2. Sport au quotidien : accélération du rythme de vie
2.1. Une pratique en adéquation avec le mode de vie actuel ?
Com o fim da teoria do adultério e revoltada contra os injustos grilhões que os homens impõem às mulheres, a prioresa tem um momento de efervescência em prol da liberação sexual feminina. Ela continua então a defender a tese da inversão dos “bons costumes”: enquanto a abstinência é rebaixada a ação criminosa, a depravação é elevada, não apenas a comportamento natural, mas quase a imperativo categórico:
“Ó, minhas companheiras! Fodam, vocês nasceram para foder, é para serem fodidas que a natureza as criou; deixem gritar os tolos, os pretensiosos e os hipócritas; [...] consultem os filhos do amor e do prazer, interroguem a sociedade inteira, tudo se reunirá para aconselhá-las a foder, porque foder é a intenção da natureza e a abstinência é o crime”232.
No ímpeto do entusiasmo, ela enfatiza a inversão: “Que o nome de puta não as
228 “[...] théorie de l'adultère” (H.J., pp. 250-255). 229 H.J., pp. 249-250.
230 Conforme Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1410, nota 1 da p. 248. 231 H.J., p. 250.
232 “Ô mes compagnes ! foutez, vous êtes nées pour foutre, c'est pour être foutues que vous a créées la nature ; laissez crier les sots, les bégueules et les hypocrites ; [...] consultez les enfants de l'amour et du plaisir, interrogez la société toute entière, tout se réunira pour vous conseiller de foutre, parce que foutre est l'intention de la nature, et que l'abstinence en est le crime” (H.J., p. 255).
assuste”233. Filha querida da natureza, a prostituta é uma criatura amável, jovem e voluptuosa
que merece apenas elogios por sacrificar sua reputação à felicidade alheia. E ainda que semelhante conduta leve uma jovem a suportar o peso da infâmia, é preciso lembrar que a desonra é apenas um preconceito. Vícios como o roubo, a sodomia e a covardia, embora sejam marcados pela ignomínia, são aconselhados pela natureza. Ora, tudo aquilo que é recomendado pela natureza ‒ como a procura pela maior dose de volúpia possível nos prazeres ‒ é legítimo, logo, contrário à ideia de infame. Por conseguinte, a mulher que se entrega plenamente ao gozo ri da ruína de sua reputação. Sem mais nada a perder, ela goza tranquilamente e é mais feliz234.
Delbène desenvolve seu raciocínio: se o objeto da mácula social é responsável pela felicidade, ao abandoná-lo, a mulher se tornará infeliz. Tal renúncia nunca compensaria a perda do prazer, visto que o sofrimento causado pelo peso imaginário do desprestígio é intelectual, capaz de afetar somente alguns espíritos. Entre os dois males ‒ o sacrifício do prazer e o vexame público ‒, é preciso escolher o menor: manter o gozo e ignorar a má fama. E uma vez que a mulher tenha vencido essa primeira etapa, ela experimentará algo singular: os temidos indícios da ignomínia metamorfosear-se-ão em júbilos. Resultado: ao invés de evitar a infâmia, ela dobrará seus esforços para afundar-se na torpeza a ponto de desejar colocá-la à mostra. É nesse momento que ela conhece verdadeiramente o prazer235. A abadessa
supõe então a objeção de seus ouvintes para em seguida replicá-la:
“Mas, dizem às vezes a vocês, há coisas horríveis, coisas que chocam todas as luzes do bom senso, todas as leis aparentes da natureza, da consciência e da honestidade, coisas que parecem feitas, não somente para inspirar geralmente o horror, mas para não poder mesmo jamais produzir prazer... Sim, aos olhos dos tolos. Mas há certos espíritos que, tendo desvencilhado essas mesmas coisas daquilo que elas têm de horrível em aparência e do preconceito que as avilta e as condena, só veem nelas grandes volúpias, e delícias tão mais picantes quanto mais esses procedimentos se desviam dos usos convencionais, ultrajam gravemente os bons costumes e tornam-se severamente proibidos”236.
Em suma, quanto mais transgressoras e, consequentemente, mais execráveis à
233 “Que le nom de putain ne vous effaye pas [...]” (ibid.). 234 H.J., p. 256.
235 H.J., p. 257.
236 “Mais, vous dit-on quelquefois, il y a des choses horribles, des choses qui choquent toutes les lumières du bon sens, toutes les lois apparentes de la nature, de la conscience et de l'honnêteté, des choses qui paraissent faites, non seulement pour inspirer généralement de l'horreur, mais pour ne pouvoir même jamais procurer de plaisir... Oui, aux yeux des sots ; mais il est de certains esprits, qui ayant débarrassé ces mêmes choses de ce qu'elles ont d'horrible en apparence, et les en ayant dégagé en foulant aux pieds le préjugé qui les avilit et les condamne, ne voient plus dans ces choses que de très grandes voluptés, et des délices d'autant plus piquant que ces procédés s'écartent le plus des usages reçus, qu'ils outragent le plus grièvement les mœurs, et qu'ils deviennent le plus sévèrement défendus” (H.J., pp. 257-258).
sociedade, mais favoráveis tais ações são ao gozo libertino. É por isso que os celerados buscam sempre a superação pelo excesso. Pela mesma razão, o prazer só é interessante se criminoso, se implica uma contravenção. Com a prática, a necessidade do crime revela-se cada vez maior, pois o hábito da transgressão torna atraente aquilo que antes era repugnante. Dessa forma, os vilões,
“[...] de desvio em desvio, chegam a monstruosidades cuja execução está ainda aquém do que desejam, porque seria preciso crimes reais para lhes dar um gozo verdadeiro e infelizmente não existe crime nenhum. Assim, sempre abaixo de seus desejos, não são mais eles que faltam aos horrores, são os horrores que faltam a eles”237.
Um “crime real” ‒ aquele idealizado por representar o cume do excesso e propiciar um gozo pleno ‒ é, contudo, inacessível ao devasso. Para quem já fez de tudo, nada mais ultraja. O crime perde então o sentido de infração, pois todos os delitos tornam-se ordinários. A cada nova tentativa de exceder a anterior, a ação parece estar sempre abaixo do prazer almejado. Assim, o crápula mantém-se num estado de insatisfação constante frente à impossibilidade de operar horrores cada vez mais escabrosos. Eis o grande dilema do vilão sadiano: o imperativo da transgressão implica violações cada vez mais singulares e inesperadas que, no limite, conduzem àquilo que só pode ser efetuado com a ajuda do imaginário.
A progressão da gradação fica então evidente no discurso da superiora. Se no começo de suas dissertações o crime não é pouco aludido e o gozo pode ser concebido sem ele, é simplesmente para manter uma sutileza inicial e permitir a intensificação gradual das lições. Não é à toa que os ensinamentos de Delbène terminam com uma apologia do crime coroada por um deboche sanguinolento. A delicada sensualidade dos primeiros encontros é substituída pela ferocidade dos bacanais letais.