No capítulo anterior foi proposto uma investigação crítica sobre o conceito do reino de Deus na Teologia Sistemática. Cabe nesta parte identificar as características e analisar os elementos do reino na condição de um símbolo.
A Teologia Sistemática é composta, de maneira principal, pelas partes: O Ser e Deus; A existência e o Cristo; A vida e o Espírito; que juntas constroem respostas às per- guntas da existência humana. A razão e a revelação somam as três partes retiradas de cada sistema para formar uma parte epistemológica que introduz a obra. Enquanto o reino de Deus está numa dimensão separada das três partes estruturais, com a função “escatológica como porta de saída do outro lado, numa relação que lembra um arco estendido por sobre a parte temática central”.109 Essa é a maneira como a obra se organiza e situa o reino de
Deus na sua estrutura.
Em todas as partes da obra o método principal utilizado pelo o autor foi o da corre- lação. Sua teologia a partir da correlação faz uma relação do objeto pesquisado (cognição) e o seu fundamento (existencial e transcendente) em três sentidos: correspondência entre o símbolo e o simbolizado que diz respeito ao conhecimento religioso; a interdependência lógica entre os conceitos que denotam o humano e o divino, o segundo sentido é a relação que constroe as afirmações sobre Deus e o mundo; e por último, a correlação entre o fato
107 Idem, p.23.
108 LAUAND, Jean; JOSGRILBERG, Rui de Souza. Estudos em Antropologia e Linguagem. São Paulo: Fac-
tash Editora, São Paulo, 2014, p.20.
109 BEIMS, Robert e MUELLER, Enio. Fronteiras e Interfaces: o pensamento de Paul Tillich em perspectiva
e a preocupação última do ser humano, cujo resultado é a qualificação entre a relação do divino e o humano pela experiência.
A forma como o ser humano percebe a manifestação de Deus é uma forma humana que muda, conforme muda a história da revelação que se relaciona com a existência humana. Essa interpretação histórica da revelação corresponde a totalidade do ser humano, tocando- o de forma existencial, de maneira que o conteúdo revelado implica em todas as dimensões da vida. A relação do humano com o divino desperta a angústia causada pela percepção da sua finitude. A experiência com o divino desperta a consciência de que estamos existencial- mente limitados a uma finitude, o que leva ao questionamento do sentido da própria existên- cia. Essa relação envolve perguntas humanas e respostas divinas de forma circular que não podem ser separadas. Sendo que a pergunta a ser feita está contida na própria existência, cuja resposta é alcançada no instante do encontro do humano e divino, não é situado em um momento temporal.
O símbolo reino de Deus é a resposta às ambiguidades110 implícitas na história do
ser humano: “só as (pessoas) que experimentaram as ambiguidades trágicas de nossa exis- tência histórica e questionaram totalmente o sentido da existência, podem compreender o que significa reino de Deus”.111 Essa compreensão pela experiência acontece justamente
porque este símbolo faz uma interpretação teológica da história sem perder de vista, as particularidades do sujeito que ao mesmo tempo que é pertencente a um grupo, também, possui especificidades que o torna um ser humano único em toda a história. Uma amostra dessa abrangência histórica e existencial cujo resultado possibilita a esperança não é muito difícil de ser encontrada em nossa realidade. Pode ser a situação de uma comunidade que vive em estado de pobreza ou uma mãe de classe média que perdeu o filho precocemente vítima da violência urbana, por exemplo. Em ambos os casos, o símbolo do reino de Deus é a esperança de transformação de estruturas políticas e sociais que geram pobreza e vio- lência, como também, a antecipação e um consolo de que a vida envolvida completamente neste símbolo, não será diminuída e nem retirada subitamente de uma forma sem sentido.
110 O termo ambiguidade que será tratado de maneira mais detalhada posteriormente, desde já se refere de
maneira mais específica as qualidades do não-ser do ser humano e suas negatividades. De modo que a intenção jamais é a de superar tal ambiguidade vital para a dinâmica dos processos da vida, e sim, apresentar o símbolo do Reino de Deus como sentido e resposta às condições inerentes da finitude que geram a an- gústia pertencente a existência.
A razão da ambiguidade em todas as dimensões da vida é que ela “sempre inclui elementos essenciais e existenciais”.112 A consciência do desejo de uma vida emancipada
dessa condição é inerente ao ser humano na sua experiência de transcendência da vida. Na religião que auto transcende a vida, pode-se encontrar a resposta não ambígua para as per- guntas ambíguas da condição humana. A temporalidade e finitude dessa condição encontra sentido no kairós e na eternidade pertencentes a dimensão plena do reino. A “ambiguidade significa incerteza, equivocidade, indefinição; (...) (ela é) suscetível a extensões de sen- tido”.113 Essa característica de poder receber sentido ou até mesmo ser ressignificada é o
que torna uma pergunta a ser respondida pelo símbolo do reino de Deus.
Segundo Tillich, “o simbolismo religioso produziu três símbolos principais para expressar a vida sem ambiguidade: Espírito de Deus, Reino de Deus e Vida Eterna”.114
Interessa-nos mais diretamente, nessa pesquisa, o símbolo do reino de Deus, embora ele se relacione com os outros dois símbolos, pois os três são respostas simbólicas, reveladas para a pergunta da vida emancipada de ambiguidades referentes à existência humana.
