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Préparatifs au combat final

Dans le document Lord Of Darkess, Maxx (Page 59-79)

No plano metodológico, um dos problemas que senti no decurso da análise foi a necessidade de colocar por palavras a génese de sentido, descrevê-la e analisá-la e o efeito que esta realidade experiencial tem de um modo não linguístico. No caso duma experiência do Sensível, esta questão é, particularmente, crucial uma vez que o conteúdo originário da experiência de sentido é identificado, provado, sentido no corpo e, deste modo, maioritariamente ancorado num modo não directamente linguístico. Há uma espécie de indução metodológica que é preciso ter em conta na compreensão do processo de criação de sentido que buscamos. Mais precisamente, ao pôr por palavras os fenómenos, pode dar a ilusão que eles são dados, na sua forma original, de um modo linguístico.

Os modos de atribuição de sentido, que não o linguístico, são dados pelo próprio material de experiência construído: por um lado, a descrição em “discurso directo” do funcionamento de como este sentido existencial me envolve e a sua respectiva análise e, por outro, a minha tentativa de encontrar as palavras mais justas para descrever o decurso da experiência autobiográfica através dos instrumentos psicopedagógicos. Registar a experiência através do discurso escrito mostra, indirectamente, que a experiência não nos é dada, naquele momento, através de palavras mas, antes que , a informação é suficientemente clara para que eu seja capaz de reconhecer se, no memento da reformulação, ela é adequada ou não. Assim, neste rigor metodológico, há um acto epistemológico importante que recusa reduzir a representação de sentido a um acto linguístico e de reduzir, igualmente , a sua inteligibilidade à linguagem.

Outra crítica e limitação que se impõe a este trabalho é a de que este estudo se limita apenas a um caso. Nesse sentido, houve um efeito positivo de me obrigar a explorar, consciencializar e assumir um nível de implicação elevado mas habitual no quadro duma tese em psicopedagogia do sensível. No entanto, o trabalho intelectual acompanhou sempre, todo o meu processo de pesquisa: permitiu-me reparar algumas fragilidades presentes em mim e nesta abordagem com a prática do Sensível onde, de certa forma, há uma subjectividade assumida mas também, se apresentam e estabelecem resultados com algum rigor. No plano epistemológico, a postura da minha escolha implica e traduz apenas a verdade, pelo menos duma certa realidade de experiência humana. Deste modo, parece-me, resta-me dizer que este trabalho, pelas suas

102 características solitárias, não foi alheio a uma crítica intersubjectiva. Ele reclama que outros, que não eu, poderão aventurar-se nesta recolha de dados radicalmente na primeira pessoa com o fim de que as categorias e modelizações possam ser reguladas pela confrontação com outras experiências. Esta necessidade é reforçada pelo simples facto que uma pesquisa singular não pode pretender uma generalização, mesmo que ela possa ter um alcance universal: é o que lhe dá o seu estatuto, assumido e desejado, desde o início, etapa inaugural dum percurso de busca de identidade. Esta busca pode-se fazer noutra direcção : com uma grande amostra e com outras abordagens metodológicas (para combinar os resultados de diferentes naturezas ao serviço duma visão mais completa dos processos estudados), enfim, numa direcção de macro- temporalidade biográfica onde seria interessante demonstrar a transferência deste modelo de sentido proposto. Este trabalho pretende mostrar o sentido profundo da abordagem na primeira pessoa no quadro duma linha de produção de conhecimento mais vasta.

