• Aucun résultat trouvé

CHAPITRE 4 RÉSULTATS

4.1 Visualisations de l’écoulement

4.2.3 Pression dynamique

o apreneizaeo político é eeterminaeo por uma gama vas­ tíssima ee interferências as mais variaeas. Incluem-se nesse pro­ cesso tanto mecanismos formalizados e voltados nessa direção, quanto canais eificilmente controláveis, como relações ee cc>­ municação intrafamiliares. Muitos são, nesse sentieo, os fato­ res que influem no processo ee socialização política eo inei­ víduo numa daea socieeaee, e um eesses fatores é objeto ee minha pesquisa : uma agência ee socialização encarregaea eo ensino ee eeucação moral e cívica.

O material empírico ee análise eeste capitulo consta tanto do conteúdo expresso nas apostilas da TVE relativas ao ensino ee EMC, quanto eas reeações eos alunos ee oitava série sobre o seguinte tema:

USe você tivesse conhecido um estrangeiro que lhe perguntasse como é o seu país, o governo, o povo, a religião e a economia, como você contaria']"

Obtivemos um total ee 280 redações.

Essas reeaçães foram feitas eentro ea sala ee aula, sob a cooreenação eo orientaeor ee apreneizagem, como parte ea programação escolar. Desta forma, os alunos ignoravam que

seriam elas objeto de pesquisa de alguém "de fora" do siste­ ma. Assim, tentei evitar que surgisse alguma inibição por parte dos alunos pelo fato de estarem realizando uma ativi­ dade para outros fins que não os curriculares. É comum na TVE a ocupação de certos espaços livres pela realização de atividades que não estejam rigorosamente previstas na pro­ gramação. Os alunos fizeram as redaçães como um exercício inserido no programa de comunicação e expressão, sendo que a equipe de professores de língua portuguesa da TVE parti­ cipou na sua programação.

Entretanto, se esse aspecto pode ter influenciado positiva­ mente os resultados, é preciso salientar a limitação de qual­ quer conclusão definitiva a respeito do que pensam esses alu­ nos sobre o tema proposto. É provável que as impressões que nos ficam dos relatos não reproduzam na íntegra o que real­ mente pensam os alunos. Em primeiro lugar, trata-se de um tema abstrato e de difícil compreensão para eles enquanto adolescentes com pouca vivência prática e intelectual de polí­ tica. Em segundo lugar, a própria condição de alunos, presos a uma sala de aula e sujeitos a um tempo rigorosamente pre­ visto para a conclusão do exercício poderia impeli-los a ten­ tar reproduzir conhecimentos que obtiveram a respeito desse tema, em grande parte oferecido pela TVE, mas não só por ela.

É bastante freqüente a utilização pela televisão comercial de propagandas e programas de divulgação sobre o Brasil. É

o caso de "Amaral Neto - o Repórter" e de toda a propa­ ganda oficial transmitida nos intervalos comerciais, que rele­ vam o Brasil como um país em desenvolvimento ou que divul­ gam as políticas governamentais que visam o bem-estar so­ cial. De resto, como já salientamos, a própria TVE utiliza-se dessas fontes para a montagem de grande parte das aulas de EMC, o que acaba por marcá-las por um tom propagandístico bem acentuado.

Uma primeira leitura do conjunto das redações conduziu­ nos logo à caracterização que as imprimiu em Sua quase

totalidade: a construção de uma imngem paradisíaca do país, com uma forle conotação ufanista. Como nas aulas da TVE,

os adjetivos, as valorações, a dimensão moralista tomam con­ ta da descrição, numa espécie de anseio propagandístico das riquezas do país, do povo brasileiro e do governo como o agente principal do desenvolvimento.

Essa imagem paradisíaca fica comprometida no desenro­ lar de alguns relatos, quando emergem problemas que são re­ conhecidos, mas não denunciados de forma radical ou incisiva. Esse fenômeno pôde ser detectado nas descrições sobre a eco­ nomia do país. Tendo dado ao termo o sentido de "econo­ mizar", alguns alunos demonstraram a dificuldade de assim proceder dada a situação de extrema carência em que vivem. "As coisas estão muito caras, é difícil economizar'�, diziam com freqüência.

