III- L'ACTION "COLLECTIVITÉS LOCALES"
1- PRESENTATION GENERALE
Durante duas décadas, Germano Francisco atuou nas principais salas de espetáculos das províncias brasileiras. Apesar de se aproximar de João Caetano, na medida em que representou peças francesas criadas pelo célebre ator nos palcos do Rio de Janeiro, Germano Francisco dele se diferenciou, sobretudo pelas suas habilidades artísticas múltiplas. Além de primeiro ator, foi um astuto empresário teatral, atento aos negócios, diretor de companhias dramáticas, ensaiador e tradutor de melodramas franceses.
36 Klécio Santos narrou as viagens da família imperial a Pelotas e sua presença na tribuna em espetáculos no
Teatro Sete de Abril. Ver SANTOS, 2012, p. 28-37. Sobre a viagem pelas províncias, iniciada em outubro de 1859, ver MEMÓRIAS da Viagem de SS. Magestades Imperiaes às Províncias da Bahia, Pernambuco, Parahiba,
Alagoas, Sergipe, e Espírito-Santo. Tomo I – Bahia. Rio de Janeiro: Typ. e Livraria de B. X. Pinto de Sousa,
O percurso de Germano Francisco pelos teatros das províncias brasileiras é extremamente dinâmico. O ator iniciou a carreira empresarial na Bahia, em 1848, no Teatro de São João, onde permaneceu até 1850. Assumiu a direção do Teatro de Santa Isabel, em Pernambuco, nas temporadas de 1850-1852 e de 1857. Sua companhia se apresentou no Ceará em 1852, 1855 e 1863. Em São Luís, no Maranhão, o artista dirigiu o Teatro São Luiz nas temporadas de 1853-1855 e de 1862. No Pará, sua companhia representou em 1854 e 1857. No Sul do Império, Germano Francisco ofereceu espetáculos em Pelotas e Rio Grande, em 1860. Entre 1868 e 1869, atuou nos teatros de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Retornou ao Rio de Janeiro em 1870, para assumir a direção do Teatro de São Pedro de Alcântara. Por fim, abandonou os palcos em 1873, quando se instalou no Sul do Império e passou a se dedicar ao exercício da medicina homeopática.
Em 1848, Germano Francisco foi recebido na Bahia sem muito alarido na imprensa, diferente do que ocorreu quando João Caetano ali aportou em junho de 1849. O ator era visto, na época, apenas como mais um artista do Rio de Janeiro.37 Logo, foi contratado
pela sociedade Thalia Bahiense que se apresentava no Teatro de São Pedro de Alcântara.38
Estreou em espetáculo beneficente a 28 de abril de 1848. Permaneceu nesse teatro até o mês de outubro de 1848, quando se transferiu para a companhia dramática do Teatro de São João, com a dupla função de primeiro ator e inspetor de cena. Sua presença, apesar de ativa, não atraía a atenção dos folhetinistas e espectadores, que começaram a enaltecê-lo somente após a estadia de João Caetano.
Em 1850, Germano Francisco foi para o Recife. Lá, assumiu a direção do recém- criado Teatro de Santa Isabel, com direito a um subsídio anual de quinze contos de réis.39 A inauguração do teatro ocorreu a 18 de maio de 1850, em espetáculo que exibiu o drama O Pajem de Aljubarrota, de Mendes Leal. Foi no Teatro de Santa Isabel que Germano Francisco passou a desempenhar as funções de um empresário teatral. Na Bahia, fora apenas inspetor de cena e primeiro ator do Teatro de São João. Em Pernambuco, tornou-se empregado público com o título de administrador do Teatro de Santa Isabel. Assim que assumiu a direção,
37 Em um dos folhetins teatrais de A. Ronzi, publicados pelo periódico Correio Mercantil, o cronista anunciou
brevemente o espetáculo beneficente em favor de Germano Francisco, recém-chegado a Salvador: “Sexta-feira, 28 do corrente, levar-se-á à cena do Teatro de S. Pedro de Alcântara, a tragédia Nova Castro em benefício do 1º galã Germano Francisco de Oliveira, artista do Teatro de S. Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro, aqui chegado não há muito”. (A. R. Correio Mercantil, Salvador, 27 abr. 1848, Crônica teatral, p. 2).
38 O Teatro de São Pedro de Alcântara se localizava na Rua de Baixo de São Bento, em Salvador. Foi desativada
em 1879. (Cf. RUY, 1959, p. 86-87).
