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Préfecture de la Charente-Maritime - Service de la coordination de l'action départementale

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ARTICLE 2 : Le dossier annexé au présent arrêté est consultable à la préfecture de département

1.4. Préfecture de la Charente-Maritime - Service de la coordination de l'action départementale

O pessimismo porque são tomadas as imagens e os personagens, o sentimento de derrota imbuído em seu caráter, nos remete também ao pensamento existencialista, ao confronto com o absurdo, à tentativa de desviá-lo sem precisar apelar ao suicídio. O que, inclusive, muitos dos personagens onettianos são levados a fazer. No capítulo anterior, Brausen foi comparado aos protagonistas existencialistas mais conhecidos, mas, olhando de forma geral, Eladio e vários dos personagens onettianos, especialmente os que se suicidam, carregam, cada qual a sua forma, a seguinte questão: por que viver? Sendo em grande parte miseráveis, fracassados como Fausto de Goethe, se veem repetindo a mesma rotina, lidando com o mau caratismo do mundo, oportunismos, atrocidades sociais, mentiras e muitas vezes eles mesmos como protagonistas “do crime”. Os habitantes de Santa María, a quem chamo todos os personagens de Onetti, estão cansados da vida e cada um acha uma forma de escapar dela. Camus, em seu ensaio o Mito de Sísifo, comenta sobre essa sensação, sobre o momento de confronto com o que chama de absurdo:

51 Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o "porque" desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. "Começa", isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. (CAMUS, p. 13) Os personagens de Onetti e o próprio Onetti utilizam a ficção, este último de forma inesgotável, para lidar com o absurdo, principalmente em relação aos conflitos que trouxe a vida moderna. Conforme Camus, o absurdo seria o contrário da esperança (CAMUS, p.25). Poderíamos pensar, então, a narrativa de Santa María como uma história do absurdo. Muitos de seus personagens se suicidam, afundados na desesperança e apegados à sua ruína, crentes em seu único destino que é a morte, após já terem tentado se salvar na ficção (em suas variadas formas) como pretendeu Brausen. Soñar y fantasiar es el último refugio de Brausen cuando su visión pesimista y desesperada del mundo en el que vive no parece dejarle outra escapatória que el suicídio (por eso hay tantos suicidas entre los personajes de Onetti). (VARGAS LLOSA, 2008, p. 98)

Em El astillero, Santa María e Puerto Astillero são os espaços de transição da narrativa. O Brausen-diluído conta a história do retorno de Larsen, protagonista desse romance, à cidade imaginária.

Había bajado hacia el río después de dejar atrás el cubo sombrío y brillante de la Aduana y andaba por el caminho de Enduro; ya no llovía y el viento empezaba a entrar en la ciudad a saltos, conquistando una línea de mazanas tras otra. “Sí tenía que volver, por qué me corro hacia la parte más sucia y miserable”. Iba con una mano metida entre las solapas del sobretodo, la cabeza torcida para que el viento no le robara el sombrero, sintiendo el agua en los calcetines a cada paso sonoro. (ONETTI, 1980, p. 128)

A perda da fé na humanidade, a única crença na miséria e na inevitável maldade humana são ecos que aparecem com frequência nas narrativas onettianas. São frequentes as histórias de derrota já anunciadas nas primeiras linhas. Em El astillero, teremos uma representação de uma Santa María do futuro, já passados muitos anos da criação, assim como da atmosfera soturna em que pareceu sobreviver a sociedade sanmariense até então. Percebe-se também que a narração é de alguém de dentro de Santa María, que especula mais do que afirma, como todo bom narrador onettiano, mas certamente com um bom conhecimento da estrutura e do funcionamento da cidade. Dessa forma, é possível imaginar que essa voz que está dentro, mas

52 ao mesmo tempo fora, que não se anuncia, que parece um “terceiro” e ao mesmo tempo um “nós” (bem crítico por sinal), é Brausen, que diluído, está por lá desde de La vida breve.

