Entre 1983 e 2005 a associação profissional do setor do livro – Associação Por- tuguesa dos Editores e Livreiros (APEL) 42 divulgou periodicamente informação sobre
hábitos de leitura e compra de livros, obtida em estudos encomendados a empresas de sondagens, que realizaram todo o trabalho, sem a participação da comunidade científica no enquadramento teórico, no controlo metodológico e na análise dos resul- tados.
42 A Associação Portuguesa dos Editores e Livreiros (APEL) divulgou resultados de sondagens e estudos e
mercado sobre Hábitos de Leitura e Compra de Livros, encomendados à ACNielsen/Quantum Estudos de Mercado, numa periodicidade anual entre 1983 e 2004, excetuando -se os anos de 1984 e 1998. O universo de todos os estudos é composto pela população residente em Portugal Continental com idades compreendidas entre os 15 e os 65 anos. A amostra é de 2000 indivíduos, exceto no ano de 1983, em que a amostra é de 1991 indivíduos. Em 2005 a mesma associação encomendou um estudo da mesma natureza à Multidados, Consultoria e Tratamento Estatístico de Dados. O universo deste estudo é a população com 14 e mais anos. A amostra é de 2000 indivíduos, 1810 do continente e 190 das ilhas.
Em 2003 a União de Editores Portugueses (UEP), associação profissional de edi- tores entretanto constituída, por cisão da APEL, divulgou o estudo O Comportamento dos Consumidores do Livro em Portugal 43 (UEP, 2003).
Os resultados dos 20 inquéritos realizados até 2004 revelavam que a taxa média de hábitos de leitura de livros da população portuguesa de idade compreendida entre os 15 e os 65 anos era inferior a 50%. Verificava -se uma progressão nas médias das décadas de 80 e 90 (de 40% para 47%), seguida de um decréscimo nos cinco primeiros anos do século xxi (45%). No estudo de 2005 (APEL, 2005) surgiram resultados muito diferentes com 91% dos inquiridos a afirmarem que costumavam ler livros. A alteração tão pro- funda nos resultados foi explicada por alterações de método, ao universo e à seleção da amostra (Neves, 2011)44.
No período compreendido entre 1988 e 2006 foram efetuados dois inquéritos sociológicos sobre os hábitos de leitura dos portugueses. O primeiro destes inquéri- tos, Hábitos de Leitura em Portugal, foi realizado em 198845 (Freitas & Santos, 1992a;
1992b; 1992c; Santos, 1992b), o segundo, Hábitos de Leitura: Um Inquérito à Popula‑ ção Portuguesa decorreu em 199546 (Freitas, 1996; Freitas, Casanova e Alves, 1997).
Em ambos os estudos foram operacionalizadas as noções de leitura e de classe leitora, distinguindo: três tipos de leitores de livros – pequenos, médios e grandes; três tipos de suportes de leitura: jornais, revistas e livros; dois tipos de leitura: cumulativa e parcelar.
No estudo de 1988 verificou -se que os jornais eram lidos por 67,6% dos inqui- ridos, as revistas por 61,2% e os livros por 53,5%. O perfil dos pequenos leitores de livros, a maioria pertencendo a grupos sociais desfavorecidos, acusava baixos níveis de
43 No estudo sobre o comportamento dos consumidores do livro, encomendado em 2003 à Marktest pela
União de Editores Portugueses (UEP), o universo é delimitado pelos residentes no continente, em lares com telefones, com idade igual ou superior a 18 anos. A amostra é de 801 indivíduos.
44 A análise comparativa deste conjunto de estudos não se encontrava ainda disponível aquando do lan-
çamento do PNL. Foi realizada de forma sistemática por José Soares da Silva Neves no estudo Práticas
de Leitura da População Portuguesa no Início do Século XXI (2011).
45 O universo é composto pelapopulação portuguesa alfabetizada e com 15 e mais anos, residente no
continente, nas localidades com 1000 e mais habitantes. A amostra aleatória é de 2000 indivíduos.
46 O universo é composto pela população residente no continente, alfabetizada e com 15 e mais anos.
A amostra de 2506 indivíduos é estratificada por região e por dimensão populacional das localidades de residência.
escolarização, profissões pouco qualificadas, pais com perfil idêntico e reduzido con- tacto com a leitura na infância.
