Antes de continuar a história do então fundado Assentamento Lyndolpho Silva, é preciso resgatar a trajetória da Fazenda Sítio Boa Sorte, temporariamente paralela às histórias dos agricultores contadas acima, tomando como referência o percurso e a vida da família de Seu Antônio e Dona Raimunda, agricultores familiares que residiam na fazenda em regime de morada, e que, no processo, também foram assentados e continuam na área até os dias atuais. A história da fazenda remonta à 1981, ano em que Seu Antônio e Dona Raimunda passaram a residir na área para trabalhar como agricultores e prestar os cuidados necessários à criação dos animais do então proprietário.
Seu Antônio é natural de Petrolina. Filho de agricultores, migrou com sua família para São Paulo ainda com 9 anos em busca de trabalho e melhores condições de vida. Ficou lá de 1952 até 1965, quando retornou com sua família para Petrolina. Poucos dias após chegar, começou a trabalhar na ICSA. “(...) eu cheguei aqui no dia de São João, dia 24, em Petrolina. Quando foi no dia 1º de julho, eu me empreguei na indústria. Já tinha um cunhado que trabalhava lá, já tinha conhecimento, aí arrumou uma vaga para mim. Aí eu trabalhei seis anos lá na indústria” (Seu Antônio).
Dona Raimunda é natural de Dormentes/PE, a aproximadamente 140 km de Petrolina. Filha de agricultores, afirma que foi trabalhadora de roça durante toda a sua vida. Conheceu Seu Antônio em Petrolina em 1971 e logo se casaram. Nesse mesmo ano, Seu Antônio pediu demissão da ICSA e junto com Dona Raimunda migrou para Dormentes em busca de terras para plantar e criar animais. Ficaram lá por 10 anos, nas áreas de familiares. Em 1981, em virtude da seca e da falta de estrutura para agropecuária, Seu Antônio retornou a Petrolina em busca de emprego. Veio sozinho, deixando Dona Raimunda e mais cinco filhos em Dormentes, os quais viriam quando ele conseguisse trabalho. O que seria uma migração temporária, se tornou um emigração definitiva, fato comum, conforme reflexão de Woortmann, K. (2009). “A própria migração circular pode também se transformar em definitiva, a depender do sucesso alcançado. O pai que migrou pode ‘chamar a família’” (p. 237).
Eu vim na frente, eu não vim pelo certo não. Aí eu cheguei num dia, no outro eu vim para aqui trabalhar, só trabalhar mesmo, não morar. Aí quando cheguei, fiquei aí. Aí conheci Orlando (...). Aí Orlando disse: “Quer trabalhar aqui?”. Antoniel morava aqui, mas lá em baixo. Aí falei com Mundica [Dona
Raimunda], ela disse que vinha. Quando ela veio para aqui, essa casa não existia. Foi depois que eu vim (Seu Antônio).
Orlando Norberto de Araújo, ou Seu Orlando, como era conhecido, era o proprietário da Fazenda Sítio Boa Sorte. Pertencente a seus avós, a área foi herdada por sua mãe e um irmão. Seu Orlando passou um tempo em São Paulo e, após o falecimento de sua mãe, retornou e comprou a parte de seu tio, tornando-se o único proprietário de toda a área. Esta, por sua vez, possuía uma usina de caroá desde 1958, produzindo cordas, tipos de rede, estopas etc., a qual logo deixou de existir. Seu Orlando passou a criar animais, caprinos e bovinos, e a manter trabalhadores dentro da área para dela tomar conta.
Figura 9 – Data de fundação da casa cravada no cimento
Fonte: o autor.
Dos serviços que prestavam, lembram com carinho do cuidado com os animais. O acerto feito com Seu Orlando para estes serviços era em regime de quarta, ou como eles mesmos dizem, “quando tiravam a sorte de 4 x 1”: para cada quatro animais nascidos, 1 ficava com Seu Antônio e Dona Raimunda; mas somente os caprinos, pois o gado não era parte do negócio. Do gado, cuidavam para acesso ao leite, pois o proprietário não tinha interesse no mesmo.