No plano teórico, há um ponto que me pareceu limitar a minha pesquisa: no limite, e o mais essencial, na minha perspectiva, construi o campo de problematização em torno das Ciências da Educação e, particularmente, no campo da formação de Si, enfim, ser pessoa, renovar uma identidade fragmentada. A meu ver, esta opção encontrou o seu interesse e a sua justificação na necessidade de construir, dentro deste campo, o espaço científico onde enraizar a minha questão de pesquisa. Com efeito, corpo e sentido constituem duas temáticas fortes na formação de qualquer ser humano, o seu cruzamento bem como as experiências de vida, interior, sentida não têm sido objecto de estudos aprofundados. Neste campo, a observação sugere que os problemas científicos colocados por esta abordagem ao corpo vivido, e ao sentido que dele emerge, explicam, em parte toda a elaboração teórica sobre este processo profundamente humano fazendo sentir a educação ao longo da vida como seu suporte e, ao mesmo tempo, um trampolim para novos estudos inovadores, exploratórios de outros territórios. Neste contexto, senti que tive de exceder as fronteiras das ciências da educação ao virar-me para as disciplinas de fenomenologia, antropologia e sociologia. Daí que, a minha análise de dados tenha respeitado esta linha fenomenológica abstraindo-me, a

priori, de todas as categorias teóricas existentes. Em consequência desta escolha, o essencial dos meus resultados é constituído por evidências imanentes de vários tipos de sentidos e de dinâmicas processuais próprias do mundo do Sensível.

103 A ideia que cada um de nós elabora de si mesmo, a imagem que gradualmente construímos de quem somos física e mentalmente, e do nosso estatuto identitário, baseia-se na memória autobiográfica que é construída ao longo de anos de experiência e sujeita a remodelações. Grande parte dessa renovação ocorre de forma consciente e influenciada durante cada introspecção. O si autobiográfico que se manifesta nas nossas mentes é o produto final dessa experiência sensível, de contacto com o corpo que nos permite a revisão dessas vivências.

Creio, mesmo, que um dos aspectos-chave da evolução do si e da consequente desfragmentação da identidade envolve o equilíbrio, na introspecção, dessas influências: o passado vivido e o devir. A maturidade pessoal significa que as memórias do futuro que antecipamos têm um peso sobre o nosso corpo autobiográfico. As memórias que concebemos, durante a introspecção sensorial, como metas, desejos exercem uma influência sobre o corpo e consequentemente, sobre os nossos factos de conhecimento. Sem dúvida que também desempenha um papel na renovação do passado vivido, consciente ou inconscientemente, e na criação duma nova identidade. Esta selecção de “rascunhos” autobiográficos são compatíveis com a remodelação dessa identidade singular e unificadora. É esta consciência sentida no corpo que permite que se modifique a mente. O estado de compreensão permitido durante a introspecção sensorial vai a par com um estado de ordem no qual o Eu (Self) se embrenha na sua própria existência. Aí, o corpo e a mente formam um só organismo indissociável onde o corpo emite sinais ao cérebro, interagindo. Enfim, o sinal para salvar a identidade parte do corpo. Os sinais de que temos consciência partem do corpo. Podemos dizer que se trata de um controlo do corpo pelo corpo, ainda que seja sentido pela mente.

Hoje é claro para mim que a pesquisa sobre a natureza e as implicações da dimensão Sensível no ser humano deve ser conjugado com o estudo dos seus impactos em várias vertentes da personalidade ou da existência do sujeito. Só assim poderemos estabelecer uma “fenomenologia de Sensível”, preconizada por D. Bois.

A minha sensibilidade científica provocou-me um interesse particular em duas direcções: na minha vertente de formação enquanto profissional de educação e na vertente de formação pessoal. Assim, na situação estudada, a experiência de sentido não é uma experiência de compreensão mas um espaço de criação de inteligibilidade e certos factos mudam o estatuto, o modo e o plano de existência de sentido: a vida própria do sentido que emerge do corpo Sensível toma forma através de palavras: esta experiência de vida enquanto processo incessante de renovação de si, uma espécie de

104 desenvolvimento partilhado e recíproco entre a criação de sentido e a criação duma nova identidade. Neste processo de transformação de si existe, nele mesmo, um processo evolutivo de renovação de ser, de me viver e de viver o mundo. Quando entro neste processo de elaboração sigo, de perto, uma intimidade viva e perceptível do meu corpo e do meu espírito, mudo logo de forma e esta metamorfose contribui para a formação de sentido de mim mesma que me transforma ou transformará numa reciprocidade que me parece ser o renascimento duma nova identidade. Isto é o que faz da psicopedagogia um projecto antropoformador.

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