• Aucun résultat trouvé

pre-installed

Dans le document EL Installation (Page 116-128)

Ao deparar-me com o convite à pesquisa narrativa, busquei de imediato compreender o que fazem os pesquisadores narrativos. Foi de grande importância a obra de Clandinin e Connely (2011), à qual me referi na introdução deste trabalho. Embora os autores indiquem que não há vasta literatura sobre o assunto, senti que a obra dá conta de abordar a metodologia em profundidade, e mesmo que não respondam e nem tenham a intenção de definir narrativa, os autores, associados à teoria da experiência de Dewey, adotam o conjunto de termos: pessoal e social; passado, presente e futuro; lugar, que vai definir o espaço tridimensional para investigação da narrativa, auxiliando na compreensão do que o pesquisador deve fazer.

Nessa linha, focam as quatro direções que deve seguir a investigação: introspectiva, extrospectiva, retrospectiva e prospectiva:

Por introspectivo, queremos dizer em direção às condições internas, tais como sentimentos, esperanças, reações estéticas e disposições morais. Por extrospectivo, referimo-nos às condições existenciais, isto é, o meio ambiente. Por retrospectivo e prospectivo, referimo-nos à temporalidade – passado, presente e futuro. (CLANDININ e CONNELY, 2011, p.85)

Portanto, pesquisar uma experiência é investigá-la simultaneamente nessas quatro dimensões, considerando o pessoal e social como espaço de interação; o passado, presente e futuro com a ideia de continuidade, uma vez que uma história é contada no passado ela dá a possibilidade de ser recontada, dessa forma, não é apenas a história dos sujeitos que está sendo recontada, mas também a do pesquisador narrativo; e o lugar como a situação em que se encaixam as narrativas, sem perder de vista que ao se adentrar no campo de pesquisa, há vidas em movimento, vidas que não começam no dia em que o pesquisador chega e tão pouco terminam quando ele parte, portanto, as vidas continuam e a história nunca se encerra. O que o pesquisador faz é um recorte narrativo no tempo.

Clandinin e Connely (2011) chamam a atenção para o fato de que o pesquisador narrativo trabalha no espaço não apenas com as narrativas de seus sujeitos participantes, mas também com a sua própria narrativa, uma vez que está inserido no lugar, assim, também vêm à tona, impregnadas nas narrativas dos sujeitos, as próprias histórias contadas e vividas pelo pesquisador. Ainda, como destacam os autores: “As histórias que trazemos como pesquisadores também estão marcadas pelas instituições onde trabalhamos, pelas narrativas construídas no contexto social do qual fazemos parte e pela paisagem na qual vivemos.” (CLANDININ e CONNELY, 2011, p.100).

Outro ponto relevante a ser destacado é o caráter investigativo da pesquisa. O pesquisador põe-se como um investigador que já possui algumas informações e busca outras, ainda não desveladas, mas contidas nas experiências e na lembrança de seus entrevistados. Cabe ao pesquisador estabelecer relações com seu interlocutor de tal forma que haja concordância em colaborar com a pesquisa. “A intencionalidade do pesquisador vai além da mera busca de informações; pretende criar uma situação de confiabilidade para que o entrevistado se abra.” (SZYMANSKI, 2011, p.12). Pressupondo também o caráter interacional do processo, o qual terá “a participação de ambos no resultado final”. (SZYMANSKI, 2011).

Por tais aspectos, este trabalho caracteriza-se como uma pesquisa-ação, uma vez que enquadra-se nas características apontadas por Peruzzo (2006): o pesquisador está inserido no campo de pesquisa e participa de todas as atividades do grupo pesquisado; o pesquisador interage como membro do grupo e assume um papel no processo, ao mesmo tempo em que participa, distancia-se para não interferir demasiadamente nas percepções e interpretações dos demais membros; o grupo conhece os propósitos e intenções do pesquisador, concorda com a realização da pesquisa e participa da elaboração e levantamento dos dados, envolvendo-se na discussão; há compromisso do pesquisador em dar ao grupo o retorno dos resultados alcançados com a pesquisa; os resultados e o próprio processo de pesquisa revertem-se em benefícios aos envolvidos e subsídios para melhorias futuras.

Diante dessa reflexão metodológica apontada acima, adotei como instrumentos investigativos:

Entrevista semiestruturada, para promover relatos narrativos de forma mais livre e espontânea, não condicionados a uma maneira engessada de perguntas e respostas. Embora exista um roteiro de questões previamente projetadas, os participantes ficaram livres para fazerem seus apontamentos. Segundo Szymanski (2011), a entrevista tem caráter de interação social, uma vez que está submetida à condição de contato face a face, pressupondo diálogo. O linguajar, no entanto, está inserido no processo interacional e depende da natureza das relações entre entrevistador/entrevistado. “No conversar, portanto, temos um contínuo ajuste de ações e emoções”.

