Os principais aspetos que definem a escolha de uma metodologia de investigação centram-se nos objetivos do estudo em geral, e em particular nas questões a que se pretende dar resposta (Matos & Carreira, 1994). Como objetivo principal, pretendo analisar as potencialidades da literatura infantil na emergência do pensamento algébrico num grupo de crianças de 4 anos e, mais especificamente, dar resposta às seguintes questões:
1. De que forma pode a literatura infantil contribuir para a identificação de padrões por parte de crianças do pré-escolar?
2. Que estratégias utilizam as crianças para criar, analisar e generalizar padrões repetitivos e de crescimento?
3. Que estratégias utilizam as crianças para identificar a unidade de repetição de um padrão?
4. Que fatores influenciam a identificação de padrões?
Dada a natureza do problema a investigar, e tendo em vista as diferentes formas que um estudo poderá assumir, optei por uma metodologia de investigação qualitativa sob o paradigma interpretativo (Ponte,1994; Matos & Carreira, 1994; Yin, 1989) uma vez que podemos considerar como produto final, uma descrição completa do que se pretendeu compreender, sendo portanto uma investigação com ênfase nos significados e nos processos.
28 Bogdan e Biklen (1994) definem uma metodologia do tipo qualitativo como uma abordagem em que:
a) A fonte direta dos dados é o ambiente natural, sendo o investigador o instrumento principal;
b) A investigação qualitativa é descritiva;
c) Os investigadores interessam-se mais pelo processo do que simplesmente pelos resultados ou pelos produtos;
d) Os investigadores tendem a analisar os seus dados de forma indutiva; e) O significado é de extrema importância na abordagem qualitativa.
Ponte (1994) refere que uma das perspetivas teóricas essenciais que servem de inspiração à metodologia qualitativa é a perspetiva interpretativa. A ideia principal é a importância dada à atividade humana como experiência social, construindo-se e elaborando significados.
Uma vez que no decurso deste estudo pretendi descrever e interpretar a forma como um grupo de crianças de 4 anos reagiu às propostas de trabalho que implementei, ou seja, conhecer a realidade tal como ela é vista pelos diferentes participantes, parece-me encontrar no paradigma interpretativo uma opção que responde a este propósito. O estudo proposto teve um cunho descritivo, pretendendo-se dar a conhecer a realidade através de uma descrição “factual, literal, sistemática e tanto quanto possível completa do seu objecto de estudo” (Ponte, 1994, p. 4). Eu, como investigadora, não tive como objetivo confirmar hipóteses mas sim tentar compreender como emerge o pensamento algébrico na educação pré-escolar, num grupo específico de crianças de 4 anos, num contexto de exploração de literatura infantil.
Este tipo de metodologia é particularmente adequado quando: (i) as questões do “como” e do “porquê” são fundamentais; (ii) o foco do estudo é um fenómeno que se passa num contexto real; (iii) existe pouco controlo sobre os acontecimentos e (iii) não é possível separar as variáveis do fenómeno do seu contexto, remetendo-se sobretudo a dados reais (Lessard-Hebert, Goyette & Boutin, 1990). Além disso, trata-se de um estudo holístico em que a realidade é tida em conta na sua globalidade (Carmo & Ferreira, 2008).
29 Assumi neste estudo o duplo papel de docente-investigadora, uma vez que tomei a decisão de realizar o estudo no meu próprio grupo, considerando todos os benefícios e constrangimentos que poderiam surgir.
Por um lado, procurei o distanciamento necessário para poder observar e analisar as situações sem ser influenciada por conhecimentos prévios que pudessem afetar a análise dos resultados. Eisenhart (citada por Ponte, 2002) refere que “o investigador deve estar envolvido na atividade como um insider e ser capaz de refletir sobre ela como um
outsider” (p. 9), ou seja, o próprio investigador tem que ter em conta os seus pontos de
vista mas também os dos participantes, os dos seus estudos e as vivências da comunidade onde ambos estão inseridos.
Por outro, ao assumir a decisão de realizar o estudo no meu próprio grupo esperava ter a possibilidade de compreender e aprofundar alguns aspetos relativos ao desenvolvimento do pensamento algébrico na sua relação com a literatura infantil e a forma como as crianças estabelecem essa conexão. Uma vez que o grupo foi o mesmo do ano letivo anterior, as relações interpessoais estavam estabelecidas, existindo um conhecimento anterior das crianças e das suas capacidades a nível pedagógico.
O efeito do observador, descrito por Bogdan e Biklen (1994) e Lessard-Hebert et al. (2005), foi atenuado, já que o facto de realizar este estudo com este grupo reduziu possíveis alterações de comportamento, sendo a minha presença considerada como natural e não intrusiva. O contexto do estudo foi natural e os participantes tiveram tendência para agir de modo habitual. Os instrumentos utilizados para recolha de dados, nomeadamente para registos áudio, vídeo e fotográfico, já faziam parte do contexto de sala e, por isso, não provocaram constrangimentos nem dificuldades na sua utilização. As crianças já estavam habituadas a que a educadora tirasse fotografias dos seus trabalhos.
Apesar de se tratar de um estudo desenvolvido em contexto natural, existiu uma intervenção pedagógica centrada em propostas de trabalho potenciadoras do desenvolvimento do pensamento algébrico das crianças.
Para se proceder à recolha de dados a Diretora Pedagógica do colégio foi informada do estudo e dos seus objetivos (Anexo A). Aos encarregados de educação do grupo
30 participante foi enviada informação relativa ao estudo que se pretendia realizar e pedida a devida autorização (Anexo B).
Foram tidas em conta algumas questões éticas (Bogdan & Biklen, 1994), tais como a proteção da identidade dos sujeitos e da escola onde é realizado o estudo. A localização da escola onde foram recolhidos os dados e o verdadeiro nome das crianças envolvidas nunca foram mencionados, tendo sido utilizados nomes fictícios.
A amostragem foi criteriosa e intencional, escolhida por um processo de conveniência. Carmo e Ferreira (2008) definem a utilização de amostras não probabilísticas como podendo ser selecionadas por processos de escolha intencional e sistematizados, utilizados com o propósito de determinar os sujeitos que fazem parte da amostra. Referem ainda que ao utilizar uma amostragem de conveniência, os resultados não poderão ser generalizados à população à qual pertence o grupo de conveniência.
Por uma questão relacionada com o próprio tema, a literatura infantil, foram selecionadas todas as crianças do grupo. A leitura das histórias realiza-se sempre em grande grupo e uma vez que se tratava de um grupo relativamente pequeno e com uma média de idades de 4 anos, justificou-se assim a inclusão de todos os elementos no estudo que se pretendeu realizar. Assim, a amostra do presente estudo é a totalidade do grupo com que trabalho, tendo sido escolhida pela conveniência de assumir o duplo papel de docente e investigadora, já discutido atrás.