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Chapter I: General Introduction

I- 1.Preamble

Por fim, o último momento desta análise se concentra na leitura das personagens inseridas nos modelos de jornada do herói e da heroína, vistos no Capítulo 3, a fim de tentar compreender se a trajetória dessas heroínas possuem uma construção narrativa que leva em conta especificidades da mulher, como propõe Murdock (1990), ou se apenas mantém a estrutura clássica do herói proposta por Campbell (1997).

Em A Lenda de Korra, a protagonista parece viver duas jornadas paralelas que, no entanto, interferem uma na outra. A primeira é a da personagem com ela mesma e sua trajetória de auto descoberta e evolução pessoal, a segunda, sua trajetória enquanto heroína da trama e a necessidade enfrentar os adversários que

se interpõem no caminho, em prol do bem de todas as nações. Diante disso, pode- se concluir que ambas as jornadas, do herói e da heroína, norteiam a trajetória de Korra ao mesmo tempo, em certos momentos se interligando.

A partida: Chamado à aventura, encontro com mentor.

FIGURA 21 – EPISÓDIO ‘BEM VINDA A CIDADE REPÚBLICA’

Na primeira etapa da Jornada do Herói, a Partida é impulsionada por um chamado à aventura que tira o herói do mundo comum. Neste momento, há uma característica interessante: é Korra quem busca a aventura e decide partir por conta própria do seu mundo comum, a casa de seus pais, em direção à Cidade da República. Também é ela quem busca o seu mentor, Tenzin, e diante da negativa dele em treiná-la, insiste e o convence a fazê-lo.

Iniciação: Inimigos.

No episódio Veneno da Lótus Vermelha, do Livro 3, por conta de um envenenamento, Korra começa a ter delírios e enxergar todos os inimigos que já teve de enfrentar desde que se assumiu Avatar. Neste momento, percebemos que todos os seus adversários até então foram homens, e nesta cena manifestam-se falando frases como “você é fraca demais”, argumento que invoca uma subordinação típica do homem para com a mulher. No desfecho do conflito, apesar de vencido o inimigo, Korra também saiu derrotada, decorrente da batalha e dos ataques físicos e psicológicos que sofreu. Mesmo que fruto de um delírio, a visão dos seus inimigos exerceu sobre ela poder incapacitador e a fez duvidar de suas habilidades e importância como Avatar.

O Retorno: A vitória.

FIGURA 23 – EPISÓDIO ‘KORRA SOZINHA’

Neste ponto, espera-se que passado a superação de um conflito e a vitória sobre um inimigo, o herói irá desfrutar desse momento e retornar ao seu mundo comum. Na trajetória de Korra, após apreender o vilão que ameaçava a paz das nações e tecnicamente ter vencido, ela retorna para a casa dos pais. Os motivos, entretanto, nada tem a ver com aproveitar o resultado de uma missão bem sucedida. Korra ainda sofre com as consequências de sua última batalha, e além de ter

perdido o movimento das pernas, encontra-se atormentada pela visão de seus inimigos a enfraquecendo. Seu retorno e sua “vitória” são na verdade uma descentralização do ciclo da jornada do herói, para dar início ao ciclo da jornada da heroína, vivida pela protagonista.

Troca do feminino pelo masculino

FIGURA 24 - EPISÓDIO ‘KORRA SOZINHA’

O primeiro momento da Jornada da Heroína é a separação com o seu lado feminino em troca do masculino. Korra vive essa etapa de maneira mais acentuada quando, após seu retorno ao mundo comum para tratar traumas passados e não ter nenhum sucesso, decide partir novamente numa busca para superar seus próprios medos. Nesta trajetória, ela abdica de elementos que a prendem ao passado, como suas roupas e cabelos compridos e direciona sua energia aos poderes físicos, se envolvendo em lutas de ringue. Apesar disso, seu próprio fantasma do passado a persegue, como um assunto não acabado.

Reconciliação com o feminino e reincorporação do masculino

Korra encontra uma ajuda inesperada para o seu processo de cura, é Toph, que assim como Katara, foi membro da antiga equipe Avatar, à época de Aang. Ela traz para a protagonista uma nova perspectiva de enxergar seus traumas e encontrar o caminho para se livrar do passado.

QUADRO 12 - DECUPAGEM DE ÁUDIO

TOPH: O que Amon queria? Igualdade para todos. Unalaq trouxe os espíritos de volta. E Zaheer

acreditava no poder da liberdade. O problema é que todos estavam fora de equilíbrio. [...] Você precisa enfrentar seus medos. Seu problema é que você esteve desconectada por muito tempo. Das pessoas que te amam e de você mesma.

Toph obriga Korra a revisitar seus inimigos, a repensar suas motivações e o que houve de errado na trajetória deles. Assim, ao dizer que Korra está desconectada dela mesma, podemos entender como o fruto do processo de sua separação do feminino, na tentativa de se fortalecer através apenas do seu lado masculino. A personagem entende que precisa dessa reconciliação com o feminino, sem necessariamente abandonar por completo o masculino. É o encontro do equilíbrio de que trata Toph. E assim Korra o faz, e consegue restabelecer sua conexão espiritual, ao mesmo tempo em que se sente mais fortalecida fisicamente. A união

FIGURA 26 - EPISÓDIO ‘A ÚLTIMA PARADA’

O momento de união entre os lados feminino e masculino de Korra, encerrando o ciclo da Jornada da Heroína, pode ser bem exemplificado no episódio final de toda a série. O Livro 4, diferentemente dos livros anteriores, possui uma

mulher como personagem antagonista. No embate final entre as duas, quando a adversária de Korra já está praticamente vencida, um portal para o mundo espiritual é aberto e nele a heroína encara por alguns instantes o seu próprio reflexo, que em seguida se transforma no rosto de sua inimiga, Kuvira. Já derrotada, Kuvira e Korra protagonizam o seguinte diálogo:

QUADRO 13 - DECUPAGEM DE ÁUDIO

KORRA: Acho que eu vejo muito de mim em você. KUVIRA: Não somos nada parecidas.

KORRA: Sim, nós somos. Nós duas somos ferozes e determinadas a ter sucesso, às vezes sem

pensar direito.

Diante dessa sequência, é possível fazer a leitura de que, no momento em que Korra vê seu próprio reflexo, seguido do reflexo da adversária, percebe a sua própria complexidade e atinge um novo nível de autoconhecimento. Ao se reconhecer em Kuvira, reconhece que as características que ambas dividem não necessariamente as fazem boas ou más. Esse entendimento é a etapa final da Jornada, que, na união e, sobretudo, aceitação de ambos os lados, masculino e feminino, é que o ciclo se completa.