Diário de bordo, em que os alunos tiveram a oportunidade de registrar por escrito suas opiniões a respeito das atividades desenvolvidas ao longo do ano. Por ser de participação livre e espontânea, não houve tanto material disponibilizado, mas o espaço foi aberto e alguns trouxeram suas colaborações;

Conversas informais com os alunos, que compensaram as poucas produções no diário de bordo, e trouxeram impressões diárias da percepção dos alunos ao longo das atividades propostas, fazendo brotar inquietações e novos questionamentos em minha pesquisa;

Atividades realizadas no portal, que caracterizam o aprendizado dos participantes em formação, evidenciando a trajetória formativa percorrida por meio do processo de letramento digital;

Caderno de pesquisa de campo, em que fiz a experiência de registrar as atividades desenvolvidas e as minhas próprias expectativas em relação a elas.

Esses instrumentos auxiliaram na resposta à questão norteadora, porém a entrevista foi o recurso investigativo principal, sendo os demais secundários.

Na apuração dos dados, embora tenha procurado deixar os participantes se exprimirem livremente, com o compromisso de atingir os objetivos da pesquisa, selecionei algumas perguntas-base (Apêndice A) para nortear as entrevistas, as quais estão transcritas no Apêndice B deste trabalho. As perguntas foram desenvolvidas com base nas competências e habilidades propostas para o Ensino Médio na disciplina Língua Portuguesa.

A seleção das questões foi um passo fundamental para a abordagem dos participantes, os quais foram entrevistados individualmente, em dias e horários diferentes. A coleta de informações por meio da entrevista transcorreu de maneira leve, pois os participantes foram esclarecidos de que era apenas um bate-papo e que estavam livres para dizer o que quisessem. Assim, junto ao convite veio também o esclarecimento dos objetivos do trabalho de pesquisa, que não estavam veiculados à avaliação dos participantes como alunos da disciplina Língua Portuguesa.

Após reflexão a respeito da pesquisa narrativa, considerando o contexto em que estão inseridos pesquisadora e participantes da pesquisa, e seleção das questões que conduziriam o processo reflexivo e interativo entre os envolvidos, pressupondo que a “organização do processo de interação inclui a emergência de significados não só referentes ao conteúdo da fala, mas também à situação de entrevista como um todo, à relação interpessoal que se instalou, à história de vida do entrevistado e a seu ambiente sociocultural” (SZYMANSKI, 2011, p.17), foi possível chegar ao método de análise dos dados.

Por meio da entrevista semiestruturada, ferramenta principal de coleta e análise de dados, e dos demais instrumentos investigativos, condizente com a proposta de pesquisa narrativa, optei pelo método de Análise Textual Discursiva.

Segundo Brandão (2005), atualmente há diversas correntes teóricas que estudam a língua sob a perspectiva discursiva. Optei pela tendência que ficou conhecida como escola francesa de Análise do Discurso (abreviada por AD). Surgida na década de 1960-1970, procurou entender o momento político vivenciado pela França e os discursos produzidos na época, considerando o aspecto linguístico (parte gramatical da língua), bem como os aspectos extralinguísticos (elementos históricos, sociais, culturais, ideológicos e espaciais). Assim, a AD debruça o olhar sobre as condições de produção discursiva, ou seja, o conjunto de elementos que cercam a produção de um texto.

Ainda segundo a autora, a AD, na perspectiva francesa, apoia-se no estudo da gramática da língua levando em conta o interlocutor e a situação, as relações de saber e poder; o conhecimento do ponto de vista linguístico e extralinguístico; o discurso contextualizado; o sujeito (eu-discursivo); o aspecto interativo do discurso; as formas de atuar, de agir sobre o outro; o uso da língua e sua intencionalidade; o dialogismo entre os falantes; o discurso polifônico, ou seja, as ideologias inseridas no discurso; outras falas que ecoam dentro de um mesmo discurso, construindo uma rede interdiscursiva.

Na visão de Maingueneau (2007, p.19):

O interesse que governa a análise do discurso seria o de apreender o discurso como intricação de um texto e de um lugar social, o que significa dizer que seu objeto não é nem a organização textual, nem a situação de comunicação, mas aquilo que as une por intermédio de um dispositivo de enunciação específico. Esse dispositivo pertence simultaneamente ao verbal e ao institucional: pensar os lugares independentemente das palavras que eles autorizam, ou pensar as palavras independentemente dos lugares com os quais elas estão implicadas significaria permanecer aquém das exigências que fundam a análise do discurso.

