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3.1 D´ eveloppement d’un outil de simulation

3.1.1 Pr´ esentation de l’outil

Começamos esse tópico com um título provocador: velhice é coisa de mulher? Voltamos mais uma vez ao tema da feminilização da terceira idade. Não por capricho, por

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As transferências na Espanha são transferências sociais como bonificações, benefícios, dedução de impostos e transferências em espécie. De acordo com o Imserso (2006), na ausência delas o risco de pobreza aumentaria 26% em todos os grupos etários da União Européia.

empatia ou por desejo de ver espelhado no capítulo sobre a Espanha o mesmo esquema que fizemos para construir o capítulo sobre o Brasil, mas por uma demanda legítima e importante que se impôs à época da análise do perfil dos idosos espanhóis.

A velhice, sem dúvida, não é coisa somente de mulher. Os homens também envelhecem, contudo, em geral, as mulheres sobrevivem mais e até idades mais altas. Esse fato, seguramente, dá contornos específicos à terceira idade tanto espanhola, quanto brasileira, considerando que há número maior de mulheres maduras e em idades avançadas nessas sociedades e que elas representam a maior parte do grupo de idosos desses dois países.

Elas são muitas e cada vez vivem mais. Na Espanha, assim como no Brasil, há uma diferença significativa entre o número de mulheres e de homens. Apesar de que é preciso apresentar um fato importante: nascem menos mulheres do que homens na Espanha. De acordo com Abellán (2002a) para cada 106 meninos nascem 100 meninas, quase um equilíbrio que se acaba a partir da faixa etária dos 40 anos de idade. Atualmente, nesse país existem aproximadamente quatro milhões de mulheres com 65 anos ou mais de idade e três milhões de homens desse mesmo grupo etário. Isso implica dizer que há um milhão a mais de mulheres do que homens idosos (IMSERSO, 2006). Ou mais precisamente, 57% das pessoas idosas na Espanha são mulheres.

Esse é um fenômeno que viemos destacando ao longo dessa tese de doutorado porque o consideramos sumamente importante para conhecer o perfil dos idosos nos dois países de análise. Aliás, não seria lógico deixar de revelar esse aspecto ao traçar o perfil das pessoas idosas no Brasil e na Espanha. Na realidade, se trata de uma tendência mundial: há mais mulheres maduras do que homens. Como defendemos no capítulo anterior, a velhice não é uma experiência homogeneizante e, portanto, esse desequilíbrio no número de homens e mulheres dá contornos especiais à terceira idade.

As mulheres idosas espanholas estão em maior número e a diferença cresce na medida em que se aumenta o recorte etário. Aos 65 anos são 100 mulheres para cada 90 homens. Aos 85 anos essa proporção aumenta para 234 mulheres para cada 100 homens (IMSERSO, 2006). Conforme Pérez Díaz (2003b) apesar de nascerem mais homens que mulheres, estes, em geral, vivem menos.

Desde que o envelhecimento espanhol se tornou mais intenso, fato que pontuamos no tópico anterior, quando nas primeiras décadas do século passado, a diferença no número de

homens e mulheres já era clara. Como evidência, basta observar todas as pirâmides etárias que apresentamos anteriormente. O lado das pirâmides que corresponde à proporção de mulheres se manteve sempre mais largo, desde o ano 1900. Essa diferença foi se acentuando, se considerarmos que, além das duas guerras mundiais, a Espanha também passou por uma guerra civil na década de 30 (1936 a 1939) e, certamente, as baixas masculinas foram muitas.

Na tabela 9 – “Esperança de vida ao nascer 1900-2030” – que apresentamos no tópico anterior, apresentamos as expectativas de vida população espanhola e, também, as separamos por gênero. Aproveitamos essa tabela para completá-la agora e calcular a diferença, nesse mesmo período, do número de anos que as mulheres vivem a mais do que os homens:

Tabela 15 - Diferença dos anos a mais na expectativa de vida feminina, Espanha, 1900 a 2030

Ano Diferença de anos entre a expectativa de vida masculina e feminina

1900 1,8 1940 6,1 1950 4,5 1970 5,5 2002 6,6 2010 6,5 2020 6,2 2030 6,0 Fonte: INE, 2006

Como nos referimos anteriormente, a expectativa de vida das mulheres desde o início do século passado sempre foi maior que a dos homens. Além disso, a diferença no número de anos a mais das mulheres, como podemos comprovar na tabela acima, foi aumentando. No ano de 1900, a diferença era tímida. As mulheres viviam em média menos de dois anos a mais que os homens. Na década de 40, percebemos que a diferença aumenta muito, especialmente, em função das baixas masculinas durante a Guerra Civil Espanhola. Nos outros anos essa diferença se manteve e a perspectiva é que para as próximas duas décadas o número de anos a mais que as mulheres idosas podem viver em relação aos homens continue mais alto.

Como óbvia conseqüência dessa diferença no número de homens e mulheres, 44,2% delas são viúvas, enquanto 78,6% dos homens idosos estão casados. Conforme dados do Imserso 2006, as mulheres desse grupo etário têm menos chance de viver em família que os homens. Aos 80 anos de idade mais de 71% das mulheres espanholas são viúvas, enquanto, nessa mesma faixa etária, 64,2% dos homens permanecem casados. Oito de cada dez idosos espanhóis que vivem sozinhos são mulheres:

Gráfico 14 - Estado civil da população idosa por sexo, Espanha, 2001 (porcentagem)

13% 2% 7% 78% Viúvo Sep/Div Solteiro Casado 44% 1% 9% 46%

Fonte: INE: Censo de población y viviendas, 2001

Como podemos ver no Gráfico 14, aproximadamente 46% das mulheres com 65 anos ou mais de idade são casadas. Um número quase 30% mais baixo do que o dos homens idosos casados. A proporção de pessoas casadas tende a diminuir com a idade, ao passo que a de viúvas tende a aumentar. Ainda segundo dados do Imserso (2006), a cada quatro mulheres de 65 anos uma é viúva. Aos 80, essa proporção é de duas viúvas para cada três.

