A despeito do fortalecimento do Fórum de Entidades Negras de Sergipe, outras organizações negras e não-negras se inseriram num contexto de debates e ações que perpassavam o campo dos movimentos negros sergipanos. Este aspecto implicou em percebê-las “fora” do campo hegemônico do FENS. Estas entidades são, sobretudo, a Casa de Cultura Afro-Sergipana, reconhecida como a primeira entidade negra sergipana; o Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), que foi criado a partir das chamadas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica; o Centro Sergipano de Educação Popular (CESEP); e alguns grupos afro culturais.
Estou definindo como entidades não-negras aquelas que, antes de serem ou não reconhecidas como entidades negras pelos movimentos negros, não se auto- identificam como tais. Além disso, um outro critério está relacionado às ações que desenvolvem, as quais não se desdobram em status de entidades negras. Essas entidades não-negras também não têm projetos político-ideológicos voltados para a construção de identidade afirmativa da população negra sergipana, embora suas ações incidam sobre os projetos de transformação sócio-racial desenvolvidos pelos movimentos negros. E é nesse aspecto que a sua presença nesse trabalho ganha sentido.
No meio das entidades negras autolegitimadas no campo da militância sergipana, a definição de entidades não-negras é aquela cujo objetivo de sua atuação não seja o desenvolvimento de ações afirmativas voltadas para a população negra ou as relações raciais. Em Sergipe, a legitimação de uma entidade negra é gerada dentro do campo da militância negra, embora existam, entre aquelas legitimadas, as suas próprias definições sobre as suas ações. Isso implica em dizer que a legitimação no campo foi, muitas vezes, conquistada no contexto de tensões sobre as suas definições de movimento negro. Na medida em que a organização destas entidades independe das vontades de outras entidades negras, as razões para se legitimarem no campo da militância negra estão ligadas
ao interesse político-ideológico dos seus integrantes, ou aos objetivos pensados no momento de sua criação.
A Casa de Cultura Afro-Sergipana atua como entidade política, realizando cursos de educação em relações raciais em escolas públicas, produzindo estudos e documentários sobre a cultura negra e as desigualdades sócio-raciais em Sergipe. O histórico de sua atuação está descrito no segundo capítulo. O Centro de Educação Popular (CESEP) desenvolve projetos de formação para entidades dos movimentos sociais sergipanos. Entretanto, junto com a SACI e o CDJBC, esta entidade já desenvolveu atividades ligadas à população negra sergipana.
O CDJBC é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, criada no início da década de 1990 em Sergipe. As primeiras ações desta entidade junto às comunidades indígenas e rurais negras de Sergipe foram desenvolvidas a partir das comunidades eclesiais de base, nas quais estavam inseridas algumas das pessoas que dirigem esta entidade. A principal ação do CDJBC está ligada à questão negra rural, especialmente no que tange às chamadas “comunidades remanescentes de quilombos”. A criação do CDJBC surge no contexto de conflito agrário entre a comunidade Mocambo e alguns fazendeiros no município de Porto da Folha. A relação entre esta Ong e a comunidade Mocambo no momento em que o governo federal “reconhecia” as terras remanescentes de quilombos resultou na visibilidade das suas ações junto às populações negras sergipanas. Outras organizações e militantes negros que mantiveram relações anteriores com a comunidade Mocambo não conseguiram o mesmo status que o Centro Dom Brandão, o qual se inseriu no contexto das Organizações Não-Governamentais que emergiram como um surto no Brasil.
Nesse contexto, na medida em que o Centro Dom José Brandão de Castro reivindicou a legitimação do Fórum Estadual de Entidades Negras (FENS) para participar de suas reuniões e atividades, e este se opôs às suas reivindicações, o CDJBC não teve mecanismos políticos para tensionar o campo em seu favor. Conforme depoimentos de alguns integrantes do CDJBC, as posturas “sectárias” das entidades que integravam o FENS se sustentavam na versão de que aquela entidade não tinha objetivo concreto acerca das transformações sócio-raciais na
sociedade sergipana. Para as entidades do FENS, o CDJBC se inseriu nesse contexto devido ao seu interesse profissional numa situação em que poucos militantes tinham compreensão de sua dimensão. Por outro lado, esses/as integrantes do CDJBC admitiam que não tinham pretensões de desenvolver uma atuação militante, posto que não era este o papel social que sua entidade se propunha desenvolver. Além disso, o CDJBC sabia que não precisava do Fórum de Entidades Negras para desenvolver suas ações junto às comunidades rurais negras sergipanas, pois o reconhecimento daquelas comunidades rurais e das agências que financiavam os seus projetos legitimava a sua atuação e as escolhas do seu quadro de técnicos e funcionários.
