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Esses gestos de aproximação e de reconhecimento, eles podem se expressar também numa abertura efetiva e maior dos lugares na mídia, nas universidades, nos centros de estudo, nos investimentos e também no acesso das nossas famílias e do nosso povo àquilo que é bom e aquilo que é considerado conquista da cultura brasileira, da cultura nacional. Se continuarmos sendo vistos como os que estão para serem descobertos e virmos também as cidades e os grandes centros e as tecnologias que são desenvolvidas somente como alguma coisa que nos ameaça e que nos exclui, o encontro continua sendo protelado.

Ailton Krenak, 2015. Ponderar sobre a história indígena no tempo presente requer uma intensa reflexão sobre o lugar dos índios na história. Geralmente o primeiro contato com esse tema ocorre na escola, através dos materiais didáticos13. A abordagem utilizada por grande parte desses livros trata a história dos povos indígenas a partir de seu contato com os europeus, restringindo-as a apenas um período, o colonial. O espaço dado aos povos indígenas geralmente é composto por modos de ver fortemente excludentes. Manuela Carneiro da Cunha (1992) conta que essa visão de afastamento constrói de em torno do indígena um personagem passivo, quase sempre em posição de conflito, possuindo papéis secundários, sendo somente uma espécie de massa de manobra do sistema dominante e agindo de acordo com os interesses da colônia. Em resumo, eles seriam um obstáculo ao desenvolvimento do país. Visto que não possuem, segundo essa perspectiva, uma história que progride com o passar do tempo.

Sabemos que não há procedência nessas informações uma vez que os indígenas desde

13 Para Informações sobre o livro didático e suas transformações no que concerne a abordagem da temática

indígena, ler: GOBBI, Izabel. A temática indígena e a diversidade cultural nos livros didáticos de história: uma análise dos livros recomendados pelo Programa Nacional do Livro Didático. São Carlos: UFScar, 2007.

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o início do contato com os europeus, organizaram movimentos de resistência14 e voltaram-se muitas vezes para onde estavam situados seus principais interesses. Sempre existiu uma política indígena15 onde os índios foram em dados momentos figuras políticas de destaque que escolhiam aliar-se ou lutar contra os europeus16.

Podemos observar que esse contato inicial do indivíduo (ainda na escola) com os indígenas é em grande medida limitado. Principalmente por não abarcar a história indígena em todos os períodos da história do Brasil. A principal sensação transmitida em razão dessa limitação temporal é a de que eles teriam desaparecido. A justificativa mais disseminada para o desaparecimento teria sido em razão de conflitos, do processo de aculturação, da assimilação, perda de identidade étnica, entre outros pontos amplamente difundidos pela historiografia brasileira até o século XIX. Sobre essa abordagem e a solidificação dessa visão, Maria Celestino de Almeida discorre

[...] desapareciam, porém, deve-se ressaltar, apenas da história escrita. Estudos recentes têm demonstrado que, do século XVI ao XIX, os índios inseridos no mundo colonial, em diferentes regiões da América portuguesa, continuavam muito presentes nos sertões, nas vilas, nas cidades e nas aldeias. [...] como se explica terem desaparecido da história do Brasil? Em grande parte, parece-me, devido à ideia acima apontada e predominante, por muito tempo, entre antropólogos e historiadores. Trata-se da ideia segundo a qual os índios integrados à colonização iniciavam um processo de aculturação, isto é, de mudanças culturais progressivas que os conduziam à assimilação e consequentemente à perda da identidade étnica. (ALMEIDA, 2010, p.14)

O curso citado acima contribuiu para a cristalização da visão compartilhada por grande parte da população de que não há o índio na contemporaneidade e que se existe, não houve mudanças e evolução ao longo do tempo. Sua cultura seria estática e vista até hoje como o reflexo da imagem do índio no período colonial. Atualmente sabemos que essa marcha existiu apenas na história escrita, pois os indígenas permaneceram presentes ao longo dos tempos até a atualidade. Passando por transformações assim como todos os povos já estudados pela história.

14 Como por exemplo a Confederação dos Tamoios (1556-1567).

15 Manuela Carneiro da Cunha discute sobre a existência de uma política indígena, no livro: CUNHA, Manuela

Carneiro da. História dos índios no Brasil. In: História dos índios no Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1992.