Germano Francisco investiu na composição de cenários, figurinos e na formação de um arquivo teatral. Manteve uma companhia lírica italiana e um corpo de baile permanentes.40
Em agosto de 1852, antes de se instalar no Maranhão para assumir a direção do Teatro São Luiz, Germano Francisco realizou curta temporada de espetáculos no Ceará. Foi acolhido e auxiliado pelo cearense Henrique Ellery. Ali permaneceu “o intervalo de um vapor”41 e ofereceu apenas três récitas no Teatro Thaliense42, nas quais protagonizou
melodramas franceses do repertório de João Caetano, a saber: A Gargalhada, D. César de Bazan e O Marinheiro de Saint-Tropez.
Germano Francisco dali partiu, em dezembro de 1852, acompanhado dos artistas Silvestre Francisco Meira, Raimundo José de Araújo, Antônio José Alves, Manoel Antônio Nunes, Joana Januária.43 A companhia dramática rumou para o Maranhão, onde, em março de
1853, Germano Francisco assumiu a administração do Teatro São Luiz44, em contrato com o governo da província. O ator-empresário se beneficiou de um subsídio do Tesouro Público Provincial na quantia de quinhentos mil réis, de março a junho de 1853, e de seiscentos mil réis, de julho de 1853 a fevereiro de 1854.
Enquanto ocupava a direção do Teatro São Luiz, a companhia dramática de Germano Francisco realizou uma temporada de espetáculos em Belém, no Pará, de março a maio de 1854. Não foi possível fazer o levantamento das peças que a trupe encenou no Teatro Providência.45 Segundo Vicente Salles, Germano Francisco representou peças que recorriam “aos grandes lances dramáticos que o texto comportava, como o punhal, o rapto de crianças, traições, falso testemunho, o veneno e outras maquinações tenebrosas”.46 Ou seja, o artista
40 Cf. SERRA, 1862, p. 12.
41 O SR. GERMANO. O Cearense, Fortaleza, 17 ago. 1852, p. 4.
42 O Teatro Thaliense, localizado na Rua Formosa (atual Rua Barão do Rio Branco), foi inaugurado em 1842. A
sala de espetáculos continuou ativa até 1872. (Cf. COSTA, Maria Clélia Lustosa. Urbanização da sociedade fortalezense. Revista do Instituto do Ceará, 2008, p. 199. Disponível em:
<http://www.institutodoceara.org.br/revista/Rev-apresentacao/RevPorAno/2008/08- Art_Urbanizacaodasociedadefortalezense.pdf>. Acesso em: 16 out. 2015).
43 Cf. NAVIOS saídos no dia 21. O Liberal Pernambucano, Recife, 23 dez. 1852, Movimento do porto, p. 4. 44 Após as reformas empreendidas pelo governo do Maranhão no edifício do Teatro União, este foi reaberto, a 14
de março de 1852, como Teatro São Luiz. A sala de espetáculos foi novamente reformada em 1862. Sobre a administração, as companhias dramáticas e o repertório encenado nessa sala de espetáculos no período em que Germano Francisco ali atuou, ver MENDES, 2014, p. 27-118.
45 O Teatro Providência, localizado no Largo das Mercês, foi inaugurado em 1835. Manteve-se inativo durante
grande parte da revolta da Cabanagem, que durou de 1835 a 1840. Com o final da revolta, voltou a oferecer récitas frequentes. Sofreu um incêndio em 1872. Após a inauguração do Teatro da Paz, o Teatro Providência foi relegado a segundo plano. (Cf. SOUZA, Roseane Silveira de. Teatro da Paz: histórias invisíveis em Belém do Grão-Pará. Anais do Museu Paulista, São Paulo, vol. 18, n. 2, p. 93-121, dez./2010. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142010000200003>. Acesso em: 23 out. 2015).
representou em Belém, muito provavelmente, os melodramas que já integravam o seu repertório.
Germano Francisco permaneceu na direção do Teatro São Luiz até abril de 1855.47 Em 22 de maio desse ano, sua companhia dramática retornou ao Ceará. Acompanharam o empresário, os atores Manoel Antônio Nunes, Raimundo José de Araújo, Júlio dos Santos Pereira, Antônio Bastos Pinto e Francisco Libânio Colás Filho, e as atrizes Manoela Lucci (?-1898) e Carmella Lucci. Quando a companhia de Germano Francisco se despediu do Ceará, em julho de 1855, Victoriano Augusto Borges, diretor do Teatro Thaliense, fez publicar na imprensa suas palavras de reconhecimento pelos trabalhos prestados. Agradeceu a Germano Francisco o zelo com o guarda-roupa do teatro, os reparos que fizera nos cenários e os espetáculos beneficentes que oferecera em favor do Hospital de Caridade.48
A companhia dramática de Germano Francisco aportou no Pará, em 1857, para uma nova temporada de espetáculos. Nessa época, Antônio Maximiano da Costa, ex- integrante da trupe, dirigia o Teatro Providência. Muito provavelmente, as relações de amizade entre ambos facilitaram as negociações para a nova turnê no Pará. No final de junho do mesmo ano, Germano Francisco retornou a Pernambuco.
