Muitas vezes em pesquisas, as afirmações, conclusões e indagações nas falas dos sujeitos parecem evidentes. Assim como, pode ser evidente também, a forma como uma auto-representação busca descrever momentos da relação dialógica inserida no processo ensino e/ou aprendizagem de Cálculo 1.
Segundo Larrosa (1994) as evidências são o que todo mundo vê, o que é indubitável para o olhar, ou, o que tem que aceitar-se apenas pela autoridade de seu próprio aparecer. Assim, uma coisa é evidente quando se impõe ao olhar com tal claridade que toda forma de dúvida é impossível. “És o que não vês?! Sim, aí está, olha, é assim, aí o tens, é evidente! Só um louco ou um cego não o veria!” (LARROSA, 1994, p. 83).
Grande é, sem dúvida, o poder das evidências. Larrosa (1994) destaca que Foucault se empenhou em mostrar a contingência das evidências e a complexidade de sua fabricação. Nesse sentido, o que todo mundo vê nem sempre se viu assim. O que se vê, pode também não ser o que parece.
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Se o que é evidente, é o resultado de certa disposição do espaço, de uma particular exposição das coisas e de uma determinada constituição do lugar do olhar, então, quanto não se parece evidente uma suposição ou uma afirmação; mas, cabe questionar a veracidade dessa suposição ou afirmação, pois as subjetividades também constituem uma lente.
Dessa forma, precisa-se admitir a composição do olhar para a pesquisa que se pretende desenvolver, a perspectiva, ou seja, a forma de constituir esse lugar do olhar. E assim, admite-se inclusive naquilo que parece evidente, que se é muito menos livre do que se pensa.
Contudo, Larrosa (1994) identifica que o olhar está constituído por todos esses aparatos que fazem ver e ver de uma determinada maneira. Mas o que se propõe um autor que pretende romper as evidências?
Talvez nos ensinar que nosso olhar é também mais livre do que pensamos. E isso porque o que o determina não é tão necessário nem tão universal quanto acreditamos. O que determina o olhar tem uma origem, depende de certas condições históricas e práticas de possibilidade e, portanto, como todo o contingente, está submetido à mudança e à possibilidade da transformação. Talvez o poder das evidências não seja tão absoluto, talvez seja possível ver de outro modo (LARROSA, 1994, p. 84).
Os lugares comuns do discurso são os que todos dizem, ou os que todos sabem.
Algo é um estereótipo quando convoca mecanicamente o assentimento, quando é imediatamente compreendido quando quase não há nem o que dizer (LARROSA, 1994, p. 84).
Nesse sentido, o que mostra que os homens são menos livres do que pensam, segundo Larrosa (1994), são os procedimentos que fabricam os estereótipos do discurso humano, os preconceitos da moral e os hábitos dos modos de se conduzirem, quando falam, julgam ou fazem coisas. E que mostram também, sua contingência e a possibilidade de falar de outro modo, de julgar de outro modo, de conduzir-se de outra maneira.
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Todas as operações de fabricação e captura do duplo21, de constituição e mediação da experiência de si, indicam o poder das evidências, os estereótipos, os preconceitos e os hábitos em si mesmos. Mas assinalam também sua finitude e contingência. Sua análise não promete um duplo mais autêntico ou mais real ou mais próximo ao que de verdade se é. Não promete uma identidade "verdadeira" à qual, sim, poderiam se sujeitar.
