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A pesquisa preliminar desenvolvida entre Agosto e Setembro de 2008 permitiu-me desbravar algum terreno relativamente ao sistema turístico, apreender a sua composição e complexidade. Localizei e contactei alguns actores sociais, nomeadamente com o Director Regional de Turismo, o Doutor Raimundo Quintal, e ainda, algumas empresas de animação turística, ‘actores’ que viriam garantir de algum modo o acesso a determinados locais e informações. A entrada no terreno para um antropólogo efectua-se, na maioria das vezes, por intermédio de alguns contactos iniciais (Burgess 2001). Neste caso foi isso que aconteceu. Com esses contactos utilizei as entrevistas não estruturadas, usadas como estratégia de descoberta (Moreira 1994) de determinadas factualidades, espaços, informações e cadências, relativas ao objecto de estudo.

A observação participante iniciou-se em Janeiro de 2009 com a participação na segunda edição do Madeira Walking Festival, no qual pude contactar com a organização, caminheiros, jornalistas, alguns

representantes das empresas de animação turística, bem como guias de montanha. Nessa edição, realizei três passeios (Levada do Caldeirão Verde, a Levada do Rei e a Levada dos Cedros). Os dados recolhidos revelaram-me novas pistas de investigação, bem como a aquisição de contactos no terreno que viriam a tornar-se preciosos alguns meses mais tarde.

O período compreendido entre Maio e Setembro de 2009 viria a tornar-se profícuo nas múltiplas tarefas associadas ao trabalho de campo. Continuei a observação participante juntando-me a um grupo local, os “Amigos da Levada”, participando em dois passeios: a Levada da Fajã da Ama e a Levada dos Piornais.

Com os contactos adquiridos no Madeira Walking Festival (MWF) realizado em Janeiro, iniciei o meu périplo nos passeios a pé pela ilha em Junho de 2009, actividade/tarefa que viria a terminar mais de um ano depois. Nesse verão, fiquei a conhecer os cantos mais recônditos da ilha da Madeira, explorando espaços, sentindo cheiros, fruindo paisagens. Fui inserida nos grupos de clientes de algumas empresas de animação turística, a vários percursos: Levada do Caldeirão Verde – Ilha, Levada do Caldeirão Verde - Queimadas, Levada do Furado (Ribeiro Frio - Portela), Levada do Norte, Rabaçal, Vereda do Pico Areeiro - Pico Ruivo. A inserção nestes grupos mostrou-se importante, na medida em que acedi a informações privilegiadas acerca do funcionamento das empresas de animação turística em questão, do dinamismo do sistema turístico regional, para verificar in loco o tipo de mercados turísticos que visitam, fruem e consomem o objecto de estudo em questão, e a sua cadência pelas várias estações do ano. Esse período foi igualmente profícuo na obtenção de dados por intermédio das entrevistas semi-estruturadas aplicadas a elementos de seis empresas de animação turística, a uma autarquia (Santa Cruz), a três grupos e/ou associações locais relacionadas com o pedestrianismo e à Associação Promoção da Madeira.

Paralelamente, apliquei o pré-teste a ambos os questionários, procedi às respectivas alterações e levei a cabo a tarefa da sua aplicação, o que no caso do questionário dos caminheiros, se prolongou até 2010 (tentando, deste modo, abranger vários mercados). No caso do questionário dos hotéis, o périplo estendeu-se por duas semanas, nas quais me dirigi aos estabelecimentos do Funchal, do Caniço, da costa norte, da costa sudoeste e sudeste. Noutros casos o questionário foi enviado por email, como já foi mencionado.

O final do verão significou o regresso a casa, permitindo a revisão do trabalho efectuado, a análise dos dados adquiridos por intermédio das entrevistas, após a transcrição das mesmas, bem como do questionário aplicado às unidades hoteleiras regionais.

Em Novembro regressei ao terreno, para a realização de mais entrevistas, desta vez à SRARN e a uma empresa de animação turística. Esta curta estadia, permitiu ainda os contactos com as autarquias regionais, agendando para o ano novo as entrevistas planeadas.

O ano novo (2010) traria uma lufada de ar fresco nas rotineiras tarefas que assolaram os meus dias de Outono e início do Inverno. Em Janeiro de 2010 participei na terceira edição do Madeira Walking Festival24, no qual efectuei apenas dois passeios (por motivos de

agenda): à Levada do Moinho e à Vereda dos Balcões. Durante esta participação apliquei questionários aos caminheiros, mantive algumas conversas informais com os mesmos nos vários dias do evento. Continuei as entrevistas às autarquias regionais (Câmara de Lobos, Porto Moniz, Ribeira Brava, Santana e São Vicente).