Em setembro de 1857, reassumiu a direção do Teatro de Santa Isabel, ocupação que exerceu até meados de 1861.49 Enquanto era empresário do teatro em Pernambuco, Germano Francisco realizou a primeira temporada de espetáculos no Sul do Império, em 1860. Isso demonstra que o ator, mesmo com a administração fixa de um teatro, excursionava pelas províncias brasileiras para se apresentar em outras salas de espetáculos, ou até mesmo dirigi-las.
No palco do Teatro Sete de Setembro, em Rio Grande, o artista protagonizou Pedro e Os Dois Renegados, de Mendes Leal, e O Mosteiro de Santo Iago, de Burgain. Seguindo o trajeto comum das trupes que realizavam temporadas de espetáculos no Rio Grande do Sul, a companhia dramática de Germano Francisco se despediu de Rio Grande e partiu rumo à cidade de Pelotas, onde era aguardada.
Em Pelotas, ofereceu espetáculos no Teatro Sete de Abril, entre 19 de agosto e 11 de outubro de 1860.A temporada previa vinte récitas, cujo pagamento adiantado deveria ser feito pelos espectadores a cada cinco espetáculos. Germano Francisco se comprometera a
47 Cf. MENDES, 2014, p. 45-46 e 57.
48 BORGES, Victoriano Augusto. O Commercial, Fortaleza, 26 jul. 1855, A pedidos, p. 3.
49 Cf. SILVA, José Amaro Santos. Música e Ópera no Santa Isabel: subsídio para a história e o ensino da música
representar dez dramas e comédias novas de três a cinco atos, e dez pequenas comédias de um a dois atos, ornadas ou não de músicas.50 Domingos Antônio Felix da Costa estava incumbido do recebimento dos pagamentos adiantados das assinaturas. Isso revela um dado importante da economia dos espetáculos na época, ou pelo menos no que toca, especificamente, às turnês da companhia dramática de Germano Francisco. O recebimento antes do início da temporada garantiria a própria existência da turnê, ume vez que, a acumulação de recursos financeiros proveria o ator-empresário das condições necessárias para cobrir os gastos da viagem da trupe e o preparo dos primeiros espetáculos.
Após a temporada no Sul do Império, e com o fim do contrato de administração do Teatro de Santa Isabel, em Pernambuco, Germano Francisco retomou a direção do Teatro São Luiz, no Maranhão, em 1862. O artista assinou um contrato com o governo provincial, que lhe cedeu o teatro por seis anos com o direito a uma subvenção de seis contos de réis.51 Em 1863, enquanto aguardava a renovação do contrato, Germano Francisco realizou nova temporada no Ceará, durante os meses de fevereiro a junho. Na época, Germano Francisco não recebia a subvenção acordada com o governo provincial do Maranhão. Então, decidiu arrendar o Teatro São Luiz aos artistas José Couto Rocha e Francisco Libânio Colás e, assim, permanecer no Ceará. Manteve a concessão oficial do teatro até fevereiro de 1865, quando o governo rescindiu o contrato e concedeu a direção da sala de espetáculos a Vicente Pontes de Oliveira.
De ator, tradutor de peças francesas, ensaiador e empresário teatral, Germano Francisco passou a se dedicar também ao comércio. No Ceará, o ator abriu uma loja de tecidos e produtos variados de consumo (roupas, acessórios, sapatos, perfumes, candeeiros, lamparinas e vinhos), denominada América, e firmou sociedade com Domingos da Cunha Taborda. Porém, logo se despediu do ramo do comércio, desfazendo a sociedade em dezembro de 1864. A incursão de Germano Francisco no comércio revela a necessidade dos atores de buscarem outros meios de sobrevivência quando não usufruíam de subvenções dos governos. Isso demonstra que, nessa época, apenas a venda dos bilhetes dificilmente garantiria a manutenção financeira de uma companhia dramática.
