4.4 Expérimentations
5.1.1 Prétraitement
Conforme analisado na seção anterior, o NetMap é uma alternativa metodológica relativamente simples de ser aplicada e que contribui expressivamente para a análise de políticas, sejam elas públicas ou privadas. Dessa forma, alguns exemplos ajudam a desmistificar seu uso e elevam o seu alcance.
Aqui, demonstraremos dois trabalhados desenvolvidos pela própria Eva Schiffer e sua equipe de pesquisa, bem como dois trabalhados desenvolvidos junto ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Começando pelos exemplos internacionais, conforme mencionado anteriormente, o projeto “Challenge Program for Water and Food and the White Volta Basin Board (WVBB)” em comunidades carentes de Gana foi o primeiro a utilizar o NetMap como alternativa metodológica nas análises de redes sociais. Os estudos recentes realizados por Eva
Schiffer e sua equipe foram desenvolvidos em Gana e Malawi, países nos quais historicamente há elevada desigualdade e pobreza, especialmente nas áreas rurais.
Em 2010 ocorreu a última avaliação desse projeto, sendo seu objetivo entender os fatores que contribuíam para a adoção de sistemas de irrigação nessas áreas rurais, uma vez que o seu acesso é fundamental para o desenvolvimento da produção. Segundo a avaliação realizada por Birner et al. (2010), no caso de pequenas propriedades, no momento da consolidação dos projetos foram considerados eficientes os pequenos reservatórios para a irrigação, pois segundo especialistas, os mesmos seriam mais fáceis de gerir e possuíam menores riscos envolvidos. O estudo pretende analisar se essa constatação está correta e se e
como a gestão desses reservatórios pode ser melhor executada.
A pesquisa foi conduzida por dois questionários diferentes, um quantitativo e outro qualitativo. Neste último caso foi utilizado o NetMap para mapear as relações existentes entre os diversos agentes envolvidos. Foram coletadas informações sobre 31 “Water User Associations” que são as associações responsáveis por gerir o uso dos reservatórios entre os agricultores na região leste rural de Gana. A pergunta fundamental a ser respondida era: “quais fatores influenciam no funcionamento dos pequenos reservatórios?”. A metodologia utilizada incluiu pela perspectiva quantitativa uma análise econométrica (através de coleta de dados e informações espaciais), demonstrando que o uso de irrigação detém forte correlação com melhor infraestrutura e disponibilidade de água. Ao mesmo tempo, a coleta de dados também destacou problemas severos na construção dos reservatórios, especialmente entre 2000 e 2006, devido à má construção ou não finalização dos canais de distribuição de água, sugerindo mudanças necessárias na sua governança.
Para entender melhor essa estrutura de governança e os seus conflitos, foi aplicada a metodologia NetMap em conjunto com membros de cada associação, seguindo as questões explicitadas anteriormente. A figura abaixo demonstra a rede e seus agentes, fluxos e a intensidade das relações, demonstrando que os fluxos que monitoram e executam esses fundos para construção estão centrados nos departamentos ligados aos órgãos governamentais, sendo que as comunidades exercem pouca ou nenhuma influência, especialmente ao observar que a comunidade obtém relações quase que exclusivas com a assembleia distrital e o chefe tradicional, sendo o seu grau de influência igual a zero, em uma escala de zero a dez.
FIGURA 7: RELAÇÕES CONTÁBEIS, FLUXO DE FUNDOS E A INFLUÊNCIA DOS DIVERSOS ATORES ATUANTES NA CONSTRUÇÃO DOS RESERVATÓRIOS
Fonte: Birner et al. (2010) Além disso, informações retiradas das entrevistas mostram que os conselhos distritais devem realizar uma contribuição periódica aos partidos políticos e, por esse motivo, esses fundos para construção dos reservatórios podem ter sido desviados antes mesmo de chegar às comunidades. Além disso, conforme as mesmas entrevistas, ainda através da influência política, partidos recebem doações de campanha de diversas empresas privadas que também podem ter sido privilegiadas no processo de seleção das obras de infraestrutura. Todas essas relações estão demonstradas na figura 7, apontando a intensa influência exercida pelos agentes governamentais e assembleias distritais (entre oito e dez na escala), bem como os agentes privados, ao mesmo tempo em que podemos observar a baixa influência das comunidades envolvidas.
