• Aucun résultat trouvé

The precautionary principle in fisheries: assessment benchmarks

A igreja de São João Batista está situada no alto da Vila de Ponta Negra, uma das áreas mais efervescente do bairro. A igreja está cercada em parte por sequência de casinhas com estilo ainda originário de um lugar que um dia abrigou em grande parte do seu território, grupos de pescadores e agricultores de vida simples.

Figura 13 – A Igreja São João Batista.

A igreja São João Batista foi uma das primeiras construções da Vila de Ponta Negra, antes construída de barro e pedras da praia. Não se tem ao certo a data de fundação da Igreja, o que sabemos é que seu surgimento se confunde com o próprio início da comunidade e da nossa cidade. Alguns pesquisadores destacam que a igreja foi erguida por volta de 1905. Segundo registros de Souza (2001), em Nova História de Natal, a referência mais antiga à capela está no livro de Tombo da Paróquia de São Pedro do Alecrim, no qual se afirma que,

Achando-se em muito mau estado a capela de Ponta Negra, construída no tempo do Padre João Maria, foi o Pe. Agostinho para essa nova povoação a fim de começar os consertos indispensáveis. No mesmo mês de janeiro foram iniciados os trabalhos (Livro de Tombo da Paróquia de São Pedro do Alecrim, p. 23, In: SOUZA, Nova História de Natal, 2001, p. 632).

Ao longo do tempo, a igreja passou por diversas modificações, principalmente após o desmoronamento de parte do teto do templo, comprometendo a estrutura. De acordo com um Jornal da época, A República, em 16 de junho de 1938, noticiava,

A velha igrejinha da Praia de Ponta Negra ameaçava ruir e foi destruída para em seu lugar ser levantada outra de construção mais segura e mais bem acabada. O Sr. Bispo de Natal, D. Marcolino Dantas, teve essa feliz iniciativa e vem orientando os trabalhos com zelo e competência (A REPÚBLICA, 1938).

A área do entorno da igreja, concentra-se vielas, mercadinhos, barzinhos e parte das habitações originarias, onde está localizada grande parte da vila, cercada por casas de aluguéis, parte com moradores proprietários. Nesse espaço que foi um dia símbolo de coletividade, encontramos crianças brincando nas calçadas, jovens e adultos conversando no banco em frente à igreja, em quanto observam atentamente a agitação que se propaga ao cair da tarde, quadros que revelam nuances característicos de uma comunidade que encontra-se inserida em uma área de elevado valor espacial.

Antigamente, a Vila de Ponta Negra era marcada por intensas festividades, que mobilizavam toda a comunidade, “entorno dos acontecimentos promovidos pela

igreja, onde todos trabalhavam juntos em prol das comemorações e festejos que aconteciam em determinada época do ano” (SANTOS, 2013, p.34).

Segundo dona Helena, moradora e mestra dos Congos de Calçola e Pastoril da Vila de Ponta Negra, nos informa sobre a representatividade que a Igreja tinha para a comunidade,

Naquela época a paroquia não tinha um padre. Durante a semana a Igreja ficava fechada. A igreja só abria durante o período de festa, quando íamos pegar o padre de outros lugares, quando queríamos rezar um terço. Quando morria alguém corríamos para casa de dedeca para abrir e tocar o sino. Na frente da igreja todas as crianças se reuniam para brincar, dançar e ensaiar.

Verificamos que mesmo a comunidade carecendo de um padre que comandasse efetivamente a Igreja, os sujeitos não permitiam o desaparecimento de sua religiosidade, resgatando e garantindo por meio dos festejos, risos, cantos, danças e lembranças de suas tradições. Ainda, a respeito dos períodos festivos vivenciados antigamente na Vila de Ponta Negra, Dona Helena nos fala que,

Um dos santos mais festejados era São Sebastião, o protetor dos pescadores. Na época que dava muito peixe, no mês de janeiro, fazíamos nove noites de novenas. Se fazia até corrida, por trás da rua da floresta, de um canto ao outro. Nessa festa tínhamos também a noite dos jovens, que saiam de casa em casa, pedindo ajuda e todo mundo ajudava. Tinha a noite dos casados, das moças e dos rapazes. Era uma briga entre as moças e os rapazes, porque cada um queria arrecadar mais doações e mais fogos. Quem fizesse a noite mais bonita, era quem ganhava.