Um outro aspecto interessante que se percebe na leitura das redações é a transformação do tema mais abrangente em um mais próximo da vivência do aluno. Particularmente no

caso da descrição do governo e da economia, a referência foi a realidade regional: tratava-se do governo e da economia maranhenses. E foi exatamente na descrição dessas situaçães mais próximas da vida, de urna realidade mais presente no

cotidiano desses alunos, que a imagem "paradisíaca" ficou um tanto comprometida. Críticas ao govemo, quando surgiram,

referiam-se a um determinado govemante específico do Ma­

ranhão e não ao executivo federal.

A construção da imagem paradisíaca, o reconhecimento de problemas, a crítica ao governo ou à economia e a trans­

formação do quadro mais global nUma referência regional

foram os paràmetros que orientaram a classificação que adotei para esse material empírico. Procedi a uma divisão em dois blocos, com algumas subdivisões em cada um, conforme pode ser verificado no quadro abaixo.

GRUPO I: IMAGEM PARADISiACA DO PAiS

SUBGRUPOS

1 . Imagem paradisíaca

2 . Imagem paradisíaca com reconhecimento de um único problema: a economia 3 . Imagem pararusíaca: transformação do

país na realidade regional T O T A L TOTAL 170 25 41 236 GRUPO 11: COMPROMETIMENTO DA IMAGEM PARADISIACA

SUBGRUPOS

1 . Contradição entre governo e povo 2. Reconhecimento de problemas: esperança

de solução pela ação do governo T O T A L Não aproveital1Qs · T O T A L G E R A L TOTAL 24 6 30 14 280

* O não-aproveitamento deveu...se ao fato de esses 14 alunos não terem conseguido desenvolver seu raciocínio de forma coerente e articulada.

É preciso salientar, todavia, que esSa divisão não signi­

fica a presença de um conjunto onde se detecta a montagem de uma imagem paradisíaca em confronto com um outro onde essa imagem seja negada. Foi por isso que utilizei o termo "comprometimento", uma vez que de alguma forma a imagem proeminente se mantém, seja pela explicitação de uma "espe­ rança" na ação do próximo governo (no caso de crítica ao governo do Maranhão), seja na expectativa e na crença de uma melhoria da situação econômica do país ou do estado,

ainda que para isso alguns aconselhamentos fossem feitos à população. É praticamente irrelevante o número de casos onde prevaleceu o ceticismo com relação à realidade, ou uma des­ crença definitiva na atuação do governo para a solução do problema.

Gostaria ainda de mencionar que na análise desse mate­ rial não obedeci rigorosamente a essas subdivisões, porquanto tratava-se da montagem e da análise de um discurso que nem sempre possibilitava um corte em sua lógica. Qnando expli­ citei essa classificação foi para mostrar os diferentes aspectos

que encontrei nos relatos.

Uma última observação referente a esse material: a lin-

guagem escrita dos alunos. É possível perceber, na grande • maioria das redaçães, uma dificuldade ortográfica extrema, que se expressa em graves erros de grafia e regência. Decidi mantê-Ios nas citaçães, guardando fidelidade ao texto.

o Arcabouço e a Mecânica do Paraíso

«Eu contaria que o meu País (Brasil) é uma espécie de Pa­ raíso �infinito", porqUe é cal­ mo, bonito etc. Eu lenho or­ gulho do meu Pais",

Esta parte do capítulo apresenta as primeiras peças do "quebra-cabeças" que ilustra o modelo da sociedade brasilei­ ra construído pelos alunos. Adotei como estratégia metodo­ lógica a apresentação e a análise de partes dessa arquitetura, reservando para o final a complementação do modelo, quan­

do será possível vislumbrar sua estática e sua dinâmica. Duas categorias básicas representam o ponto de partida através do qual o esqueleto vai-se montando: governo e povo.

Essas categorias são definidas por alguns traços comparativos que as diferenciam basicamente uma da outra. Poderíamos

resumi-los com as distinções "agente/paciente", ou mesmo "sujeito/predicado" da ação. É o governo quem ajuda, de­ senvolve, inventa, promove, enfim, age. Em contrapartida, o povo é bom, pacífico, hospitaleiro, cordial, unido, obediente, meigo, confiante e alegre. É quem obedece e aceita as deter­ minações do primeiro - uma minoria seleta, dotada positi­ vamente para o exercício político. Dentro do postulado da teoria elitista, confirma-se que só a elite, pelos dons próprios que possui, não adquiridos, mas inatos, é capaz de melhor perceber as circunstâncias e agir de acordo com elas, elabo­ rando as leis fundamentais à manutenção do equlíbrio social e do desenvolvimento da sociedade .

