1. BACKGROUND
1.3 Preterm birth
reuniram.
18 O mesmo poderíamos dizer em relação ao pós-modemismo, na medida em que os Annales antecipam a desaceleração histórica, temporalidade da pós-modemidade.
eterno presente.”20. Paradoxalmente, trata-se, em certo sentido, de uma atualização da história anterior a Heródoto, “A perspectiva estrutural das ciências sociais é ‘grega’, isto é, anti- histórica: recusa a sucessão, o vivido, o evento, o singular, enfim, a mudança, e propõe a simultaneidade, o sistema, o modelo, o formal, a abstração.”21.
Podemos perguntar-nos: então, esta escola, rompe com o projeto histórico? Evidentemente, não. Para isto, a escola dos Annales criou e desenvolveu — sobretudo a partir de sua segunda geração liderada por Ferdinand BRAUDEL — o conceito de longa duração e com isto pôde se manter, ao mesmo tempo, próxima das ciências sociais e no interior do campo da história, “A ionga duração’ é a tradução para a linguagem temporal dos historiadores da estrutura atemporal dos sociólogos, lingüistas e antropólogos”, assim, “Os eventos são inseridos em uma ordem não sucessiva, simultânea. A relação diferencial entre passado, presente e futuro enfraquece-se, isto é, a representação sucessiva do tempo histórico é enquadrada por uma representação simultânea.”22.
A longa duração é o tipo de enquadramento privilegiado pela escola do Annales, forma que lhes permitiu continuar com o projeto de Heródoto. O evento, o acontecimento, insere-se na estrutura, passando a ser determinado e determinante dos movimentos cíclicos da mesma; estimulando a reversibilidade e a continuidade. Assim, as mudanças, sempre no interior da estrutura e após séculos — lembremos a longa duração —, inaugurariam uma nova estrutura, um novo sistema; ou seja, trata-se de uma forma inovadora da apreensão da idéia de estrutura: para os Annales, a estrutura ainda é tempo. A idéia de longa duração tenta conciliar este aparente paradoxo. Dizemos aparente porque o resultado — produção — desta
20 REIS, op. c it, p. 17. 21 Ibid., p. 18.
estratégia parece demonstrar a solidez do conceito. Para os Annales, o evento não poderia romper ou mudar, por si só, um sistema sendo que ademais, “Entre as estruturas não há vínculo evolutivo, progressivo, síntese qualitativa, teleologia. As estruturas se relacionam com uma lógica da alteridade, da diferença. O tempo estrutural dos Annales é uma ‘desaceleração cautelosa’, uma reação à aceleração revolucionária baseada em um conhecimento especulativo do sentido da história.”23. Temos então, por parte dos Annales, em oposição à Mstória tradicional: a abordagem da longa duração, o descentramento do evento, e ff dàálogo e influência das ciências sociais, em detrimento da filosofia.
Somar-se-ia a isto um aspecto de vital importância. Para os Annales, a pesquisa histórica somente pode surgir a partir da construção de um problema: trata-se da história- problema, “[...] sem o historiador que procura respostas para questões bem formuladas, não há documentação e não há história. É o problema posto que dará a direção para o acesso e construção do corpus necessário à verificação das hipóteses que ele terá suscitado.”24. Ou seja, o historiador apresenta problemas, propõe hipóteses e tenta demonstrá-las, dessa forma, “Quando :iSo se sabe o que se procura, não se sabe o que se encontra.”25.
De alguma maneira, o trabalho crítico de M. Foucault, delimitando as possibilidades do historiador, apela à modéstia em proveito de um olhar mais exaustivo e delimitado. A proposta de abandono da fdéia da história total26 comporta críticas não somente de ordem teórica mas, principalmente, de caráter político. Abandonar este projeto significa, para alguns
22 Ibid., p. 18. 23 Ibid., p.20. 24 Ibid., p.24.
25 DASTRE apud DOSSE, op. cit., p.56.
26 Para J. C. REIS, “Febvre, Bloch e Braudel, embora tenham defendido uma história global, não foram claros na sua definição e não a praticaram.” , em REIS, José Carlos. Escola dos Annales. A inovação em história. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p.14.
historiadores, sucumbir a uma racionalidade esfacelada, sem unidade e sentido. Para outros, significa liberar-se do último bastião da história tradicional, à medida que a razão unificadora traz junto o sentido teleológico e, às vezes, o juízo moral sobre o futuro27.
