que permite o abatimento de 4% do imposto devido para pessoa jurídica e 6% do imposto devido na declaração de ajuste anual para pessoa física.

Por concentrar um conjunto de recursos materiais e simbólicos, o Estado tem a capacidade de regular o funcionamento dos diferentes campos, inclusive o esportivo, seja por meio de intervenções jurídicas que regulamentam o comportamento dos agentes, seja através de intervenções financeiras. (BOURDIEU, 1996)

O esporte no Brasil, institucionalizado pelo Decreto-Lei 3.199 de 1941, em pleno Estado Novo, sob a perspectiva do controle social e modernizado parcialmente em 1975 pela Lei nº 6.251 e em 1977 pelo decreto nº 80.228, mas sem romper de forma efetiva a tutela estatal, sempre foi concebido através de um Sistema Desportivo Nacional, reconhecido por estes instrumentos legais, delimitando-o na expectativa das competições denominadas federadas. (TUBINO, 1988, p. 24)

Prova cabal de quanto o modelo de rendimento esportivo continua a ser aplicado nas escolas com apoio do Estado foi a aprovação, após o "fracasso brasileiro" nas Olimpíadas de Sidney em 2000, do Programa Esporte na Escola.

Em que pese o argumento do governo seja de que o esporte, como instrumento educacional, está diretamente relacionado com as finalidades gerais da educação, é possível notar a contradição nas declarações do secretário nacional dos Esportes, Lars Grael, um dos idealizadores do programa.

Teremos condições de detectar talentos e encaminhar esses jovens para a estrutura esportiva formal. A estrutura do esporte é piramidal. Precisa ter a ligação entre a base da pirâmide e o meio [...] para – mais tarde, quem sabe – esses jovens se projetarem em nível internacional atingindo o topo da pirâmide. (ESPORTE na escola, 2002, p. 21)

Esta é a forma como a Educação Física escolar perde seu verdadeiro valor educativo. A intromissão de inescrupulosos especialistas, treinadores e até mesmo parte dos professores da disciplina, que alteram os objetivos educativos em detrimento da promoção do desempenho esportivo, para enfim buscar resultados esportivos a qualquer preço. (OTAÑES, 2000)

Antes de qualquer coisa, introduzir a iniciação esportiva de competição nos programas escolares não é aceitar para a escola a missão expressa de produzir atletas capazes de assegurar o prestigio esportivo do país. Esse pode ser um efeito secundário, que não deve ser recusado, mas não pode constituir o objetivo principal, que continua ser a extensão a todos de uma gama tão ampla quanto possível de atividades formativas. (BETTI, 1998, p. 26)

Embora concordemos com Betti (1998), e entendendo que o esporte na escola deva ser proposto em sentido amplo, ou seja, oferecendo além das formas competitivas um leque de opções de atividades físicas de lazer, com valor higiênico, educativo e cultural, é certo afirmar que, enquanto esse desafio de mudança não for suplantado pelos educadores, o contato dos alunos com o esporte no ambiente escolar continuará permeado pelas nuances e prerrogativas do esporte de rendimento, regido pelos mesmos princípios do esporte espetáculo, o mesmo esporte ferozmente consumido e alvo de discussões entre estudantes jovens.

Assim, na perspectiva do esporte espetáculo, e analisando sua interação com a sociedade, abordando aspectos como os meios de comunicação e a mercantilização do esporte, é possível apontar para determinado segmento social — crianças e adolescentes — e para uma agência de fomento esportivo — a ESCOLA através da educação física —, preocupando-se com a lógica do esporte-espetáculo: o consumo de bens e entretenimento, conduzidos por conceitos de marketing e administração do esporte que vêem nas crianças e adolescentes "potenciais consumidores" e a educação física escolar que hoje, na maioria das vezes, funciona como reprodutora desses aspectos, sem desenvolver uma análise critica sobre esse fenômeno. (MONTAGNER & RODRIGUES, s/d)

Antes de mergulhar definitivamente nas hipóteses da pesquisa, finalizamos este tópico, reiterando que o contato direto do jovem com o esporte ocorre predominantemente através da mídia e da escola. Implica dizer que não estamos limitando as possibilidades da interação jovem-esporte em outros espaços de convívio social (clube, academia, família, estádios) — isso, aliás, é apontado no decorrer do estudo, quando tratamos do futebol como elemento da cultura brasileira. Entretanto, é preciso ressaltar que o motivo de limitar a análise reside no fato de que a pesquisa de campo é dirigida para grupos de amostra constituída por jovens estudantes que convivem num espaço social comum: A ESCOLA.

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