4. METHODOLOGY FOR MONITORING
4.4. Preservation of records and reporting
Marcelo fala de sua chegada ao Instituto GAMA como marco inicial da sua trajetória de vida. Com um ano de idade, Marcelo foi encaminhado ao abrigo pela sua mãe, porém as informações sobre a sua família de origem só lhe foram elucidadas no período da adolescência. Até essa idade, Marcelo desconhecia quaisquer informações sobre sua família e os motivos que geraram o afastamento do convívio familiar.
“A minha vida ela se deu no ano de 1981 quando eu entrei no orfanato, eu já entrei com um ano de idade. Isso pra mim foi surpresa porque eu vim saber que tinha entrado com um ano de idade, treze anos depois, naquela entidade. E como toda criança, todo menino, procurei saber um pouco da minha história, como é que eu fui parar lá, até porque até os meus treze anos de idade eu não conhecia família nenhuma, quem me colocou lá e
ninguém” (MARCELO).
“(...) eu sempre cresci com um sonho e esse sonho era sempre guardado comigo e o primeiro deles era conhecer minha família” (MARCELO).
As informações sobre a família de origem de Marcelo são resgatadas de forma sucinta e superficial, em conseqüência da falta de contato com os familiares e do falecimento de seus pais pouco tempo depois de conhecê-los já aos 13 anos de idade. Diante dessa separação
prolongada entre Marcelo e os pais, os dados obtidos sobre o período (um ano) anterior ao abrigamento, de convívio com a mãe, foram bastante restritos. Marcelo referiu-se ao fato da sua mãe ser solteira na ocasião da sua gestação, sendo pressionada pela família e por uma igreja evangélica (de denominação distinta da igreja do GAMA) para entregar-lhe a um abrigo. A família materna de Marcelo tinha um status privilegiado na igreja, sendo intolerável nesse contexto uma gravidez fora de uma relação conjugal.
“E ela tinha algo assim que me deixava muito enfurecido é que ela era da ‘congregacional50’. Uma denominação que hoje eu tenho assim um certo rancor, a forma que essa religião trata as pessoas. E ela dizia muito que não ia me visitar por conta dos trabalhos na igreja, senão o pastor ia disciplinar, aquela coisa toda. E isso me deixou muito enfurecido até hoje com a ‘congregacional’, a forma como ela trata os seres humanos” (MARCELO).
Após o nascimento, Marcelo foi cuidado por sua mãe que lhe escondia em casa, e inclusive de boa parte da família. A solução apontada pelo pastor da igreja, e aceita posteriormente pela mãe de Marcelo, foi de entregar-lhe num orfanato a fim de abafar a
situação, o problema (sic). Esse posicionamento da mãe em relação a Marcelo parece mais
associado às exigências e restrições impostas pela religião do que ao desejo de romper o vínculo com o filho.
“A minha mãe fazia parte da igreja e engravidou sem estar casada e isso na lei da igreja é errado e a minha família era uma família de influência dentro da igreja. Então o que fazer? Como esconder esse erro chamado Marcelo? A única forma foi, vamos esconder ele no internato, quando ele criar, tiver mais ou menos uma certa idade, ele aparece e de um modo ele continua a vida dele” (MARCELO).
Apesar das poucas informações sobre os primeiros meses de vida de Marcelo, algumas idéias foram inferidas sobre essa situação. É sabido, através do discurso do diretor do GAMA, que Marcelo chegou no abrigo após um ano de convivência com a mãe sem indicativos de maus-tratos, negligência ou qualquer tipo de violência doméstica. Nesse sentido, considera-se pertinente a seguinte questão: o que mobilizou essa mãe a permanecer com Marcelo por doze meses, mesmo com toda cobrança da igreja e de familiares para que fossem separados e da sua própria concordância com essa alternativa? Uma leitura possível sobre essa questão pode ser articulada à preocupação materna primária, teorizada por Winnicott (2007), que se refere à intensa identificação entre mãe e bebê desde a gestação até os primeiros meses de vida. Essa identificação capacita a mãe a identificar todas as necessidades do bebê no seu estágio inicial de desenvolvimento. Nesse processo, a sincronia entre a mãe e a criança constitui a função
materna do holding que possui uma dimensão prioritariamente física, relacionada aos cuidados e sustentação do bebê. A interpretação proposta é de que o estado de identificação entre mãe e filho teria se estabelecido durante os primeiros meses de vida de Marcelo, e, portanto, a função materna do holding possivelmente teria sido exercida na relação inicial com sua mãe.
Ainda da infância, a preocupação materna primária, gerada durante a experiência de gestação, favoreceria a maturação e constituição do self do bebê a partir da relação e funções maternas. Essa concepção dá suporte à hipótese de que o período anterior ao abrigamento na vida de Marcelo teria sido satisfatório no atendimento às suas necessidades físicas e emocionais.
No período final da gestação até os primeiros meses de vida, denominado por Winnicott (2007) de dependência absoluta, o desenvolvimento infantil transcorre rumo ao amadurecimento através do potencial herdado pelo bebê e dos cuidados propiciados pelos pais, especialmente pela mãe diante das suas funções já abordadas. Considerando a permanência de Marcelo com a mãe nesse período, as motivações para a separação familiar de ordem religiosa e a ausência de histórico de qualquer situação de negligência, Marcelo possivelmente vivenciou uma relação de identificação e dependência com a mãe. A existência de uma figura materna atenta às necessidades de Marcelo no início do seu desenvolvimento parece ter contribuído para o seu percurso posterior no contexto do GAMA, pois segundo Winnicott ([1947]-2005b) as experiências saudáveis no início da vida deverão ser resgatadas nas relações com adultos no abrigo.