A ruína vem atrelada à decadência. A ruína dos espaços e especialmente do Estaleiro se reflete em seu ilusório funcionamento, na personalidade dos empregados, na mentira que todos estão fadados a viver. O que pode ter levado Onetti a ir destruindo seu mundo logo que criado? Além da imagem decadente ser facilmente reconhecida na descrição da localidade, vemos desde o início e com o passar das narrativas a degradação de vários dos habitantes, principalmente de caráter moral, da sociedade em geral sanmariana.

Molina, autor espanhol, comenta no prefácio da edição brasileira dos 47 contos que “os heróis de Onetti eram os mais pacíficos, os mais preguiçosos, os mais inúteis do mundo” (ONETTI, 2007). Jorgito, que também aparece em Junta-Cadávares, narrador do conto O álbum, publicado em La Nación em 1953, dois anos depois de La vida breve, revela atitudes e discursos que se traduzem no que também diz o espanhol sobre os hábitos dos personagens: “a tarefa preferida por um número considerável de personagens de Onetti é a de inventar, contar mentiras e ouvi-las, dotar-se de falsas vidas por meio da credulidade daquele que escuta”.

É esse perfil marginal, gozador, satírico e onírico que o uruguaio traçou para seus personagens. Ele está sobretudo em seus heróis, que o máximo que conquistam é o fracasso, quando não a morte. Encontramos no conto Esbjerg, na costa, publicado em 1946 em La Nación, Montes, marido de Kirsten, satirizado pelo narrador da primeira à última página. O narrador é o próprio antagonista – e aí fica clara a predisposição de seus narradores à ironia e ao maldizer, à humilhação e degradação humana do outro. O protagonista, a história de quem é contada, é claramente o marginal – que tenta ser herói (os heróis onettianos nunca conseguem chegar a consumar seu heroísmo). Só os identificamos como heróis porque os narradores sempre expõem os sonhos e desejos dos marginais com sarcasmo e impetuosamente nos faz compreender o fracasso que são todos eles e talvez todos nós, nesta existência.

Como a província está melhor delineada no segundo livro da chamada trilogia de Santa María, são comuns as passagens dos lugares ruinosos com que Larsen, ao voltar para sua cidade natal, depara-se:

Fue trepando, sin aprensiones, la tierra húmeda paralela a los anchos tablones grises y verdosos, unidos por yuyos; miró el par de grúas herrumbradas, el edifício gris, cúbico, excesivo en el paisaje llano, las letras enormes, carcomidas, que apenas susurraban, como un gigante afónico, Jeremias Petrus & Cía. (...) Continuó andando entre casas pobres, entre cercos de alambre con mujeres que abandonaban la azada o interrumpían el fregoteo en las tinas para mirarlo con disimulo y esperar.

53 Calles de tierra o barro, sin huellas de vehículos, fragmentadas por las promesas de luz de las flamantes columnas de alumbrado; y a su espalda el incomprensible edifício de cemento, la rampa vacía de barcos, de obreiros, las grúas de hierro viejo que habrían de chirriar y quebrarse en cuanto alguien quisiera ponerlas en movimento. El cielo había terminado de nublarse y el aire estaba quieto, augural.

(ONETTI, 1980, p.13)

O cenário de agora, ao qual já vínhamos nos habituando – o clima nublado e à inércia do vento, traz uma cidade decadente, com aspecto de carcomida, encerrada em si mesma. Em Puerto Astillero, local caracterizado como a região ao redor do cais de Santa María, isso se dava de forma ainda mais gritante, já que a descrição do velho Estaleiro, assim como da casa de Petrus, seu dono, existiam, conforme pensou Larsen, como um sussurro. A imagem de ruína aparece literalmente na opinião de Larsen:

En todas partes, manchadas y semicubiertas por el ramaje, blanqueaban mujeres de mármol desnudas. ‘Lo están dejando convertir en una ruína, pensó Larsen con disgusto; doscientos mil pesos y me quedo corto; y quién sabe cuánto terreno hay atrás, desde la casa al río. (ONETTI, 1980, p. 22)

A cidade está carregada de fofocas, de ódio e da vontade de vingança desse personagem, Larsen. Puerto Astillero, onde se exila dos olhares e maldizeres dos habitantes, mostra-se um lugar ainda menos convidativo, o oposto de um espaço feliz: “Solitario en el mostrador, volvendo la cabeza hacia la tormenta y el río, hacia el origen impreciso del olor a podredumbre, a profundidades excavadas, a recuerdos muertos que se habían filtrado en el salón del Belgrano” (ONETTI, 1980, p. 99). Além da caracterização decadente dos espaços, estar em Santa María, para Larsen, era reviver memórias que talvez pensasse haver enterrado – ruínas emocionais.

