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Preuve de correction

5.3 Preuve de correction d’implémentation

5.3.3 Preuve de correction

Como foi notado na análise do Dasein, de um ponto de vista fenomenológico o que está entre o nascimento e a morte constitui a vida humana na terra. Jesus, sendo sob este aspeto em particular um ser-para-a-morte, é também um ser-para-o-início93. Também cada homem, como

ser-para-a-morte deve ser transformado num ser-para-o-início que é a vida nova em Cristo. Esta transformação acontece pela integração em Deus, ao aprender d’Ele e seguindo o seu exemplo. O novo início que é o renascimento do espírito de que Jesus fala a Nicodemos (cf. Jo 3:1-21) aparece, com efeito, sob o paradigma do nascimento. Isto é necessário, uma vez que, para Falque, fora do ato do renascimento a ressurreição aparece mais desprovida do seu pleno significado num sentido fenomenológico. O nascimento surge na fenomenologia da ressurreição como o guia e o modelo do ato transformador da própria ressurreição que, por

90 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 208. 91 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 179.

92 AGOSTINHO DE HIPONA, Confissões, I, I (1) (Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda 2001) 5.

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conseguinte, é dotado das características do primeiro nascimento. Assim, é necessário analisar o acontecimento do nascimento como a modalidade carnal da ressurreição, que, por seu lado deve ser vista como um segundo nascimento94.

O diálogo com Nicodemos é, para Falque, o convite evangélico a que se pense analogicamente o que é que a ressurreição traz e de que modo deve ser vivida para que este novo nascimento alcance toda a humanidade. Este diálogo, num primeiro momento permite uma análise à experiência do nascimento da carne, uma vez que Nicodemos fala da experiência que se tem desse nascimento. Porém, Jesus associa o que acontece no nascimento, ao que acontece na ressurreição e cria o espaço para a analogia. A questão de Nicodemos – «Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura poderá entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?» (Jo 3:4) – pode não parecer a mais certeira, mas serve como guia quer para o primeiro, quer para o segundo nascimento. Este diálogo fornece, através duma analogia entre o nascimento e o batismo, tendencialmente, uma abordagem à ressurreição final vista como um novo nascimento no modo carnal95.

Reconhecendo o nascimento como o paradigma da ressurreição, torna-se necessário ver de que modo Falque analisa a ressurreição como um nascimento do ponto de vista de quem olha o fenómeno. Num primeiro momento, isso acontece pela perceção de se ter sido posto no mundo, que é garantia de um dia se ter nascido e é o acesso que cada um tem ao seu próprio nascimento. Como é o sujeito que constitui o seu mundo (ao relacionar-se com o que o envolve e é nele, em primeira análise, um ser lá colocado (um Dasein), para Falque, vir ao mundo é «fazer nascer um mundo»96. O nascente age com o mundo porque nele é colocado e acrescenta,

sem que tenha essa intenção, uma nova perceção ao mundo. Neste sentido, Falque rejeita a expressão «ser colocado no mundo», e prefere «trazer um mundo à existência»97. Contudo, o

nascente não tem uma ação ativa no seu desejo ou ato de nascer, pelo que este é marcado por uma certa passividade. Neste enquadramento a passividade do nascente surge para o fenomenólogo francês como análoga à passividade do homem ressuscitado dependente da graça de Deus98. 94 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 173. 95 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 176. 96 TPh: Métamorphose de la finitude, 337. 97 TPh: Métamorphose de la finitude, 337. 98 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 173.

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Num segundo plano, fenomenologicamente, reconhece-se que a origem do nascente permanece obscura para o próprio e clara para as suas testemunhas99. A obscuridade do

nascimento vem da inexistência de memória ou perceção do ato no próprio sujeito do nascimento que só experimenta os seus efeitos e não a sua razão ou objetivo. Tal situação não marca uma inabilidade do sujeito, mas acentua que um nascimento não tem razões ou objetivos que o justifiquem (cf. Jo 3:8). Somente o efeito do nascimento é o garante da sua ocorrência: cada um sabe que aconteceu o seu nascimento no passado e sabe que isso influencia a sua vivência do presente.

Se do ponto de vista de quem é gerado há obscuridade, pelo contrário, do ponto de vista de quem o gerou há um testemunho claro do nascimento. Também para o nascimento espiritual é necessário haver testemunhas. Neste sentido, a mãe poderá ser considerada, deste modo análogo, testemunha da carne e o pai testemunha do nome (palavra), sendo que ambos confirmam uma linha e uma descendência100. Esta claridade é atestada teologicamente pelo

autor com o testemunho dos pais de João Batista (cf. Lc 1:13), o paralelo entre Igreja e Deus (a mãe que gera na carne e o Pai que dá o nome) e o Ressuscitado (como a primeira testemunha da sua metamorfose para assegurar a dos seus irmãos (cf. 1 Jo 1:1-2)).

No diálogo que Jesus tem com Nicodemos pode-se interpretar que, de algum modo, o primeiro nascimento foi incompleto e requer um segundo nascimento. Este segundo nascimento é lido por Falque como o nascimento espiritual que se opera a partir da Ressurreição. Por outro lado, percebe-se ao analisar a estrutura do nascimento a sua analogia com o ato da ressurreição, depreende-se que as características de ambos são coincidentes. De facto, a celebração do nascimento como advento da relação com os outros e a sua obscuridade são características reconhecidas igualmente no evento da ressurreição.

99 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 337-340. 100 Cf. TPh: Métamorphose de la finitude, 339.

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