A configuração online do MTG, amparada na visibilidade mediática, permite contato entre os tradicionalistas de diversos lugares do mundo, em tempo real e com baixo custo de conexão. Por e-mails, mensagens instantâneas, blogs, fotologs ou comunidades virtuais, entre outros tipos de interação, as redes de parentesco, descendência, vizinhança e amizade que formaram os primeiros CTGs são potencializadas e ampliadas, envolvem indivíduos de lugares diversos e se tornam mais dinâmicas. As trocas de informações são cada vez mais rápidas e o acesso a elas é facilitado pela web. Com o CTG Estância Celeste, os bailes, rodeios e cavalgadas já podem ser realizados em ambiente virtual, com a participação simultânea de gaúchos de qualquer querência.
A migração da administração do movimento para a rede digital, através de cadastro, conexão e envio de boletins aos tradicionalistas, descentraliza a coleta de dados, ao mesmo tempo em que os disponibiliza a um número maior de pessoas. O processo de digitalização das informações implica, entretanto, em dependência crescente: se os aparatos tecnológicos são eleitos guardiões dos arquivos de sócios, dos artigos sobre o folclore, dos modelos de regimentos e das novidades a respeito do MTG, torna-se imprescindível que os tradicionalistas tenham acesso a esses aparatos tecnológicos para que possam informar-se, cadastrar-se ou competir nos eventos promovidos pelo movimento. No intuito de expandir-se, o MTG lança mão de um mecanismo típico da cibercultura: a exclusão dos desconectados.
A glocalização do tradicionalismo gaúcho caminha para a inserção compulsória dos integrantes do movimento na cibercultura – tal qual o faz o mercado de trabalho –, sob ameaça de que estes fiquem desligados da rede de conexões formada pelos tradicionalistas. Como o número de membros atuantes no MTG nascidos antes do surgimento da Internet ainda é representativo, e muitos deles não se adaptam às novas tecnologias, a exclusão digital segue um ritmo mais lento no movimento tradicionalista do que em outros
ambientes. Esse processo, porém, tende a se acelerar, já que 82% dos entrevistados17 em pesquisa de campo registram que a Internet influencia o tradicionalismo. Levando-se em conta que a inclusão digital depende de poder aquisitivo para a posse e manutenção de um aparelho de base (e este precisa ser atualizado periodicamente), aqueles integrantes cujas condições financeiras inviabilizam a aquisição ou o upgrade de seus equipamentos de tempos em tempos são membros mais propensos a não acompanhar o ritmo do movimento, sua agenda de eventos e as mudanças em estatutos, regras de concursos e planilhas de avaliação de rodeios. A desinformação resulta em menor participação, menor contato com os demais tradicionalistas e presença pouco efetiva na rede social proporcionada pelo MTG.
As interconexões do tradicionalismo, online ou off-line, formam uma ampla rede de sociabilidade que serve de referência para os gaúchos. Em caso de viagens ou mudança de cidade, um tradicionalista pode entrar em contato com o CTG do local, conhecer seus freqüentadores e vir a participar de suas atividades, agilizando sua inserção no novo círculo social. A desterritorialização, com a difusão dos CTGs por todo o território nacional, cria espaços de reconhecimento mútuo entre os integrantes do movimento em cada entidade que estes visitam ou participam.
A mobilidade é requisito de importância crescente em nossa época, seja para objetos ou para indivíduos. Aparentemente, tudo precisa ser móvel – dos telefones aos computadores, das funções dos empregados até seu local de moradia. A disposição para mudar-se ou mover-se, entretanto, exige a capacidade de adequar-se a novos ambientes. A intensificação do contato entre os membros do movimento através das ferramentas da web permite aos tradicionalistas conhecerem previamente entidades distantes, sua patronagem e seus freqüentadores, e utilizarem-se da rede social do movimento para tornarem essa adequação menos traumática. Os centros de tradições cumprem, assim, um papel de facilitadores da mobilidade e da inserção social dos tradicionalistas. A desterritorialização do MTG multiplica os destinos aos quais um gaúcho pode chegar e ser recebido de forma
tradicional, enquanto a reterritorialização, a recriação da querência em cada CTG, resgata os costumes, valores, normas e comportamentos já estabelecidos na cultura regional, oferecendo aos tradicionalistas a segurança proporcionada pelo conhecimento e domínio das regras.
