Partindo-se do fato de que há alunos que apresentam mais de uma NEE, mais precisamente os que apresentam talento e perdas auditivas, faz-se pretenso discorrer algumas reflexões sobre essa questão.
A literatura especializada é escassa ao tratar da temática, principalmente, a brasileira. Para Ourofino; Fleith (2005, p. 166) a dupla condição de necessidade educacional especial “nos últimos anos, nota-se um tímido aumento no número de estudos empíricos sobre o tema”.
Sobre a mesma escassez, Winstanley (2003) pontua que é difícil definir a dupla excepcionalidade (termo utilizado pela autora), talento e perdas auditivas. Salienta que a
variedade de termos para definir o talento, bem como, a complexidade da cultura surda a faz singular entre as deficiências. Acrescenta que encontrar material sobre crianças altamente capazes que possuem perdas auditivas provou ser tarefa complexa7.
Ao se referir à definição de talento e perdas auditivas Winstanley (2003) assinala que ambos os grupos - pessoas com talento e perdas auditivas - são notoriamente difíceis de definir e, até mesmo, decidir sobre os termos de referência. Trata-se de um campo minado.
Quais características que as pessoas nessa condição dupla de NEE – talento e perdas auditivas - poderiam apresentar? Rangni; Costa (2011) indicam características que foram apresentadas, em 2007, no site de Education Resources Information Center
(ERIC)8,quais sejam: capacidade para ajustar à escola regular; capacidade na fala e
leitura sem instrução; rapidez no domínio das ideias; capacidade de raciocinar; alta performance na escola; muitos interesses; maneira não tradicional de absorver problemas; capacidade de resolver problemas do dia a dia, possivelmente em alto nível; atraso em conhecimento de conceitos; autoiniciativa; senso de humor; intuição; engenhosidade em resolver problemas; capacidade em linguagem de símbolos.
Winstanley (2003) explicita que há variedade de listas que enfocam os aspectos comportamentais e de personalidade mesmo entre a população com perdas auditivas. Essa variedade, muitas vezes, se contradiz. Desta forma, a mesma autora aponta para
7A mencionada autora refere-se à cultura surda como: “Such a discussion entails an explanation of the
complexity of deafness and deaf culture, a phenomenon that makes a deafness unique amongst ‘disabilities” (WINSTANLEY (2003, p. 11).
dicas que podem auxiliar no reconhecimento dos alunos com talentos e perdas auditivas, quais sejam: ser sociável; ser tímido; ter muitos amigos; não ter amigos; gastar longas horas na mesma tarefa, completando-a com perfeição; deixar coisas inacabadas uma vez que o pensamento principal não tenha sido realizado; ser sensível, aos que estão ao redor; demonstrar empatia limitada.
Winstanley (2003, p. 120), ainda menciona: “com tanta confusão, é difícil construir um perfil claro quando uma criança é mais capaz e o efeito da perda auditiva no comportamento na escola soma-se a um quadro mais complexo”.
Averigua-se que características apontadas não diferem, em sua maioria, daquelas indicadas para alunos talentosos. Vale ressaltar, que uma pessoa talentosa não necessariamente apresenta todas as características relacionadas.
Negrini (2009) em pesquisa realizada para identificar características de altas habilidades/superdotação9 em 28 crianças surdas, pré-escolares e dos ciclos iniciais em escola especializada para surdos salienta que as características encontradas são consonantes às outras crianças, pois, são pessoais e individuais. Menciona, ainda, que as características poderiam ser observadas em outras instituições de ensino. Apenas ressalta que, a escola de surdos facilita a identificação porque é valorizada a Libras e a forma de ser, seus interesses e habilidades.
No entanto, apesar das considerações explanadas por Negrine (2009), há um contexto forte promovido pela educação inclusiva remetendo para crescentes matrículas de alunos com perdas auditivas às escolas regulares e nesse ambiente, em escolas regulares, que este estudo se direciona.
No que tange ao reconhecimento da DNEE, Winstanley (2003, p. 115) aponta para o confinamento na dupla condição e assegura que: “Tradicionalmente, as necessidades e potenciais das pessoas têm sido quase totalmente ignoradas (...) este segmento da população (com perdas auditivas) pode representar a maior perda de potencial e sofrer grandes distúrbios emocionais por se acharem entre as pessoas com perdas auditivas”.
