Dentro do debate sobre as condicionantes sociais e suas relações com as práticas e representações sociais, parece produtivo recorrer ao conceito de habitus – na
perspectiva de Pierre Bourdieu. Esse conceito se debruça sobre os aspectos e relações mediadoras entre os fatores sociais de condicionamento exteriores e a subjetividade própria dos sujeitos (SETTON, 2002).
Em Bourdieu, o conceito de habitus começa a tomar forma em Estrutura,
habitus e prática, no posfácio ao livro de Erwin Panofsky: Architecture gothique et pensée scolastique. Panofsky, nessa obra, procurou demonstrar que as semelhanças
entre o pensamento escolástico e a arte gótica advinham de um processo educativo socializador, cuja apropriação ocorreu de forma inconsciente e difusa por parte dos indivíduos (SETTON, 2002). Partindo da observação de Panofsky, Bourdieu pôde depreender que:
“[...] a cultura não é só um código comum [...] é, sobretudo, um conjunto de esquemas fundamentais, precisamente assimilados, a partir dos quais se engendram, segundo uma arte da invenção semelhante à da escrita musical, uma infinidade de esquemas particulares, diretamente aplicados a situações particulares” (BOURDIEU, 1982, p.349).
Com efeito, Bourdieu compreende o papel estruturante desempenhado pela cultura, diferentemente de Cassier, Sapir, Durkheim e Levi-Strauss – para os quais a cultura é concebida em termos de estrutura estruturada. Na concepção de cultura estruturada, enfatiza-se a análise interna das mensagens simbólicas, de forma que se continua sob o paradigma da integração social postulado pelo estudo das representações coletivas de Durkheim (MICELI, 2001).
A perspectiva adotada por Bourdieu se filia ao pensamento marxista e weberiano, na convergência sobre o papel da cultura e seus sistemas simbólicos na manutenção e legitimação da ordem vigente. De fato, pode-se dizer que essa tem sido a característica da tradição materialista.
“A tradição materialista, por sua vez, salienta o caráter alegórico dos sistemas simbólicos numa tentativa de apreender tanto o seu caráter organizacional próprio – o núcleo do projeto weberiano – como as determinações que sofre por parte das condições de existência econômica e política e a contribuição singular que tais sistemas trazem para a reprodução e a transformação da estrutura social” (MICELI, 2001, p.IX).
Em outro momento de sua teorização, Bourdieu precisa o conceito de habitus. Nesse ponto, o habitus abarca tanto a dimensão de estrutura estruturada, quanto desempenha o papel de estrutura estruturante, funcionando como elemento capaz de articular essas duas faces estruturais.
“Sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser objetivamente ‘regulamentada’ e ‘reguladas’, sem ser o produto de obediência a regras objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente” (BOURDIEU, 1994, p.61).
O habitus se caracteriza por orientar a produção das representações, bem como por conduzir as práticas sociais; sem, contudo, se situar no âmbito de uma gramática consciente, cujas leis são seguidas de forma intencional.
Através de sua função articuladora, o habitus promove a síntese entre a estrutura estruturada e a estrutura estruturante, constituintes da dimensão simbólica. O sujeito social, identificado à estrutura estruturante, conhece, age e representa, de maneira que modifica a realidade social – respeitando, obviamente, certos limites franqueados. Cabe à estrutura estruturada a imposição de restrições e convenções sociais ao espaço de ação e representação dos sujeitos. A face estruturada do simbólico recobre o que se entende por realidade ou estrutura social, cuja existência se materializa previamente aos sujeitos (JUNQUEIRA, 2005).
Não é adequado pensar o habitus enquanto mera repetição da realidade pré- existente – conforme será demonstrado adiante. Contudo, parece conveniente, primeiramente, explorar os elementos constituintes da denominada estrutura estruturada do habitus, na relação que estabelece com os sujeitos.
“As experiências se integram na unidade de uma biografia sistemática que se organiza a partir da situação originária de classe, experimentada num tipo determinado de estrutura familiar. Desde que a história do indivíduo nunca é mais do que uma certa especificação da história coletiva de seu grupo ou de sua classe, podemos ver nos sistemas de disposições individuais variantes estruturais de grupo ou de classe [...]. O estilo pessoal, isto é, essa marca particular que carrega todos os produtos de um mesmo habitus, práticas ou obras, não é senão um desvio, ele próprio regulado e às vezes mesmo codificado, em relação ao estilo próprio a uma época ou a uma classe” (BOURDIEU,1983, p.80-81).
Como se pode notar, o conjunto de experiências que compõem a biografia dos sujeitos é estruturado a partir da classe ou do grupo a que se pertence originalmente. Nos últimos anos, as análises sociais têm evocado a dimensão cultural da realidade com fins explicativos, uma vez que a redução do social a aspectos exclusivamente políticos e
econômicos não se mostrou satisfatória para a compreensão de diversos fenômenos (JUNQUEIRA, 2005).