Observando o MTG desterritorializado e glocalizado, adepto das novas tecnologias para divulgar costumes antigos, podemos nos deparar com manifestações tradicionalistas em qualquer lugar – desde a Semana Farroupilha, festejada em todas as cidade
sul-riograndenses e outras mais Brasil afora, ou o baile de prendas de Newark-NJ, nos EUA (Brazilian Voice, 2007), até a cavalgada gaúcha na Ilha Brasil do Second Life. Embora visível para muitos, participar do movimento é tarefa apenas para aqueles que se dispõe a freqüentar fisicamente (por enquanto) as entidades e eventos, cumprir regras e diretrizes e adotar um estilo de vida condizente com os valores gaúchos, independentemente de local de nascimento ou descendência.
Em atividade há cerca de 60 anos, o MTG configura-se como um movimento social organizado e institucionalizado, com hierarquia rígida e normas documentadas. Mobilizando tradição, história e literatura gaúchas no intuito de combater o que Lessa (1954) chamou de “desintegração social”, esse movimento pode ser descrito como conservador. As bases do discurso tradicionalista são a família, as tradições e os valores do homem gaúcho, como forma de se contrapor aos valores consumistas e ao individualismo apontados como característica de nossa ápoca.
Mas os novos tempos, se não mudaram as bandeiras, mudaram a forma de balançá-las. Se os valores do tradicionalismo são os mesmos, os gaúchos já não o são. E o movimento tradicionalista precisa defender suas bandeiras mediaticamente, como sempre fez, e interativamente, como vem aprendendo a fazer, porque os tradicionalistas não conseguem mais imaginar suas vidas sem Internet. Eles a utilizam no trabalho, nas horas de lazer e também na hora de estudar sobre o tradicionalismo ou de marcar encontros presenciais.
Não se pode separar o MTG de sua presença nos media. Isso acontece porque o tradicionalismo precisa do aval mediático para ser legitimamente reconhecido como representante da cultura regional, já que os tradicionalistas, cidadãos de seu tempo, estão inseridos no circuito imagético-mediático de informações, e também eles precisam “ver” o tradicionalismo sendo reiterado pelos media. Por outro lado, sua visibilidade nas redes permite ao movimento ser reconhecido por aqueles que não participam dele, e ampliar seu poder de referência e atuação. Parafraseando Canclini (1999), algo só tem valor quando quem não o possui reconhece o valor de possuí-lo; ou seja, a confirmação pelo outro – o não tradicionalista – fortalece o movimento.
Sua glocalização, vista como hibridação entre local e global(de modo a não se poder mais reduzir este movimento a uma manifestação local, nem ampliá-lo a fenômeno global, mas compreendê-lo como uma experiência de simultaneidade, em que local e global se dissolvem um no outro, indefiníveis e inseparáveis), é fenômeno integrante do tradicionalismo desde seu surgimento. Os conflitos de época, os embates com modelos globais de comportamento e a defesa do poder local na definição dos valores e normas morais dizem respeito a um movimento mais amplo, em que local, global, media e tradição dialogam numa disputa de poder simbólico (como bem define
mais do que isso, a inserção dos indivíduos que participam desse movimento no processo civilizatório atual, em que o conceito de interatividade – ou, como define Trivinho (2003, p. 104), a sociossemiose plena da interatividade – “promove e fomenta, como valor, a informatização, a cibericonização, a hipertextualização e a ciberespacialização, que, porventura, todas juntas, num círculo auto-referente e vicioso, estimulam a sua evolução”, reorganizando e modulando o mundo. A experiência do CTG virtual é o exemplo mais recente dessa inserção, demonstrando o atrelamento entre o MTG e a lógica do capitalismo digital.
A utilização das novas tecnologias (pelo MTG ou por qualquer de seus integrantes) e sua manifestação em diferentes ambientes, sobretudo na realidade virtual, modificam alguns pontos de referência em que se apóia o tradicionalismo. O território como fator delimitante é o aspecto mais afetado, pelo que pudemos verificar nessa pesquisa. A terra natal do gaúcho não precisa ser uma cidade da região dos pampas, já que essa identidade cultural é transferida aos indivíduos que cultivam as tradições gaúchas. O mesmo acontece com a querência, entendida principalmente como o lugar em que esse indivíduo sente-se bem, pode cultuar suas tradições, receber seus amigos e familiares, enfim, fazer dele um lar. O laço afetivo que liga o gaúcho à terra prende-se hoje, com mais veemência, numa querência simbólica do que nas fazendas ou casas efetivamente existentes.
