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O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. Italo Calvino, 1972.631

Duas idéias são centrais no pensamento de Agamben: a de potência, que representa a tradução de sua obra em um único termo632, e a de messianismo. Os termos „o Messias‟, „tempo messiânico‟, „o reino messiânico‟, „messianismo petrificado‟, „deslocamento messiânico‟ e „o conceito do messiânico‟ são freqüentes na obra do pensador. Sua importância se explica tanto pela influência que Walter Benjamin exerce sobre ela, como pela importância que a teologia, e especificamente a teologia política, que advém de Carl Schmitt, assume em grande parte de seu trabalho.

Apesar do largo uso que o autor faz dos termos, não há, em sua obra, uma definição fechada dos mesmos, a não ser no caso de tempo messiânico: são conceitos que vêm sendo construídos à medida que a própria obra de Agamben também o é. Em geral, as definições apontadas relacionam-se, bastante proximamente, com as de Benjamin. Agamben constrói, ao longo de seus diversos textos, sobretudo a idéia do messianismo, que será fundamental no corpo filosófico que configura. Entender o conceito de messianismo e de seus correlatos requer que se trilhe o percurso desta construção que Agamben errige. Embora já apareça em L‟uomo senza contenuto, 1970, a consolidação da idéia que se constituirá no messianismo como forma de pensamento e como tradução de idéia inicia-se especificamente em Infanzia e storia, oito anos depois.

631

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 150.

632

A esse respeito, Cf. CASTRO, Edgardo. Giorgio Agamben: una arqueologia de la potencia. Buenos Aires: UNSAM Edita, 2008. Castro desenvolve a leitura da obra de Agamben, desde L‟uomo senza

contenuto até Signatura rerum, tomando por leitmotiv a idéia de potência que, segundo o autor, é o tema

Ali, Agamben propõe, pela primeira vez, o neologismo “cairologia” (depois grafado na forma kairologia), referindo-se ao tempo, como tomado pelo materialista histórico revolucionário.

Verdadeiro materialista histórico não é aquele que segue ao longo do tempo linear infinito uma vã miragem de progresso contínuo, mas aquele que, a cada instante, é capaz de parar o tempo, pois conserva a lembrança de que a pátria original do homem é o prazer. É este o tempo experimentado nas revoluções autênticas, as quais, como recorda Benjamin, sempre foram vividas como uma suspensão do tempo e como uma interrupção da cronologia; porém, uma revolução da qual brotasse, não uma nova cronologia, mas uma mudança qualitativa do tempo (uma cairologia), seria a mais grávida de conseqüências e a única que não poderia ser absorvida no refluxo da restauração. Aquele que, na epoché do prazer, recordou-se da história como a própria pátria original, levará verdadeiramente em cada coisa esta lembrança, exigirá a cada instante esta promessa: ele é o verdadeiro revolucionário e o verdadeiro vidente, livre do tempo, não no milênio633, mas agora.634

O neologismo aparece no terceiro capítulo do livro, “Tempo e história: crítica do instante e do contínuo” onde Agamben perfaz a distinção dos dois tipos de tempo e situa neles o homem. Ali, o prazer aparece, via Aristóteles, na Ética a

Nicômaco, como aquilo que a cada instante é inteiro e completo. É nesse sentido que ele

se torna a morada original do homem, mas Agamben esclarece que

isto não significa que o prazer tenha o seu lugar na eternidade. A experiência ocidental do tempo está cindida em eternidade e tempo linear contínuo. O ponto de divisão, através do qual estes se comunicam, é o instante como ponto inextenso e inapreensível. [...] O lugar próprio do prazer, como dimensão original do homem, não é nem o tempo pontual contínuo nem a eternidade, mas a história.635 A kairologia aparece como designação para o instante oportuno, para o momento propício no qual o olhar do homem sobre a história detém o tempo: um tempo para sempre presente. A palavra agambeniana deriva do nome do mais jovem dos filhos ou de Zeus ou de Chronos, Kairos636, que aparece às vezes também como um ou outro

633

Importa salientar que, na tradução de Infância e história para o português, por Henrique Burigo, o tradutor acrescenta a seguinte nota à palavra milênio: “o período de mil anos, durante o qual Jesus Cristo reinará sobre a Terra, conforme a descrição contida no livro do Apocalipse (fonte: Dicionário Houaiss da

Língua Portuguesa).”

634

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. p. 128.

635

Ibidem. p. 127

636

Mais tarde, em Il tempo che resta: um commento alla „lettera ai romani, a palavra kairos aparece em expressão da Carta aos Romanos, de Paulo, onde se lê ho nyn kairós, „o tempo de agora‟. Cf.

dos dois. Opõe-se ao tempo linear, Chronos, designando o tempo oportuno, o instante mesmo da oportunidade637. É representado como um belo jovem alado, coberto de escamas prestes a cair, provavelmente uma alusão ao desapego à situação passada ou à percepção da perda de validade da condição anterior: um ser aquático no momento exato em que deixa de sê-lo, para se tornar alado ou, ainda, o ser que se despoja do falso encobrimento da verdade. Kairos representa, na filosofia agambeniana, o momento em que um homem lança o olhar decisivo à história, e interrompe seu tempo, mudando-lhe o curso. O instante da revolução.