"O governo ele age de uma maneira para desenvolver o seu país, como o aparecimento de novas indústrias, prédios, praças, hospitais, enfim muitas coisas para o nosso beneficio".

"O nosso governo vem nos dando muito beneficio de várias ma� neiras como na conservação das doenças fazendo hospital para nós nos hospitalar".

"O governo se preocupa com o seu país, por isso cada vez mais trabalha, para beneficiar sua população, garantindo-lhe sobrevivência",

. .. "0 governo não falha nas suas etapas, faz da melhor maneira

possível a promoção do desenvolvimento. Construindo, inventando coi­ sas que trarão ao nosso pais desenvolvimento e progresso".

"O governo apoia nosso povo através de muitas coisas boas, Como o salario mini mo, INPS, etc."

"o governo, em sua parte, se preocupa muito com o país, querendo o melhor para todo mundo, para o mesmo se toma um pais de boa

produção visando o bem-estar do povo brasileiro em todos seus as­

pectos".

"O governo é muito bom porque ajuda, assiste e especializa os

estados componentes do país" ,

"O governo que é o orgão responsável pelo desenvolvimento do nosso país esta colaborando para o crescimento sempre maior",

"O nosso país é muito bem governado por Ernesto Gaise! ele elabora leis e cria grandes vantagens com essa elaboração de leis",

"O governo que e responsavel pelo país ele procura melhor cada

A condução do processo político e a promoção do desen­ volvimento social é, portanto, tarefa de uma minoria especia­ lizada e distinta da massa que compõe a maioria da popula­ ção. Há uma nítida divisão de papéis na sociedade. Um grupo pequeno dedica-se à fun

ção

primordial de refletir sobre as melhores alternativas, na incessante tarefa de descobrir fór­ mulas e elaborar as leis que serão universalizadas e acatadas pela maioria. A esta, na qualidade de receptora, pela contin­ gência irrefutável de não possuir os dons da minoria, reserva­ se a nobre tarefa de obedecer e aceitar os desígnios da primeira. No caso brasileiro, o exemplo é o mais dignificante, porquanto possui o nosso povo qualidades inatas � muito próprias que. inclusive, o distingue dos demais.

"Sabe aqui no brasil os brasileiros, são amigos de todos são genial". "Sabem tratar pessoas que nunca viu".

. . . "todo o sidadão Brasileiro cumpri ordem",

"Os povos do país não sentem vontade de sair desse lugar, para ir para outro porque para eles o que importa é o nosso pais que é cheio de tradições".

"O povo brasileiro, tem como se preocupar, com problemas do pais e1e tem como obrigação de exercer, todas suas atividade de tra� balho como na escola no serviço e em outras",

"O povo brasileiro é muito grato pelo que o governo faz e por fazer parte de um pais tão maravilhoso como O Brasil".

"O Povo Brasileiro é um poVO muito unido e Povo unido tem desenvolvimento" .

"O meu país se desenvolve assim através dos povos que são muito legais, eles tem vontade imensa de lutar, todos são iguais todos são unidos".

«Meu POVI) são gent� alegres que lutam pelo desenvolvimento do País. É um povo que procura cada vêz mais, uma melhor maneira de vida",

"O Povo que procura se unir cada vez mais, mais e sermos na verdade humilde uns com os outros, de uma forma extraordinaria, O Povo além de tudo é uma comunidade"

"Os povos são livres, todos organjzados unidos fazendo a força e lutando para melhorar as condições e o progresso da nossa terra brasi- 1eira",

"O povo se reuni para ajuda uns aos outros impedindo que tenha lutas, desorganizações. deshumanidade entre os outros . . ...

"O povo esta ali para receber suas ordens (do governo). eles todos reunidos fazem parte do crescimento do nosso pais .. ...

"O povo procura sempre estar em ordem, com os método e os beneficio do governo".

"O governo é que admistra a cidade e nós brasileiros damos uma mãozinha, cumprindo as leis participando das eleições estaduais".

"O nosso povo é democatico e criativo� sempre tentando inventar alguma coisa. O nosso povo não é um povo violento é sim um povo pa­ cifico".

