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4.2 Matériel et Méthodes

4.4.2 Pratiques vaccinales

esquerda da estrada, porque a geringonça ainda se vai rir dos derrotados que lhe puseram a alcunha.” João Semedo, ex-coordenador do BE, 10-4-2016

“Todos os dias, a maioria demonstra que é capaz de resistir e que está de boa saúde. Quiseram diminuir chamando- lhe geringonça, mas até tiveram azar [porque] uma geringonça é uma coisa engenhosa.”António Costa, atual primeiro-ministro, 5-3-2016

“A liderança do PSD, neste momento, é uma geringonça (…). Está desorientada.” Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Expresso, 30-7-2016

(Fonte: http://expresso.sapo.pt/politica/2016-11-10-As-20-melhores-frases-sobre-a-geringonca [Consultado em 28- 12-2016]

Alguns memes humorísticos apresentam uma epidemiologia semelhante à de bactérias multirresistentes, revelando, inesperadamente, sinais de “infeção”, muito tempo após terem sido fabricados. A célebre frase de José Severino (personagem interpretada por Herman José, no especial de fim-de-ano de Hermanias, em 1991) – “Eu é mais bolos” – ainda é utilizada 25 anos depois de ter sido proferida pelo bonacheirão pasteleiro ("Eu é mais bolos": como Centeno justifica os salários na Caixa – Fonte: http://www.tvi24.iol.pt/videos/economia/eu-e-mais-bolos-como-centeno- justifica-os-salarios-na-caixa/580675d30cf2095c52cd13af [Consultado em 28-12-2016]

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Richard Reeves Brodie, programador informático americano, foi o autor original do software de processamento de texto Microsoft Word e assessor de Bill Gates.

Figura 3.4. – Cartaz da série de cartazes “A Lição de Salazar” Fonte: https://noseahistoria.wordpress.com

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Natércia Miranda e Maria da Graça Ventura, docentes de História da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão, descrevem assim o cartaz:

Neste cartaz, de Mendes Barata, ergue-se num cenário rural, a família típica do salazarismo, uma família remediada, se não pobre, trabalhadora e religiosa. A família representada vai ao encontro de todos os ideais salazaristas, ao apresentar uma casa humilde, asseada, de pessoas pobres, mas felizes. Os pratos estão encostados ordenadamente à parede (organização social); os instrumentos de lavoura arrumados a um canto; a mesa posta com o pão e o vinho sobre uma toalha alva; Deus está presente no altar familiar, instalado no melhor móvel da casa; a Pátria divisa-se através da janela, no castelo que exibe a bandeira nacional e na própria farda da

Mocidade Portuguesa envergada pelo filho (fardado de Lusito). A autoridade surge na figura do

chefe de família, que, ao fim de um dia de trabalho, regressa a casa e conta com a alegria da filha (a pequenita que brincava com louças e bonecas para um dia ser uma mãe exemplar, ergue os braços de contentamento) a reverência do filho, que se ergue para o saudar, e a subserviência da esposa, qual mulher ideal, confinada ao lar e à economia doméstica. Através da interpretação destes pormenores, verificamos que o cartaz reflete um lar cristão, patriarcal, rural, tradicional, sem utensílios de modernidade, onde não existe nenhuma referência ao mundo industrial.”81

Como explica Rómulo de Carvalho (2008), para assegurar o êxito da política de Ensino do Estado Novo, tornou-se necessário veicular os memes do Regime através de livros de leitura para a escola primária, que exacerbassem a mentalidade nacionalista e cristã, para a qual toda a atividade pedagógica era orientada. A inspiração veio dos livros escolares italianos destinados ao mesmo grau de ensino e elaborados de acordo com a memética ideológica do regime de Mussolini:

“ Como é óbvio, todas as oportunidades se aproveitaram para que os livros propagandeassem as pessoas e as excelências do regime político português e os ensinamentos da doutrina cristã. Assim, por exemplo, ao darem-se os passos iniciais no conhecimento das letras, no Livro da

Primeira Classe, aproveitava-se a letra S para soletrar Sa-la-zar, e a letra C para se fixar o nome

de Carmona, então Presidente da República. As crianças que soletravam tais nomes poderiam, na altura, erguer os olhos para a parede da sala de aula, de onde pendia o crucifixo, e ver, de um e do outro lado de Cristo, os retratos de Carmona e de Salazar (…). Quaisquer dos livros, da primeira, da segunda ou da terceira classes, apresentam, no total, dezenas de páginas dedicadas à religião católica, algumas à maneira de catecismo, com ilustrações sugestivas e frases adequadas aos interesses da Ditadura, como, por exemplo: «É Deus quem nos manda respeitar os superiores e obedecer às autoridades.» De entre os textos avultam os que tratam de temas religiosos ou de motivos patrióticos. Insiste-se nas virtudes dos «pobrezinhos» e a na bondade das pessoas de bem que lhes dão esmolas e sopinhas, e que assim se habilitam às boas graças do Céu.” (id.,ibid.:767-768)