Portanto, a AD pressupõe o princípio da inseparabilidade entre o texto e o quadro social de sua produção e circulação. O autor destaca a heterogeneidade da AD, dividida entre dois procedimentos: o analítico, que busca desfazer as continuidades, ou seja, pretende fazer aparecer nos textos redes de relações invisíveis entre enunciados; e o integrativo, que, em contrapartida, visa a articular os componentes da atividade discursiva na dimensão social e textual. A heterogeneidade do discurso é evidenciada pela infinidade de discursos produzidos e a dificuldade para definir uma maneira única de analisá-los.

Além disso, para dar conta da realidade das pesquisas sobre o discurso, é preciso igualmente levar em consideração um outro modo de agrupamento dos pesquisadores que, não estando baseado em pressupostos teóricos e metodológicos, nem por isso será menos importante: os territórios delimitados pelo objeto de estudo (discurso televisual, discurso administrativo, discurso político, etc.) [...] todo e qualquer tipo de produção verbal é digno de investigação, já possui por corolário a raridade dos objetos

efetivamente estudados, em relação ao infinito de córpus possíveis. [...] Nesses “territórios”, o estudo do discurso não é senão uma das abordagens possíveis ao lado de outras, vindas de outros horizontes das ciências humanas e sociais. (MAINGUENEAU, 2007, p.27-28)

Considerando a infinidade de córpus discursivos, para o autor (MAINGUENEAU, 2007), os analistas do discurso lidam com dois tipos de unidades: tópicas e não tópicas.

Sendo as unidades tópicas divididas em:

Territoriais: tipos/gêneros do discurso (gêneros de campo, gêneros de aparelhos) que correspondem a espaços já “pré-delineados” pelas práticas verbais. Relacionados, por exemplo, a discursos que circulam num dado setor das atividades sociais.

Transversais: unidades que atravessam os textos pertencentes a múltiplos gêneros do discurso, por exemplo: os registros linguísticos (os enunciados), os registros funcionais (os esquemas definidos), os registros comunicacionais (que mesclam traços linguísticos, funcionais e sociais nos diversos discursos).

E as unidades não tópicas, “construídas pelos pesquisadores independentemente de fronteiras preestabelecidas, o que as distingue das unidades ‘territoriais’; além disso, elas agrupam enunciados profundamente inscritos na história, o que as distingue das unidades ‘transversais’” (MAINGUENEAU, 2007, p.32). Às quais Maingueneau dá os nomes de:

Formações discursivas: refer-se às unidades estabelecidas pelo pesquisador e que não são delimitadas por fronteiras, assim se diz do “discurso racista”, do “discurso pós-colonial”, do “discurso patronal”, os quais devem ser especificados historicamente, sendo que o córpus pode mesclar enunciados pertencentes aos mais variados tipos e gêneros do discurso, bem como misturar córpus de arquivo e córpus construídos para a pesquisa (sob a forma de testes, interlocuções, questionários etc.).

Percursos: córpus construído por elementos extraídos do interdiscurso, unindo elementos de diversas ordens (palavras, grupos de palavras, frases, fragmentos de texto etc.) sem buscar construir espaços de coerência, ou seja, sem procurar constituir totalidades. “Nesse caso, deseja-se ao contrário, desestruturar as unidades instituídas por meio da definição de percursos inesperados: a interpretação se apoia, assim, sobre a explicitação de relações imprevistas no interior do interdiscurso.” (MAINGUENEAU, 2007, p.33)

Considerando as reflexões sob o prisma da pesquisa narrativa (CLANDININ e CONNELY, 2011), da entrevista na pesquisa em educação (SZYMANSKI, ALMEIDA e PRANDINI, 2011) e da análise do discurso (MAINGUENEAU, 2007), feitas até aqui, adotei os quatro movimentos destacados por Moraes e Galiazzi (2007) como processos que constituíram um ciclo de análise:

a) desmontagem dos textos ou unitarização: análise das entrevistas buscando palavras-chaves que representam os significados atribuídos pelos participantes. b) elaboração de um sistema de categorias: estabelecimento de relação entre os

textos.

c) captação do novo emergente: tentativa de compreender a intencionalidade impregnada nos textos, tomando-os como um todo.

d) construção de um processo auto-organizativo: análise sob a luz de um referencial teórico.

Assim, parti da transcrição das entrevistas gravadas e, depois de algumas leituras atentas do conteúdo transcrito, surgiram as categorias de análise, as quais serão apresentadas na seção 3.5 deste trabalho. Num processo seguinte, fiz a aproximação das falas por meio de palavras-chaves ou ideias centrais que representavam o posicionamento dos participantes a respeito de cada assunto abordado. Na sequência, realizei a análise dos dados para depreender os significados atribuídos pelos participantes em diálogo com o referencial teórico que sustenta este trabalho.

Dans le document EL Installation (Page 116-128)

Documents relatifs