O processo atual de globalização intensificou a competitividade em termos mundiais fazendo com que as corporações tentassem aumentar sua competitividade principalmente por meio da redução dos custos do trabalho. Essa postura vem atingindo os trabalhadores de maneira adversa, com a crescente pressão por redução dos custos do trabalho nos países provocando uma diminuição dos benefícios sociais e transferido o ônus da sustentação do sistema previdenciário para os trabalhadores.
Segundo Coutinho (1992), a automação integrada flexível constitui-se em um elemento de extrema importância para as transformações em curso no paradigma de produção industrial das empresas. A vigorosa expansão do complexo eletrônico tem contribuído para transformar as estruturas e estratégias empresariais, representando outra medida responsável pela revolução do processo de trabalho.
O notável avanço da telecomunicação intimamente relacionada à informática tem permitido que as grandes estruturas empresariais consigam estabelecer redes dinâmicas de informação, possibilitando a elas gerir e coordenar suas operações (vendas, compras, estoques, logística, finanças, produção) eficientemente. Esta mudança é fundamentalmente refletida no desenvolvimento de novas formas flexíveis de produção, promovendo novos arranjos globais em contrapartida às tradicionais estruturas organizacionais das empresas.
aprender e ajustar-se à constante competição por qualidade e diferenciação dos produtos, adequando a produção para conseguir economia de custos e eficiência. Busca-se, portanto, racionalizar o processo produtivo, garantindo economias de escala sem que haja qualquer espécie de perda das economias de escopo. O sentido da reestruturação produtiva está na suplantação do paradigma taylorista-fordista9 por um novo modelo que exige uma força de trabalho polivalente, apta a interagir com um sistema de automação flexível, vindo daí a exigência de que o perfil dos trabalhadores compreenda níveis médios muitos mais elevados de qualificação. (COUTINHO, 1992).
Este processo global tem tido repercussões distintas entre os diversos países. Inicialmente, nos países desenvolvidos, houve um movimento das multinacionais por redução dos postos de trabalho nos mercados locais e expansão do emprego nos países subdesenvolvidos em busca de menores salários. Nos países subdesenvolvidos, por outro lado, este processo tem contribuído para a reconfiguração do papel e das funções de suas economias, tornando-as mais vulneráveis devido à subordinação cada vez maior em relação às condições globais e dependência aos fluxos de capitais externos.
A ampliação do comércio internacional também intensifica a mudança no caráter da divisão internacional do trabalho, implicando duas situações. Nos países subdesenvolvidos, há uma tendência de elevação da produção intensiva em trabalho e com baixo valor agregado, ao contrário dos países desenvolvidos onde permanece a produção intensiva em capital e com maior valor agregado. A manutenção desta divisão internacional do trabalho é nitidamente favorável aos países desenvolvidos, pois reduz o poder e a autonomia dos Estados Nacionais menos desenvolvidos, exercendo impacto sobre a tomada de decisões e formulação de políticas públicas destes últimos. (ARAÚJO, 2001).
Neste contexto, a economia brasileira buscou acompanhar as principais mudanças do capitalismo internacional ao longo da década de 1990 por meio da reestruturação de seu sistema produtivo. As mudanças que se desenvolveram com mais intensidade neste período foram: 1) intensificação do comércio internacional; 2) desregulamentação e internacionalização do mercado financeiro; 3) revolução tecnológica nos transportes, nas comunicações e no processo de transmissão de informações e 4) crescente investimento
9 Conjunto de métodos de racionalização da produção caracterizados por: divisão do trabalho individual e especializada, fragmentária e de
tarefas repetitivas e produção de massa, verticalizada, visando a redução dos custos e o desenvolvimento máximo da produtividade de cada trabalhador.
externo realizado pelas grandes empresas multinacionais (transnacionais).
Decerto estas grandes transformações contribuíram para a crescente integração da economia brasileira a um cenário global competitivo, liderado pelos países avançados. Deste modo, uma série de obstáculos e oportunidades são impostos pelo quadro mundial à competitividade da economia brasileira.
Coutinho e Ferraz (1994) identificam quatro principais razões inter-relacionadas que explicam a forma multiplamente desfavorável como o país foi afetado pelas transformações concernentes à intensa difusão tecnológica e crescente integração global em curso.
A primeira razão consistiu na crise do endividamento durante a década de 1980, responsável pelo atraso da conexão do país ao mercado financeiro internacional e conseqüentemente de sua participação na globalização financeira. Esta crise repercutiu sobre o Estado reduzindo sua capacidade de regulação e organização das finanças. Isto provocou a instabilidade inflacionária e o afastamento dos investimentos externos de risco que constituíram outro fator adverso para a integração do Brasil no processo de internacionalização financeira, comercial e tecnológica.
Estes fatores colaboraram para que a economia brasileira perdesse dinamismo, dificultando as exportações brasileiras para os países desenvolvidos. Conseqüentemente, houve uma defasagem na absorção das tecnologias de produção (organizacionais, de melhorias dos processos produtivos já existentes) e de inovação (criação de novos produtos, serviços e processos de produção), nivelando por baixo a posição do país no comércio internacional. Por fim, como quarta causa de comprometimento da competitividade brasileira, apresenta-se a ampliação das disputas comerciais em paralelo ao crescimento cada vez mais agressivo de pressões unilaterais (em especial exercidas pelos EUA), razões que reduziram os graus de liberdade das políticas nacionais de desenvolvimento.
Tendo em vista estes elementos restritivos, o Brasil promoveu a desregulamentação e internacionalização financeira por meio da desintermediação e permitindo a entrada de capitais externos no controle dos bancos nacionais, uma integração passiva e subordinada ao processo de expansão dos conglomerados financeiros internacionais.
dentre as mais prejudiciais aos trabalhadores, citam-se a introdução de novas técnicas de produção e gestão da mão-de-obra, a flexibilização das relações de trabalho e a exigência de trabalhadores mais qualificados. Nessa perspectiva, as chances de inserção ocupacional das pessoas com menor grau de escolaridade tem sido reduzidas em vista das condições atuais de funcionamento do mercado de trabalho, que apresenta uma crescente demanda por níveis maiores de instrução formal dissociada do fortalecimento de um sistema de ensino público de qualidade que apoie o trabalhador.
As novas exigências quanto à qualificação do trabalhador e à forma como a sociedade é conduzida (através de decisões dos diversos atores econômicos, sociais e políticos sobre quais inovações tecnológicas devem ser introduzidas) são fatores que contribuem para as alterações em curso na situação ocupacional dos trabalhadores, marcada pela precarização do emprego e geração de desemprego em massa.
De acordo com essa concepção, a precariedade é definida como o “produto de uma vontade política e não de uma fatalidade econômica”. Segundo Bourdieu (1997), a generalização da precariedade está ocorrendo no mundo do trabalho, tendo efeitos nos planos privado/público e exerce influência sobre o trabalhador, tanto de forma direta (impedindo as mobilizações) quanto indiretamente (pelo medo suscitado pela insegurança causada por métodos de precarização, como a flexibilidade). Dito de outra forma: “a precariedade afeta profundamente qualquer homem ou mulher expostos a seus efeitos; tornando o futuro incerto, ela impede qualquer antecipação racional e, especialmente, esse mínimo de crença e de esperança no futuro que é preciso ter para se revoltar, sobretudo coletivamente, contra o presente, mesmo o mais intolerável”. (BOURDIEU, 1997, 120).
3.2.3 As baixas taxas de crescimento da economia brasileira concebidas a partir do