Se utilizasse a terminologia memética82, Althusser diria que a função dos sistemas educativos consiste em “infetar” os estudantes com memes que valerá a pena reproduzir socialmente (Pereira, 2016). Os padroeiros da teoria de agenda-setting, por seu turno, diriam que a função dos media é “infetar” a Opinião Pública com “memes de opinião”.

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Disponível em https://noseahistoria.wordpress.com/2011/12/12/a-licao-de-salazar/ [Consultado em 27-12-2016]

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“A Memética é o estudo do funcionamento dos memes: como interagem, como se replicam e como evoluem.” (Brodie, 2009:5)

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Antes de exumar os memes que povoam o espaço público da educação e de compreender, façamos uma breve randonnée por uma daquelas que se constituíram como as primeiras propostas, no âmbito de uma perspetiva cognitivista dos efeitos do media. Seguindo o trilho judicioso de João Pissarra Esteves (2011), convirá arrolar dois esclarecimentos prévios, para demarcar convenientemente o terreno que se está a pisar.

Primeiro, os efeitos aqui considerados referem-se, apenas, aos de carácter sociológico, isto é, “às consequências dos processos de comunicação ao nível da vida coletiva e da organização das sociedades (ou comunidades) humanas” (Esteves, 2011:470). Embora não desprezáveis, ignoraremos outros efeitos, como os de natureza psicológica e económica, nomeadamente. Em segundo lugar, a comunicação é, neste contexto, associada aos mass media e, nessa medida, ao tipo de comunicação que se reveste de um caráter propriamente público (id.,ibid.). Estas restrições preambulares excluem (e é prudente, em termos argumentativos, ter disso consciência) dimensões importantes do fenómeno comunicacional, designadamente as que Goffman (1993) explorou, com minúcia de relojoeiro, ao nível das formas de comunicação face- a-face ou, mais genericamente, das formas de comunicação interpessoal.

A delimitação da problemática dos efeitos assim expressa tem um interesse, obviamente, prático, no âmbito da nossa investigação, mas há, como salienta Esteves (2011), razões históricas e sociais que justificam um olhar da Sociologia da Comunicação tendencialmente mais preocupado com os impactes no espaço público e, em particular, com os agentes sociais institucionalizados diretamente ligados ao funcionamento dos meios de massa. A génese desta tendência remonta às primeiras décadas do século XX, no período entre as duas Guerras, em que germina a ideia do alegado poder social dos media e da pretensa responsabilidade das novas tecnologias de produção e difusão coletivas de mensagens (imprensa de massa, cinema, rádio, nomeadamente) pelos males sociais que assolavam o mundo ocidental (id.,ibid.). Mais do que um conhecimento objetivo da realidade, diz Esteves (ibid.:472), essa ideia refletia mais

“ (…) a intranquilidade com a mudança, a inquietação com o rumo do mundo e um certo clima de mistério, mas também de temor, que [envolvia] as novas tecnologias (o desconhecimento dos meandros mais secretos do seu funcionamento deixa[va] espaço aberto à imaginação dos seus poderes ilimitados).”

Esta explicação não serve de escusa para patear contributos teórico-empíricos relevantes, especificamente no atinente aos efeitos mínimos dos media. Já antes de Goffman, Paul Lazarsfeld (1962 [1944]) e a sua equipa de investigadores haviam chamado a atenção para a influência das formas de comunicação interpessoal e dos grupos de pertença nos processos de decisão e de formação de opinião dos indivíduos. Em 1940, o professor da Universidade de Columbia estudou, em etapas sucessivas, entre maio e novembro, uma amostra representativa do eleitorado do condado de Erie (Ohio), durante a campanha presidencial que opôs Franklin Roosevelt ao republicano Wendell Willkie (Lazarsfeld, Bernard, e Hazel, 1962 [1944];