De acordo com essa conjuntura, a análise da rede permitiu observar que o maior desafio na construção dos reservatórios está na falta de confiança entre os agentes envolvidos, especialmente na relação descrita entre o poder público, os agentes privados e as comunidades. Segundo Birner et al. (2010, p. 4, tradução minha), “o problema principal a ser combatido na construção dos reservatórios é a quebra de confiança existente entre os agentes”. Essa ausência de “pontes” gera, por sua vez, a ruptura no processo de
desenvolvimento dos projetos, sendo que muitos deles apresentam atrasos superiores a seis meses para o início da construção dos reservatórios.
Nessa pesquisa não foram analisados os indicadores de rede citados anteriormente. No entanto, segundo a análise econométrica e a análise do NetMap, foram sugeridas propostas para tentar construir um novo ambiente institucional que reforce as estruturas de governança a favor das comunidades. Dentre as diversas ações propostas estão:
a. Fortalecimento das Associações: seguindo os princípios da proposta “community-
based” e a necessidade de fortalecimento do capital social dessas regiões, as
associações “Water User Associations (WUA)”, devem ser ampliadas (atualmente somente 31 estão em funcionamento) e fortalecidas para sintetizar as demandas oriundas das comunidades, ou seja, são os “agentes-ponte” entre a comunidade e o poder local;
b. Fortalecimento das organizações não-governamentais: especialmente para apoiar as associações na sua organização diária;
c. Envolvimento do poder público: realização de consultas públicas para estreitar esse relacionamento;
d. Aumento da transparência: especialmente em relação aos contratos e financiamentos realizados, com livre acesso para a população;
e. Uso da mídia local: encorajamento da mídia local a noticiar os problemas oriundos dos projetos para que as questões sejam resolvidas com maior rapidez e afinco.
É nítida a necessidade de recriar o capital social nesses espaços, vide a dificuldade inerente de criar relações sólidas e constantes entre os beneficiários e os demais agentes do programa. Nesse sentido, reafirma-se a dificuldade na geração do capital social em espaços nos quais a pobreza e a desigualdade são históricas, iminentes e preponderantes. Encontrar uma forma de aglutinar e distribuir as informações entre os diversos atores é a primeira e talvez a principal fonte de geração de capital social.
Outra análise semelhante utilizando o NetMap foi realizada, em coautoria com Eva Schiffer, por Campbell et al. (2014), em uma pesquisa para avaliar o uso de telefones celulares entre os trabalhadores que prestam serviços de saúde em comunidades carentes rurais em Malawi, na África Oriental. Segundo o estudo, a pobreza extrema está concentrada nas áreas rurais (bem como na maioria dos países subdesenvolvidos, tais como o Brasil) e os profissionais da saúde que atendem essas localidades muitas vezes são a única fonte de acesso a esses serviços. Com o objetivo de facilitar a comunicação entre os agentes de saúde e os organismos municipais de saúde mais próximos (para retirada de dúvidas e maior agilidade no
atendimento), entre 2010 e 2011 foram realizados projetos pilotos em dois distritos rurais para introdução do telefone celular como ferramenta para estreitar a rede de comunicação o que, por sua vez, requer como metodologia avaliativa o uso de redes sociais, no caso o NetMap.
Ainda segundo os mesmos autores, o perfil das condições de saúde em Malawi é extremamente preocupante, uma vez que por lá se encontra:
a. Baixa taxa de fertilidade;
b. A cada 100.000 nascimentos realizados cerca de 460 mulheres morrem por complicações pré e pós parto (que poderiam ser solucionadas caso houvesse maior e melhor assistência médica);
c. A taxa de indivíduos contaminados pelo vírus HIV em 2011 era de 10%, a nona taxa mais alta do mundo
d. Entre 2007-2012 a taxa de uso de contraceptivos era somente 46%.
Além disso, cerca de 85% dos 16 milhões de habitantes do país residem em áreas rurais e existem atualmente somente 2 médicos para cada 100.000 habitantes, situação extremamente crítica. Nesse sentido, a criação desses grupos de trabalhadores comunitários demonstrou expressivo potencial para reduzir a mortalidade e morbidade na África Subsaariana. Em Malawi foi implementado o sistema de “community health workers
(CHW’s)” que orientam as diversas comunidades seguindo a “community-based distribution (CBDA’s)”, pelas quais os agentes de saúde são escolhidos pelos próprios integrantes das
famílias a serem atendidas, realizando atendimento exclusivo e principalmente assistência na prevenção de doenças.