Seu local de trabalho, assim como seu quarto, são descritos como espaços sujos, tomados pela desordem e antiguidade. É mostrado o declínio, a frequência de odores malcheirosos como caracterizadores do espaço, uma atmosfera pesada e inconveniente, que nos convida ao desespero:

Con las manos a la espalda, pisando cuidadoso planos y documentos, zonas de polvo, tablas gemidoras, comenzó a pasearse por la enorme oficina vacía. Las ventanas habían tenido vidrios, cada pareja de cables rotos enchufaba con un teléfono, veinte o treinta hombres se inclinaban sobre los escritórios (...) (ONETTI, 1980 , p. 32)

A miséria em que passa a viver esse personagem revela a mediocridade a que chega um ser humano para manter um status ou sua única saída: “A fome não era vontade de comer mas

54 a tristeza de estar sozinho e faminto, a nostalgia de uma toalha lavada, branca e lisa, com pequenos serzidos, com manchas recentes, migalhas de pão, pratos fumegantes, a alegre grosseria dos camaradas. (ONETTI, p. 55)”

Mais uma vez o vazio invade Santa María, sendo possivelmente o vazio de seu criador, o narrador, ou do próprio Onetti, ou do vazio com que se depara. Inunda a atmosfera e afunda a placidez com que um dia foi imaginada.

Essa diluição é percebida precisamente nesse romance, que embora venha após La vida Breve, não trata do que ocorre logo após o “surgimento” da cidade. Na narrativa supracitada, o narrador é um eu coletivo, uma voz de dentro de Santa María, um “nós”. Já não se fala mais em Brausen em outro plano além do divino, sua vida real já não é mais contexto, tampouco ele, ou quem quer que seja o narrador, faz questão de identificar-se.

Así se inició el último descenso de Larsen a la ciudad maldita. Es probable que presintiera durante el viaje que había venido para despedirse, que la persecución de Gálvez no era más que el pretexto indispensable, el dissimulo. Los que lo vimos entonces y pudimos reconocerlo, lo encontramos más viejo, derrotado, depresivo. Pero había en él algo distinto, no por nuevo sino por antiguo y olvidado; algo, una dureza, un coraje, un humor que pertenecían al Larsen anterior, al que había llegado cinco o seis años antes a Santa María con su esperanza y su obsesión.

Nos estuvo mostrando – y algunos fuimos capaces de verlo -, un poco inexacto, un poco remendado, al Larsen de entonces, no corregido por la permanência em el astillero. (ONETTI, 1980, p. 201)

Ao se incorporar literalmente à Santa María, Brausen leva consigo (ou deposita) e distribui nesse espaço as angústias e dores pelas quais passava no momento da “criação” – seu sentimento de fracasso iminente, a desesperança. Dessa forma, a província vai ganhando tons degradantes e um clima soturno indissociável. O universo criado por Deus foi o Paraíso; será que até a isso Onetti queria se rebelar, permitindo a seu demiurgo o empreendimento de um Inferno ou como diriam os gnósticos, um Universo Inferior, que Onetti teria empreendido ao pé da letra? La ciudad maldita, então, seria um antro de impossibilidades, povoada de habitantes rumo à derrota.

Com isso, vamos à ideia de inferno. O inferno em que Onetti deposita todos os seus personagens é uma representação do que ele entendia como realidade? Os níveis de realidade a que se acostumara a lidar nos livros e na vida? E qual a concepção de inferno temos para compará-lo ao que virou a província de imigrantes suíços?