Em 1864, verificamos a presença de Germano Francisco na empresa do ator Antônio José Duarte Coimbra, instalada no Teatro de Santa Isabel, em Pernambuco. Germano Francisco atuou na montagem de Luxo e Vaidade, de Macedo, peça que estreara no Teatro do Ginásio Dramático, no Rio de Janeiro, em 23 de setembro de 1860. Constatamos também sua
50 Cf. THEATRO 7 de abril. O Brado do Sul, Pelotas, 27 jul. 1860, p. 1-2. 51 Cf. MENDES, 2014, p. 86.
atuação em espetáculo de maio de 1865, quando protagonizou o melodrama Maria Joana, Mulher do Povo ou a Pobre Mãe, de Dennery e Mallian, traduzido pelo próprio ator.
Em outubro de 1869, após o incêndio devastador do mês anterior que destruíra o Teatro de Santa Isabel, Germano Francisco, que já havia estabelecido morada no Sul do Império, submeteu ao vice-presidente da província de Pernambuco uma proposta de reedificação da sala de espetáculos. O projeto previa dez meses para a reconstrução do edifício e reservava ao empresário o usufruto do teatro por dez anos. A proposta de Germano Francisco foi preterida e José Augusto de Araújo, escolhido como o novo administrador do teatro.
No final da década de 1860, os negócios que o ator-empresário mantinha no Norte, tanto no ramo do comércio de produtos de consumo quanto na atividade teatral, já não lhe rendiam os frutos de outrora, como constatamos com o anúncio do leilão de uma vivenda penhorada no Ceará para o pagamento de suas dívidas na praça. Germano Francisco pode ter se sentido motivado, então, a trocar as províncias do Norte pelo Sul.
Localizamos notícias de espetáculos esporádicos que ofereceu, em 1868, em Rio Grande – como a récita especial que festejou o “16º aniversário da grande batalha que nos campos de Monte Caseros sepultou o feroz despotismo do ditador João Manoel Rosas”52 –, e
em Pelotas, onde encenou O Ultraje, de Barrière e Plouvier, e 29 ou Honra e Glória, de José Romano.53 Em dezembro de 1869, o artista foi contratado como primeiro ator da companhia dramática do empresário José de Almeida Cabral, que se apresentava no Teatro São Pedro54, em Porto Alegre. O repertório era composto por dramas realistas, como Os Íntimos, de Victorien Sardou, e por melodramas de sucesso consolidado, como A Gargalhada e D. César de Bazan.
Germano Francisco logo encontrou a oportunidade de retornar aos palcos da Corte do Império. Almeida Cabral dissolveu a trupe, em fevereiro de 1870, e rumou ao Rio de Janeiro com alguns artistas, dentre os quais Germano Francisco.55 No mesmo ano, o ator se tornou diretor de uma companhia dramática no Teatro de São Pedro de Alcântara. A “Empresa Germano” ofereceu espetáculos entre 1870 e 1871, selando, ao que tudo indica, o
52 RIO Grande do Sul. Cearense, Fortaleza, 4 mar. 1868, Noticiário, p. 3.
53 As duas representações em Pelotas foram mencionadas por MÜLLER, 2010, p. 320.
54 O projeto de edificação do Teatro São Pedro data de 1833, quando o presidente da província, Manoel Antônio
Galvão, doou um terreno localizado no centro de Porto Alegre para a sua construção. As obras foram interrompidas durante a Revolução Farroupilha, sendo retomadas em 1847. O Teatro São Pedro foi inaugurado a 27 de junho de 1858. A sala de espetáculos continua ativa até os dias atuais. Sobre o teatro, ver FERREIRA, 1956, p. 39-59.
fim de sua carreira teatral, tendo em vista que, após essa data, as notícias sobre o ator nos palcos se esvaneceram.
Durante a maior parte de sua carreira artística e empresarial, Germano Francisco atuou nos principais teatros do Norte. No Teatro de São João (Bahia), além de primeiro ator, iniciou-se como ensaiador. No Teatro de Santa Isabel (Pernambuco) e Teatro São Luiz (Maranhão), organizou companhias dramáticas sob um sistema que, excetuando as subvenções que recebeu dos dois governos, aproximou-se do stock system, modo de exploração do teatro baseado no duplo princípio de “existência de uma trupe permanente (stock), de uma parte; de outra parte, a direção desta é assumida por uma pessoa que é simultaneamente diretor da trupe e diretor do teatro”.56 Nesse sistema, o diretor escolhe os
atores, distribui os papéis e dirige as representações, funções que, como averiguamos, foram realizadas por Germano Francisco.