2.3 “A experiência é isso que me passa”
Larrosa (2011, p. 2) pronuncia: “a experiência é isso que me passa”. Que fique claro, não se confunda com experimento. Em “Experiência e Alteridade em Educação”, de forma densa, Jorge Larrosa expõe um resgate ou o que se pode chamar de ressignificação da experiência. Menciona o uso e abuso da palavra experiência em Educação, que é quase sempre empregada de forma banalizada, sem a consciência de suas possibilidades teóricas, críticas e práticas. E com relação ao “isso” da frase pronunciada apresenta o princípio da alteridade da experiência:
A experiência é “isso que me passa”. Vamos primeiro com esse isso. A experiência supõe, em primeiro lugar, um acontecimento ou, dito de outro modo, o passar de algo que não sou eu. E “algo que não sou eu” significa também algo que não depende de mim, que não é uma projeção de mim mesmo, que não é resultado de minhas palavras, nem de minhas ideias, nem de minhas representações, nem de meus sentimentos, nem de meus projetos, nem de minhas intenções, que não depende nem do meu saber, nem de meu poder, nem de minha vontade. “Que não sou eu” significa que é “outra coisa que eu”, outra coisa do que aquilo que eu digo, do que aquilo que eu sei, do que aquilo que eu sinto, do que aquilo que eu penso, do que eu antecipo, do que eu posso, do que eu quero (LARROSA, 2011, p. 5 – grifo do autor).
O que pode ser também reconhecido como princípio da exterioridade ou da alienação, significando que não há experiência sem a presença do outro, ou de um algo, ou de um isso, de um acontecimento definitivo ou exterior ao Eu, estrangeiro ao Eu, estranho ao Eu, ou seja, aquilo que está fora do sujeito.
21 Entre o sujeito e seu duplo que se tornou visível como imagem no espelho, entre o sujeito e aquilo de si
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Na experiência, a exterioridade, a alteridade, ou a alienação não devem ser apropriadas, mas devem manter-se como são. A experiência não reduz o acontecimento, mas o sustenta como irredutível.
Nessa direção, sua justificativa para o “me”, da mesma frase, leva ao princípio da “Reflexividade, Subjetividade, Transformação”. A experiência supõe que algo que não é o Eu, ou seja, um acontecimento exterior ao Eu, que ao passar, não se coloque apenas diante do Eu, mas o atravesse.
A experiência supõe, como já afirmei, um acontecimento exterior a mim. Mas o lugar da experiência sou eu. É em mim (ou em minhas palavras, ou em minhas ideias, ou em minhas representações, ou em meus sentimentos, ou em meus projetos, ou em minhas intenções, ou em meu saber, ou em meu poder, ou em minha vontade) onde se dá a experiência, onde a experiência tem lugar (LARROSA, 2011, p. 6).
A experiência se dá por vontade do próprio Eu. Isso porque esse sujeito sensível, vulnerável e ex/posto, é um sujeito aberto a sua própria transformação, ou seja, à transformação de suas palavras, de suas ideias, de seus sentimentos, de suas representações. É, portanto, o Eu, o lugar da experiência. Assim, Larrosa define o “princípio de subjetividade”, ou “princípio de reflexividade” ou da “transformação”.
E com relação ao “passar”, define que a experiência é um passo, uma passagem, um percurso. Se a palavra experiência tem o ex de exterior, tem também esse per, com significado de travessia, passagem, caminho, viagem. Assim, a experiência supõe uma saída de si para outra coisa, como se fosse uma passagem para o isso de “isso que me passa”. Assim, Larrosa (2011) define o princípio da passagem, mas dá também outro sentido a esse território de insegurança, de perigo e de incerteza.
Se a experiência é “isso que me passa”, o sujeito da experiência é como um território de passagem, como uma superfície de sensibilidade em que algo passa e que “isso que me passa”, ao passar por mim ou em mim, deixa um vestígio, uma marca, um rastro, uma ferida (LARROSA, 2011, p. 5 – grifo do autor).
Daí que o sujeito da experiência não seja, em princípio, um sujeito ativo, um agente de sua própria experiência, mas um sujeito paciente, passional, contudo, não pode ser
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confundido com passivo, pois não fica indiferente à passagem. Ou, dito de outra maneira, a experiência não se faz, mas se padece. A este segundo sentido do passar de “isso que me passa” chama de “princípio de paixão”.