Sobre a provisão educacional para alunos em DNEE – talento e perdas auditivas Winstanley (2003) diz que alunos com perdas auditivas são normalmente excluídos de programas para talentosos e eles raramente passam pela rigidez da maioria dos procedimentos de identificações. Esse ponto de vista de Winstanley (2003, p. 119)
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possivelmente refere-se aos scores em testes padronizados quando destaca: “Crianças altamente capazes com fraquezas em um ou mais aspectos dos testes, não serão selecionados para programas para talentosos, por causa de seu baixo score que os depreciam”.
Também, Gerlach (2008, p. 12) explicita que:
Muitos educandos com dupla excepcionalidade são deixados à margem em programas especiais por causa de sua força e capacidade para compensar suas dificuldades. Além do mais, o mito prevalente que educação para talentosos e educação especial está em oposição e tende a fazer a identificação da dupla excepcionalidade mais problemática. 10
É notória a necessidade de estudos que contemplem esse grupo de pessoas. As poucas publicações sobre a temática, possivelmente, seja um dos entraves para que as bases teóricas e as práticas não cheguem às escolas para auxiliar no reconhecimento e serviços especializados às suas necessidades específicas.
Rangni; Costa (2011) apresentam uma rápida busca no site do Council for
Exceptional Children (CEC) do National Association for Gifted Children (NAGC) e no
qual foram encontrados seis artigos que contemplam a DNEE e são apresentados no Quadro 10.
Ordem Tipo de Publicação
Ano Autor(es) Título
1 Editorial S.D. Council for Exceptional Children - CEC
Twice exceptional
2 Artigo S.D. Council for Exceptional Children - CEC
Children with communication disorders.
3 Artigo S.D. Carolyn Cosmos Imagine teaching Robin Williams. Twice exceptional children in your school.
4 Artigo S.D. National Association for Gifted Children - NAGC
Twice – exceptional (gifted with special needs)
5 Artigo 1989 Yewchuk,C.; Bibby, M. A. Identification of giftedness in severely and profoundaly hearing impaired students
6 Artigo 1996 Vialle, W.; Paterson, J. Constructing a culturally sensitive education for gifted deaf students.
Quadro 10 – Artigos sobre duplicidade de NEE extraídos do CEC e NAGC
Dos artigos expostos, apenas dois tratam da DNEE – talento e perdas auditivas.
Yewchuk, Bibby (1989), em Identification of giftedness in severely and profoundaly hearing impaired students expõem um estudo com 178 alunos de 5 a 20 anos com severas perdas auditivas com acesso a teste de inteligência não verbal, indicação de professores e nomeação de pais. Não houve correlação entre os três procedimentos de identificação utilizados, no entanto, características muito similares foram encontradas em estudantes talentosos com perdas auditivas.
Vialle, Paterson (1996), no artigo Constructing a culturally sensitive education for gifted
deaf students discutem os problemas persistentes de identificação do talento em grupos
minoritários. A ênfase no idioma facilita a discriminação desses grupos. As pessoas com perdas auditivas têm o problema educacional relatado em sua capacidade de comunicação. Os referidos autores concluem que deve ser dado senso de orgulho e identidade no ambiente educacional e que reconheça as potencialidades e não direcionem para os déficits dos alunos. Ainda, discutem a valorização do Bilinguismo e Biculturalismo para os estudantes com perdas auditivas; como elemento essencial para educação dos talentosos e estender formação aos professores para se sensibilizarem quanto aos alunos com perdas auditivas.
Os quatro dos seis artigos expostos não terem datas, no entanto, sinaliza-se que os dois trabalhos sobre talento e perdas auditivas (1989, 1996) não são tão recentes.
Smith (2008, p. 2011) assinala que: “Lembre-se de que, não importa qual seja a deficiência, alguém pode ter capacidades, habilidades ou criatividade excepcionais” e recorda que pessoas com deficiência desenvolveram habilidades proeminentes como Ludwig van Beethoven, Helen Keller, entre outros, que se constituíram independentemente de suas deficiências graves e trouxeram contribuições com seus talentos.