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Diversos são os exemplos de museus tanto a nível internacional, como nacional que se encontram instalados em edificações históricas, de cariz religioso ou laico, do século XX, ou anteriores376. Estas instituições museológicas pelos circunstancialismos inerentes, muitas vezes

relacionados com o próprio local de implantação, possuem espaços de reserva que não se acham adaptados às novas exigências funcionais, supracitadas. Nestes casos, poderá ser realizado um processo de restruturação do espaço, tentando remodelá-lo, e deste modo conferir-lhe mais-

376 A nível internacional veja-se o exemplo do Musée du Louvre, ou o Musée des Arts et Metiers, ambos em Paris,

valias377. Contudo, nem sempre é possível desenvolver estas conversões arquitectónicas, tal

como projectar a ampliação da reserva, pela exiguidade do recinto, ou por não haver de todo espaço físico para o fazer. Uma opção que pode ser colocada é a deslocalização das reservas378.

Um projecto de deslocalização de reservas pressupõe uma profunda reflexão por parte de toda a equipa do museu, já que esta medida tem implicações nos diversos sectores da instituição (colecção, meios humanos, funcionamento), englobando como seria expectável pontos positivos / vantagens, como pontos menos bons / desvantagens.

De acordo com Frédéric Ladonne379, subsistem certas tendências nas vantagens e

inconvenientes da deslocalização de uma reserva. Em termos de meios constata-se um aumento das necessidades de meios financeiros, humanos e materiais, devido à existência de dois imóveis e subsequente duplicação de serviços técnicos, alguns inerentes ao transporte de obras da reserva para o museu e vice-versa (local para a recepção e preparação de obras, local para acondicionamento de embalagens, sala de quarentena, …). Também se verifica um acréscimo de tempo na execução de certos procedimentos (embalamento, desembalamento das obras, viagens entre edifícios, …). No que toca à conservação dos objectos culturais, apesar de haver um aumento considerável dos riscos para as colecções motivados pelo trânsito das obras, há uma melhoria das condições de conservação, já que o processo de deslocalização de uma reserva visa justamente o armazenamento das peças num novo local que afiance as condições essenciais para a conservação e preservação das colecções. Em termos de funcionamento há uma melhoria quantitativa de certos aspectos, dos quais se destacam o aumento de espaço e maior grau de funcionalidade, atendendo a que os locais estão adaptados ao museu e ao seu projecto, porém o processo de gestão é mais difícil no que se refere ao pessoal, as equipas têm que estar divididas, por vezes terá de haver uma maior polivalência, e a carência de recursos humanos poderá obrigar à contratação de mais técnicos, o que originará um acréscimo das

377 Vd. HERRERO DELAVENAY, Alicia; RALLO GRUSS, Carmen - Una visión del panorama internacional.

ICOM España Digital – Colecciones en depósito: Experiencias en reservas nacionales e internacionales. N.º 4 [s.

d.], pp. 36-42.

378 Vd. FONT PAGÈS, Lídia - Unos almacenes externos diseñados al servicio de la arqueología: Museo de

Historia de Barcelona. ICOM España Digital – Colecciones en depósito: Experiencias en reservas nacionales e

internacionales. N.º 4 [s. d.], pp. 19-25.

379 LADONNE, Frédéric – Les projets de reserves délocalisées: Annexes ou extensions du musée? Paris:

despesas. A vertente da segurança também se torna mais complexa, face ao aumento do número de procedimentos que têm que ser implementados. Dependendo do tipo de gestão existente, o acesso às obras poderá tornar-se mais difícil ou não, podendo traduzir-se na diminuição de obras consultadas e haver menos informações sobres as colecções. Quanto às consequências da criação de reservas externas Luc Remy também refere ao nível funcional a necessidade de serem asseguradas as funções ligadas ao estudo e consulta das colecções em ambos os locais (de exposição permanente e de reserva), tal como a função de empréstimos de obras deverá ser capaz de gerir tanto os movimentos após a saída do museu, como da reserva. No domínio organizativo menciona que a localização dos objectos deverá ser perfeitamente conhecida, a cada instante, e gerida em tempo real por um sistema informático em rede, permitindo que cada conservador ou gestor da colecção tenha acesso a esse tipo de informação; os objectos que não se encontrem no site do museu deverão estar disponíveis para consulta num computador no museu380.

