3.2 Tests perceptifs : Agrément (plan d’expérience fractionnaire)
3.2.1 Premier test perceptif sur bruits modifiés T5
De acordo com as questões que nos movem e com os objetivos que pretendemos alcançar, foi fundamental encontrar um caminho adequado ao trabalho que pretendíamos desenvolver. Neste âmbito, refletiu-se sobre o paradigma que nos iria guiar e orientar no nosso percurso, de acordo com a conceção de realidade e dos fenómenos que adotámos (Bogdan & Biklen, 1994).
O conceito de paradigma é utilizado de forma ampla, referindo-se às diferentes aproximações à investigação, com a finalidade de clarificar e oferecer diferentes soluções aos desafios que se colocam atualmente à educação (Bisquerra Alzina, 2004). Kuhn (2003) impulsionou o conceito, ao conotá-lo como as diferentes formas de fazer ciência por parte das comunidades científicas. Assim, o paradigma é uma construção humana que se caracteriza por um “sistema de crenças básicas sustentadas em considerações de natureza ontológica, epistemológica e metodológica” (Guba & Lincoln,1998, p. 200). Estas dimensões, implicam opções que o investigador tem de tomar. As opções de natureza ontológica prendem-se com a forma como o investigador se coloca face à natureza da realidade e ao conhecimento que pode alcançar. A epistemologia expressa a “relação entre o que se sabe ou pode vir a saber-se e o que é possível saber-se” (Guba & Lincoln,1998, p. 201). As questões de natureza metodológica, inserem-se na forma como concebemos a realidade e o conhecimento, traduzindo-se em procedimentos de investigação cuja finalidade é conhecer o real.
Situando-nos na nossa investigação, esta enquadra-se no paradigma interpretativo, visando captar a realidade em geral e a educação em particular, através de uma abordagem fenomenológica, acedendo assim à natureza holística, dinâmica e simbólica dos processos sociais (Bogdan & Biklen, 1994). A problemática em estudo é contextual e holística. Investiga-se um programa de formação com o intuito de procurar respostas a questões centradas nesta experiência social, desvendando o seu significado e sentidos. O objeto da investigação é a ação humana e as suas interpretações, que residem no significado atribuído pelas pessoas que as vivenciam. “Os significados manipulam-se e modificam-se mediante um processo interpretativo promovido pela pessoa ao confrontar-se com as coisas” (Blumer, 1998, p. 2). Trata-se de um processo pautado pelo modo como os diferentes participantes na investigação, interpretam os processos de formação em que estiveram envolvidos e de que forma isso contribui para eventuais mudanças nas suas práticas educativas e formativas. Esta construção implicou, por um lado, estudar os
processos que caracterizam a formação e, por outro, perceber quais são os seus efeitos no desenvolvimento profissional dos professores, captando diferentes pontos de vista, opiniões, reflexões pessoais, representações e interpretações subjetivas. Neste contexto, o conhecimento envolve um sujeito “cognoscente” e um objeto “conhecido”. O objeto do conhecimento (programa de formação), é amplo e complexo e implica uma saída por parte do sujeito (investigador), da sua esfera, daquilo em que acredita, dos seus valores, para entrar, investigar na esfera do objeto, apreendendo as suas características. Por fim, o sujeito regressa a si construindo uma imagem ou representação do objeto. Neste processo, (ato de conhecer) o sujeito tem um papel ativo, de recolha e interpretação de dados sobre o objeto que necessita de justificar, legitimando uma dada explicação (passagem do domínio da crença não justificada para o campo da crença justificada). Procurou-se, assim, a compreensão dos fenómenos em estudo, ao invés da sua explicação causal (Bisquerra Alzina, 2004), pelo que se assume que o que conhecemos será sempre uma imagem ou representação do objeto em estudo (Husserl, 1986). É central nesta investigação, a compreensão dos significados que as formadoras e os professores/formandos perspetivam sobre o programa de formação e as intenções que atribuem às suas ações, de acordo com as relações que desenvolvem entre si e com os contextos onde se encontram inseridos e com os quais interagem (Amado, 2013). Posição também denominada de social-construtivista.
Ao situarmo-nos no paradigma interpretativo significa que iremos adotar uma posição relativista, onde a realidade é múltipla e complexa. Investigar implica interpretar ações, estabelecer estratégias e procedimentos que aproximem o investigador dos participantes. Criar confiança e empatia, é fundamental para que os participantes se sintam à vontade para expor os seus sentimentos e experiências. Neste sentido, o que se procura é compreender o significado que os atores atribuem aos acontecimentos, neste caso específico, um programa de formação. A investigadora / observadora participa na realidade observada, designadamente frequentando a formação e encontrando-se sujeita ao mesmo processo de aprendizagem e de avaliação que todos os outros professores inscritos. Os dados que recolhemos e analisámos são maioritariamente interpretativos; valoriza-se a compreensão e a interpretação no contexto da formação de professores em filosofia com crianças e jovens. O investigador e os participantes na investigação “partilham, numa espécie de sociabilidade originária, as significações socioculturalmente construídas e encerradas na linguagem por eles usada” (Amado, 2013, p. 43). Nesta investigação, pretende-se descrever o programa de formação em estudo (princípios e práticas), e compreender
o modo como ela é interpretada, experienciada, vivida e produzida pelos participantes. A compreensão de uma ação, reside na “referência ao sentido e propósitos que os seres humanos colocam no decorrer das suas atividades” (Guba & Lincoln, 1998, p. 197-198). Neste processo foi importante confrontar os participantes com os dados recolhidos e a sua interpretação, dando espaço e abertura para que, de alguma forma, ambos pudessem negociar os significados obtidos. Tivemos feedback apenas de uma das formadoras. Neste paradigma em que nos situamos, a dimensão humana é o centro e a principal fonte de recolha de dados (Bogdan & Bicklen, 1994). Com vista a acedermos a diferentes perspetivas, estudando o fenómeno da formação de professores em filosofia com crianças e jovens de forma aprofundada, envolvendo uma diversidade de dimensões e aspetos, recorremos a diferentes técnicas qualitativas de recolha e análise de dados, que descreveremos posteriormente.
Na tentativa de assegurar uma compreensão em profundidade, onde a descoberta foi um fator importante, realizou-se uma triangulação progressiva dos dados recolhidos. Só é possível conhecer a realidade neste paradigma de investigação através da representação, o conhecimento a que se chega é sempre uma imagem ou representação efetuada pelo sujeito (cognoscente) do objeto (conhecido) (Husserl, 1986); a análise dos dados é assim, qualitativa, procura-se compreender o fenómeno em estudo através de processos inferenciais e indutivos. Não se aspira à objetividade, mas à credibilidade e confiabilidade; “a representatividade das conclusões, longe de ser estatística é social e teórica assente em critérios de compreensão e de pertinência” (Amado, 2013, p. 44). A triangulação é neste estudo uma forma de validação (Flick, 2005). Conforme as etapas do estudo, utilizam-se estratégias de investigação diversas, flexíveis e adaptáveis ao contexto, que vão desde a observação participante, à técnica do inquérito por questionário, e ao uso de entrevistas de tipo biográfico e de follow-up. A todas estas estratégias esteve subjacente a preocupação por que tudo se desenrolasse “de forma ‘credível’, ‘documentada’ e ‘lógica” (Amado & Vieira, 2013, p. 361), enquanto garantia da credibilidade do estudo.