Do ponto de vista das entidades que integravam o FENS, mesmo que uma entidade tivesse em seu quadro indivíduos negros, a legitimação como entidade negra é conseguida tanto a partir dos seus objetivos institucionais quanto no que se refere à sua atuação política na sociedade sergipana. E, no que diz respeito à boa parte da década de 1990, devido ao perfil do seu quadro de funcionários, mas também devido a uma orientação política do campo das Ong’s - que se articula nacionalmente através da ABONG (Associação Brasileira de Organizações Não- Governamentais) -, em Sergipe, essas organizações construíram uma forma de atuação basicamente técnica. Uma vez que os projetos dessas Ong’s eram sistematicamente organizados com o objetivo de obter o diagnóstico de uma realidade social e dar respostas de transformação dessa realidade, o desenvolvimento de suas ações, e sobretudo os seus resultados, deveriam ser descritos em relatórios semestrais ou anuais para as agências financiadoras. Essa tarefa coube aos técnicos dessas entidades, os quais, na sua maioria, tinham uma formação acadêmica. Os militantes negros que não desenvolveram os mesmos esforços individuais em formação política e profissional não podiam concorrer com esses novos agentes.
Tendo em vista este contexto, o qual anuncia novas tensões, entidades como o Centro Dom José Brandão de Castro ganham status de organizações não- negras. Entretanto, querendo o FENS ou não, essas entidades integram o campo geral do movimento negro sergipano, o qual as alcança.
Desde 1998, quando iniciei as minhas observações de reuniões e atividades do FENS, percebi que as entidades que o integravam não “reconheciam” o Centro Dom Brandão como uma entidade negra, embora não houvesse como não reconhecer que a sua ação incidia sobre um grupo emergente: as comunidades
quilombolas. Além disto, a SACI, entidade que lidera o que estou chamando de
grupo hegemônico no FENS, desenvolvia, com o Centro Dom Brandão, atividades
junto à comunidade Mocambo.245
No campo externo ao FENS, a presença e a força de entidades que pouco interagem entre si do ponto de vista de suas ações institucionais tensionam o campo macro-político daqueles movimentos sociais, cujas razões para integrá-lo (ou não) são as mais distintas. A ausência da Casa de Cultura na criação do Fórum Estadual de Entidades Negras deve-se às divergências políticas que emergiram naquele momento. Por outro lado, dada a forma como a Casa de Cultura desenvolve suas ações em favor das “ações afirmativas” em Aracaju e no estado de Sergipe como um todo, duas situações devem ser consideradas.
Primeiro, nos momentos de proximidade de algumas entidades ligadas ao FENS com a Casa de Cultura, outras entidades, cujas divergências mais pessoais dos seus representantes foram mais visíveis, resistiriam à inserção daquela entidade junto àquele coletivo. As razões dos representantes que se opuseram à inserção da Casa de Cultura referem-se às dificuldades de lidar com a personalidade de seu coordenador, Severo D’Acelino, mas tal justificativa deve ser entendida como um “espelho” que reflete posturas semelhantes internas ao FENS. Depois, o prestígio da inserção de novas entidades negras ao FENS tende a potencializar mais o capital simbólico desse coletivo que da entidade que o integrará. Por outro lado, se é verdade que esta situação pode ocorrer, há duas situações que devem ser descritos. Uma delas está relacionada às entidades não- hegemônicas que há vários anos tensionam as relações internas ao FENS, com vistas a potencializar seus objetivos políticos, os quais estão ligados à sua legitimação naquele meio e ao seu interesse de fortalecer sua estrutura física e de
245 Estas atividades, que incluíam desde a educação popular até discussões “de gênero” sobre
divisão social de tarefas e relações amorosas, tiveram a presença do CESEP em alguns momentos.
financiamento de projetos. A outra situação estaria relacionada ao fato de que algumas entidades não reconheciam a filiação ao FENS como a melhor estratégia para dar novos rumos às suas políticas. Este pode ser o caso da Casa de Cultura Afro-Sergipana, mas a responsabilidade desta análise é inteiramente minha, pois em nenhuma das entrevistas tal aspecto foi identificado.
