Limitações
Ambos os estudos, 1 e 2, apresentam limitações em comum. Uma dessas limitações passa precisamente pela construção das provas psicológicas. Dadas as dificuldades de concentração, atenção, memória e baixa escolaridade de grande percentagem da população alvo houve necessidade de construção de versões reduzidas dos testes. Mesmo após esta redução o que se verificou foi que mesmo assim são várias as queixas que se prendem com o excesso de itens para preencher e na dificuldade em conseguir responder a tudo. Por outro lado, do feedback que se foi tendo por parte dos combatentes, o investimento nas respostas é grande, daí que a demora na conclusão do preenchimento das provas psicológicas seja ainda mais acentuada.
De salientar que muitos dos questionários foram preenchidos pelas mulheres ou pelos filhos, sob resposta, na maioria, dos combatentes, o que pode ter condicionado a sinceridade da resposta dada. Acrescenta-se ainda que muitos dos combatentes que responderam consideram que quem deveria responder ao questionário deveriam ser as mulheres, pois consideram que estas os conhecem melhor que eles mesmo, o que reforça ainda mais o que se tem vindo a verificar na dificuldade de tomada de decisão e forte dependência da companheira.
No caso concreto do segundo estudo, o questionário enviado pela revista coincidiu com a apresentação na mesma, do serviço do CEAMPS e das prestações de serviços que se iriam iniciar. Isto fez com que grande parte dos leitores entendesse que quem deveria responder seria exclusivamente quem tivesse necessidade de recorrer a esses serviços, apesar de vir muito bem explicito que era para todo o militar.
Outra limitação tem a ver com o facto de o acesso à própria revista ser limitado a sócios da Liga dos Combatentes. O que se tem contactado é que cerca de 80% dos questionários recebidos apresentam indicação de alterações psicológicas como consequência da guerra. De uma leitura mais detalhada pode associar-se que um sócio da Liga pode ter à partida uma ligação mais próxima com a vivencia da guerra de forma a que a estenda até aos dias de hoje, mais que um que não seja sócio. Porém, poderá haver quem não seja sócio por desconhecimento ou evitamento de tudo o que se relacione com a guerra. Mas pensando que um sócio mantém pelo menos uma ligação até aos dias de hoje, pode ser razão para esta taxa tão elevada, não podendo por isso ser extrapolada em razão igual para a população em geral.
Ao longo do contacto com a população combatente, e em especial com os prisioneiros de guerra, cerca de 10 anos mais velhos, sente-se que este estudo está a
com baixa escolaridade que para além das dificuldades em preencher os questionários é urgente o envio rápido dos questionários, o esclarecimento de dúvidas e completar frequentes itens em branco.
Vantagens
A população alvo destes estudos tem características muito específicas. Uma das que se pode salientar é a dificuldade de reconhecer que se precisa de ajuda. É uma população, regra geral habituada a dificuldades mas que foi conseguindo ultrapassar, quando isso não acontece é difícil de reconhecer e aceitar. Neste sentido, o facto de ter sido o CEPI a chegar até aos combatentes fez com que não tivessem de ser estes a ter de formular directamente o seu pedido. Os questionários foram em grande parte utilizados como apelos de auxilio, mas de uma forma “camuflada”, isto é, sob o pretexto de um estudo. Assim a tarefa de chegar a quem mais precisa foi facilitado.
Foram várias as esposas que contactaram sem o conhecimento dos maridos e que através dos questionários, foi possível chegar a eles e em alguns casos prestar algum tipo de apoio.
O trabalho conjunto com a ANPG tem sido fundamental para compreender melhor esta realidade e na ajuda de envio, recepção e esclarecimento de duvidas junto dos prisioneiros de guerra.
Os pacientes que se encontram a ser acompanhados pelo CAMPS, em consultas individuais e de grupo também têm sido uma mais-valia para a obtenção de um número cada vez maior de participantes.
De destacar uma vez mais a enorme vantagem de ter Núcleos espalhados pr todo o país que funcionam em rede e canalizam questionários diariamente para o CEPI, ajudando no seu preenchimento e sinalização de casos urgentes.
Pode ainda referir-se que o facto de estes estudos estarem a ser realizados através da Liga dos Combatentes, possibilita o acesso à base de dados de sócios combatentes que de outra forma seria um a tarefa bastante mais dificultada.
Por fim, existe ainda todo um conjunto de teses de Mestrado e de Doutoramento que estão a ser realizadas com o apoio do CEPI e que tornam ainda mais ampla a área de conhecimento dos seus técnicos.
Estudo 3
No âmbito do doutoramento em Psicologia Social a ser desenvolvido por uma aluna mestrada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, sob a orientação cientifica do Prof. Doutor Joaquim Pires Valentim e do Prof. Doutor Brtjan Doosje pretende-se desenvolver uma pesquisa sobre a guerra colonial para a qual é necessário entrevistar ex-combatentes de nacionalidade portuguesa, com vista a investigar as suas experiências pessoais em contexto de guerra.
Para realizar estas entrevistas foi pedida a colaboração do CEPI no sentido de obter uma amostra de combatentes que estiveram em Angola, Guiné e Moçambique entre 1967 e 1971, estando envolvidos em conflito armado.
Para tal serão realizadas 30 entrevistas clínicas a combatentes deste período da guerra Colonial, dez de cada um dos cenários de guerra, em zona 100%.
As entrevistas clínicas vão ter início em Setembro de 2009 e prevê-se que tenham a duração de 1 hora cada, com base no seguinte guião de entrevista semi- estruturada:
Guião de Entrevista
- Explicar o objectivo do estudo
- Garantias de Confidencialidade e Anonimato
- Variáveis descritivas¨variáveis demográficas; em que ex-colónia esteve, qual o período da comissão, especialidade militar, funções.
- Descrever uma situação que o tenha marcado enquanto miliatr
- O que sentiu nessa altura
(Quer descrever outro acontecimento? / O que sentiu?)
- Quando foi mobilizado para a guerra qual era a informação existente em Portugal?
- quando lá esteve; - ao voltar.
- Qual a sua percepção dos povos das antigas colónias:
- nessa época; - hoje em dia.
- Qual é a percepção que pensa que os povos das antigas colónias tinham dos portugueses:
- nessa altura; - no presente.
- Quais as consequências da guerra para: - o próprio
- Portugal;
- as antigas colónias.
- Qual a opinião sobre o desfecho da guerra?
- No geral, qual a emoção que melhor caracterizou a sua vivência da guerra? Deseja explicar?
A recolha das entrevistas será coordenada em conjunto e em acompanhamento presencial de um dos técnicos e investigadores do CEPI.