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Eléments de théorie

1.3 Stabilité des nutritions parentérales  [Barnett 1990  25 , ]

1.3.1 Stabilité physique des NP

1.3.1.2 Précipitations des électrolytes

Até aqui, mencionamos apenas de passagem um poema de As imaginações em que a imagem da água é bastante perceptível: Praia do Sobral. Nesse texto, o “eu” lírico recorda o encontro que tivera com uma mulher, nomeada “Doralice”, e as impressões que de tal encontro ficaram. É um texto que merece nossa atenção detida: Praia do Sobral não é apenas um exemplo entre outros, de ocorrência do imaginário hídrico no então jovem autor, mas o próprio despertar da imaginação material. E é o primeiro ponto daquela linha contínua de lírica amorosa que irá encontrar, depois, o Soneto de abril e o Soneto da vazante, de Acontecimento do soneto, para refundir-se em Ode e elegia e Cântico, quando se estabiliza.

A par disso, e como já observou Moreira (2010), é também a primeira menção à cidade de Maceió na poesia de Lêdo Ivo, já que o próprio topônimo corresponde a uma praia urbana, em cujas cercanias, como é muito comum na região, encontra-se uma lagoa. Esses dois dados – o despertar da imaginação material e a referencialidade – merecem, ambos, nossa atenção, porquanto anunciam tudo o que há por vir. Deixemos, porém, a referencialidade para um momento mais propício; fiquemos agora apenas com a imaginação material.

Não tanto como amostra da linguagem poética do autor – que logo se afastaria de certa facilidade associativa desse poema −, mas pela significação que possui como ponto de partida para outros textos, vale a pena transcrevê-lo na íntegra:

PRAIA DO SOBRAL

Esperava que ela afastasse de mim os seios puros e passeava com ela pela praia e a beijava

e enfeitava seus cabelos com uma flor.

Permanecia tranquilo mesmo junto de sua carne pois no litoral Doralice era a flor esquiva que restaurava em mim o obscuro desequilíbrio. Misteriosamente claros seus seios tentavam minha mão direita que a louvaria em verso e minha mão esquerda frágil e inconsistente inútil quando não a acariciava.

49 No Capítulo 3 desta Segunda Parte, ao relacionarmos essa aproximação de opostos com o conceito

Praia debruçada sobre o seu corpo, o amor era a gratidão marítima

e as ondas obedeciam ao fremir de suas coxas. Doralice era a utilidade que sob o sol

ou sob a lua me afastava do céu.

Era o crepúsculo invasor de alguma manhã.

Sonhos caminhando, tardes náufragas, noites grandes, Doralice era como a lagoa da terra em que nasci: me perturbava e me acendia.

Era a areia quente

onde o sol de minha infância se nutria. A noite vinha do sexo de Doralice para o litoral que era

como um colchão onde se amava. Depois Doralice vomitou a infância

e eu fiquei, menino, na praia sonhando (IVO, 2004c, p. 50-51).

Há algo de narcísico neste poema, em que o “eu” se remira na mulher-paisagem, com o próprio amor identificado à praia. Existe o conhecimento do Outro, existe toda uma sexualização da paisagem a partir do feminino, mas prevalece a marca do “eu”: um Narciso que se remira e se rememora. É um primeiro Lêdo Ivo, articulando os signos de sua origem, ao mesmo tempo compondo um quadro como “estado de alma” − e sinalizando: sou de outro lugar. Em meio a referências da praia, fala-nos da lagoa, uma perturbadora lagoa que também o acende – e o verbo, aqui, parece bastante sugestivo, remetendo a uma ideia de luz, de lucidez no devaneio que informa a vida criativa.

Interessante é observar, também, a incoincidência do momento da escrita (ainda que, porventura, ficcionalizado) e o da paisagem referida: a Doralice rememorada é paralela à terra natal do símile (... era como// ... me perturbava e me acendia). De outro modo: mediada pela distância temporal, a amada ganha forma a partir de uma imagem submetida à distância do espaço, encontrando-se com uma remota experiência da percepção (visual, mas sobretudo táctil), mal compreendida e perseverante em sua força: a da lagoa.