O messianismo judaico é comumente tomado pela crença na história como encaminhamento para o evento escatológico da chegada do Messias, o processo histórico representando o êxodo do homem que parte do passado em direção ao telos, a um fim que também é finalidade, localizado no futuro. Essa é a acepção geralmente aceita da idéia. Entretanto, tal acepção vai contra a filosofia de Agamben e de sua concepção de messianismo. Tampouco entre judeus eruditos e/ou observantes esclarecidos o messianismo como teleologia possui validade. Em diferentes tempos históricos, a idéia da vinda do Messias teve diferentes interpretações, de acordo com o contexto otimista ou pessimista em que se encontravam os hebreus638. Na verdade, “a bíblia hebraica não utiliza a idéia do Messias em seu sentido último, escatológico. Mas este é um conceito pós-bíblico, com raízes na Bíblia e, particularmente, nas esperanças de um futuro nacional melhor.”639

Há, na compreensão da perspectiva histórica judaica, um aspecto pouco conhecido fora dessa religião: a idéia da sempre renovada expectativa do encontro com o Messias nas práticas litúrgicas, que se dá no Shabat, o equivalente judaico do domingo católico, e no Pessach, a Páscoa judaica, quando se comemora e rememora a fuga do Egito e da escravidão empreendida pelos hebreus. Em ambos os casos, a expectativa não se refere à um encontro final com Deus, mas à renovação das crenças, da história e da própria condição cíclica em que o tempo, uma criação divina,

AGAMBEN, Giorgio. Il tempo che resta: um commento alla „lettera ai romani‟. Torino: Bollati Boringhieri, 2000. p. 9.

637

Cf. Site WIKIPEDIA. Available online < http://pt.wikipedia.org/wiki/Kairos>.

638

A esse respeito, cf. GOLDBERG, David J. RAYNER, John D. O destino da humanidade. p. 304-305. Esperança messiânica. p. 305-307. In: Os judeus e o judaísmo: história e religião. Rio de Janeiro: Xenon, 1989. Ou ainda BONDER, Nilton, SORJ, Bernardo. Judaísmo para o século XXI. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Neste último, todo o texto é construído em torno da idéia da vida do dia-a-dia e da salvação como escolha quotidiana: “para o judaísmo o amanhã é tecido nas escolhas e ações do presente, ou seja, em lugar de destino, há possibilidades.”

639

GOLDBERG, David J. RAYNER, John D. Os judeus e o judaísmo: história e religião. Rio de Janeiro: Xenon, 1989. p. 305.

se constitui640. Nesse sentido, o próprio tempo cíclico e os ritos que o celebram são uma demonstração da permanência de Deus junto a seu povo.

Agamben não desconhecia esse messianismo: sua visão da história coadunava-se com aquela de Benjamin, marcada pelo Jetztzeit, o tempo do “„agora‟ no qual se infiltraram estilhaços do messiânico”641

. No fim de suas teses sobre o conceito de história, Benjamin resgata a memória de um costume e ilustra como esses estilhaços entram no tempo:

sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.642

Na cerimônia do Seder, o farto e rico jantar ritualístico que marca o início do Pessach, há um costume rigorosamente observado: à cabeceira da mesa mais próxima da porta de entrada de cada residência onde se realiza o jantar, reserva-se o lugar e uma taça maior, mais adornada e mais cheia que as demais: é a taça de Elias, aquele que anuncia a chegada do Messias. De modo a recebê-lo, ou ao próprio Messias, a porta das residências permanece aberta até o fim do jantar. O costume se repete todo ano. A data do Seder é uma das mais importantes no calendário judaico. Uma porta aberta durante o mesmo, e ao longo das quase cinco horas da duração do rito e da festa, é uma porta largamente aberta, sobretudo por que se está à espera. Por outro lado, os restantes e infindáveis segundos entre cada Seder são portas estreitas: estreitas pelo imediato do instante, estreita pela surpresa ou pela oportunidade do testemunho: estreita pelo que Agamben referiu com o nome de Kairos: o poder ser agora.

O messianismo aparece não como evidenciamento da fé ou da praticância de Benjamin – um sabido não observante. A teologia, e especificamente o messianismo, aparecem como alegoria da sociedade sonhada pelo socialismo marxista. Em suas teses, Benjamin o deixa claro. Em Agamben não ocorre diferente: La comunità che viene é o desdobramento da postura de Benjamin. Em Homo sacer lemos: “o Messias é a figura

640

Sobre o Pessach e a condição cíclica do tempo no judaísmo, cf. FRÓIS, Katja Plotz. Tradição e

consumo: o Seder judaico e a afirmação da identidade judaica. p. 9-29. In: INTERSEÇÕES: revista de

estudos interdisciplinares Ano 10. n. 1. Rio de Janeiro: UERJ, jun. 2008.

641

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. p. 222-232. In. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 232.

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