Com a aquisição dos novos dados, o plano começou a ser montado. A transcrição das entrevistas revelou tendências, dúvidas e sugestões. Algumas fotografias revelaram outras leituras. A análise

24 O último a ser organizado pela DRT, o qual será substituído pelo ‘Madeira Nature

Festival', uma nova aposta relacionada com as actividades turísticas ao ar livre: no mar, terra e ar (http://www.dnoticias.pt/actualidade/economia/245565-turismo- aposta-no-brasil-e-nos-eua-em-2011?page=1, acesso a 17 de Janeiro de 2011).

do questionário das unidades hoteleiras veio confirmar as minhas dúvidas, as minhas certezas e criar uma agenda.

O avançar do trabalho significava responder a algumas questões levantadas. Todavia, as dificuldades teimavam em atrapalhar o meu trabalho no terreno, com as poucas respostas obtidas por parte dos caminheiros, pelos escassos contactos tidos com as empresas de animação turística bem como com as agências de viagem. Senti-me frustrada. Após o envio de carta registada, de telefonemas e de enviar por algumas vezes um email, sem qualquer resposta, decidi que nos casos das empresas de animação turística a abordagem seria outra. Se nalguns casos o acesso à informação esteve francamente facilitado, noutros, os meus contactos revelaram- se infrutíferos. Com a chegada do verão de 2010, reuni informações sobre quais os passeios que ainda não havia efectuado, quais as novidades no mercado turístico regional ao nível do pedestrianismo, e acima de tudo, quais as empresas de animação turística que faltava contactar. Encetei diligências neste sentido. Uma última vez.

No terreno decidi que, caso não existissem quaisquer contactos (o que veio a acontecer), passaria a ser cliente, ou seja, para aceder a alguma informação teria de adquirir o (s) passeio (s) como cliente25. Foi uma estratégia positiva na medida em que contactei por

várias vezes com uma das empresas mais fortes do mercado (ME). Esta, para além de ter mais oferta semanal, é também a que disponibiliza programas diferenciados das restantes, inovando anualmente neste sentido. Assim sendo, após a aquisição do primeiro passeio ao Fanal – Assobiadores, e porque as informações iam sendo dadas de forma dispersa, adquiri outros percursos (na esperança de que pudesse aceder à informação que necessitava para o trabalho) como a Levada dos Maroços, o passeio aos lagos da Madeira, a Levada do Rei e, por fim, aquele que foi a cereja no topo do bolo, o passeio da Fonte do Bispo, Galhano, até à Levada da Ribeira da

25 No ano anterior fui inserida nos grupos de clientes por convite, de forma gratuita

Janela, adequado a hard walkers, o qual alimentou na perfeição o meu interesse pelas caminhadas26.

Paralelamente continuei os passeios com outra empresa (NM), cujo contacto havia sido efectuado no verão anterior, aproveitando a sua generosidade em levar-me gratuitamente, fornecendo, como sempre, informações relevantes e actuais. Desse modo, calcorreei a vereda da Ponta de São Lourenço pela primeira vez, e ainda, a Levada do Castelejo - Referta.

Em todos os passeios consegui aplicar questionários a alguns caminheiros que integraram o meu grupo. Nalguns casos, as conversas tidas durante o passeio serviam de mote à sua aplicação, informando-os do estudo que estava a realizar.

Os passeios persistiram, mas desta vez, na companhia de amigos e familiares, que me acompanharam ao Caldeirão Verde e ao Rabaçal, por um lado, para conhecer mais alguns recantos da nossa terra e, por outro, para fruir a natureza. Aproveitei estas deslocações para aplicar mais uns tantos questionários aos caminheiros que percorriam os trilhos.

O final do verão ditou o fecho do trabalho de campo motivado quer pelas limitações ao nível da temporalidade, quer pela própria agenda do projecto. Foi tempo de reflexão, de dúvidas, do ressurgir de novos interesses, da análise de dados e subsequente escrita.

26 Sobre este assunto, fui registando no meu blogue de trabalho

(http://filipafernandes.wordpress.com/) algumas informações acerca das caminhadas, das levadas e veredas da Ilha da Madeira, a sua situação (monitorização) no terreno, sempre acompanhados por uma reportagem fotográfica, bem como outros assuntos associados ao turismo regional. Ver o anexo nº 4 para mais informações.