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Não obstante o desenvolvimento territorial não ser sinônimo de crescimento econômico, este é importante para que àquele seja buscado e alcançado. Não é possível desencadear investimentos em infraestruturas e em serviços básicos ao bem-estar coletivo se não houver geração de riquezas econômicas. A questão central é como ocorre essa geração e a quem ela beneficia.

Logicamente que a instalação em uma pequena cidade do interior do Nordeste dos interesses de uma grande empresa impacta fortemente na dinâmica desse território. Outrossim, é claro que essa instalação representa geração de trabalho e renda para muitos trabalhadores outrora não empregados ou, mesmo, não ocupados, sendo muito importante para a renda mensal de muitas famílias, como também que o objetivo maior da grande empresa e dos seus parceiros é o lucro – fato considerado normal no contexto do capitalismo. Assim, acreditamos que não há como negar a importância social da existência de unidades produtivas de vestimentas em uma cidade como São José do Seridó, nem mesmo a legitimidade paradigmática do escopo empresarial.

Destarte, a instalação de uma etapa de circuito espacial produtivo em uma cidade pequena em termos demográficos e funcionais, certamente, é fator impulsionador do PIB municipal, além de aspecto dinamizador do comercio local, pela renda gerada para os trabalhadores ocupados ou empregados. Todavia, essa instalação não necessita ser limitada

ao crescimento econômico. Ela pode fazer parte de um processo de desenvolvimento territorial.

Os agentes hegemônicos de circuitos produtivos, sem que haja a regulação estatal em favor do bem-estar coletivo, utilizam o território como recurso, ou seja, exigem vantagens locais para instalarem os seus negócios na escala do lugar e, efetivada a instalação, normatizam as atividades vinculadas de modo a produzirem o maior número de mercadorias no menor tempo possível. Desse modo, tem-se uma situação de alienação do território por interesses empresariais, sendo a dinâmica do lugar subordinada à interesses hegemônicos e exógenos e os trabalhos gerados de má qualidade.

Subordinar a dinâmica territorial à política de empresas é algo bastante perigoso, do ponto de vista da soberania territorial e da qualidade de vida e de trabalho da população local. Sob a perspectiva territorial, a grande empresa comandante do circuito produtivo existente no local pode exigir do poder público terrenos para a sua atividade, passando, com isso, a dominar parcelas consideráveis do território municipal. Além disso, a depender da relação estabelecida entre agentes da política municipal e a grande empresa, esta pode interferir de modo determinante nessa política, podendo fazer do poder público local uma extensão dos seus próprios interesses.

Nessa situação, a presença da grande empresa no território é tornada imprescindível e a própria população passa a se submeter a situações de vida e de labor precárias no sentido de defender essa presença, a quaisquer custos. O receio que a grande empresa opte em instalar o seu circuito produtivo em outro território – que ofereça maiores vantagens – é tamanho, que trabalhadores ficam satisfeitos em trabalharem incessantemente por, no mínimo, oito horas diárias, oferecendo, inclusive, a sua força de trabalho em horários extras, que podem ser aos sábados, por exemplo. Por isso, recebem um salário mínimo mensal e, caso desempenhem horas extras, valores determinados pela Legislação Trabalhista do Brasil. Desse modo, vivem uma situação legal, do ponto de vista trabalhista, e digna, do ponto de vista do labor, porém, precária, do ponto de vista social, pois, são pessoas com escasso tempo para o descanso, para o lazer, para a cultura e para a construção de saberes não meramente técnicos.

Vivendo assim, os trabalhadores muito dificilmente conseguiram evoluir da situação precária de vida e de trabalho em que se encontram. Desesperançosos em um futuro melhor do que o presente e crentes em um destino de pobreza, laboram a vida inteira

objetivando as suas vidas no consumo básico de alimentos, de vestimentas e de serviços e equipamentos necessários para manterem as suas residências da melhor maneira possível.

Esta é uma situação na qual a política de empresas se confunde com a política municipal e o território é considerado quase que exclusivamente como recurso a ser explorado. Todavia, essa situação pode ser diferente: o território pode ser conforme interesses endógenos, com a regulação pelo Estado da política das empresas. Do mesmo modo, as riquezas geradas por circuitos produtivos podem significar melhoria da qualidade de vida da sociedade local.

Para que essa situação diferente passe da reflexão à prática é imprescindível que o poder público atue na direção dos interesses do seu território. É necessário regular os interesses empresariais, ofertando vantagens locacionais na medida em que os empresários ofertem também vantagens socioeconômicas substanciais para a sociedade local. É importante que os empregos gerados considerem as outras instâncias da vida além da do trabalho, como a da educação, da saúde, do lazer e a da cultura. Os trabalhadores devem ter a possibilidade de viverem dignamente e não apenas de trabalharem incessantemente. Do mesmo modo, a elevação do PIB municipal, decorrente do desenvolvimento do circuito produtivo, deve rebater na melhoria da infraestrutura do território, bem como na maior qualidade de serviços sociais básicos utilizados coletivamente, como a educação e a saúde públicas.

Portanto, caso o Estado represente, de fato, a coletividade, planejamento e ordenamento o território conforme os interesses da sociedade local, pode-se vislumbrar efetivamente processos de desenvolvimento territorial. Dessa maneira, a instalação de circuitos espaciais produtivos pode contribuir com esses processos, pela geração de riquezas regulada socialmente pelo poder público. Ao contrário, continuaremos com a sobreposição da política pública pela política empresarial, com circuitos espaciais produtivos gerando tão somente progresso econômico, muitas vezes, sem nenhuma conexão com a realidade do lugar onde estão instalados.

Com esse embasamento teórico, nos próximos capítulos do trabalho, passamos a analisar a produção de vestimentas em São José do Seridó, com atenções para as unidades produtivas terceirizadas pela Guararapes e pela Hering.

3 DINÂMICA ECONÔMICA E TRANSFORMAÇÕES ESPACIAIS NO

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