E, dessa forma, apresenta as várias dimensões da experiência. Exterioridade, Alteridade e Alienação, relativo ao acontecimento, com o que é da experiência, com o isso do “isso que me passa”; Reflexividade, Subjetividade e Transformação, referindo-se ao sujeito da experiência, com o quem da experiência, com o me de “isso que me passa”; e Passagem e Paixão, determinando o movimento da experiência, o passar do “isso que me passa”.
Larrosa (2011) argumenta ainda, que a palavra experiência está contaminada de empirismo, portanto, se confunde com experimento; e completa que está também contaminada pelo pragmatismo, portanto, se confunde com a prática. É preciso apartar esses sentidos que contaminam à experiência.
A experiência não é a prática, embora se admita que a prática possa dar lugar à experiência. E, assim, apresenta mais quatro palavras a fim de dar sentido à experiência, definidas como: Singularidade, Irrepetibilidade, Pluralidade e Liberdade.
A experiência é sempre singular, o que quer dizer que, para cada sujeito, a experiência é única. A experiência se abre ao real como singular, isto é, como acontecimento, e acontecimento precisamente singular, e desse modo, é inidentificável, irrepresentável, incompreensível, incompatível, irrepetível. A experiência também singulariza o acontecimento. A possibilidade da experiência supõe a suspensão de uma série de vontades: a vontade de identificar, a vontade de representar, a vontade de compreender. A possibilidade da experiência supõe, em suma, que o real se mantenha em sua alteridade constitutiva.
O sujeito da experiência, esse sujeito que temos caracterizado já como aberto, vulnerável, sensível e ex/posto, é também um sujeito singular que se abre à experiência desde sua própria singularidade. Não é nunca um sujeito genérico, ou um sujeito posicional. [...] A possibilidade da experiência supõe, então, a suspensão de qualquer posição genérica desde a que se fala, desde a que se pensa, desde a que se sente, desde a que se vive. A possibilidade da experiência supõe que o sujeito da experiência se mantenha, também ele, em sua própria alteridade constitutiva (LARROSA, 2011, p. 15).
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A experiência supõe o princípio da Irrepetibilidade. Se um experimento tem que ser repetido e sempre igual, ao contrário a experiência é irrepetível. E cita Levinas sobre a experiência de se ter um filho, pois embora se possam ter vários filhos, a experiência de cada filho é sempre única e irrepetível.
Levinas (1997) diz que todo filho é (como a experiência), de alguma maneira, o primeiro filho, que todo filho é filho único. Porque a experiência da paternidade ou da maternidade é, em cada caso, distinta. Quando alguém tem três filhos, ele não faz três vezes a mesma experiência (LARROSA, 2011, p. 13).
Argumenta que experiência sempre tem algo de surpreendente, como a leitura de um poema, sempre tem algo de novo. Pensa-se que seja como ouvir uma música orquestrada, em que cada um é capaz de construir imagens distintas enquanto é envolvido pela sonoridade.
Para Larrosa (2011), muitas coisas que se aprende na experiência são coisas que anteriormente já eram conhecidas, mas das quais não se davam conta. A experiência é esse “dar-se conta”, como ocorre em uma descoberta.
A experiência também é plural, mesmo sendo singular. É uma soma de singularidades, é a pluralidade. Uma comunidade de experiência (Larrosa, 2011) é uma comunidade plural, ou seja, é aquela comunidade que não se define pelo que os indivíduos têm em comum, pois a única coisa que compartilham é o espaço onde desfecham suas experiências que são únicas, singulares.
E a experiência supõe a liberdade. Mas não a liberdade dependente, e sim o estar livre. O sujeito da experiência é livre, pois se a experiência ocorre, ela é livre. Nesse sentido, o sujeito da experiência não depende da tutela de outrem. Sentir-se livre é não ter certeza do resultado de um acontecimento.
E talvez por isso, tenta-se muitas vezes proteger os sujeitos da experiência, pois consideram que os protegem de perigos e incertezas, ou seja, do que não há como prever. A experiência supõe um risco, uma aventura, uma passagem para a incerteza.
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