DÚVIDA‖ SEGUIDO DA MARCA ECDÓTICA ―— I —‖, EM NÍVEL MÍTICO-
SIMBÓLICO
No primeiro subcapítulo deste estudo, em função da exiguidade de dados que caracterizava aquele empreendimento hermenêutico em nível verossímil, fez-se necessário suspender temporariamente qualquer afirmação sobre a natureza do prefaciar rosiano.
Ressaltava-se que, usualmente, o esperável de um prefácio é que o mesmo teça considerações explicativas sobre a obra, caso não constatado nos prefácios de Tutaméia, que, além de comporem coleção de várias estórias, fazem-se, enigmaticamente, em número de quatro. Suspeitava-se que esta situação, em nível simbólico, dizia respeito às figurações da quadrindade (sugerida pela quantidade simbólica de quatro prefácios) e da trindade (conotada no subtítulo da obra ―TUTAMÉIA‖, qual seja ―"TERCEIRAS‖). Ressalta-se que, ironicamente, o autor nunca escreveu uma obra denominada Segundas Estórias.
No subcapítulo anterior122, também, suspendia-se a possibilidade de significar o porquê do termo ecdótico ―PREFÁCIO‖ (p. 146).
Frisa-se que a palavra ―PREFÁCIO‖ está escrita em itálico tanto quanto sublinhada e em caixa alta. A considerar o caráter minimalista do texto rosiano, bem como a qualidade musical que o anima, pode-se perceber que a fonte de caixa alta insinua a grandeza ascensional desenhada por progressivo movimento davante (sugerido pelo registro da palavra em itálico). Ademais, ao fazer uso do grifo, o texto rosiano pode sugerir graficamente que a palavra ―PREFÁCIO‖ está viajando sobre uma trilha, um caminho, o que seja: caminho acima do caminho, o próprio caminho se iniciando em palavra, travessia, caminhar. A considerar a dimensão simbólica da arte rosiana, pode-se compreender que o termo ―PREFÁCIO‖ sugere-se intróíto da cena que inaugura a sequência das sete estórias e do ―GLOSSÁRIO‖ que compõem todo o texto intitulado ―SÔBRE A ESCÔVA E A DÚVIDA‖.
121 ―É assim que se passam as coisas com as exposições míticas nos diálogos construtivos. Primeiramente o mítico é assimilado ao dialético, não mais está em conflito com este, não mais se fecha em si mesmo de maneira sectária; ele alterna com o dialético, e deste modo, tanto a dialética quanto o mítico são elevados a uma ordem de coisas superior.‖ (KIERKEGAARD, 2005, p. 89).
122 Ao recobrar por vezes alguns pontos da leitura em nível verossímil, o que poderia ser visto como repetitivo, aqui, na verdade, tem função dialético-pedagógica que intenta acolher, integrar e superar os níveis de leitura: premência rumo ao elevado pélago da Libertação.
Etimologicamente, a palavra prefácio deriva-se do nominativo latino praefatìo, - onis (ação de falar ao princípio de)123. Neste sentido, simbolicamente, o prefácio rosiano pode ser fala primicial, tanto quanto face que precede a experiência inaugural. Prefácio, então, pode ser iniciação, cena iniciática que dá vezo à manifestação criativa.
Nota-se que nos índices o título em estudo, está grafado com letras sem o uso da caixa alta e apenas com uma letra incial maiúscula – ou seja: ―Sôbre a escôva e a dúvida‖ (p.146). No entanto, já na altura do texto narrativo propriamente dito, assim como o termo ―PREFÁCIO‖, o título ―SÔBRE A ESCÔVA E A DÚVIDA‖, também escrito em caixa alta e em itálico, acaba por expressar aquelas sugestões de progressivo movimento musical (sugerido pelo uso ecdótico do itálico) e grandiosidade ascensional (conotada pelo uso ecdótico da caixa alta). Portanto, sob a baliza que sublinha o termo ―PREFÁCIO‖ e divide as partes superior e inferior da página, o título ―SÔBRE A ESCÔVA E A DÚVIDA‖ ritualiza a relação entre a ―ESCÔVA‖ (símbolo de purificação e higiene espirituais) e a ―DÚVIDA‖ (símbolo que expressa as dinâmicas da ironia). Esta ritualização ocorre em átimo que, expandido analiticamente, acaba por revelar o dinamismo da ironia, do paradoxo e da poiésis tais como se dão no texto analisado.