A presença de um campo de atuação de entidades cuja característica liga-se ao discurso racial por diferentes perspectivas me obriga a descrever uma atuação por “fora” das representações simbólicas de legitimidade do movimento negro sergipano. Até o período em que eu não tinha os últimos registros de campo, caminhei na direção de concluir que as resistências das entidades que representam o Fórum Estadual de Entidades Negras para aceitar a inserção de entidades como o Centro Dom Brandão minimizavam, de alguma forma, a atuação dessas entidades. Parece que esta análise não tem qualquer fundamento. Durante o período em que acompanhei as reuniões do FENS (1998 ao início do ano 2000), em apenas um momento, isto é, em 1999, o Centro Dom Brandão buscou inserir- se no fórum. Aquele era o período em que a CONEN realizaria o II Encontro Nacional de Entidades Negras. Em sua pauta estavam diversas discussões, dentre as quais aquelas relacionadas às chamadas “comunidades remanescentes de quilombos”. A inserção do Centro D. Brandão junto às políticas desenvolvidas pelo FENS seria oportuna para ampliar as redes de relações daquela entidade em nível nacional, assim como para obter maior status junto às agências financiadoras.
Na medida em que a organização do Centro Dom Brandão deve-se a um histórico de atuação que difere daquele relacionado às entidades negras, e tendo em vista que o apoio às suas ações independe da legitimidade dos movimentos negros, o fato desta entidade não ter sido aceita no FENS não resultou em cortes no seu financiamento. Por outro lado, se o Centro D. Brandão tivesse obtido sucesso no que se refere à inserção no fórum, provavelmente o seu prestígio legitimaria novos financiamentos junto às comunidades negras sergipanas. Esse contexto, contudo, me escapa.
Há que se levar em conta que muitas vezes tais entidades não-negras inseridas em questões como a dos remanescentes de quilombos, ao invés de perderem prestígio junto a estes sujeitos, tendem a potencializar ainda mais a sua estrutura. A análise dessas situações serão importantes para entender onde se localiza o capital simbólico do movimento negro sergipano.
Além disto, uma vez que é possível visualizar grupos distintos internos ao FENS, os quais também articulam resistências internas às formas como as ações são desenvolvidas por grupos hegemônicos naquele coletivo, pode-se dizer que a força política e o capital simbólico constituídos pelo FENS não são tão rígidos quanto algumas entidades querem fazer crer. Isto é, os integrantes de organizações menos estruturadas sabem que as ações podem ser mais bem desenvolvidas se os processos de elaboração de projetos e captação de fonte de recursos forem do conhecimento de todas elas. Um outro elemento que desmistifica a idéia de "sucesso” que algumas entidades hegemônicas parecem interessadas em naturalizar tem a ver com a formação política, o prestígio social e a capacitação profissional dos seus integrantes. No rol de sete entidades que atuavam especialmente a partir do FENS, poucos integrantes se diferenciavam dos demais a partir desses critérios. Neste sentido, pode-se perceber que as entidades que integram o Fórum se movimentam e constituem pequenos grupos com vistas a potencializarem os seus interesses, os quais remetem, sobremaneira, ao fortalecimento das mesmas no âmbito de sua estrutura interna.
Embora a capacitação política e profissional dos ativistas de entidades negras bem estruturadas seja um objetivo prático dessas organizações, o primeiro e o último passo nessa direção são de responsabilidade individual. Nesses termos, deve-se concluir que o que diferencia militantes e/ou técnicos de entidades negras hegemônicas das não-hegemônicas são as redes de relações, as políticas e, muitas vezes, retóricas de capacitação, assim como a possibilidade de boa remuneração, especialmente em ONGs. Ou seja, as condições sócio- materiais estão dadas para alguns setores dos movimentos negros em Sergipe, mas os desdobramentos e os resultados políticos estão sob a responsabilidade tanto das entidades negras quanto das projeções individuais de seus integrantes.
As disputas por hegemonia política no FENS e as articulações de entidades menos estruturadas financeiramente vêm refutar a hipótese de que os movimentos negros são, voluntariamente, ausentes em processos políticos importantes, dentre os quais se destacam as campanhas partidárias. Estas discussões são desenvolvidas no quarto capítulo. A seguir, apresento os contornos da política desenvolvida pelos movimentos negros sergipanos, a qual resulta em disputas por
hegemonia.