O segundo inquérito estabeleceu uma distinção entre não leitores47 (14,7%) e lei-
tores, dividindo os leitores em duas categorias: os que praticavam a leitura cumulativa - livros, jornais e revista (40,3%); e os que praticavam a leitura parcelar – um ou dois tipos de publicação e prática pouco consolidada (45%). A caracterização etária e social dos inquiridos possibilitou conclusões expectáveis: a não leitura aumenta com a idade, diminui conforme o nível de escolarização do próprio e do pai, é maior em profissões como agricultores, operários, trabalhadores dos serviços de segurança e domésticos; a leitura cumulativa aumenta com o nível de escolarização do próprio e do pai, sendo mais consolidada entre os quadros, os empregados e os estudantes; a leitura parcelar é mais frequente entre operários, vendedores e comerciantes48.
A análise incidiu especificamente nas práticas de leitura de livros, leitura de jor- nais e de revistas, caracterizou práticas de leitura relacionadas com a utilização de biblio- tecas e livrarias e o lugar atribuído à leitura no quadro de práticas culturais, tais como ver televisão, conviver com amigos, ir ao cinema ou ao teatro.
No que respeita aos leitores de livros, tomando como referência o número de obras lidas pelos inquiridos no último ano, a distribuição foi a seguinte: pequenos leito- res (1 a 5 livros) 53,6%; médios leitores (6 a 20 livros) 38,5%; grandes leitores (número superior a 20 livros) 7,9%. Estes resultados, que excluem o grupo dos não leitores, só por si expressam a fragilidade dos hábitos de leitura à época do inquérito.
Quanto à leitura de jornais, na época do estudo a modalidade de leitura mais procurada, os inquiridos distribuíram -se entre 67,6% de leitores de jornais e 32,4% de não leitores. Na leitura de revistas, dividiram -se entre 61,2% de leitores e 38,8% de não leitores49.
47 Os não leitores limitam -se a usar a leitura para objetivos pragmáticos: marcas, preços, instruções, recei-
tas, contas ou apenas leem cabeçalhos nos jornais, anúncios, legendas de séries televisivas ou filmes.
48 São analisados os tipos de leitura em função de indicadores de socialização primária tais como: leitura
realizada por familiares aos inquiridos e para si próprios, existência de livros em casa, gosto de ler na infância.
49 As práticas dos leitores de livros, jornais e revistas são ainda analisadas tomando como variáveis: sexo,
Embora o método utilizado nos estudos de 1988 e de 1995 tenha sido muito pró- ximo, a diferença entre os universos inquiridos só permite comparações para a popula- ção residente em localidades com 1000 e mais habitantes, ou seja, um tecido social mais urbano (Freitas, Casanova & Alves, 1997:267 -268).
Em 2006, decorridos mais de 9 anos sobre o último estudo sobre práticas de lei- tura, os responsáveis pelo PNL consideraram indispensável averiguar qual era a situação do país. Uma das medidas imediatas do PNL foi assegurar a realização de um estudo sobre a leitura dos portugueses, tanto entre os adultos como na população escolar, com o objetivo de efetuar um diagnóstico mais preciso da situação e determinar um ponto de partida para, ao longo da vigência do PNL, ser possível realizar comparações e verificar possíveis impactos. Dois estudos com esse objetivo foram encomendados: um estudo sobre as práticas de leitura dos adultos, ao Observatório das Atividades Culturais (OAC); e outro sobre as práticas de leitura dos estudantes portugueses do ensino básico e do ensino secundário, ao Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEP -CEP) da Universidade Católica Portuguesa. O trabalho de campo de ambos os estu- dos decorreu entre 2006 e 2007 e pode considerar -se que os resultados dão uma infor- mação relevante sobre as práticas de leitura dos portugueses, no momento em que o PNL foi lançado.
O estudo PNL A Leitura em Portugal – práticas de leitura dos adultos
Os resultados do estudo A Leitura em Portugal foram publicados em 2007 (Lima, Neves, Lima, Carvalho, 2007). Além dos objetivos já referidos, pretendeu -se obter infor- mações sobre as atitudes dos pais de menores em relação às práticas de leitura dos filhos.
O universo do inquérito foi composto pelos residentes no continente, com 15 e mais anos, que declararam saber ler e escrever, o que corresponde a um contingente populacional de 7,5 milhões de habitantes (Neves, 2011). A amostra abrangeu 2552 casos. O método de amostragem foi semelhante ao do inquérito de 1995 para assegurar a comparabilidade. Para a análise das atitudes de pais de menores foi constituído uma sub amostra que incluiu 732 casos. O quadro 4 apresenta as dimensões analíticas e os indicadores selecionados para o estudo.