Prosseguindo estudo a partir do que foi consideravelmente apreciado no subcapítulo anterior, o titulo ―SÔBRE A ESCÔVA E A DÚVIDA‖ faz-se, portanto, passível de ser interpretado como expressão relacional entre dois termos aparentemente distintos que, ao engendrarem significados, possibilita condições para experiência originária, vez que faz coincidir, paradoxal e extaticamente, o dialético vai-e-vem da ―Escôva‖ e a própria força que a movimenta, qual seja, a Dúvida.124
123 Sobre esta etimologia ver o verbete ―Prefácio‖ em dicionário virtual. Disponível em: http://pt.wiktionary.org/wiki/pref%C3%A1cio. Acesso em: 20 ago. 2011. Ver ainda CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 124 A análise do título em nível simbólico pode, agora, ser cotejada com o texto bíblico de João, 20: 24-29: ―Em seguida disse Jesus a Tomé: – Veja as minhas mãos e ponha o seu dedo nelas. Estenda a mão e ponha no meu lado. Pare de duvidar e creia! Então Tomé exclamou: – Meu Senhor e meu Deus! – Você creu porque me viu? – disse Jesus. – Felizes são os que não viram, mas assim mesmo creram.‖
Devir de Libertação, Jesus sendo aquele que, segundo consta nos relatos bíblicos – antes já havia se mostrado para os outros discípulos, pediria para que alguém acreditasse no que não se poderia intimamente experienciar? A considerar simbolicamente, não seria tanto pelos olhos da carne (sensibilia) que Tomé viria a acreditar, mas por ter ele mesmo experienciado a iluminação momentânea que o fez crer através de fé que é conhecimento e Sabedoria (Trancendelia).
Morrer para os olhos da carne pode ser ressurreição do espírito: acreditar no que não se vê: visão do invisível. Eis questão de ser e não ser: ouvir do Silêncio na certeza que quer calar: no princípio era a Dúvida? Assim, só duvidando do que se lê se pode experimentar certeza do que está escrito.
Em perspectiva mítico-simbólica, a considerar as oito partes (as sete estórias e o ―GLOSSÁRIO‖)125 que compõem conjuntamente o prefácio Sobre a Escova e Dúvida, o sinal
ecdótico ―— I —‖ tem qualidades iniciáticas e sugere-se símbolo relativo à Unidade Primordial. Assim, o signo ―— I —‖, escrito em itálico, deixa de apenas representar significado relativo à quantidade e passa a ser símbolo prenhe de numinosidade arquetípica atravessada por dinâmica e por temporalidade musicais. Sem embargos, aventa-se que, a considerar o caráter ritualístico da linguagem rosiana, aqui, se encontram latentes todas as possibilidades atinentes ao universo do texto em questão. Tanto os aspectos positivos quanto os negativos se indiferenciam na unidade pleromática. Em termos cosmogônicos, apresenta- se, simbolicamente, então, o estado inicial do primeiro dia da criação, o instante genésico, quando o verbo há de se fazer luz e mundo epifanizado. Enquanto símbolo, o ―— I —‖ pode referir-se ainda à Uróboros126, ou seja, àquela mítica serpente que, tendo boca a comer a
própria cauda, desenha-se circularidade de ovo cósmico, no qual estão implícitas todas as potencialidades do grande UM, do arithmoi archai pitagórico127, da Mathèsis, da mãe primordial, da matriz. Frisa-se, outrossim, que a presença dos travessões em volta do signo ―I‖ pode insinuar que a linguagem realiza-se como estado de fechamento a inaugurar abertura que inicia experiência verbal plena de Poesia128.