Do ponto de vista de Frédéric Ladonne:

Une réserve délocalisée ne peut donc plus seulement se résumer à un lieu et une colection. Il ne peut donc y avoir de dissociation entre la réserve et sa régie (locaux et personnels). On peut maintenat definer le pôle réserves délocalisées comme: un espace de conservation et de consultatuion des oeuvres, une équipe de régie, un lieu de travail, qui a pour but: d’assurer la conservation des oeuvres, de permettre le movement des oeuvres, de permettre l’étude des collections381.

380 REMY, Luc - Réserves communes: Stockage passif ou pôle de valorisation du patrimoine? Paris: Université

de Paris I – Panthéon - Sorbonne, 1998, p. 50-51. DESS Conservation préventive des biens culturels.

381 LADONNE, Frédéric – Les projets de reserves délocalisées: Annexes ou extensions du musée? Paris:

Apontam-se alguns dos museus que decidiram-se pela solução de reservas externas ao museu, indicando-se a distância a que reserva dista do edifício central: o Musée des Arts et Métiers, em Paris (cerca 10 Km), o Victoria & Albert Museum, em Londres (3 Km), o Science Museum, em Londres (dispõe de duas reservas: Blythe House a 3 Km, e a reserva de Wroughton a cerca de 130 km do museu), o Musée de la Civilisation, no Québec (10 Km), o Musée de Bretagne, em Rennes (1,5 Km), o Musée de L’Armée382, em Paris (cerca de 26 Km) [Figura 3

e 4], ou o Museum of World Culture, em Gotemburgo (3Km)383.

382 Le bâtiment 004 - Esta é a denominação da reserva localizada em Versailles-Satory, onde as colecções estão

conservadas em espaços respeitando as normas de conservação preventiva. O museu beneficiou da atribuição de um recinto de armazenamento suplementar, com uma superfície de 900 m2, afecta às colecções de artilharia pesada.

Nesta reserva estão conservados mais de 200 objectos de artilharia (armas, morteiros, granadas, em bronze, ferro fundido ou aço; carruagens de madeira ou de aço.). Este edifício foi equipado com estantes, o que facilita o armazenamento objetos sobre paletes. Esta escolha logística permite um armazenamento claro e simplificado e que o aumento da autonomia em termos de viagens das coleções (MUSÉE DE L’ARMÉE. Rapport d’activité

2011. Paris: Musée de L’Armée, 2011, pp. 58-59). Vd. BEAUJARD-VALLET, Sandrine - L’évolution du rôle

des réserves muséales: Les réserves délocalisées du musée de l’Armée. La Lettre de l’OCIM. N.º 138 (2011). [Consulta: 1.12.2013]. Http://ocim.revues.org/975

383 CARVALHO, Ana Alexandra Rodrigues – Diversidade Cultural e Museus no séc. XXI: O Emergir de Novos

Paradigmas. Évora: Universidade de Évora, 2015, p. 80. Tese de Doutoramento em História e Filosofia da Ciência;

Especialidade: Museologia.

Figura 3. Reserva deslocalizada do Musée de L’Armée - Le bâtiment 004; sistema de

armazenamento. (Fonte: MUSÉE DE

L’ARMÉE. Rapport d’activité 2011. Paris: Musée de L’Armée, 2011, p. 59).

Figura 4. Reserva deslocalizada do Musée de L’Armée - Le bâtiment 004; processo de movimentação de obras. (Fonte: MUSÉE DE L’ARMÉE. Rapport d’activité 2011. Paris: Musée de L’Armée, 2011, p. 58).

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