Como visto, as festas na Vila de Ponta Negra eram animadas, e traziam pessoas de todas as localidades do Rio Grande do Norte. Os principais festejos organizados e comemorados pela comunidade eram: São Sebastião, a de São João Batista – padroeiro do povoado, a de São José e a do Coração de Jesus. Celebravam também o Natal, a festa de Santos Reis e a semana Santa.

Nas festas religiosas, as pastoras dos Pastoril se apresentavam e com sua dança atraiam pessoas para o baile. Jogavam fitas aos cavalheiros que eram convidados a dançar e depois contribuíam com dinheiro para pagar as despesas da festa. Grupos de outros locais vinham se apresentar e tocar forró. Algumas festas aconteciam no Centro Social, atualmente Conselho Comunitário (CARNEIRO e LIMA, 2010, p. 91 e 92).

Ainda sou da época que não tinha luz, não tinha água, não tinha telefone. Ave Maria! A casa que tinha televisão era uma festa, era milionário quem podia ter uma televisão...Vivíamos da pesca e agricultura. A agricultura aqui era muito rica, tinha muito roçados. Cada família tinha seu roçado. Plantávamos mandioca, maxixe, melancia, feijão, milho.

Segundo relato de moradores antigos, até a década 1920, a comunidade vivia sem sistema elétrico de energia. Nos períodos festivos a Vila fervia! A população colocava tochas e candeeiros pendurados, nos pontos centrais dos festejos. O pouco comércio existente era aquecido e investia em produtos religiosos que eram vendidos pelo público que assistia à apresentação do Pastoril e Lapinha. Ao lado do mercado a comunidade e os convidados brincavam no parque de diversão, atraindo crianças, jovens e adultos.

Tradicionalmente as brincadeiras ocorriam de forma improvisada em espaços abertos como o quintal, ao lado das bodegas nos ciclos festivos do calendário da comunidade e nas ruas, o qual possibilitava o desenvolvimento e a interação entre os sujeitos dançantes e o espectador, que era convidado a incorporar e a celebrar os folguedos.

É interessante observar que a Igreja São João Batista é um espaço bastante dinâmico, além de ser um lugar de fé e religiosidade, e de compor uma bela paisagem local, em certos momentos, a calçada da igreja torna-se cenário e palco para os eventos e festejos promovidos pela/na comunidade, como a apresentação dos Congos de Calçola, conforme (Figura 14) abaixo.

Figura 14 – Apresentação dos Congos de Calçola no Pátio da Igreja São João

Batista (Vila de Ponta Negra).

Acervo do Projeto de Extensão Encantos da Vila de Ponta Negra/DEART/UFRN.

Para os brincantes e moradores, essas experiências poéticas do cotidiano ultrapassam a barreira do tempo e espaço, são marcas tatuadas nas memórias de cada um, que vivenciou no corpo, na natureza e na cultura, “o vivido é transformado em história” (Ligiéro, 2011, p. 89), evidenciadas na partilha de seus costumes com o outro, no orgulho de fazer parte dessa comunidade –pertencimento. Nas palavras do Sr. Severino, mestre do Coco de Roda, que evidência a importância desse espaço de fé e brincadeiras,

Já dancei em vários lugares, até mesmo fora de Natal, mais o lugar que eu mais gosto de apresentar é aqui na Vila de Ponta Negra, pois aqui é meu lugar, é onde nasci, onde me casei, tive meus filhos, é onde vivi toda minha vida, eu tenho muitas histórias pra contar desse lugar, aqui eu chorei e ri [...] por isso faço de tudo quando tem uma apresentação pra dançar aqui nesse palco da igreja. (SANTOS, 2013, p. 13).