Além disso, o stock system prevê que uma parte das representações se faça em outras cidades ou teatros, mas que essa exploração externa permaneça secundária face à atividade principal, que é a permanência em um teatro. As companhias dramáticas dirigidas por Germano Francisco também apresentaram essa característica, tendo em vista que, durante os momentos de renovação dos contratos ou de suspensão temporária dos espetáculos no teatro permanente, neste caso em Pernambuco e Maranhão, o diretor, acompanhado dos artistas de maior destaque de sua companhia realizaram temporadas no Teatro Thaliense (Ceará), no Teatro Providência (Pará), no Teatro de São Januário (Rio de Janeiro), no Teatro Sete de Setembro e no Teatro Sete de Abril (Rio Grande do Sul).
O repertório que Germano Francisco representou nas províncias brasileiras era constituído, majoritariamente, por traduções de melodramas franceses. Protagonizou com frequência peças do repertório de João Caetano, como A Dama (O Marinheiro) de Saint- Tropez, A Gargalhada, A Graça de Deus e D. César de Bazan. Apesar de representar os melodramas de grande sucesso, Germano Francisco se distinguiu de João Caetano por ter apresentado um repertório diversificado de peças musicadas e farsas.
O ator protagonizou o papel do Príncipe Henrique na ópera bufa em dois atos Cosimo ou o Príncipe Caiador (Cosimo, TOC, 1835), de Saint-Hilaire e Duport; representou a personagem Conde de São Germano na peça em três atos entremeada de cantos O Diabo ou o Conde de São Germano, também denominada O Conde de São Germano ou o Diabo em Paris (Le Comte de Saint-Germain, TVa, 1834), de Depeuty e Fontan; e encenou a comédia-
56 LEROY, 1990, p. 213-214. No original: “existence d’une troupe permanente (stock), d’une part ; d’autre part,
vaudeville em três atos As Memórias do Diabo (Les Mémoires du Diable, TVa, 1842), de Étienne Arago e Eugène Guinot.57
Germano Francisco também montou nas províncias peças musicadas brasileiras, como O Remendão de Smyrna ou um Dia de Soberania, de Burgain, representado em fevereiro de 1852, no Teatro de Santa Isabel. Esse vaudeville em três atos havia sido criado no Teatro de São Januário, em 1839, pela companhia dramática portuguesa de Ludovina Soares. Ou seja, o gênero já estava presente nos palcos do Rio de Janeiro antes da chegada da companhia francesa de Ernest Gervaise, em 1841. Representou nos teatros do Norte e do Sul do Império O Fantasma Branco, de Macedo, que estreara a 22 de junho de 1851, no Teatro de São Pedro de Alcântara, ensaiada por João Caetano. Em Pelotas, Germano Francisco encenou A Saloia, de Joana de Noronha, argentina radicada no Brasil e casada com o músico português Francisco de Sá Noronha. Estudada como romancista e pelas contribuições ao jornalismo feminino, Joana de Noronha é praticamente desconhecida como dramaturga. A Saloia é um drama ornado de música que trata da condição social de uma atriz (a saloia), que decide os rumos de seu destino, abdicando do casamento com um grande amor em favor de sua carreira artística.
Ao lado dos heróis dos melodramas e das peças musicadas, Germano Francisco, a partir da formação de sua companhia dramática em Pernambuco, em 1850, passou a encenar também papéis farsescos. Isso revela sua versatilidade como ator, capaz de se adequar tanto aos tipos sérios dos melodramas quanto aos cômicos. Sua companhia dramática desempenhou um importante papel na difusão da dramaturgia de Martins Pena nas províncias de Pernambuco e Maranhão. Em Pernambuco, os artistas montaram Os Irmãos das Almas e Quem Casa, Quer Casa, no Maranhão, O Noviço e O Juiz de Paz da Roça, e nas duas províncias, O Diletante, Os Dois ou o Inglês Maquinista e O Judas em Sábado de Aleluia. Nas representações de O Diletante, Germano Francisco desempenhava o papel do paulista Marcelo, e de O Judas em Sábado de Aleluia, encarnava o espevitado Faustino.
A atuação de Germano Francisco nas províncias do Norte em papéis cômicos criados por Martins Pena permite propor algumas considerações sobre a presença da dramaturgia desse autor nos palcos brasileiros. Dos atores-empresários mais importantes da época, Germano Francisco foi o mais receptivo às produções farsescas de Martins Pena. Como constatamos a partir das representações, as peças desse autor obtiveram aceitação nos