Dentre os fenômenos, para cuja análise o conceito de classe social, tomado em particular, se apresenta insuficiente, se destacam as seguintes questões: a) o papel do gênero, enquanto elemento estruturante da realidade; b) a problemática da raça, cor e etnia constituinte das relações sociais; c) as determinantes de idade/geração e suas implicações sociais; d) a heteronormatividade compulsória.
Weber (2003) demonstrou, de maneira inequívoca, a impossibilidade de se reduzir as causas dos fenômenos sociais exclusivamente a fatores econômicos e políticos. O pertencimento a determinada classe social não recobre a estruturação mais ampla das biografias individuais. A dimensão cultural e histórica deve ser levada em conta na tentativa de se compreender as realidades sociais que se apresentam cotidianamente.
Não se objetiva arrolar os diversos fenômenos sociais para os quais a categoria analítica “classe social”, apesar de necessária à análise, não se demonstra suficiente. Pretende-se, tão somente, indicar a relevância da intersecção dos elementos gênero, raça/etnia, classe social, idade/geração e sexualidade na organização de biografias. É precisamente essa relevância que faz do conceito de interseccionalidade, nas palavras de Collins (1998, p.208), “um marco interpretativo para se pensar como as intersecções por exemplo de raça e classe, ou raça e gênero, ou sexualidade e classe formam a experiência de qualquer grupo através de contextos específicos”.
No diz respeito à possibilidade de variação das atitudes, pensamentos e representações dos indivíduos em relação aos seus grupos de pertencimento, o “estilo pessoal” caracteriza-se por ser um desvio socialmente regulado. Disso decorre que cada sujeito é um sujeito de sua época, marcado pelas experiências sócio-históricas de seus grupos. Parece evidente que, no estudo das biografias, os comportamentos e pensamentos subjetivos devem ser remetidos à interseccionalidade dos grupos sociais dos quais os sujeitos participam.
Apesar de o habitus se caracterizar pela regulamentação, sem intenção consciente, de práticas e representações; por definir o estilo individual de cada sujeito em termos de desvio socialmente regulado e se apresentar enquanto um sistema configurado no passado, orientado para o presente: tudo isso não lhe confere o estatuto rígido de um sistema destinado à reprodução da realidade.
“Princípio de uma autonomia real em relação às determinações imediatas da “situação”, o habitus não é por isto uma espécie de essência a-histórica, cuja existência seria o seu desenvolvimento, enfim destino definido uma vez por todas. Os ajustamentos que são incessantemente impostos pelas necessidades de adaptação às situações novas e imprevistas podem determinar transformações duráveis do habitus, mas dentro de certos limites: entre outras razões porque o habitus define a percepção da situação que o determina” (BOURDIEU, 1983, p.106).
O habitus, portanto, se mostra “sensível” às mudanças sócio-históricas, produzindo ajustes à medida que a realidade social assim os demanda. Todavia, mesmo não sendo essência a-histórica, a capacidade do habitus de definir suas percepções do social, não o torna um sistema emissor de repostas adaptativas – condicionadas diretamente pelos estímulos sociais emitidos. De fato, o habitus caracteriza-se pela abertura a mudanças e ajustes – na medida em que suas percepções reguladoras permitem.
A autonomia do habitus em relação às determinantes imediatas não faz com que esse sistema de disposições se coloque em funcionamento independentemente de sua interação com a “situação”. Bourdieu reconhece na situação um elemento importante para a realização do habitus.
“A ‘situação’ é, de certa forma, a condição que permite a realização do habitus. Quando as condições objetivas da realização não são dadas, o habitus, contrariado, e de forma contínua, pela situação, pode ser o lugar de forças explosivas (ressentimento) que podem esperar (ou melhor, espreitar) a ocasião para se exercerem, e que se exprimem no momento em que as condições objetivas se apresentam” (BOURDIEU, 1983, p.106).
O que parece de suma importância recapitular nesse momento, tendo em conta os objetivos desse estudo, é o papel gerador de representações e práticas sociais desempenhado pelo habitus. Nesse sentido, as representações analisadas devem ser sempre remetidas ao habitus que as fundamenta.
A remissão das representações ao seu habitus procura ancorar a produção das representações na biografia dos sujeitos. Assim, os princípios estruturadores de gênero, raça/etnia, classe, sexualidade e idade/geração, bem como a intersecção entre esses elementos, a depender de cada caso específico, ajudam na compreensão da dinâmica das forças sociais envolvidas nos processos representacionais.
No entanto, um outro aspecto do estudo das representações sociais merece atenção. Apesar de os sistemas simbólicos serem recorrentemente evocados, em alguns
estudos, ocorre o esquecimento ou mesmo o descarte da “dimensão social” das representações – nos termos de Malinowski.
