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Preparation of nanoporous calcium phosphate

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1.2 Description of the ANR project

1.2.3 This work in the setting of the ANR project

1.2.3.1 Preparation of nanoporous calcium phosphate

Mostramos que a relação entre alimentação e saúde não é um privilégio da sociedade contemporânea, mas que ela o faz de maneira bastante enfática, trazendo para o cotidiano toda uma gama de conhecimentos científicos sobre o assunto e uma pressão sobre o indivíduo, estigmatizado se não segue as instruções disponibilizadas. Há, por um lado, maior conhecimento sobre o alimento saudável, que traria um maior conforto com relação à saúde, mas, por outro, traz também a pressão sobre o indivíduo e sua responsabilização sobre o sucesso de sua saúde.

Esses conhecimentos e o desenvolvimento de novos produtos alimentícios tem relação íntima com as transformações sociais, levando a um perfil peculiar de estilo de vida e cultura culinária, sendo cada vez mais globalizadas e ao mesmo tempo adaptadas às diferentes culturas regionais.

Observamos também que os conhecimentos são legitimados através dos discursos científicos traduzidos e transmitidos pelas mídias, tanto privada (mercado) como pública (governos). E que os principais cientistas apresentados nestes discursos são os nutricionistas e os médicos, cuja formação está focada no bom funcionamento do corpo e, portanto, nas interferências dos alimentos no organismo. Sendo estes, portanto os porta-vozes do saudável.

Outros cientistas e engenheiros, no entanto, estão envolvidos nesta produção de conhecimento e produtos alimentícios saudáveis. Estes, por sua vez, utilizam-se dos próprios conhecimentos dos consumidores e suas expectativas para desenvolver inovações alimentares. Destacamos que nas comunicações científicas relacionadas à produção industrial dos alimentos, os cientistas não discutem sobre o que é ou não considerado saudável, focando o debate na produção de alimentos que atendam a esse conhecimento compartilhado na sociedade sobre alimento saudável. O que leva a nossa hipótese de que os cientistas e engenheiros de alimentos não constroem o discurso do saudável, mas ajudam em sua divulgação (reprodução) na medida em que oferecem artefatos que concretizam e objetificam os conhecimentos produzidos por outros cientistas (médicos e nutricionistas).

89 Vimos que as duas concepções relacionadas à alimentação saudável, identificadas tanto nas informações sobre os consumidores quanto nas comunicações científicas, podem ser categorizadas em dois segmentos: o de seguridade de alimentos e o de nutrição. Essas duas categorias, por sua vez, podem estar relacionadas com duas perspectivas de saúde desenvolvida e discutida na sociedade moderna: a concepção positiva e a concepção negativa de alimentos. A categoria ―seguridade de alimentos‖ está relacionada à noção negativa, ou seja, a de ausência de doenças. Já a categoria de preocupações nutricionais relaciona-se a concepção positiva de saúde, uma concepção ligada ao tratamento preventivo de doenças (ou seja, tratá-las antes que surjam) e a percepção de que a saúde pode ser crescentemente aperfeiçoada.

Neste primeiro capítulo buscamos apresentar algumas das discussões associadas à alimentação saudável para contextualizar o que chamamos de campo científico-técnico de produção industrial de alimentos. Nosso objetivo é apresentar o quadro sobre o qual estamos analisando. Nosso intuito é compreender o papel dos cientistas e engenheiros de alimentos na construção desse debate sobre o alimento saudável. Pretende-se evidenciá-los como atores centrais neste processo, pois são quem realiza os conhecimentos por meio da produção de artefatos (produtos alimentícios) apesar de não visualizados pelos consumidores, já que, ao se falar sobre alimentação saudável, imediatamente passam pelo imaginário o médico e o nutricionista.

No capítulo seguinte, apresentaremos a discussão teórica a partir da qual analisamos nosso objeto de pesquisa. Aí veremos porque nos referimos às ideias de campo, de processo, de tradução e compartilhamento de conhecimentos. É interessante destacar que os conhecimentos indicados nas pesquisas sobre consumidores e as pesquisas científicas compartilham de um mesmo fundamento – os conceitos de risco, saúde, saudável, qualidade dos alimentos, confiança –, embora, claro, de modos diferentes, sendo as comunicações científicas representações técnicas desses conhecimentos. Nesse processo de construção de conhecimentos, criam-se também nichos de trabalho e divisão social do trabalho relacionado à produção industrial de alimentos que levam ao nosso conceito de campo acadêmico da produção industrial de alimentos. O campo, como veremos, é construído em torno de certas diferenciações que destacam o campo. Outros conceitos, ou concepções, que serão problematizadas são ―qualidade de alimentos‖ e ―risco-segurança‖. Estes não são conceitos determinísticos,

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mas constantemente redefinidos nos cotidianos de trabalho dos cientistas e engenheiros.

As esferas públicas e privadas, divulgam, traduzem e articulam os conhecimentos subjacentes aos alimentos considerados saudáveis e a partir destes traçam metas e planos de atuação que envolvem toda a sociedade (consumidores, indústria, governo). É interessante notar como a temática torna-se um campo magnético, que envolve diferentes atores sob uma mesma problemática.

Quisemos também destacar a importância da fundamentação científica e técnica de conhecimentos que legitimem e enriqueçam a problemática, destacando que o discurso e também as práticas científicas (fatos e artefatos) são cruciais para a conformação de uma visão confluente de alimento saudável. Mostramos que as divergências e transformações nas alegações científicas servem também como legitimadores na medida em que evidenciam o esforço pelo aperfeiçoamento científico e técnico que assim possibilitam superações e contradições que tendem a confirmar ou refutar conhecimentos, bem como criar novos. Com base nessa problematização identificamos uma estrutura articuladora que nos levou a procurar conceitos que dessem conta de auxiliar na compreensão da problemática em termos da influência exercida pela ciência e pela técnica. Assim, com relação à formação desse ―campo de força‖ organizado e balizado por uma divisão científica do trabalho, escolhemos um autor clássico nessa área, Pierre Bourdieu e sua definição de campo profissional. Para compreender a construção desse campo magnético ou rede de articulação buscamos inspiração em Bruno Latour (2000) e na sua descrição sobre o trabalho científico e nas várias articulações e traduções para a tessitura da rede que conforma uma caixa-preta. Isso considerando que partimos, como já apontado, do pressuposto que alimento saudável é uma caixa-preta.

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