“(...) eu comecei a criar pais e mães fictícios, mãe de colegas meus que eu passava a chamar de tia, de mãe, tal pra suprir essa necessidade”
(MARCELO).
Na ocasião da separação familiar, Marcelo foi acolhido no GAMA juntamente com duas primas, que também estavam sob os cuidados de sua mãe. A convivência entre Marcelo e as primas, consideradas por ele como irmãs, durou até seus cinco anos de idade. As primas para Marcelo representavam uma importante referência familiar e suporte afetivo diante da ausência dos seus pais.
“Outra imagem que eu lembro é do dia em que minhas irmãs que não eram irmãs, mas eram primas foram tiradas de mim, lá do orfanato. Foi
colocado eu e duas irmãs que eram primas (...) Mas aí elas eram minha família ali. Eu lembro o dia em que a mãe verdadeira delas veio e sem
ninguém saber levou as duas para São Paulo. E eu lembro do rosto assim das duas, assim bem longe. E foi um momento difícil porque eram pessoas
que hoje eu teria referência. Eu convivi com elas desde o meu um ano de
idade até meus cinco, seis anos” (MARCELO).
A convivência com as primas parecia significar um elo simbólico entre Marcelo e sua família de origem, assim como uma base de segurança para o seu desenvolvimento emocional.
Após cinco anos de convívio entre Marcelo e as primas, a sua tia retornou para buscá- las, enquanto ele permaneceu abrigado sem quaisquer contatos ou informações sobre a sua mãe. Essa situação parece configurar mais um período crítico de tensão e sofrimento para Marcelo.
A separação entre Marcelo e sua família de origem parece associada a um difícil processo de construção/manutenção/abandono de sentidos e representações sobre a instituição-família. Na narrativa de Marcelo, as experiências de separação familiar e acolhimento na Casa-Lar parecem envolvidas com perdas e conflitos, potencializados talvez pela sua condição diferenciada das outras crianças do GAMA que permaneciam em contato com os familiares.
“(...) a maioria dos meninos tinha pai e mãe que não tinham condições de
cuidar deles durante a semana e colocavam eles lá. E eu era um dos meninos que me via nessa condição de órfão por mais que eu tivesse pai e mãe, mas não eram conhecidos. E isso pra mim começou a ficar bastante
difícil por conta de que eu via as pessoas com seus pais e suas mães mesmo que uma vez por mês, mas eles tinham (...)” (MARCELO).
“(...) os momentos ruins são mais voltados à família, a falta da figura da mãe e do pai indo visitar a criança naquele orfanato. (...) mas quando via
ali no portão todo mundo sentado, ali esperando a mãe e todo mundo se levantava pra abraçar a mãe (MARCELO)”.
A ausência de vínculos com a família de origem significava para Marcelo uma contradição com seu contexto cultural no qual a família representava o lugar ideal para toda criança e adolescente. Apesar da convivência de Marcelo numa instituição que lida com rupturas no convívio familiar, a valorização da família aparece como significado privilegiado nos ideais do abrigo, reforçados também pela igreja, cujos princípios religiosos consideram a família como uma instituição sagrada e fundamental na vida cristã. Assim, os valores, a cultura e as práticas sociais envolvidas nesses contextos – GAMA e igreja – pareciam repercutir no processo de significação de Marcelo sobre a família.
“A instituição trabalha tentando conscientizar que o melhor lugar é na família, se a família não está com a criança ou adolescente é porque algo de
violação foi do Estado que não deu condições da própria família sustentar seus filhos, ou a questão é da própria família que não se estruturou, o filho veio num momento não desejado, pela desigualdade social desse país” (DIRETOR).
Para Amorim & Rossetti-Ferreira (2004), o conjunto de elementos culturais, sociais, políticos e econômicos, denominado de matriz sócio-histórica, interfere de forma concreta nas situações, nos posicionamentos das pessoas e na delimitação dos limites e possibilidades no desenvolvimento humano. Assim, a falta de referências na família de origem, o contexto cultural e a situação diferenciada em relação às outras crianças pareciam repercutir nos comportamentos de Marcelo, muitas vezes caracterizados pela fuga das situações, isolamento e projeção das figuras familiares em diversos adultos no contexto do GAMA, durante a sua infância e adolescência.
“(...) lembro também de momentos mais marcantes era na época de férias mesmo, eu sempre ficava lá no GAMA, não saia para os lugares, na hora que as mães chegavam pra buscar os filhos eu sempre procurava uma árvore para ficar em cima, ficava o dia todo pensando assim: eu vou esquecer de mim ou então fazer que as pessoas me esqueçam pelo menos
nesse dia, foram momentos ruins” (MARCELO).
A partir desses conflitos, ressalta-se a complexidade do desenvolvimento humano que não se restringe às limitações e dificuldades, mas coexiste com as possibilidades e a imprevisibilidade nas trajetórias de vida. Nesse sentido, a situação de privação familiar para Marcelo repercutia em certas dificuldades na sua trajetória, porém sem inviabilizar sua capacidade de superação e investimento nas relações afetivas e práticas sociais construtivas no contexto do abrigo e depois na sua vida adulta.