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Présentation de XSL(T)

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Chapitre 1 PHP ET XML

1.6 PHP et XSL(T)

1.6.1 Présentation de XSL(T)

Há ainda os casos nos quais Vila-Matas faz com que as frases alheias sejam incorporadas ao seu texto sem qualquer distinção ou alusão direta ou indireta. Esses casos são ainda mais difíceis de serem identificados pelo leitor. São inúmeras as ocorrências desse tipo, destacam-se primeiramente aqui duas referências usadas por Vila-Matas quando trata dos temas da infância e da memória. A primeira delas remete ao escritor suíço Robert Walser, que, como já se pôde perceber, é autor bastante recorrente na obra do catalão. Assim Walser descreve a rotina dos discípulos do Instituto Benjamenta em seu Jackob von Gunten:

Das três horas da tarde em diante, nós, discípulos do Instituto Benjamenta, somos praticamente deixados a nossa própria sorte. [...] na sala de aula, reina um grande vazio, um vazio que quase nos deixa doentes. Não se pode fazer barulho nenhum. Caminhar, apenas deslizando pelo chão ou na ponta dos pés, e falar, somente por sussurros. [...] Por toda parte impera um silêncio mortal. O pátio jaz ali, abandonado, qual uma eternidade retangular, e eu, em geral, me levanto, exercitando-me em minha habilidade de ficar em pé numa perna só.248

Essa imagem da ―eternidade retangular‖ e do vazio do pátio escolar aparece no texto de Vila-Matas sem que haja nenhuma referência à Walser. Numa delas, em A viagem vertical, o narrador afirma: ―Suas palavras me lembraram o dia em que deixei para sempre a escola e dei uma última olhada no pátio de recreio e me pareceu que ele, para mim e para sempre, ficava ali deserto e abandonado como uma eternidade

246 VILA-MATAS. O mal de Montano. p. 80-81. ―La carretera de Pico, la única de la isla […] Es una

carretera que corre a lo largo de la escollera, con muchas curvas y pronunciados baches, sobre un mar azul rebelde. La carretera, sombría y estrecha, atraviesa un paisaje pedregoso y melancólico, con raras y solitarias casas en pequeñas colinas […]‖ In: VILA-MATAS. El mal de Montano. p. 81.

247 TABUCCHI. Mulher de Porto Pim. p. 59. 248

WALSER, Robert. Jakob von Gunten: um diário. Tradução: Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 64-65.

quadrangular‖249

. Em outra ocasião, agora em Ar de Dylan, livro de 2012, tem-se a ―[...] recordação da prolongação do tédio eterno do pátio quadrado da escola: aquele fastio que se tornava mais perceptível que nunca quando, ao cair da tarde, deixavam o pátio abandonado até o dia seguinte; o deixavam na companhia única de seu próprio tédio quadrangular‖250

.

A outra referência associada à infância e à memória remete ao escritor alemão W. G. Sebald. No relato do escritor alemão intitulado ―All‘estero‖, presente no livro Vertigem, uma amiga do narrador, Olga, decide visitar a escola que frequentara quando criança. Na mesma sala de aula na qual ela estudara há quase trinta anos, a mesma professora ainda ensinava com a mesma voz e chamava a atenção dos alunos da mesma maneira. No saguão da entrada, Olga não consegue reprimir uma crise de choro. Segundo o narrador, durante o resto do dia, Olga não consegue recuperar a calma após seu ―encontro inesperado com o passado‖251

. Vila-Matas já faz referência a esta passagem de Sebald em O mal de Montano para ilustrar semelhante retorno ao passado de seu narrador, o que não impede o autor de inserir o mesmo relato, agora sem nenhuma referência a Sebald, em Ar de Dylan como ação de sua personagem Débora, que ―[...] ao entrar numa classe da velha escola, a mesma em que passara cinco anos de sua vida de menina, ouviu a mesma professora de então, com o mesmo tom de voz daquela época, reunir as crianças da mesma forma que antes e lhes dizer as mesmas palavras para evitar que, quando tocasse a campainha, avançassem em tropelia pelo pátio‖252

. Logo em seguida, o narrador continua: ―Débora [...] ficou paralisada diante da imprevista volta ao passado [...] não suportou mais e despencou, caiu num choro convulsivo, incontido, profundo [...]‖253

.

Seguindo com os exemplos, no último relato de Una casa para siempre, o narrador é chamado ao leito de morte de seu pai, este quer lhe dizer algo que julga importante, mas antes afirma que ―Incluso las palabras nos abandonan [...] y com eso está dicho todo [...]‖254

, no entanto, trata-se de frase presente em O fim, de Samuel

249

VILA-MATAS. A viagem vertical. p. 207.

250 VILA-MATAS, Enrique. Ar de Dylan. Tradução: José Rubens Siqueira. São Paulo: Cosac Naify,

2012. p. 271.

251

SEBALD, W. G. Vertigem: sensações. Tradução José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia da Letras, 2008. p. 40.

252 VILA-MATAS. Ar de Dylan. p. 280-281. 253 Ibid., p. 281.

Bekett255. Em O mal de Montano, o narrador explica: ―[...] faço teoria e digo-lhes que compartilho com Monsieur a ideia de que o mundo já não pode ser recriado como nos romances de antes, isto é, desde a perspectiva única do escritor. O Monsieur e eu cremos que o mundo tenha se desintegrado, e só se alguém se atrever a mostrá-lo em sua dissolução é possível oferecer dele alguma imagem verossímil‖256, porém, trata-se da apropriação por parte de Vila-Matas de uma afirmação de Elias Canetti: ―Um dia, ocorreu-me que o mundo não podia mais ser representado como nos romances antigos, do ponto de vista de um escritor, por assim dizer: o mundo estava fragmentado, e só a coragem de mostrá-lo em sua fragmentação tornaria ainda possível uma verdadeira representação dele‖257

. Note-se ainda que as palavras ―desintegrado‖ e ―fragmentado‖ recebem destaque pelos autores nos dois fragmentos.

Por fim, ainda em O mal de Montano, o narrador da primeira parte tem a ideia de iniciar o documentário de sua esposa com um ator pronunciando as seguintes palavras: ―Todo o mundo falava de Freud quando eu era jovem. Mas eu nunca o li. Shakespeare tampouco o leu. E não creio que Melville o tenha feito. Moby Dick menos ainda‖258

. No entanto, essa é a apropriação, sem nenhuma alusão ao autor, de uma frase de Willian Faulkner, pronunciada em uma ocasião na qual lhe perguntaram se havia lido Freud: ―Nunca lo he leído. Tampoco Shakespeare lo leyó. Dudo de que lo leyera Melville, y estoy seguro de que Moby Dick no lo hizo‖ 259

.

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