Eu tomava de conta de tudo aí. Fazia o que precisasse. O que mandasse, eu fazia. Porque os bichos dele, ele criava um bocado de bode nessa época, mas
eram todos mansinhos. Não tinha trabalho para vir. Tinha um gadinho também, mas não tinha trabalho. E eu ia buscar era a pé, pois eu nunca fui vaqueiro não. Para não dar uma de vaqueiro sem ser. (...) criação a gente tirava a sorte: 4 para 1.Quando nascia 4 cabritos, a gente...Só os bodes, pois no gado a gente não tinha a “sorte” não. Tinha o leite. O leite ele não levava, nem vendia, aí a gente ficava para a gente mesmo, o leite dos bezerros (Seu Antônio).
Os animais conquistados por Seu Antônio e Dona Raimunda eram consumidos ou vendidos para Seu Orlando mesmo, que ia buscá-los na área. Não recebiam qualquer salário fixo por seus serviços, somente a sorte de 4 x 1, o leite, a permissão para plantar e ajudas de custo com medicamento e alimentos. Segundo relataram, a venda dos animais não lhes garantia muitas vantagens. Quando muito, tiravam algum dinheiro que possibilitava a compra de roupas, calçados, alimentos e remédios. O pouco que plantavam era somente para o próprio consumo. Dona Raimunda era a responsável junto com seus filhos. No canteiro que possuíam, mantinham feijão, milho, mandioca, frutas e verduras em geral.
Os serviços prestados em outras áreas de Seu Orlando se resumiam a atividades esporádicas de limpeza dos terrenos, colheitas de produtos ou transportes de animais. Seu Antônio relatou, por exemplo, o tempo em que passou numa propriedade na beira do Rio São Francisco, trabalhando em uma fazenda de produção de manga. Se deslocava semanalmente para visitar seus filhos e Dona Raimunda, que permaneciam na Fazenda Sítio Boa Sorte, a qual tinha ainda outros funcionários. Ao todo foram 18 meses de serviços realizados na propriedade da beira do rio. Ao retornar de vez à fazenda, passou a residir somente a família de Seu Antônio e Dona Raimunda; os outros funcionários saíram da área.
De todos os serviços que prestavam, ou de todas as trabalhadas28 que davam, de longe os mais pesados eram o corte de lenha e a produção de carvão; em seus relatos, inclusive, chegam a avaliar como “o pior tipo de serviço que existe” (Seu Antônio). Reconhecem os diversos tipos de problemas de saúde que adquiriram ao trabalhar por anos com esse tipo de atividade: doenças cardiorrespiratórias, alergias, problemas de pele, problemas de coluna etc. Tanto as lenhas cortadas como o carvão produzido eram comprados pelo proprietário da área, que revendia. Estas atividades, especificamente, eram divididas da seguinte forma: Seu Antônio cortava a lenha e Dona Raimunda produzia o carvão; ambos recebiam ajuda dos filhos.
28 Trabalhada é o termo utilizado pelos agricultores do assentamento para resumir um trabalho prestado, ou um
dia de serviço, ou ainda uma jornada de atividades. Sempre que utilizarmos esse termo, estaremos nos referindo a um destes significados.
Fazia e o dono da terra mesmo era quem comprava e ia vender para os outros. (...) É o pior serviço que existe. (...) Fazer carvão e cortar lenha. (...) E para tirar o carvão, nesse tempo quente? Carvão já é quente, não é? E esse sol quente danado. Ela era quem tirava mais os meninos. Eu não gostava não (Seu Antônio).
(...) Era acostumado ele sair daqui com uma caminhonete cheia de sacos de carvão, mas era só lenha seca mesmo. (...) Eu era sadia, e acredito que comecei a sofrer do coração depois da poeira do carvão. (...) Tinha vezes que dava uma hora da tarde e eu estava dentro das calheiras de carvão com o barrigão com aquele grude (Dona Raimunda).