16 O texto ilustra bem como ocorria essa escolha “dos lados” e como era o processo onde os índios decidiam a

quem seriam fiéis e qual lado seria mais viável para eles de acordo com seus interesses e motivações. Ler, RAMINELLI, Ronald J. Nobreza indígena – os chefes potiguares, 1633-1695. In: OLIVEIRA, João Pacheco de.

A presença indígena no Nordeste: processo de territorialização, modos de reconhecimento e regimes de

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A história oficial por muito tempo difundiu essa série de interpretações citadas acima formando assim o pensamento nacional sobre os índios. As noções de assimilação e aculturação permearam a historiografia e a antropologia até a primeira metade do século XX. A interpretação que disseminou a ideia de homogeneidade e cultura estática esteve presente durante muito tempo e os efeitos dessa propagação são sentidos até hoje, onde inclusive ainda podem ser observadas no livro didático. Essa perspectiva fez com que as mudanças naturais pelas quais cada cultura passa, fossem ignoradas em detrimento da visão do índio puro. Levando a crer que os indígenas haviam sido realmente “absorvidos”, misturados. Essa abordagem foi durante muito tempo difundida no século XIX pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, o IHGB.

No decorrer do século XIX, o evolucionismo induziu muitas interpretações ligadas às formas de entender o mundo e as sociedades que o compõe. Sobre essa influência Manuela Carneiro da Cunha diz que nesse período “prosperou a idéia de que certas sociedades teriam ficado na estaca zero da evolução, e que eram portanto algo como fósseis vivos que testemunharam do passado das sociedades ocidentais” (CUNHA, 1992, p.11). Em razão dessa visão as nações indígenas foram denominadas “sociedades primitivas”, sendo assim estáticas e sem possibilidade evolutiva. Esse ponto de vista foi introjetado na historiografia, contribuindo para a consolidação da noção de que os povos indígenas estariam diretamente amarrados ao período colonial.

Outro modo de enxergar essas populações foi propagado pela antropologia que via a cultura dos povos originários como pura e imutável, valorizando as características “originais” dos indígenas. Em razão disso, essas sociedades foram por muitas vezes denominadas de “virgens”. Conforme expõe Maria Celestino de Almeida (2010), durante o século XIX os antropólogos, assim como historiadores, contribuíram para cristalizar visões equivocadas acerca dos indígenas, no entanto, é preciso levar em conta que esses modos de ver foram reflexos de seu tempo. Naquele momento da história, a pluralidade étnica e a diversidade cultural não eram valorizadas pela sociedade.

O Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB) foi fundado em 1838 no momento em que o país buscava delinear as fronteiras de sua identidade nacional, empenhando-se na procura de elementos que caracterizassem o país, diferenciando-o de outras nações. Segundo Manuel Guimarães (1988)17 essa construção foi configurada sob uma ideia de nação já

17Mais informações sobre a construção do um projeto de uma história nacional e o IHGB no texto:

GUIMARÃES, Manoel Luís Lima Salgado. Nação e Civilização nos Trópicos: o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional. Revista Estudos Históricos, v. 1, n. 1, p. 5-27, 1988

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formada pela antiga metrópole. O modelo adotado não foi efetivamente novo. No fim das contas a historiografia tomou para si a visão homogeneizadora das elites, que já pertencia a antiga metrópole.

Ao definir a Nação brasileira enquanto representante da idéia de civilização no Novo Mundo, esta mesma historiografia estará decidindo aqueles que internamente ficarão excluídos deste projeto por não serem portadores da noção de civilização: índios e negros. (GUIMARÃES, 1988, p.8)

A nação como retrato da “ideia de civilização no novo mundo” fora demasiadamente eurocêntrica. Logo “o outro”18 - tido como primitivo - foi visto de maneira pejorativa e excludente, sendo posicionado à margem do projeto de nação. Apesar disso, contraditoriamente, a imagem do índio esteve centrada dentro da problemática da revista junto aos debates sobre a história regional, as viagens e transformações científicas19. Sobre essa presença, Manuel Guimarães (1988) indica em seu texto que o indígena esteve constantemente presente nos assuntos da revista estando atrelado principalmente a aspectos de natureza econômica, relativos exploração da mão-de-obra. “Operando sempre com um par de categorias - "civilização e estado social" para caracterizar o mundo dos brancos, e "natureza e barbárie" para caracterizar o mundo dos indígenas” (GUIMARÃES, 1988, p.23). De acordo com essa perspectiva os índios estariam sendo integrados ao nacional, na posição de “trabalhadores” e em dado momento seriam assimilados. Essa historiografia levou a crer que o desaparecimento dos índios seria quase inevitável.