Além disso, os homens espanhóis desse grupo etário têm mais chance de contrair segundo matrimônio do que as mulheres desse mesmo grupo. Metade dos viúvos com mais de 60 anos de idade se casa novamente, enquanto para as mulheres, dessa faixa etária, essa proporção é de uma para cada quatro (ABELLÁN, 2002a).

O Imserso (2006) na apresentação da pesquisa “Los mayores en España” coloca que as mulheres idosas nesse país estão mais expostas ao risco da solidão: “(...) A solidão a estas idades se produz por um processo familiar e demográfico (ninho vazio, viuvez), é uma alternativa não buscada, não voluntária, ao contrário do que acontece nos lares unipessoais de outros grupos de idade” (IMSERSO, 2006, p. 48). Aqui fica clara a imagem

negativa da solidão da mulher idosa. Vítima de uma série de fatalidades que culminam numa existência solitária. Não obstante, é preciso ponderar com os mesmos argumentos que utilizamos para falar sobre as mulheres da terceira idade brasileira, a Espanha é um estado de bem-estar e nesse sentido ampara a terceira idade, ainda que as mulheres não tenham participado do mercado de trabalho ao longo da sua vida e contribuído para o sistema de seguridade social, elas podem receber benéficos não-contributivos38. As mulheres idosas, quando à época da aposentadoria ou de receber algum outro benefício, também passam a contar com uma remuneração fixa e, sem dúvida, entre outras razões, não dá para acreditar que esse quadro seja de tanta tristeza e abandono:

Por outro lado, a imagem de solidão e abandono que se costuma extrair das estatísticas sobre o estado civil e a estrutura dos lugares é parcial. Tais dados nos falam unicamente dos que convivem abaixo de um mesmo teto, e nada nos dizem sobre as reais relações entre familiares. É precisamente no âmbito de convivência familiar onde mais se faz necessário revisar os tópicos sobre a situação dos homens e mulheres (Trad. livre) (PÉREZ DÍAZ, 2003b, p. 108).

Como Pérez Díaz (2003b) argumenta, o fato de viver num lar unipessoal não está diretamente ligado às imagens negativas que se costuma criar das mulheres idosas. A velhice tem mudado. Especialmente, nas últimas décadas os câmbios vividos pelos avanços da medicina, pelo intenso processo de industrialização, pelo ingresso feminino massivo no mundo de trabalho, pela própria queda nas taxas de fecundidade, que não destina mais a mulher o único papel de cuidar dos filhos e da família, confere outra experiência ao envelhecimento. Morar sozinha pode ser mais do que o resultado de um fatídico e triste destino, pode ser um ganho de autonomia e liberdade.

As mulheres da atual terceira idade espanhola têm, em geral, menos instrução, participam menos do mercado de trabalho e têm menos poder aquisitivo que os homens, como apresentamos anteriormente. Nada obstante, na terceira idade essa desigualdade entre as oportunidades que perdurou ao longo da vida das mulheres é diminuída pela aposentadoria, por exemplo. Pérez Díaz (2003b) defende que essas desvantagens experimentadas pelas mulheres, agora, à época da terceira idade, mudam significativamente. Na verdade, as posições se invertem. Conforme o autor, o homem

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O mesmo caso do Brasil, que ainda que não seja um estado de bem-estar, como a Espanha, ampara os idosos que não ingressaram no mercado de trabalho formal ao longo da sua vida ativa, como as mulheres e trabalhadores rurais, com a concessão de benefícios não-contribuitivos. Como argumentamos no capítulo anterior, esse fato tem mudado sensivelmente a terceira idade brasileira.

espanhol ingressa nessa etapa da vida com menos conhecimentos e flexibilidade para vivê- la.

Como já comentamos, a mulher espanhola tomou para si um papel estratégico: a de cuidadora de idosos. São, em geral, as mulheres maduras que cuidam de outros adultos maduros que necessitam de ajuda especial. Num país no qual a questão do cuidado e atenção aos idosos tem se tornado um problema crucial, essa função passa a ter um caráter especial e estratégico, já que a assistência privada sai muito onerosa tanto para as famílias, quanto para o Estado.

Terminamos esse tópico afirmando que os dados desse perfil são extremamente transitórios. As mulheres que se tornarão idosas na Espanha em um prazo de 20 ou 30 anos terão, indubitavelmente, outro perfil. Tanto do ponto de vista financeiro, quanto educacional, por exemplo, a realidade será outra. Os câmbios culturais e nos papéis de gênero moldam a experiência da velhice. Além disso, a tendência, de acordo com dados do Imserso (2006), é que a diferença na esperança de vida de homens e mulheres diminua. Ou seja, assim como colocamos em relação ao Brasil, temos também aqui um quadro passageiro porque as crescentes melhoras nas condições de vida e as mudanças no comportamento social impactam fortemente na qualidade da vida madura e nos anos a mais que se pode viver.