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Dans le document 10 MAI 2022 à 12h00 (heure de Paris) (Page 8-11)

Por meio da história da teoria celular, também podemos aprender sobre a organização social da ciência. Já discutimos que o desenvolvimento desta teoria originou-se durante o século XVII, a partir dos trabalhos de Hooke, Malpighi, Grew e Leeuwenhoek. Além disso, também já argumentamos que os estudos realizados por esses pesquisadores estiveram associados a uma das principais instituições da época, a Royal Society.

Foi em seu trabalho para essa sociedade que Hooke foi estimulado a realizar suas inúmeras observações microscópicas e publicá-las posteriormente em sua Micrographia, no ano de 1665 (DRÖSCHER, 2009; MARTINS, 2011). Nessa mesma época, Malpighi realizou seus estudos sobre a anatomia vegetal e publicou-os junto à Royal Society a partir de sua obra Anatome Plantarum (Anatomia Vegetal) (1675) em duas partes, em 1675 e 1679 (NORDENSKIÖLD, 1936; BOLAM, 1973; HUNTER, 1982).

Da mesma maneira, na década seguinte, Grew trabalhou como secretário dessa instituição e produziu suas pesquisas microscópicas, tendo inclusive, a oportunidade de trabalhar com Hooke (MIALL, 1912). Após debruçar-se sobre a área da anatomia vegetal e comunicar suas ideias à Royal Society em vários discursos, teve seu livro publicado em 1682, sob o título The Anatomy of Plants (BOLAM, 1973; MENDELSOHN, 2003; DRÖSCHER, 2009).

Por fim, é possível mencionar as centenas de correspondências que Leeuwenhoek endereçou a essa sociedade por mais de 50 anos (ORNSTEIN, 1928). Foi através desse meio de comunicação que o mesmo divulgou e publicou o resultado de suas inúmeras observações feitas com o auxílio do microscópio (BAKER, 1948; HUGHES, 1959; HARRIS; 1999; MASTERS, 2008; OSORIO; GOMES, 2013).

Em vista disso, podemos concluir que os primeiros trabalhos relativos ao estudo das células estiveram profundamente relacionados ao contexto da Royal Society. Devido a essa importância, entendemos que o estudo dessa instituição pode nos auxiliar a compreender algo a respeito da organização da ciência durante aquele período.

De acordo com Applebaum (2005), durante o século XVII a ciência esteve organizada em instituições como a Royal Society. Além desta sociedade, podemos mencionar como outros exemplos a Accademia del Cimento (1657) e a Académie Royale des Sciences (1666), estabelecidas respectivamente na Itália e França (BLAIR, 2006).

Ao comentar sobre a organização dessas sociedades, Shapin (2006) afirma que elas geralmente eram desenvolvidas a partir de uma comunidade de pesquisadores que estavam reunidos em torno de uma busca colaborativa pelo conhecimento da natureza. Outra característica significativa das mesmas diz respeito ao modo de adesão de novos membros. De acordo com Serjeantson (2006), nenhuma delas era pública, visto que sua participação era restrita, estatuária ou informal, somente podendo um naturalista ser aceito como membro ou correspondente das sociedades científicas por indicação de outros estudiosos.

Apesar desses aspectos comuns, Shapin (2006) argumenta que as sociedades científicas do século XVII não exibiam um padrão único e conciso, no que diz respeito à sua estrutura organizacional. Todavia, no caso da Royal Society, ela era caracterizada por ser uma organização autônoma que elegia seus funcionários, novos membros e um conselho (APPLEBAUM, 2005). Embora houvesse a possibilidade de não-membros contribuírem com observações via correspondência, as atividades cotidianas dessa instituição sempre eram realizadas por um grupo minoritário de aproximadamente 20 membros (BLAIR, 2006).

Esse núcleo pequeno, mas sempre ativo, participava de reuniões - que não possuíam uma agenda específica - e discutiam os resultados de novos experimentos e descobertas realizadas pelo curador de experimentos (cargo ocupado, por exemplo, por Hooke). Posteriormente, os resultados obtidos nesses encontros, bem como as cartas enviadas por pesquisadores de outros países, eram debatidos e posteriormente publicados pelo periódico dessa instituição, Philosophical Transactions (BLAIR, 2006; MARTINS, 2011; ORNSTEIN, 1928).

Por fim, é válido mencionar que algumas dessas instituições possuíam uma estreita relação com a realeza de seus respectivos países. A Royal Society e a Académie Royale des Sciences, por exemplo, emergiram a partir do decreto dos reis Carlos II e Louis XIV, respectivamente (APPLEBAUM, 2005; MARTINS, 2011). Moran (2006) argumenta que essa associação visava, de um lado, ressaltar o valor social do monarca e, de outro, conferir prestígio intelectual e legitimidade às afirmações científicas.

Embora o surgimento dessas duas instituições tenha sido outorgado pelos seus respectivos reis, a forma como o patrocínio real ocorria em ambas era bastante diferente. Por exemplo, os membros da Académie des Sciences da França recebiam uma bolsa anual como oficiais do rei, a qual era paga pelo próprio ministro do monarca (APPLEBAUM, 2005; BLAIR, 2006). Além disso, também era oferecido aos seus participantes generosos salários, bem como auxílios de outra natureza – a Huygens, por exemplo, foi oferecido um apartamento no Palácio do Louvre (DEAR, 2001). Diferentemente destes, os membros da Royal Society não obtinham auxílios dessa natureza (embora eles não fossem necessitados), mas, ao contrário, financiavam essa instituição, através do pagamento de uma assinatura anual (BLAIR, 2006).

De acordo com McClellan (2003), a organização e institucionalização da ciência na forma de instituições amadureceu ao longo do século XVIII. Entretanto, ao final do século XIX, a ciência alcançou uma nova configuração, que passou a incluir sociedades científicas mais especializadas, periódicos cada vez mais focados em campos específicos e um novo sistema universitário. Nesse período, também houve a consolidação da carreira dos cientistas como uma profissão distintiva. Se antes a investigação científica era praticada por pessoas de diversos setores da sociedade (e.g., médicos, membros do clérigo, militares etc.), tipicamente sem ser sua principal ocupação, agora esta passava a exigir um treinamento especializado junto a uma universidade, bem como uma dedicação mais integral ao trabalho científico (APPLEBAUM, 2005; SHAPIN, 2006).

A realização do trabalho científico no seio de universidades e institutos de pesquisa foi essencial para a elaboração da teoria celular a partir da década de 1830. Foi neste local que os principais estudos sobre as células ocorreram, em campos como a histologia animal, a anatomia vegetal, a fisiologia humana, a patologia. Dentre os inúmeros pesquisadores que desenvolveram suas pesquisas no âmbito dessas instituições, podemos citar Purkinje, Müller, Henle, Valentin, Schleiden, Schwann, Remak, Reichert, Kolliker, Schultze e Virchow (BAKER, 1948; HARRIS, 1999; ŽÁRSKÝ, 2012; RIBATTI, 2018). Com exceção do primeiro, todos os outros cientistas listados realizaram suas investigações na Universidade de Berlim sob a orientação de Müller (MALKIN, 1990). Por exemplo, foi na Universidade de Berlim, onde trabalhou no laboratório de Müller, que Schleiden desenvolveu seus estudos sobre as plantas (RIBATTI, 2018). Do mesmo modo, entre 1834 a 1839, Schwann investigou os tecidos dos animais nessa mesma instituição, sob a supervisão de Müller (DUSCHENEAU, 1987; PARNES, 2003).

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