O reino de Deus é a resposta às ambiguidades da existência histórica do ser humano, mas devido à unidade multidimensional da vida, o símbolo inclui a resposta à dimensão da história efetiva, por um lado, nos eventos históricos que estudam suas raízes no passado e determinam o presente e, por outro lado, na tensão histórica que é experienciada no presente, mas se move irreversivelmente para o futuro.115
Por isso, trata-se de uma emancipação e não de uma realização de uma vida sem ambiguidades, além disso, é um encaminhamento para a realização última da história. Essa realização é somente experimentada pelos grupos históricos que buscam evidências de ele- mentos imanentes e transcendentes e apontam para um resultado definitivo, uma conclusão dessa história. O fim da história é compreendido a partir do sentido para o qual ela aponta na relação entre o temporal e o eterno. Esse fim diz respeito à passagem do temporal para a eternidade, uma ideia real de que o eterno se encontra presente no agora, no momento do juízo último que expõe e retém o negativo de toda a existência, limitando-o somente as expressões do não-ser.
112 Idem, p. 563.
113 CRUZ, Eduardo Rodrigues. A dupla face: Paul Tillich e a ciência moderna. São Paulo: Loyola, 2008, p.70. 114 TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005, p. 564.
O símbolo reino de Deus além da possibilidade de uma vida emancipada de am- biguidade, é também resposta a essa busca. É pela dinâmica da história que ocorre esse encaminhamento em direção a plenitude e o fim da história, em que o sujeito encontra o sentido máximo de sua existência.
II.2.1 As qualidades de imanência e transcendência
Embora os símbolos religiosos possuam basicamente as mesmas características fundamentais do símbolo em geral, é na transmissão de uma mensagem específica e carre- gada de sentido para a pessoa que a identifica, que eles apresentam suas peculiaridades, aqui começa a manifestação do se sentido religioso. A correspondência entre a revelação e a situação existencial do ser humano preenche o conteúdo da mensagem dos símbolos religiosos. A questão da atualização da situação ocupa uma posição central, pois, se ela muda, é possível que os símbolos anteriores não possuam mais relevância, o que abre a necessidade da revelação por meio de novos símbolos. Por isso, o símbolo religioso precisa ser adequado e verdadeiro com o conteúdo que ele revela.
O símbolo reino de Deus recebeu um lugar especial na teologia de Tillich porque possui uma dupla qualidade de se manifestar na Presença Espiritual por meio de uma forma intra-histórica, como também na Vida Eterna na forma trans-histórica, o que abrange a totalidade da história humana. O símbolo em destaque se torna mais importante por conter em si expressões dos outros dois; além disso, possui um caráter “mais crítico tanto do absolutismo político quanto eclesiástico”.116 E é por essa qualidade altamente crí-
tica que o símbolo reino de Deus pode ser negligenciado pela Igreja ou desgastado por movimentos políticos e sociais, que utilizam sua presença de forma equivocada ou, de forma a se enfatizar apenas um de seus dois aspectos imanente e transcendente. Como parece que foi o caso no século anterior, respectivamente com o crescimento dos movi- mentos pentecostais e o surgimento do Socialismo Religioso, ao projetar o seu alcance desse Reino para além da vida humana, ou, a sua construção por meio de um sistema po- lítico.
O símbolo tratado de forma principal aqui possui uma conotação política, social e personalista universal. A primeira manifesta o espaço em que a dinâmica da história se apresenta em sua maior parte. Tillich destaca que já no AT há uma presença latente do desse símbolo principalmente no que diz respeito ao poder exercido pelo governo dos rei- nos estabelecidos. O que traz uma ênfase no aspecto político na figura de Israel e no seu destino descritos nos relatos proféticos. As vitórias nas guerras eram atribuídas a vitória de Deus, o problema consistia quando Israel confundia o caráter divino com a força do seu exército.
Já no NT a sua presença é central no desenvolvimento do cristianismo e está sempre relacionado ao Novo Ser e na transformação da criação. Enquanto na literatura apocalíp- tica, “o símbolo político se transforma em um símbolo cósmico, sem perder sua conotação política”.117 Como se uma elevação de todo poder político fosse remetida a Deus. Neste
gênero de linguagem a visão transcendente universal é sensivelmente privilegiada em re- lação a imanência dos poderes das estruturas políticas. No entanto, seja de uma forma ou de outra, a imanência e a transcendência, ainda que de forma desequilibradas, estão pre- sentes.
Por fim, no âmbito social o mesmo símbolo inclui a paz e justiça de maneira não idealizada, pois reconhece que não é possível alcançá-la plenamente neste mundo, porém a busca por elementos e processos que se identifiquem com estes valores, são caminhos fundamentais que coincidem com a manifestação de tal símbolo. Já no aspecto personalista ele “confere sentido interno a pessoa individual”.118 O ser é reconhecido no desfecho da
história ao mesmo tempo em que sua particularidade é conservada. Contempla-se tanto a qualidade pessoal, quanto sua representação para a história, pois esse processo ocorre no caráter universal da vida.
A ênfase exagerada em dos dois aspectos principais do símbolo reino de Deus pode conduzir ao risco da idolatria ou do absolutismo das estruturas de poder:
O combate a posturas idolátricas ou aos riscos de elas surgirem ou se fortalecerem necessita de, pelo menos, três posturas críticas: aos idealis-
117 Idem, p.791. 118 Idem, p.791.
mos e às práticas impositivas, às formas político-pastorais que não arti- culam as dimensões de concretude e transcendência, e à exclusão social e às abslutizações históricas.119
Essas posturas críticas passam sempre pela observação das perspectivas imanentes e transcendentes ao mesmo tempo, para que não se corra o risco de diminuir ou idealizar a sua presença. Caso haja uma prevalência desiquilibrada de um aspecto sobre o outro, ocorrerá uma distorção do símbolo e ele apontará a sua realidade de maneira desviada, transferindo para um mundo além nossas situações pertencentes a nossa realidade. E no outro extremo da imanência as expectativas presentes, ele irá se propor a resolver com as suas próprias forças e ferramentas, alvos que não podem ser alcançados, o que nos traz o risco do absolutismo de poderes e as idolatrias.