Magnani (1997) procura reavivar a memória dos pesquisadores em relação ao processo de reconstituição de representações adotado por Malinowski. Com esse intuito, adverte contra as utilizações reducionistas da noção de representação:
“O esquecimento do processo de constituição desse conceito, dos pressupostos que lhe servem de base e de seu campo de aplicação original transformou-o em lugar-comum, apagou-lhe os contornos, tornando-o translúcido a ponto de, em alguns casos, ser confundido com a pura transcrição de entrevistas e depoimentos: já nem é uma ferramenta de análise, pois parece fluir naturalmente do discurso dos atores sociais” (MAGNANI, 1997, p. 127).
A identificação das representações com o discurso dos atores sociais tem feito do discurso desses atores a única fonte a ser considerada no processo de reconstituição das representações. As perspectivas metodológicas que identificam o discurso ao social tomam a parte pelo todo. Reduzem o social não somente ao simbólico, mas a um de seus aspectos.
Malinowski, em A coleta e a interpretação dos dados empíricos, examina a fragilidade das metodologias que desconsideram a dimensão social das crenças e representações:
“O etnógrafo consegue um informante e, de suas conversas com ele, julga-se capaz de formular a opinião do nativo, digamos, sobre a vida após a morte. Essa opinião é anotada, o sujeito da oração colocado no plural e temos assim “os nativos acreditando nisto e naquilo”. Esse é um exemplo do que eu chamo “um relato unidimensional”, pois ignora as dimensões sociais nas quais a crença deve ser estudada, assim como ignora sua complexidade e multiplicidade essenciais” (MALINOWSKI, 1986, p.146).
Os estudos que operam a redução da dimensão social das representações adotam, na maior parte dos casos, uma orientação metodológica própria: a) formulam perguntas a seus sujeitos sobre o que pensam em relação a determinado fato ou objeto; b) para não correrem o risco de se situarem no âmbito da subjetividade, atribuem identidades sociais a seus entrevistados: “trabalhadores”, “mães”, etc. Isso feito, os dados obtidos são compilados e a representação a cerca de determinado objeto é traçada (MAGNANI, 1997).
Na tentativa de se sustentar a cientificidade das análises que se baseiam em relatos unidimensionais, esses estudos entrevistam, por exemplo, mais de um nativo ou
um grande conjunto de trabalhadores. A expansão numérica de entrevistados objetiva analisar estatisticamente as respostas e, assim, defender quantitativamente o aparente caráter científico da representação encontrada. Através de um trabalho quantitativo desse tipo, se reproduz mais uma vez a redução da dimensão social das representações ou das crenças ao discurso dos sujeitos entrevistados.
Com efeito, quando Malinowski se depara com uma série de opiniões diferenciadas sobre o retorno dos baloma, no lugar de tirar a média das opiniões e resolver o problema de sua diversidade, reconhece a necessidade de recorrer a outras fontes de informação.
“O que eu deveria fazer? Elaborar uma espécie de opinião “média”? O grau de arbitrariedade me parecia muito grande. Além disso, era óbvio que as opiniões constituíam apenas uma pequena parte da informação disponível. Todas as pessoas [não] deixavam de apresentar um comportamento influenciado, de um certo modo, por esses baloma, procedendo de acordo com certos costumes e obedecendo a determinados cânones de reação emocional” (MALINOWSKI, 1986, p.147).
Conferir ao simbólico, à dimensão cultural, a devida importância para a análise de fatos sociais não significa, em nenhum momento, restringir a existência das representações ao discurso. Essa postura reserva ao simbólico um lugar de somenos importância para a análise do social, dado que as representações não se fariam presentes nos costumes, comportamentos e instituições sociais de determinada sociedade.
É imprescindível, ao estudo das representações, o reconhecimento das diversas dimensões sociais em que se inscrevem:
“[...] uma crença ou um item do folclore não é um simples retalho de informação que possa ser retido de uma fonte casual qualquer ou de algum informante ocasional e postulado como axioma, de maneira simplista. Ao contrário, cada crença está expressa em muitos fenômenos sociais. [...] Em outras palavras, há uma “dimensão social” da crença que deve ser cuidadosamente estudada [...]. Ignorar essa dimensão social, subestimar a variedade de formas assumidas por qualquer item do folclore em um grupo social, é uma atitude não-científica” (MALINOWSKI, 1986, p.145).
O processo de reconstrução de crenças ou representações precisa considerar suas inscrições em diversas instâncias: nos costumes, observando as atitudes cotidianas e o comportamento dos indivíduos em seus rituais; nas reações emocionais diante do objeto de crença; no funcionamento das instituições e nas opiniões dos sujeitos entrevistados.
Não parece necessário explorar a forma com que Malinowski trabalha seus dados, ou seja, como chega finalmente a reconstituir uma idéia social ou dogma. Nesse momento, objetiva-se apenas ressaltar a importância da dimensão social constituinte das representações.
Esse objetivo se coaduna com a perspectiva adotada pelo presente trabalho que, por reconhecer a necessidade de situar as representações em um habitus, não pode negligenciar sua dimensão social. De outra forma, corre-se o risco de reduzir as representações ao discurso e exilar os sistemas simbólicos da interação com o conjunto de elementos sociais condicionantes.