Conforme confidência com o Mestre, observamos um orgulho pulsante, restaurado e preservado através da fala, do riso, do olhar nostálgico que pesca lembranças de acontecimentos individuais e coletivos nesse espaço, considerados pela comunidade um patrimônio simbólico de fé e resistência. Assim, quando olhamos para trás, podemos localizar os marcos do nosso tempo biográfico no tempo solar decorrido. Mais que os astros, pode o tempo social, recobrar a passagem dos anos e das estações. (BOSI, 1994).

Logo, mergulhados num universo lúdico, repletos de brincadeiras e doação que impulsionavam a comunidade nas preparações nos períodos de festividades, na manutenção da coletividade, (com) partilhando tudo que era possível, soba ótica do brincante, o espaço onde se vive e se brinca não parece ser o mesmo, apesar de o ser. Ele (o brincante) identifica-se com o ambiente, não pelo que ele é, mas pela função que exerce naquele momento.

Além das festividades que ocorriam no entorno da igreja, havia também a festa das lavadeiras como são lembradas por Dona Helena, dizendo que:

A lavagem de roupa era outra atividade, desenvolvida pelas mulheres, que requeriam longos deslocamentos a pé ou no lombo de jumentos até o rio Jiqui. Elas saiam em grupos e quase sempre acompanhadas de algum filho, que ajudava a carregar as trouxas de roupa. Naquela época não existia água na comunidade, então um grupo de mulheres e homens que serviam de guardião das lavadeiras, saiam bem cedinho em direção ao rio Jiqui para lavarem as roupas que eram sujas durante a semana. Chegando lá, todos tomavam banho e alguns eram encarregados de fazer o almoço e as mulheres de lavarem as roupas, que secavam ao vento e a brancura que ficava as roupas, ofuscavam os olhos no sol. Depois de um dia inteiro de lavagem, banhos no rio, almoço, dança, cantos e roupa limpa, chegava a hora de fazer a viagem de volta. Esse ritual aconteceu durante 37 anos, uma vez que não havia água encanada e o único poço que existia tinha sido interditado pelas autoridades locais (HELENA CORREIA, entrevista concedida à pesquisadora).

Essas são histórias, lembranças e emoções compartilhadas unem os homens em coletividade e os aproximam de sua terra (REVISTA Nº 15 - FESTAS POPULARES), como nas festas populares que constituem um dos traços mais marcantes de identificação de uma nação, por serem impregnados de espontaneidade e de originalidade. Ou seja, os festejos reverenciados pela comunidade são verdadeiras formas de recuperação do seu cotidiano, trazendo à tona nos seus corpos valores e saberes, expressos pelos gestos e movimentos.

Durante as festividades, o momento mais aguardado era o das brincadeiras, onde os brincantes com seus batuques, vestes, gestos, danças e cantos, construíam um lugar dotado de significação baseado nas vivências e experiências (que traz em si o que você é e o que você pode ser) na comunidade. Por essa razão, o espaço da Igreja São João Batista, para a comunidade, deixa de ser apenas um templo onde habita a fé, para se tornar um lugar símbolo de encontro, de vivências corporais em arte e cultura.

Para os brincantes dos Congos de Calçola, essa igreja representa o surgimento da Vila, um espaço, reservado para o encontro, renovação da fé e devoção, um lugar sagrado e solidário. Além de simbolizar a religiosidade, para os brincantes dos Congos de Calçola, a Igreja São João Batista, é uma zona de memória, palco para as festividades e brincadeiras dos brincantes, é a área onde eles sentem orgulho de mostrarem toda sua espetacularidade, como também o é a casa das rendeiras.