Segundo Campbell et al. (2014, p. 24, tradução minha), “os CHW’s são aqueles que realizam as imunizações e o planejamento familiar, entre outros acompanhamentos”. De acordo com essa afirmação, é nítido o papel de “atores-ponte” que esses agentes executam ao facilitar o acesso à saúde médica formal para os pacientes. Nesse sentido, ao mapear as redes espera-se que esses agentes contribuam de forma expressiva na sua configuração.
No entanto, entre os principais problemas detectados, a dificuldade de contato imediato com as autoridades mais próximas dificulta o atendimento eficiente para as famílias. Diante dessa problemática, foi instaurado o projeto piloto para instalação de celulares móveis junto aos agentes de saúde. Entre Junho e Outubro de 2010 foram realizados treinamentos em dois distritos distintos em Malawi, contemplando 253 CHW’s. Os telefones celulares interligavam os agentes de saúde e os coordenadores dos distritos através de mensagens de texto.
A ação, relativamente simples, seguia a seguinte lógica: o agente de saúde com alguma dúvida sobre tratamento ou a conduta a ser oferecida ao paciente enviava uma mensagem de texto aos distritos oficiais que respondiam as questões e facilitavam a tomada de decisões por parte dos agentes de saúde que compunham os CHW’s, sendo que o tempo médio despendido nessas operações era cerca de 9 minutos. Os autores destacam também o baixo custo operacional do projeto, uma vez que os telefones celulares foram obtidos por US$ 27/cada e os carregadores US$ 7/cada.
Após a implementação foi necessário avaliar os projetos utilizando especialmente o enfoque qualitativo e, para tanto, foram utilizadas duas metodologias principais, o NetMap e a “Lot Quality Assurance Sampling (LQAS)”, pois o objetivo fundamental do projeto é estreitar os laços de confiança entre os agentes fortalecendo os vínculos sociais e criando sinergias que terão como resultado maior nível de capital social nessas regiões, sendo relevante avaliar o seu desempenho utilizando as redes sociais para a detecção da presença e/ou ausência desses vínculos, bem como sua intensidade e objetivo.
Em relação ao NetMap, a entrevista e a elaboração dos mapas foram conduzidos conforme explicitado anteriormente e, segundo os resultados obtidos na figura 8, no comparativo entre 2010 (sem o projeto) e 2011 (com o projeto) é nítida a elevação do número de agentes, sua influência e o maior fluxo de informações.
FIGURA 8: REDE INICIAL E REDE FINAL PARA ANÁLISE DE IMPACTO DOS CWH’S EM MALAWI
Fonte: Campbell et al. (2014) Essa análise visual foi comprovada ao investigar a centralidade de grau dos agentes, observando maiores valores de saída (ou seja, a “saída” de informações entre os agentes) em 2011, sendo o oposto relativo à centralidade de entrada (“recebimento de
informações”). Demonstrando os resultados em porcentagens, não há diferenciação expressiva no volume de ligações realizadas pelos agentes, mas a entrada de novos atores mudou a configuração dessas relações, sendo que os CWH’s aumentaram a sua participação em quase 10% no comparativo entre os dois anos. Esse efeito é o esperado na medida em que os celulares elevam o fluxo de informações de saída entre os agentes para a retirada das dúvidas sobre a situação médica dos pacientes. Os autores afirmam que os projetos passaram por “uma mudança significativa no relacionamento entre alguns agentes, especialmente os CHW’s e os distritos, sendo que o primeiro passou a ser fornecedores de informações para o segundo”. (CAMPBELL, et al., 2014, p. 33).
Essa mudança expressiva também pode ser observada na configuração visual das redes, pois é proeminente na análise comparativa o surgimento de novos atores, bem como a mudança nos níveis de influência entre os agentes, sendo mais concentrada em alguns agentes com maior poder em 2010 do que 2011, o que é um fator benéfico para a troca de informações, a consolidação de vínculos e, consequentemente, o incremento de capital social.