125 Limitando-se ao foco deste subcapítulo, qual seja, o estudo em nível mítico-simbólico do texto ―— I —‖ do prefácio Sobre a Escova e a Dúvida, sem embargos, pode-se aduzir que o fato deste mesmo prefácio ser composto de sete estórias, não deixa de remeter ao significado universal do septenário. Assim, tangencia-se o simbolismo da lei pitagórica das sete vibrações musicais; o ciclo dos sete dias da semana; o simbolismo do número sete que predomina no texto do Apocalipse etc. Sobre o simbolismo do septenário, na obra Tratado de
Simbólica, Mário Ferreira dos Santos, sintetiza: ―(...) o sete, em suas linhas gerais, é o símbolo de uma graduação
cronológica, portanto qualitativa, apontando a evolução em sentido mais dinâmico, bem como aos saltos específicos que se verificam na natureza‖. (SANTOS, 1956, p.194).
Minucioso estudo autenticamente rosiano que, dentro da perspectiva anagógica, analisa o simbolismo e apresenta as matrizes simbólicas da obra rosiana é encontrado em STESSUK, Sílvio José. Magma: breviário de Rosa. (Tese Doutorado Letras). Assis: Faculdade de Ciências e Letras de Assis, UNESP (Universidade Estadual Paulista) 2006. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp022403.pdf. Acesso em: 25 jul. 2012.
126 Chevalier e Gheerbrant, assim, comentam sobre o símbolo do Uróboros: ―Serpente que morde a própria cauda e simboliza um ciclo de evolução encerrado em si mesmo. Esse símbolo contém ao mesmo tempo as idéias de movimento, de fecundidade de autofecundação e, em conseqüência, de eterno retorno. A forma circular da imagem deu margem a uma outra interpretação: a união do mundo ctônico, figurado pela serpente, e do mundo celeste, figurado pelo círculo. Essa interpretação seria confirmada pelo fato de que uróboro (sic), em certas representações, seria metade preto metade branco. Significaria, assim, a união de dois princípios opostos, a saber, o céu e a terra, o bem e o mal, o dia e a noite, o yang e o yin, e todos os valores que estes opostos comportam.‖(CHEVALIER; GHEERBRANT, 2003, p. 922).
127 Tirante certo pendor dogmático, para o tema do simbolismo da Unidade tanto no pitagorismo quanto em diversas outras tradições faz-se válido ver SANTOS, Mário Ferreira dos. Pitágoras e o tema do número. São Paulo: Ibrasa, 2000. Ver também SANTOS, Mário Ferreira dos. Tratado de simbólica. São Paulo: Logos, 1956. p.143-150.
Dado o caráter arquetípico da linguagem rosiana, considera-se, então, que o termo ―PREFÁCIO‖, o título ―SÔBRE A ESCÔVA E A DÚVIDA‖ e o sinal ecdótico ―— I —‖ realizam-se como efetivas ritualizações que não deixam de fazer o texto em estudo manifestar-se como momento inaugural de dimensões cosmogônicas. Assim, em função da ação irônica exercida pela ―Dúvida‖, quer seja na amplidão infinda de todas as possibilidades do dia genésico, quer seja nos limites proibidos do paraíso edênico, deve vir mítica queda129 e, por consequência, a inevitável possibilidade de liberdade e de reconquista da Libertação.
A considerar o texto rosiano em estudo, esta queda (que é também nova possibilidade de ascensão) traduz-se como saída da unidade pleromática da uróboros, o que seja: emergir dialético da tríade de epígrafes, doravante investigadas, em nível mítico-simbólico.
1.2.2 ESTUDO DAS TRÊS EPÍGRAFES DO TEXTO ―— I —‖, EM NÍVEL MÍTICO-