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Azurmandi, 1977). O objeto de estudo era o processo de decisão do sentido do voto ou, mais concretamente, as mudanças na intenção de voto, sob a influência dos grandes meios de difusão coletiva. O estudo centrou-se num painel de 600 indivíduos que foram entrevistados uma vez por mês, durante sete meses consecutivos. A primeira entrevista realizou-se antes da designação dos candidatos e a última, após a eleição. O estudo deu especial atenção aos “mutantes” (Lazarsfeld, Bernard, e Hazel, 1962 [1944]), ou seja, ao grupo de indivíduos propensos a mudar o sentido do voto. Lazarsfeld pretendeu evidenciar a evolução da intenção de voto dos eleitores, durante a campanha, e mapear as razões e as circunstâncias das mudanças de opinião entre uma e outra entrevista (Azurmandi, 1977). Quando o entrevistado era convidado a explicitar as razões da mudança da intenção de voto, obtinham-se informações úteis acerca da idiossincrasia de cada eleitor – características de personalidade, passado político, afiliações políticas, relações com amigos e familiares, convicções religiosas e opiniões sobre factos triviais (id.,ibid.). Como refere Azurmendi (ibid.), a conclusão mais importante do estudo refere-se ao influxo do ambiente social na escolha do candidato. Os investigadores observaram que a combinação nível socioeconómico elevado/pertença a uma religião protestante/residência rural predispunham para o voto republicano e que os grupos se tornavam cada vez mais homogéneos na intenção de voto, à medida que se aproximava o dia da eleição. Na prática, a proporção de indecisos e de dissidentes numa família tendia a diminuir progressivamente, ao longo da campanha, por força de um apelo de lealdade para com os restantes membros da família ou do grupo de amigos.

Dando continuidade aos trabalhos de Lazarsfeld, Elihu Katz estabeleceu que a influência dos media se exercia segundo um modelo de “fluxo em dois níveis”– two step flow of communication (Azurmandi, ibid.). De acordo com este modelo, aquela influência é seletiva, afetando, numa primeira frente, os agentes mais implicados e mais prestigiados, os quais, atuando como líderes de opinião, reproduzem a informação recebida no quadro das suas relações interpessoais mais restritas. Estes grupos de peritos funcionam, então, como replicadores de opinião junto das audiências dos grandes órgãos de comunicação (id.,ibid.). Um outro estudo, de 1948, na linha do estudo de 1940, realizado na cidade de Elmira, no Estado de Nova Iorque, acrescentou três novos resultados que vale a pena destacar: os eleitores mais indecisos e volúveis na sua intenção de voto eram os menos expostos aos media; os cidadãos mais atentos à campanha eleitoral e, portanto, mais intensamente expostos aos media, eram, também, os menos indecisos e os menos abstencionistas, evidenciando-se uma relação de estabilidade entre intenção de voto e a atenção dada aos media; os líderes de opinião encontravam-se em todos os níveis ocupacionais e socioeconómicos (id.,ibid.). Segundo Elihu Katz (2009:74), a concentração de alguns tipos de liderança de opinião em certo grupos estaria relacionada com a “personificação de certos valores (o que se é)”, “a competência (o que se sabe” e com “o posicionamento social estratégico (quem se conhece)”.

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Como esclarece Esteves (2011), a grande preocupação de Lazarsfeld era a de estabelecer uma relação de dependência entre os efeitos dos media e as características dos contextos sociais e culturais de funcionamento daqueles, procurando demonstrar que essa relação devia mais aos contextos do que ao conteúdo ou à intencionalidade das mensagens produzidas. Um modelo de processo comunicacional linear, unidirecional, fechado sobre si mesmo, estritamente dependente dos seu elementos constituintes e das respetivas condições técnicas de funcionamento (impermeável, portanto, a qualquer interferência de ordem social ou cultural) e em que a intencionalidade na transmissão da informação está totalmente consubstanciada no conteúdo da mensagem, parece, pois, estar desfasado de uma perspetiva funcionalista da comunicação que prevê efeitos limitados nos públicos, devido, essencialmente, a múltiplas mediações (grupos sociais, líderes de opinião, canais de comunicação, contexto cultural, etc.) que relativizam a influência dos meios (Esteves, 2011; Sousa, 2006).