O estudo centra sua análise na composição somente da centralidade de grau no caso do NetMap e na comprovação do baixo custo adquirido pelos projetos através do questionário extraído da LQAS, confirmando uma redução de custo de 90%, pois os agentes de saúde passaram a obter acesso às mensagens, diminuindo a necessidade de deslocamento. Sendo assim, as recomendações finais afirmam que o sucesso observado nesses casos pode ser revertido em melhores condições de saúde para a população beneficiada e que, portanto, deveriam ser ampliados de forma contínua e urgente. Enfoca-se a qualidade da análise em redes para observar comparativamente as mudanças ocorridas na estrutura social desses locais, implicando, necessariamente, em alterações no nível de capital social.
Entretanto, é preciso salientar que esses estudos internacionais utilizam a análise em redes em conjunto com outras análises, fazendo com que a análise de dados ligados às redes não seja aprofundada. Para tanto, serão explorados dois trabalhos nacionais que utilizaram a metodologia do NetMap como meio de avaliação de projetos. Ambos os estudos foram desenvolvidos junto ao Núcleo de Economia Agrícola (NEA) da Unicamp em 2012 e 2014, avaliando projetos de comércio justo e solidário e o uso da cotonicultura transgênica, respectivamente.
No primeiro caso, a tese de doutoramento de Isabel Viegas, analisou o comércio justo e solidário como alternativa de inserção para pequenos produtores rurais que, conforme visto no capítulo 2, sofreram um processo de exclusão do padrão de desenvolvimento agrícola, marginalizando-se e elevando consideravelmente os níveis de desigualdade e
pobreza no campo. Segundo Viegas (2012), o Comércio Justo e Solidário diz respeito a um sistema diferenciado de comercialização agrícola, dando origem à chamada certificação socioambiental para reduzir o número de intermediários entre os produtores e compradores e aumentar a distribuição de valores na cadeia produtiva pelo fortalecimento das relações de confiança entre os agentes, ou seja, o empoderamento social através do capital social.
Ao ser colocada em prática, essa iniciativa se consolidou em um Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário, atuando principalmente no estabelecimento de redes que aproximam as relações entre produtores e consumidores. Sendo assim, para avaliar esses projetos o uso de redes sociais é perfeitamente cabível e necessária. Assim, foram aplicados os questionários do NetMap em 8 redes diferentes de Comércio Justo e Solidário, abrangendo todas as grandes regiões do país, com pequenos produtores, organizados ou não em cooperativas, das mais diversas culturas (especialmente cotonicultura e fruticultura) e, em sua maioria produtores orgânico, conforme o quadro abaixo.
QUADRO 5: ATORES ENTREVISTADOS PARA A ELABORAÇÃO DAS REDES
Fonte: Viegas (2012) A seleção dos entrevistados e a execução das entrevistas foram realizadas segundo os princípios apresentados em Schiffer (2007) e seguindo, portanto, as questões pré- elaboradas características do método NetMap. Segundo Viegas (2012, p. 80)
pelo fato de a metodologia de entrevista net-map toolbox não ser uma metodologia estatística, não existe um número certo de atores que devam ser entrevistados; esse número relaciona-se à possibilidade de surgimento de novas informações relevantes aos objetivos da pesquisa. (...) foram escolhidos atores focais de redes de Comércio Justo e Solidário, que foram questionados sobre as próprias relações e sobre as relações entre os atores citados.
Além disso, conforme demonstrado anteriormente, a análise em redes pode ser realizada em diferentes níveis, setores e segmentos. No trabalho citado, foram utilizados três níveis (individual, por setores e por segmentos); quatro setores: (produção, setor público,
setor privado e terceiro setor); além de dez segmentos (produção, organização de produtores, intermediários, político, instituições financeiras, assistência, custos de produção, certificação, consumidores e pesquisa).
Os resultados obtidos mostram que as redes são complexas e heterogêneas, pois segundo a mesma autora, todas apresentaram em sua composição os setores público, privado e, em alguns casos, o terceiro setor, além da composição dos segmentos que também apresenta proporções diversas, complicando a busca por tendências.
Um aspecto importante observado a partir dos objetivos de cada agente (o que só pode ser analisado a partir das redes sociais) foi em relação aos objetivos econômicos que não são prioridade para seis das oito redes entrevistadas. Essa observação está de acordo com a sua forma de organização diferenciada, colocando em primeiro plano a coesão entre os agentes e a promoção de uma nova forma de inserção nos mercados, baseado no estímulo ao capital social.