Os gaúchos não são os mesmos, o tradicionalismo, portanto, não pode ser o mesmo, embora possa ser extremamente atual. As transformações sociais as estruturas familiares tradicionais foram abaladas pelos movimentos feministas ou gls e pelas disputas no mercado de trabalho, a moral cristã não cessa de ser questionada e o regional recebe cada vez mais influências de outras culturas. Defender a lógica e o poder local na organização do cotidiano, na definição de normas morais aceitáveis e comportamentos desejáveis frente aos demais valores e comportamentos que circulam mediaticamente, faz parte de uma postura de resistência cultural que pode, sim, ser classificada como retrógrada ou conservadora, mas nem por isso ilegítima. E o campo de batalha são os media.
Embora o desenvolvimento do capitalismo, especialmente voltado ao consumo individual de bens para mercados cada vez mais segmentados, gera uma tendência ao indivudualismo e ao hedonismo, e não à comunidade; e, embora possamos encontrar no sistema capitalista, que preza a velocidade e a substituição de produtos
antigos por novos produtos (e, portanto, a cultura da novidade), que vai contra a tradição e a historicidade, o MTG não se opõe a esse regime de acumulação de riquezas, vivendo o paradoxo de combater conseqüências de um sistema econômico sem combater o sistema gerador dos problemas.
Nota-se exatamente o contrário: o MTG utiliza-se desse sistema, e o tradicionalismo é fonte de emprego e renda para diversos de seus integrantes. O comércio dos produtos típicos movimentam volumosos montantes e a utilização de selos de qualidade e premiações para produtos de destaque (prática comum de direcionamento do consumo) já é prática corrente no movimento. Ainda que sua divulgação mediática possa ser descrita, em muitos momentos, como reducionismo e estereotipia da cultura gaúcha e que sua ligação com o mercado seja quase tão estreita quanto sua ligação (esta, umbilical) com os media, considerar o MTG um produto cultural é julgamento apressado e inapropriado. Há outros elementos em questão, que vão desde a ideologia conservadora no âmbito familiar até a disputa de poder político regional, que não podem ser desconsiderados na atuação do movimento, o que nos impede de reduzi-lo ao status de mercadoria. Enquadrá-lo como movimento social – conforme o fizemos no primeiro capítulo deste trabalho – parece-nos mais adequado.
Por fim, os CTGs em todos os lugares do mundo numa época em que a mobilidade é regra (especialmente no mercado de trabalho) e o indivíduo pode ser impelido a mudar de cidade ou país a qualquer momento por razões profissionais ou pela busca de melhores condições de vida, os CTG funcionam como apaziguador do desespero frente ao desconhecido. Um tradicionalista que se muda para outra cidade e chega ao CTG é recebido num ambiente familiar cujas regras domina e conhece pessoas de sua nova morada que podem ajudá-lo em sua inserção social nesse meio. Como existem CTGs em quase todos os estados brasileiros e nos países que mais recebem brasileiros,18 a possibilidade de mudança torna-se menos traumática, e a existência da rede e do medo potencializa a vontade de manter a rede existente para amenizar o medo.
18 . De acordo com o Centro de Estudos Migratórios da USP (2005), EUA, Paraguai e Japão são os países que mais recebem migrantes brasileiros. Os três países possuem CTGs.
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1. Questões de referência:
Código Questão
Pergunta 1 Você é/se considera gaúcho? Pergunta 2 O que é ser gaúcho?
Pergunta 3 O que é querência? Pergunta 4 Você acessa a Internet?
Pergunta 5 Na sua opinião, a Internet influencia o tradicionalismo?
Pergunta 6 Na sua opinião, existem diferenças entre o tradicionalismo dentro e fora do RS?
2. Respostas de referência para pergunta
Pergunta 3 - Respostas 1. Lugar onde alguém nasceu
2. Lugar onde alguém mora 3. Lugar de onde alguém sente falta 4. Lugar onde fica o gado, fazenda, sítio 5. Lugar onde se encontra a família, os amigos 6. Lugar onde se cultiva a tradição, os
costumes
7. Lugar onde alguém se sente em casa, seu lar 8. Lugar que alguém ama
9. Lugar com muitas pessoas 10. Não sei
3. Entrevistas realizadas em Cascavel/PR
Nome Sobrenome LocalNascimento DataNascimento Nacionalidade Sexo CTG Escolaridade Renda Aldo Capelesso Erechim - RS 04/02/55 Brasileiro M Estância Colorada Ens. Médio Prof. até 10 SM Alice Terres Laranjeiras do Sul - PR 23/04/69 Brasileira F Estância Colorada Pós-Graduação até 10 SM