Esses exemplos são uma amostra pequena do montante maior presente no conjunto das redações. Depois de uma re­ flexão sobre todas elas, a primeira impressão que fica é a da caracterização do povo como uma únidade indiscriminada. indivisa e totalizada -e uma totalidade onde as partes não se relacionam. A única relação que se estabelece é entre essa massa indiferenciada de pessoas e o governo. Mesmo assim, trata-se de uma relação desigual, porquanto só uma das par­ tes atua como agente, como personagem quase que único, na medida que dá o tom da relação. A via da comunicação, en­ tretanto, é marcada pela submissão, pela obediência. Não há, portanto, uma relação de influências mútuas, mas, ao contrá­ rio, todo o canal de relação é alimentado pela passividade de uma das partes, o que coufirma a afirmação de Roberto da Matta:

� .. "inteiramente submetidos. às leis impessoais da exploração do trabalho e ainda aOS decretos e regulamentos que governam as massas que não têm nenhuma relação. Por serem assim é que podem ser explC}­ radas através de um conjunto de leis impessoais . . . " 5{)

Prevalece, nessa perspectiva, a noção de uma totalidade indiscriminada, onde a presença do indivíduo é eufraquecida 00 Matta) Roberto da. Carnavais. malandros e heróis. Rio de Janeiro� Zahar, 1979. Ver p. 20.

diante da determinação de leis generalizantes. V ma totalidade indivisa ao nível dos valores, mas qne guarda, no nível real, nma profunda hierarquização. O antropólogo Louis Dumon! dedica uma atenção especial a essa questão." O interesse primordial do autor é compreender o fenômeno que denomina "revolução moderna", ou nma configuração geral de idéias características do universo ideológico moderno. Nesse univer­ so, a ênfase é dada ao individualismo hnmano, sendo que os ideais de. igualdade e liberdade configuram o princípio comum em torno do qual se articulam os demais elementos que for­ mam essa nova mentalidade. Trata-se de nm fenômeno espe­

cífico da sociedade moderna, que através de estudos compa­ rativos pode ser melhor e mais profundamente compreendido. Dumont vai estahelecer a comparação com as sociedades tra­ dicionais que, ao contrário das modernas, privilegiam o cole­ tivo, minimizando a importância do indivíduo enquanto per­ sonalidade atomizada.

"Para mim. a sociedade moderna separa-se das sociedades tradi� donais ( . . . ) por uma revolução que eu chamo de revolução mental individualista. Tal Ifevolução caracteriza-se, em síntese, por um deslo--­ camente da principal ênfase valorativa da sociedade como um todo (holismo) para a indIvidualidade humana, tomada como uma corpori­ ficação da humanidade em seu sentido mais amplo (individualismo). No primeiro caso, a principal referência, a principal ênfase valorativa

é colocada na ordem-tradição-orientação de cada ser humano em par­ ticular aos fins prescritos para a sociedade. No segundo, a principal referência é colocada nos atributos, reivindicações ou bem-estar de cada indivíduo, independente de seu lugar na sociedade. "52

51 Dumont, Louis. Homo Hierarchicus. The caste svstem and ils im­ pUcations. London, Paladin, 1972.

Dumont, Louis. Religion, politics and society in the individualistic universe. In Proceedings 01 Royal Antropological lnstitute 01 Britain and lreland, 1970.

Dumont, Louis. Homo Aequalis. Genese et épanouJ'ssement de l'idéologie économique. Paris, Editions Gallimard, 1977.

Dentro da concepção moderna, o indivíduo é quase sa­ grado. O único limite a seus direitos é demarcado pelo inte­ resse de outro indivíduo. Como elemento participante da cons­ trução da humanidade, ele é concebido e compreendido como encarnando em si a essência da hnmanidade. Na medida que cada indivíduo encarna em si a essência da humanidade, eles são percebidos como iguais, e já que não se valoriza desigual­ mente a participação de alguns nessa tarefa em detrimento de outros, não há por que estabelecer, ideologicamente, uma hie­ rarquia que subjugue uns indivíduos a outros. Nessa medida, além de iguais são livres. O individuo seria uma célula, e o

grupo humano, um composto de células desse tipo. É esse o pressuposto 'lue alimenta a concepção do senso comum, se­ gundo a qual a harmonia entre essas unidades é inquestioná­ vel. Assim é concebida a "classe social", ou o que é chamado nesse nível �'sociedade.�' - uma associação e, em alguns as­ pectos, uma mera coleção de tais unidades. Mencionando a incorporação pelos cientistas sociais de tal concePÇão, Du­ mon! argumenta:

I'Freqüentemente afirma-se que há um antagonismo entre o 'indivíduo' e 'a sociedade\ no qual 'a sociedade' tende a aparecer como um resí­

duo não humano: a tirania dos números, um inevitável mal material que se contrapõe à única realidade psicológica e moral, que é a conti­

da no indivíduo. Esta abordagem, enquanto parte integrante da ideolo­ gia corrente de igualdade e liberdade, é obviamente insatisfatória para quem observa a sociedade. Na verdade, ela se infiltra até nas ciências sociais. Agora, a verdadeira função da sociologia é muito distinta: tra­ ta-se precisamente de atenuar o hiato qUe a mentalidade individualista produz quando confunde o ideal com o rea1".sa

Ao contrário desse quadro geral de. valores predominante na sociedade moderna, as sociedades tradicionais - que não conhecem nada desse princípio comum baseado na igualdade e na liberdade, que não sabem nada a respeito do individuo lia Dumont, ep. cito (1972), p. 39.

como portador da essência da hnmanidade - valorizam ba­ sicamente a idéia coletiva do homem, on seja, a idéia de que o todo, o social se impôe às partes. Nessas sociedades tra­ dicionais, em que predomina o sistema de castas, a caracterís­ tica essencial é conferida pela submissão à hierarquia como valor supremo - o oposto, portanto, do igualitarismo das so­ ciedades modernas. Nas sociedades de tipo tradicional, veri­ fica-se o prevalecimento do sentido do "nós" sobre o sentido do ueu", como um ímperativo a ser mantido ao nível dos va­ Iares. É essa preservação que garante a estabilidade social, porquanto mantém a coesão dos indivíduos face a uma idéia geral mais ampla de manutenção da sociedade como um todo. Daí a rigidez da hierarquia, daí o empenho na sua perpetua­ ção. Perde-se o sentido de reivindicações individuais, uma vez que o que está em questão é o todo. Daí a ausência de valores como o da liberdade, pois o desenvolvimento da ini­ ciativa privada, como seu decorrente, seria a negação do prin­ cípio fundamental em torno do qual a sociedade é erigida.

Entretanto, esse quadro mais geral de valores dominantes pode ser questionado pela presença de certos fenômenos que o contradizem. Um dos caminhos ricos para tal descoberta, segundo Dumout, é a realização de análises comparativas. Sua estratégia metodológica de pesquisa consistiu em tomar o caso da índia, como exemplo de sociedade hierárquica, de tipo ho­ lista - onde predomina a noção do todo sobre as partes - e contrapô-lo a sociedades modernas, como a França, onde a noção de individuo superpôe-se à do conjunto. No apro­ fundamento da análise comparativa, percebe-se que na socie­ dade moderna subsiste nm resíduo de ,hierarquia sob a for­ ma de desigualdades sociais. Mas sendo a hierarquia um ver­ dadeiro tabu para esta sociedade, substitui-se o termo por "estratificação social". E é dentro dessa dimensão de crítica

à hierarquia que é possível compreender fenômenos correla­ tos, como a abolição da escravatura e a imediata emergência

do raclsmo, que acaba por ser uma forma inconsciente de responder à "inconveniência" do igualitarismo."

Ao contrário da sociedade moderna, que valoriza toda uma concepção de alcance da felicidade individual, nas socie­ dades tradicionais o ideal deriva da organização da sociedade no q

u

e conceme à obtenção de ,seus fins. Trata-se, sobretudo, de uma questão de ordem, de hierarquia, competindo a cada homem em particular contribuir para a ordem global. A di­ mensão da justiça é dada pela garantia de que as proporções !lntre as funções sociais estejam adaptadas ao todo.

Na sociedade moderna, o ser humano é considerado como homem "elementar", indivisível, tanto porque é compreendi­ do como Ser biológico, como na dimensão de um ser pensan­ te. É ele a medida de todas as coisas. "O reino dos fins coincide com os fins legítimos de cada homem, e assim os va­

Documents relatifs