Vemos assim, a diferença entre a nova pesquisa histórica e a narrativa histórica tradicional, orientada pela seqüência dos eventos, “Essa nova história reabre constantemente o passado, em vez de reconstituí-lo definitivamente. Ela retoma-o, remaneja-o, rediscute-o, estimulada pelas experiências do presente, que é sempre novo e exige, para se pensar, a reabertura constante do passado.”28. Foi a partir dos Annales que a história — escrita até então n® singular e com maiúscula — passa ao plural, perdendo a maiúscula, “Não existe mais a História, mas as histórias.”29. Dessa forma, encontramos que, “A figura do historiador dos tempos novos, segundo Michel Foucault, é a do vagabundo que busca, nas margens do social, os fantasmas do passado e o discurso dos mortos. Não tem mais por finalidade a percepção do
I A centro, mas o contorno do real.” .
Os Annales tentam desvencilhar-se de três ídolos: o ídolo político, quer dizer, a hisíérfa política, o ídolo individual, enfatizando os fatos sociais e econômicos e o ídolo crmmlògico, ou seja, a retrospecção em busca das origens. A referência aos três ídolos tinha
2' Estas questões atualizaram a problemática relação com a história marxista. Lembremos que a abordagem marxista da história, nQ momento do surgimento dos Annales, ainda não tinha, fora da União Soviética, qualquer influência na formação dos historiadores. As relações dos Annales com o marxismo são de uma complexidade tal que extrapolaria qualquer tentativa de aproximação num trabalho como este. Entretanto, podemos dizer que, em termos estratégicos — sobretudo institucionais — os Annales souberam incluir no seu movimento as tendências marxistas; mas, em tom os teóricos-conceituais, para o movimento, os marxistas manteriam o positivismo causal da infra-estrutura e, ao mesmo tempo, o idealismo teleológico da consciência de classes. No entender dos Annales, o caráter teleológico da história tradicional seria o mesmo do marxismo com seu caráter voluntarista e fatual. inclusive com o sentido moralista para o qual pende, em muitos casos, através do conceito de luta de classes. As críticas marxistas à proposta metodológica dos Annales apontam à falta de um destino comum mobilizador — por isso, neoconservador. Talvez, caiba questionar se essa falia é um problema da abordagem da escola ou uma exigência ideológica, portanto, teleológica, do critico.
REIS, op. cit., p.26. 29 DOSSE, op. cit., p. 181.
sido tomada de Francis BACON pelo sociólogo François SIMIAND31, em 1903. O sociólogo desafiava os historiadores a abandonarem a idolatria à política, à individualidade e à cronologia, F. Simiand, “Convida os historiadores a passar do fenômeno singular para o regular, para as relações estáveis que permitem perceber as leis e os sistemas de causalidade.”32. Nesse caminho, a história proposta pelos Annales sacrifica a fantasmática da história tradicional no sentido de, através da narrativa, alcançar a revisitação do passado real. O novo paradigma histórico mostra que,
O vivido e seu conhecimento não se recobrem; eles se separam33. O tempo é uma realidade dada nos processos humanos concretos, mas não pode ser apreendido em si e não pode ser conhecido especulati vãmente. Nem percebido imediatamente e nem antecipável especulativaanenJe, o tempo histórico só pode ser reconstruído teórica e formalmente. A reconstrução não se confunde com o vivido e o reconstruído. São esferas diferentes que dialogam e não se recobrem e não se legitimam reciprocamente.34.
Dessa forma, podemos afirmar que o conhecimento histórico nunca coincide com seu objeto. Ter clara essa perda ou assimetria, na aventura da pesquisa, e ao mesmo tempo negá- la, é a perversão a que o historiador deve entregar-se para oferecer, sob as marcas do tempo presente, um novo conhecimento do passado. Assim, o passado pode surgir na pesquisa, à condição de que as tensões do presente do historiador possam, inquietando, estimular o enigma; por esse viés, “Toda história é história contemporânea.”35. Nesse espírito, privilegiam-se as zonas distantes dos eventos, mais constantes e permanentes como a vida material, social ou mental das massas; quer dizer, aquilo que escapa aos projetos ou voluntarismos políticos ou ideológicos. O tempo visado pelos Annales recusa, principalmente,
30 Ibid., p. 186.