55 (...) toda consideración acerca del infierno fundada en las concepciones “literarias”, adolece naturalmente de los límites que su propia condición de conjetura imaginativa le confiere. Y más que de una conjetura estrictamente literaria, se trata de la expresión de una posibilidad de la que el observador podría llegar a ser objeto. Es un infierno que solo puede ser concebido desde ese punto de vista cuya objetividad siempre está contaminada de terror; del terror de nuestra propia posibilidad, desde nuestra condición de posibles víctimas, asociando a esta condición el paliativo de una solidariedad que supone la idea que inadecuadamente informa la mayor parte de nuestras concepciones del infierno: sobre todo la de que se trata de una comunidad de condenados. (ELIZONDO, 2012, p. 20)

O limbo, já citado por Medina certa vez, foi onde esteve no intervalo entre ser ensinado por um mestre e chegar à Santa María. Em certo momento, então, quando tem por volta dos 40 anos, Onetti o despeja no inferno, na província. A curiosidade diante dessa idade que se repete nos escritos onettianos, que aparece até em Faulkner, é “resolvida” por Vargas Llosa quando atenta, a partir de um conto, Bienvenido, Bob (ano), que “La ruina e decadencia de Bob personifica la de todos los hombres en el universo de Onetti, que, pasada la juventud, comienzan a convertirse en parodias de sí mismos, seres sin alma, cínicos, corrompidos, mimando unos roles que les imponen los otros.” (VARGAS LLOSA, 2008, p. 74) A partir de certa idade, então, o homem perde a ingenuidade e a realidade, sempre degradante, o transforma em um cínico que o faz entrar em decadência.

Dentro de El astillero é possível observar mais uma vez, de forma unicamente forte, a fuga para a ficção a que recorrem Larsen, Gálvez, Kunz, Angélica Inés e o próprio Petrus. Angélica Inés já tinha atestada sua loucura, mas os outros viviam uma cena em loop, totalmente entregues ao cinismo e à mentira. A mesma encenação todos os dias, a fome trazendo para o real, a miséria dando vazão ao pior do ser humano. Larsen, ao voltar de seu exílio após cinco anos de sua expulsão, o que também pode ser visto como uma considerável fuga do controle de Brausen sobre sua vida, busca emprego no velho estaleiro, que conforme descreve, está em ruínas. Assim como a casa de Petrus, Santa María e tudo ao redor.

- Así que usted es el nuevo Gerente General? Cuánto? Tres mil? Perdone, pero Gálvez está a cargo de la administración lo vamos a saber muy pronto. Tiene que anotarlo en los libros. Acreditado al señor Larsen, Larsen, verdad?, dos o tres o cinco mil pesos por sus honorarios correspondientes al mes de junio. Larsen lo miró, primero a uno, un rato, después al outro, tomándose tiempo; había construído una frase insultante, sonora, ideal para su voz de bajo y para el silabeo moroso. Pero no pudo comprovar que se burlaran; el más viejo, peludo y redondo, corpulento, encorvado como una araña, con la piel de la cara marcada por arrugas profundas y escasas, Kunz, lo miraba sin otra cosa que curiosidad y un brillo de ilusión infantil en los ojos renegridos; el otro,

56 Gálvez, mostró con franqueza la dentadura de adolescente y se acarició calmoso la cabeza desnuda.

<< Nada más que divertidos, como si buscaran un chisme para contárselo esta noche a las mujeres que no tienen. O que tal vez tengan, pobres desgraciados los cuatro. No hay motivo para pelear.>> (ONETTI, 1980, p. 34)

O estaleiro “funcionava” na promessa do dinheiro que Petrus esperava receber para reerguer seu patrimônio. O que o velho Petrus sabia que não aconteceria, assim como todos que estavam ali há mais tempo, como Gálvez e Kunz; e do que Larsen provavelmente se deu conta logo depois de ter aceitado participar da farsa. O estaleiro era uma ruína, mas ninguém queria aceitar isso.