As “ajudas” recebidas do proprietário da fazenda iam desde compras realizadas para a família de Seu Antônio e Dona Raimunda até a resolução de problemas de saúde. Sobre a primeira questão, Seu Antônio relatou que muitas vezes solicitava de Seu Orlando uma ajuda para a complementação da alimentação de sua família, indo até duas ou três vezes em uma mesma semana pegar “a feira”29 em Petrolina. Já no que se refere à segunda questão, o casal relatou acontecimentos em que passaram por dificuldades de saúde e que tiveram de solicitar ao proprietário que fosse até a fazenda para levá-los ao hospital (questões “cotidianas” de doenças ou acidentes de trabalho).
As dificuldades enfrentadas pela família de Seu Antônio e Dona Raimunda, portanto, foram muitas. Os serviços pesados e a relação de dependência e exploração que estabeleceram com o proprietário da área para poderem ter um espaço para criar animais e plantar, compreendida como morada, entretanto, foi e é bastante comum na história do Semiárido Nordestino (ANDRADE, 2011; GARCIA JR., 1990; HEREDIA, 2013); em seus relatos, inclusive, fazem questão de ressaltar o proprietário como um homem bondoso. Na Fazenda Sítio Boa Sorte o casal estabeleceu raízes e teve mais cinco filhos, totalizando dez. Vivendo na área desde 1981, relataram muitas histórias, possibilitando uma visualização da mudança da paisagem local, a qual já não é [há muito] mais a mesma.
Apesar de todas as dificuldades por que passaram e do reconhecimento destas como fatores limitantes e criadoras de demandas para a família, a relação de dependência estabelecida foi necessária para pôr em prática o seu projeto de autonomia para a aquisição de alguma renda para a formação de um patrimônio que lhes possibilitasse a criação dos filhos, os quais atualmente são todos agricultores e/ou trabalhadores rurais, com exceção de um que trabalha
29 A “feira”, nesse sentido, representa a compra dos alimentos da cesta básica, necessária ao consumo da casa.
em Petrolina como cabelereiro. “Sei que a vida é dura, mas eu, aos trancos e barrancos, venci. Porque o meu compromisso mais era quando os meninos eram pequenos, criar. Os meninos criados, agora eu não trabalho e trabalho todos os dias. Que trabalho de velho é devagar, e tenho muitos filhos” (Seu Antônio).
Ainda trabalhando na área em 2006, Seu Antônio e Dona Raimunda foram avisados da desapropriação e indenização da propriedade pelo INCRA. Durante todo o ano, receberam muitas visitas, dando informações sobre a área e acompanhando os funcionário do Instituto, do STR e da Justiça Federal na medição e estudo do terreno. Ao final do ano, quando avisados sobre a efetivação da desapropriação e transformação do Sítio em um assentamento, lhes foi dada a escolha de permanência e inclusão no Projeto de Assentamento – P. A. Inicialmente, ficaram em dúvida sobre qual decisão tomar, mas acabaram por aceitar a oferta, incorporar-se ao grupo de agricultores familiares que foram assentados (já conheciam muitos) e continuar residindo e produzindo na área.
Aí quando eles [Incra] chegaram aí eu não estava. Eu tinha ido pegar uma palha num sítio que ele [Seu Orlando] tem. Aí chegaram aí, conversaram e eu disse que não queria. Eu disse que não queria. (...) Aqui não, eu digo a você. Aí teve um dia que eu disse: “Não, eu fico”. Mas eu não estava aqui não. “Eu quero”. Depois, “não rapaz...” (Seu Antônio).
A dúvida se deu principalmente por não saber como seria a vida num assentamento da reforma agrária, mas a possibilidade de ter uma terra própria e produzir para si mesma falou mais alto na decisão da família. No momento de negociação para que ficassem, foi dada a possibilidade, pelo INCRA, de que os filhos casados do casal também pudessem ter acesso a um lote próprio, contudo aqueles que encontravam-se casados já tinham saído da área e se estabelecido em outros locais. Os demais, solteiros e que continuavam residindo com os pais, decidiram por continuar na área dividindo os cuidados diante de uma mesma produção.
Em 2006, portanto, cruzam-se os caminhos dos acampados e da Fazenda Sítio Boa Sorte, que passou a ser um assentamento da reforma agrária.