Não obstante ter-se assumido como “paradigma83 dominante”, durante décadas, na sociologia dos meios de comunicação social, Gitlin (2009), tal como Azurmendi (1977), apontaram ao modelo da “influência pessoal”, pelo menos, a pecha de, sucumbir à moda de uma microssociologia servil no combate à ideia da omnipotência das técnicas de difusão coletiva, mitigando exageradamente o real poder dos media, quando confrontado com o alegado poder das audiências. Gitlin (ibid.:107) é mais agreste nas suas críticas, ao considerar que “por detrás da tese da relativa pouca importância dos meios de comunicação de massa, está um conceito distorcido e erróneo de «importância», semelhante ao conceito pouco rigoroso de «poder»”, que os sociólogos políticos, aliás, também sustentaram naquele período. Com efeito, tal como refere Esteves (2011:274), refletir sobre os conceitos de «importância» e de «poder», relativamente aos media, obriga a equacionar o “acesso seletivo e socialmente desigual ao espaço público, em consequência de uma situação de desigualdade de distribuição de recursos entre os diversos participantes”. É esta assimetria que define, afinal, o grau de importância e de poder dos agentes:

“Quando pensamos em concreto nos media, estas diferenças apresentam-se, desde logo, muito evidentes, por exemplo, em termos de oportunidades de acesso por parte, por um lado, de agentes institucionais socialmente reconhecidos (grandes empresas, partidos políticos, instituições consagradas) e, por outro lado, dos sujeitos individuais ou de todos os tipos de organizações coletivas que não reúnam um tal reconhecimento social. O acesso aos media é, hoje, uma condição primordial de visibilidade e da representação sociais, pelo que qualquer problema que se coloque a este nível, em termos de equidade, não pode deixar de ser equacionado nas suas consequências sociais e políticas mais amplas e profundas.” (id.,ibid.)

Gitlin (2009:140) desfere mais alguns golpes no «paradigma dominante», desocultando compromissos ideológicos, num período em que a social-democracia “delimitava e servia para

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Utilizamos, aqui, o termo «paradigma», com o sentido que Todd Gitlin (2009:109) lhe dá, “sem o peso que tem na história da ciência”: “uma tendência de pensamento que (a) identifica como importantes certas áreas de investigação num campo, (b) explora uma certa metodologia, mais ou menos distintiva, e (c) produz um conjunto de resultados particulares e, mais importante, que são reconhecidos como tal.”

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justificar a totalidade do paradigma dominante da sociologia dos meios de comunicação social”. No capitalismo de alto consumo, os indivíduos podem, supostamente, fazer escolhas soberanas, mas estas são feitas de entre as múltiplas possibilidades disponíveis, sejam profissões, partidos políticos ou marcas de produtos (id., ibid.). Se as pessoas não sabem o que querem, parte-se da premissa de que não se importam de ser orientadas, nomeadamente pelos media (id.,ibid.). Gitlin (ibid.:143) cita Lazarsfeld (do estudo Jugend und Beruf, de 1931):

“Muitos jovens não definiram planos ocupacionais e, assim, não se importam de ser orientados – de facto, é provável que gostem mesmo de ser orientados – para uma escolha ocupacional; deveria, consequentemente, ser fácil preencher as quotas ocupacionais estabelecidas com base num plano económico central.”

Gitlin (ibid.144-145), inexorável, arremessa assim:

“Começa por se assumir que as pessoas poderiam ser ovelhas, e acaba-se a trabalhar para a indústria da lã. Do Estado social-democrata hipotético, que pretendia saber o que os jovens desejam fazer das suas vidas, à gigantesca rede de radiodifusão, que insiste estar a dar às pessoas o que elas querem, não vai uma grande distância. […] Ao longo do século XX (…) o capitalismo iria esforçar-se por apresentar a soberania do consumidor como o equivalente da liberdade, na visão comum e na linguagem coloquial («Se não gosta da televisão, desligue-a.» «Se não gosta de carros, não os conduza.» «Se não gosta de estar aqui, volte para a Rússia.» «Se não gosta dos Republicanos, vote nos Democratas».”

Sob a acusação de ter sido patrocinado por grandes corporações e fundações (como a Fundação Rockfeller, por exemplo, no estudo pioneiro, de 1930, sobre o desemprego na aldeia de Mariethal) e de a orientação comercial de Lazarsfeld ter convenientemente coincidido com o interesse ideológico daquele na legitimidade de um futuro social democrático, Gitlin (ibid.) aponta, ainda, o dedo a aspetos metodológicos. A teoria do “fluxo de comunicação em dois níveis” enraizou-se num “comportamentalismo estrito” em que os “efeitos” dos media são encarados a curto prazo, em termos das mudanças mensuráveis de atitudes e opiniões, pelo que constitui um erro generalizar sobre o poder os meios de comunicação, ao nível de “efeitos” indiretos e de longo prazo, partindo da diagnose dos “efeitos” mais ou menos imediatos, diretos e de curto prazo (durante uma campanha eleitoral, por exemplo). Gitlin (ibid.) reconhece, contudo, que Lazarsfeld e alguns dos seus correligionários alertaram para estas limitações, pese embora o sarcasmo contumaz de Gitlin (ibid.) denunciar que essas limitações foram, infelizmente, entalhadas em notas de rodapé, como chamadas de atenção tão vigorosas quanto uma nota de rodapé o pode ser. A acrimónia assume mesmo o estilo de argumentação ad hominem, quando Gitlin (ibid.:125) cita o próprio Lazarsfeld:

“[Ele] escreveu que «a componente ideológica», o «clima intelectual» e o «equilíbrio pessoal» eram «raízes prováveis» do seu «novo estilo de investigação», e que as suas origens ideológicas, intelectuais e pessoais lhe permitiram uma «adaptação estrutural» ao cenário sociológico emergente na América.”

À parte as azias de Gitlin (ibid.) e outras guerras de barricadas, é preferível assentar de vez, como faz Serra (2007), o facto de que os media não são inócuos e que produzem “efeitos” – uns mais diretos e de curto prazo, outros, mais profundos e de longo prazo. A “teoria do

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agendamento” (agenda-setting) foi uma das primeiras a insistir neste último tipo de efeitos (Serra, 2007). Como escreveu McCombs (2006), a “teoria do agendamento” não é, porém, um retorno ao modelo comunicativo da teoria hipodérmica (bullet theory), de cariz behaviorista. O estabelecimento da agenda “não postula os efeitos todo-poderosos dos media nem tampouco considera as audiências como constituídas por autómatos que estão, ali, à espera que os meios de comunicação venham e os programem” (id.,ibid.:31). Dissecaremos, de seguida, a maquinaria do “estabelecimento da agenda”, a propósito da infestação de memes no espaço público da educação.

Um dos memes que “infetou” a Opinião Pública sobre Educação foi o (do discurso) da crise, que prevalece, pelo menos, desde finais do século XIX (Nóvoa, 2001). Problematizandoa diferenciação entre attention rules e decision rules84, relativamente à construção dos temas políticos que captam a atenção da Opinião Pública, Niklas Luhmann (2009:171) refere, curiosamente, o meme das “crises ou sintomas de crises” como um de entre os vários que permitem compreender o modo como a estrutura do sistema político regula a Opinião Pública. As crises, diz Luhmann (ibid.), “são ameaças […] não só no que diz respeito a valores isolados, mas, também, às exigências, intrínsecas ao sistema, impostas pela sua estabilidade”. Segundo Luhmann (ibid.), as crises incluem-se entre as regras de distribuição da atenção, estimulando e agregando a atenção, na medida em que põem em evidência uma dimensão de perigo difuso ao nível do desempenho de inúmeros valores. Brodie (2009) salienta que somos especialmente suscetíveis a memes que pressionam o “botão” do perigo. Com efeito, certos memes, como o de crise, atuam social e culturalmente como verdadeiros Cavalos de Tróia, ativando, uma vez instalados, um conjunto de outros memes agremiados. Crise-perigo-medo – eis um cacho de memes extremamente penetrante (contaminante). Naturalmente, um “vírus mental” que “infete” os indivíduos com memes que encorajam explicitamente a disseminação, propagar-se-á mais facilmente e mais rapidamente do que aquele que depende, apenas, da oportunidade de se propagar (id.,ibid.). Um modo de como os vírus da mente encorajam a sua propagação pode consistir, por exemplo, em “programar” os indivíduos com um meme que apele à proteção dos seus “genes egoístas”: “devemos ensinar isto às crianças, pois ajudá-las-á”(id.,ibid.). Aliás, memes como “ajudar as crianças” são, para Brodie (ibid.), tal como os de “crise”, “perigo” e outros mais complexos baseados no medo, os principais veículos através dos quais os vírus

84 Para Luhmann (2000), as attention rules pertencem ao campo da comunicação e as decision rules ao das

instituições políticas. O sistema mediático capta a atenção da Opinião Pública para determinados temas – tematização –, através de uma seleção preliminar efetuada segundo regras (de racionalização) da atenção, organiza a discussão desses temas, mas é o sistema político que opera os processos de tomada de decisão acerca dos problemas que aqueles temas levantam. Segundo Luhmann (ibid.:12), “o sucesso dos mass media no seio da sociedade baseia-se na capacidade de impor a aceitação dos temas” . Estes funcionam como conectores estruturais, elásticos e diversificáveis, entre o sistema mediático e os outros domínios da sociedade (como, por exemplo, a política, a economia ou o Direito).

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mentais atraem a nossa atenção e trespassam as nossas defesas. E, como salienta o autor, o

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