No entanto, Larsen não parecia ter mais nada a perder, além disso, esperava ganhar. Aceitou o emprego, a mentira sobre seu salário, a mentira que era agora sinônimo de sua vida, mas com que tinha de lidar todas as noites, faminto ao chegar a seu quarto. Ele, assim como todos ao seu redor, contracenava rotineiramente, fingindo ter uma vida que não tinha, dando conta de papeis e barcos que jamais subiriam o rio de Santa María novamente. Sustentava um status que pelo menos o dinheiro não lhe conferia, embora sem dúvidas fosse uma mentira que o agradava, da qual ele precisava para terminar seus dias, sua derradeira derrota. Assim, Larsen comete também um deicídio, ao inclusive, tentar apagar a identidade de Junta-cadáveres pela qual ficou conhecido e devido a qual foi expulso da província. A decadência e a ilusão a que se submete nesse momento de sua vida se assemelha à dupla identidade de Brausen, quando era Arce para sua vizinha.

Entonces, con lentitud y prudência, Larsen comenzó a aceptar que era posible compartir la ilusória gerencia de Petrus, Sociedad Anónima, con otras ilusiones, con otras formas de la mentira que se había propuesto no volver a frecuentar. (...) Acaso se haya abandonado, simplemente, como se vuelve en las horas de crisis al refugio seguro de una manía, un vicio, o una mujer. Pero ésta era su última oportunidad de engañarse. De modo que mantuvo, sin que viera el esfuerzo, con voluntad desesperada, un limite infranqueable entre la Gerencia General, y el frío creciente de la glorieta y las comidas dentro o alrededor de la casilla donde vivía Gálvez con la mujer vestida de hombre y los perros sucios. (ONETTI, 1980, p. 58)

No condado de Faulkner também é possível visualizar um espaço de ruína habitado por personagens com vidas não menos arruinadas. Ruby é uma das representações mais gritantes, semelhante à mulher de Galvez de El astillero. Mais do que semelhante, na verdade, elas parecem ser observadas e descritas para lembrar uma a outra. Assim como, apesar de tudo, o

57 pobre Popeye. A casa onde se passa a trama de Santuário é retratada como uma casa de sustos, sem recursos, sombria:

A casa surgiu acima do amontoado de cedros. Além dos sombrios interstícios, um pomar de macieiras exibia-se na tarde ensolarada. A casa ficava no meio de um árido gramado, cercada por jardins abandonados e dependências em ruínas. Em parte alguma se via sinal de lavoura, arado ou outro qualquer instrumento. Para onde quer que se olhasse, não havia sinal de plantação - somente uma ruína esquálida e judiada pelo tempo, no meio de sombrio bosquete, através do qual soprava a brisa com som triste e lamuriento. (FAULKNER, p. 41)

Diferente de Santa María, Yoknapatawpha nunca houve a pretensão de ser um lugar feliz. Desde o início conserva sua imagem ruinosa, sua atmosfera de perigo e é reconhecida pelos personagens logo que a adentram-na

Caminhando em fila, Tommy e Benbow desceram o morro, saindo de casa e seguindo pela estrada abandonada. Benbow olhou para trás. Contra o céu, acima do opaco amontoado de cedros, de novo se erguia a esquálida ruína – escura, solitária e insondável. A estrada era uma corroída cicatriz, excessivamente funda para ser estrada e reta demais para ser vala, estripada pelas inundações de inverno e sufocada por folhas apodrecidas, fetos e galhos. Seguindo Tommy, Benbow entrou numa mal traçada vereda, onde os passos tinham gastado a vegetação apodrecida, pondo a descoberto a terra. Sobre sua cabeça, arqueada sebe ocultava ralamente o céu. (FAULKNER, p.22)

Como já foi dito, a imagem da decadência aparece em suas mais variadas formas, chamando atenção até mesmo para o varal, as roupas puídas com que escondiam o corpo aquelas pobres criaturas:

Num varal, diante dessa porta, estavam dependurados três panos quadrados, úmidos e desanimados, como se tivessem sido lavados recentemente. Viu também uma peça de roupa de baixo, de mulher, de desbotada seda cor-de- rosa. Fora lavada tantas vezes, que a renda se apresentava esgarçada e fibrosa, como o próprio tecido. Temple notou um remendo de fazendo de algodão, em tom claro, caprichosamente feito. (FAULKNER, p.42)

O universo onettiano, assim como o condado, se assemelha a um inferno. Como já foi

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