Outro fator que contribuiu para a solidificação do olhar marginal sobre os indígenas foi o desaparecimento dessa categoria étnica nos censos populacionais. Jussara Guerra (2011) expõe que em 1850 os povos indígenas foram excluídos dos registros oficiais, dando lugar a outras categorias étnicas como os “caboclos” e os “pardos” nos censos posteriores. Desse modo, o “desaparecimento” indígena teria sido efetivado. De forma que, nos registros oficiais o indígena foi “mascarado” e no lugar do mesmo, outras faces étnicas foram utilizadas em substituição.

Somado aos tópicos postos acima, um outro aspecto deve ser levado em consideração por sua relevância: até o início do século XX não há documentação escrita sobre a história

18 Dentro desse contexto me refiro aos índios e os negros.

19 Referência a Renato Amado Peixoto que se debruça sobre debates ligados a imagem do índio no momento da

construção da identidade nacional no livro: PEIXOTO, Renato Amado. Cartografias Imaginárias: estudos sobre a construção da história do espaço nacional brasileiro e a relação História & Espaço. EDUFRN, 2011.

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indígena feita pelos índios20. Essa condição contribui para que a história seja contada e entendida pelo grande público sob apenas uma perspectiva, a do colonizador. Sabemos que o conhecimento indígena, bem como suas trajetórias históricas perpassam gerações e são tradicionalmente transmitidos através da narrativa oral. Podemos observar que “quando examinamos de perto a tradição oral, verificamos a existência de elementos recorrentes que, apreendidos conjuntamente, terminam por informar sobre um passado que não foi registrado nos livros de história” (CAVIGNAG, 2010, p.2). O indígena é entendido não como agente histórico, mas sim como sujeito21. Sendo relegado a eles a margem e a função de coadjuvantes nos registros históricos.

Diante dos pontos aqui expostos podemos observar a necessidade de um olhar crítico e ponderado ante todos os modos de enxergar o indígena e suas representações dentro da historiografia, bem como as narrativas presentes na documentação e nos registros oficiais. A posse da sensibilidade e prudência ao analisar as fontes existentes é necessária para que equívocos sejam evitados. A pluralidade dos discursos deve sempre ser levada em consideração, principalmente porque a diversidade existente entre os indígenas nas diferentes regiões do país é quase imensurável.

Só a partir da segunda metade do século XX os pesquisadores perceberam que esse indígena não iria desaparecer e que muito pelo contrário, tornaria-se participante ativo em sociedade22.A partir daí o índio e seu saber passaram a ser estudados e investigados com mais interesse, abrindo espaço para o nascimento de um olhar sob o índio nunca antes visto.

Historiadores e antropólogos trabalharam separadamente durante muito tempo em razão de divergências interpretativas ligadas a esse assunto e ao que lhe diz respeito, mas durante o século XX acabaram se aproximando. As duas áreas passam a dialogar na medida em que encontram pontos de análise que são próximos como questões ligadas à identidade, relações sociais e políticas, a memória, sistemas de autoridade e dominação, a relação entre o saber e o poder, dentre outras temáticas que as disciplinas passaram a ter em comum. Ambas estudam vivamente o conhecimento empírico23, campo amplamente dominado pelos povos

20 Hoje há relativa bibliografia voltada à história indígena, escrita por índios. A partir desse instante podemos

observar a história segundo o ponto de vista e da narrativa desses povos.

21 “Sujeito” no sentido literal do termo. Possuindo aqui o significado de submissão, dependência e subjugo.