FIGURA 9: EXEMPLO DA REDE DE COMÉRCIO JUSTO E SOLIDÁRIO DE COOPERATIVA FRUTICULTURA NO SUDESTE BRASILEIRO
Fonte: Viegas (2012) Nesse trabalho, diferentemente dos anteriores, além da análise visual dos componentes, também foram utilizados os indicadores de coesão, especialmente a densidade das redes, conforme as tabelas 8 e 9.
TABELA 8: DENSIDADE GLOBAL DA REDES
Fonte: Viegas (2012) TABELA 9: DENSIDADE DAS RELAÇÕES POR REDE
Fonte: Viegas (2012) Segundo a tabela 8, há intensa variação acerca da densidade, que varia desde níveis muito baixos (8,9% na rede 2), até redes com alto nível de coesão, como a rede 8 (com densidade igual a 65,2%), dificultando expressivamente uma comparação entre cada uma delas, devido às suas particularidades. Nesse sentido, ainda segundo a autora, considerando as dificuldades de estruturação dessas redes, a sua existência indica o seu sucesso, pois a auto- organização relaciona-se à capacidade de sobrevivência e manutenção dos princípios em um ambiente contrário as tendências do mercado convencional.
Ao observar a densidade segundo os tipos de relações, segundo a tabela 9 é possível verificar a predominância das relações pessoais, a baixa participação das relações de conflitos, comando, domínio e normatização. Essa constatação está de acordo com os princípios do Comércio Justo e Solidário, uma vez que se espera que os agentes imersos nesse tipo de sistema tenham maior contato pessoal, base para a construção de relações de confiança.
Ainda sobre esse tema, a análise em redes demonstrou que entre as relações múltiplas existentes destaca-se a união entre as relações pessoais e comerciais, pois a partir dos vínculos pessoais é possível estabelecer novas conexões que são fundamentais para o desenvolvimento produtivo das comunidades, especialmente as comerciais.
É visível as contribuições da análise em redes nesse estudo, pois as relações pessoais e de apoio foram efetivas para incluir esses agentes nos mercados locais através de
nichos específicos pertencentes à agricultura familiar, agindo como uma alternativa de inserção para pequenos produtores no Brasil.
Outro exemplo em redes que desvenda o entendimento da realidade local de comunidades rurais está na dissertação de mestrado defendida por Josilene Ramos em 2014, também junto ao Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp (NEA). Nesse trabalho, o objetivo principal foi estabelecer o contexto da cotonicultura transgênica no Brasil, através do estudo de caso dos cooperados da COOPERCAT, utilizando como metodologia o NetMap.
Segundo o estudo, a produção do algodão é tradicional nas áreas rurais brasileiras desde 1930, perpassando por momentos de expansão e crises, incidentes naturais em qualquer atividade agrícola. Entretanto, vale ressaltar que na última década o Brasil configura-se como um dos cinco principais produtores de algodão mundial e esse avanço produtivo foi alcançado devido ao novo sistema produtivo baseado em grandes extensões e mecanização do plantio. Em conjunto com esse movimento de expansão do algodão (especialmente nas regiões Centro-Oeste e Nordeste), também há o desenvolvimento de sementes transgênicas altamente produtivas e prontas para atender a indústria nacional, especialmente no quesito referente à qualidade.
Entretanto, apesar dessa expansão produtiva e tecnológica, esse efeito não foi inclusivo aos pequenos produtores, pois
em 2006, 86,32% dos estabelecimentos se caracterizavam por ser de agricultura familiar, contra 13,68% de estabelecimentos convencionais. Contudo, elas foram responsáveis por apenas 1% da produção total enquanto que as demais produziram os restantes 99%. (RAMOS, 2014).
Diante desse contexto, para que a cultura do algodão seja retomada entre os pequenos agricultores é preciso inseri-los dentro dos cultivares transgênicos35. Conforme visto anteriormente, essas regiões apresentam em seu histórico alta incidência de pobreza e desigualdade e, por consequência, baixo nível educacional, o que prejudica a adoção de inovações tecnológicas. Além disso, é conhecido o alto custo tanto da tecnologia como dos instrumentos de manejo e, sendo assim, é indispensável que esses agricultores gerem um sistema institucional que possibilite a atuação conjunta para compartilharem as sinergias e os