22 Esse momento será abordado mais profundamente nos tópicos seguintes.

23 O conhecimento empírico pode ser interpretado como o saber que é construído através da observação. José

D'Assunção Barros define o conhecimento empírico como “[...] aquele que obtemos através das experiências de vida, da observação do mundo, da vivência cotidiana. A palavra também pode ser associada ao conhecimento obtido através das experiências sensíveis, ou também - quando falamos em uma base empírica - aos elementos concretos e evidências que podem servir de base ao desenvolvimento de uma racionalização ou de teorizações científicas” (BARROS, 2014, p. 49). Lévi-Strauss em “O pensamento selvagem” cita exemplos de povos que

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indígenas. Essa relação promove uma renovação do olhar desses campos de saber sobre si próprios.

A união e o diálogo entre a história entendida aqui como a “ciência dos homens no tempo”24 e a antropologia que pode ser interpretada como “o estudo das sociedades humanas e de tudo que as compõe”25, é de fundamental importância para a completude do estudo da história indígena. A interação entre esses domínios ajuda o pesquisador a compreender a maneira pela qual as sociedades se desenvolvem ao longo do tempo e como ocorrem suas transformações. Todo e qualquer fato histórico - guerras, questões políticas, econômicas, manifestações sociais etc - exerce influência sobre a sociedade e as culturas inseridas em seu âmago. Os processos históricos e sociais estão profundamente ligados.

A história no século XX foi muito beneficiada em razão da instauração do contato interdisciplinar. José D'Assunção Barros (2014) nos conta que a interação da história com campos de estudo como a antropologia, psicologia, linguística e geografia possibilitou a elaboração de novos conceitos e metodologias aos historiadores. Para ele, sem esse diálogo talvez não tivesse sido possível o desenvolvimento de domínios como História Cultural e a História das Mentalidades, por exemplo. Para a construção desses dois últimos campos teóricos ele considera que o contato com a Antropologia e a Psicologia - respectivamente- foi essencial. Ainda com esse autor

[…] cada disciplina possui sua singularidade, [...] aquilo que a torna única justificando sua existência e a definindo por oposição ou contraste em relação a outros campos disciplinares. [...] embora cada campo disciplinar apresente sua singularidade que o faz único e lhe dá identidade, não existe na verdade um só campo disciplinar que não seja construído e constantemente reconstruído por diálogos interdisciplinares. (BARROS, 2014, p. 22)

Essa breve discussão tem como principal objetivo ilustrar a relevância do diálogo interdisciplinar26 na elaboração dos trabalhos de cunho historiográfico. O estabelecimento dessas relações contribui muito para o aprofundamento dos estudos sobre a história indígena.

Voltando a análise sobre os modos de ver o índio, podemos perceber que no século XIX os processos históricos e consequentes transformações que pelas quais o indígena passou ao longo do tempo, eram interpretados pelos estudiosos como perdas culturais que levariam a

possuem vasto conhecimento em diversas áreas como a botânica, a fauna e a flora. Criando sistemas de classificações e análises através da observação.

24 Referência a Marc Bloch em: BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o ofício de historiador. Zahar, 2002. 25Referência a Laplantine no livro: LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. Brasiliense, 1988

26 a exemplo do que ocorre com essa pesquisa que muito se beneficiou do diálogo entre a história e a

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sua consequente assimilação. Essa perspectiva perdurou até a segunda metade do século XX, quando o movimento indígena ganhou forma e como resultado, cada vez mais visibilidade ante a sociedade. Para Almeida (2010), a iniciar desse momento os estudiosos entenderam as mudanças não mais como um indício de desaparecimento e assimilação do indígena, mas sim como o alvorecer do despertar de um processo de emergência étnica. Logo, a visão sobre o índio foi modificada e os conceitos e teorias sobre essas nações foram repensados. Uma nova abordagem se fez necessária para visualizar o índio dentro de sua própria perspectiva étnica e histórica. As questões foram ponderadas e os estudos voltaram-se para o indígena como agente ativo envolto no corpo coletivo. Logo, os processos de mudança social ganharam relativa notoriedade e outras formas de crença e saberes passaram a ser examinados.

A história possui papel fundamental frente a essa marcha de constante descoberta, investigando as características culturais e sociais de cada grupo bem como as transformações desencadeadas ao longo do tempo. Fornece também uma perspectiva crítica ante essas vicissitudes, contribuindo para o entendimento das novas problemáticas que surgem.

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