Este momento do “eu” diante da lagoa, expresso pelos verbos “perturbar” e “acender” em suas formas flexionadas, deixa entrever a vocação criativa de sua voz poética. Parece haver, aí, a fixação de um despertar, o correlato imagístico encontrado pelo poeta para representar a peculiaridade de sua criação, estritamente ligada à imaginação da matéria. Como nos conta Bachelard − a propósito de suas próprias experiências:

[...] o ser é antes de tudo um despertar, e ele desperta na consciência de uma impressão extraordinária. O indivíduo não é a soma de suas impressões gerais, é a

soma de suas impressões singulares. [...] Foi perto da água e de suas flores que melhor compreendi ser o devaneio um universo de emanação (BACHELARD, 1989, p. 8).

Perto da água, diante da água-espelho, também Lêdo Ivo liricamente representa a sua própria experiência estética, transmudado em um “eu” que se autoenuncia, mas, ao mesmo tempo, abre-se como signo e símbolo múltiplo. E, como uma escrita ela mesma identificável à água, o tema de Praia do Sobral seria revisitado pelo autor no romance O caminho sem aventura – que, como demonstramos em capítulo anterior, fora o seu primeiro na ordem de composição.

O enredo dessa obra romanesca gira em torno do protagonista Geraldo, que se sente na iminência de partir ou ficar na região alagadiça da Ilha de Santa Rita, onde sua família tem uma fazenda. Vejamos um entrecho em que o narrador em primeira pessoa nos conta uma experiência com certa personagem feminina, de nome Bárbara:

Bárbara e eu tomávamos banho de mar todas as manhãs, e às vezes nos aventurávamos pela praia, até perto do Sobral.

[...]

Era como em qualquer dia de minha infância, principalmente naquelas tardes em que, fazendo gazeta, íamos tomar banho de mar na praia do Sobral, ali onde o Salgadinho se encontrava com o oceano. A água alegre não me entregava o segredo de seu equilíbrio, não me ensinava a lição que me faria viver dentro dela, em sua luz viageira, sem submergir. Bracejando, como outrora, no mar avarento, era como se meu dia não fosse uma usurpação do tempo, mas uma coisa durável e antiga, como a efígie das moedas (IVO, 1983, p. 23-24).

Por esse pequeno trecho, é possível compreender a insistência da crítica na clave de leitura da “prosa de poeta”. Existe aqui, como aliás em outras obras de Lêdo Ivo, aquela “lei da imagem e do ritmo” de que nos fala Octavio Paz (2012) e que, presidindo algumas obras em prosa com um “vaivém de imagens, acentos e pausas”, confere a estas a “marca inequívoca da poesia” (PAZ, 2012, p. 78).

Voltando, porém, para nossa questão: atente-se para o verbo utilizado agora, ainda que sob forma negativa − “ensinar”. Diz o narrador que, naquele momento, a “água não (lhe) ensinava a lição [...]”. Ora, é de se considerar, contrario sensu, que há uma lição a ensinar – e o narrador nos diz qual, o que também faz supor que já a aprendeu, ao tempo da escrita: a de que o dia é uma usurpação do tempo, e não “uma coisa durável e antiga como a efígie das moedas”. Uma lição de mobilidade, portanto.

A crítica posteriormente chamaria a atenção para o uso reiterativo da palavra “lição” na obra lediana (TELES, 1989; CHAMIE, 1976). Para nós, esta representação do poeta-aluno (embora “aluno relapso”, como no título de um de seus livros), reenvia aos primeiros contornos de uma poética da água. É o que decorre de uma lição da água – em que parece estar implícita uma moral da água, como a formula Bachelard (1989, p. 139-156), embora, na sua análise específica para o ponto, Bachelard se detenha no maniqueísmo inconsciente da água pura e da água impura. Em Lêdo Ivo, o que a moral da água tem a ensinar, aquilo que em seu arcabouço é moralmente bom, parece ser a constatação da fugacidade, da mobilidade implícita na experiência humana diante do tempo.

Lembrando aqui um famoso poema de João Cabral de Melo Neto, poderíamos dizer que se trata, agora, de perquirir o que a água sim ensina, é dizer: uma aproximação da escrita com certo sentido de mobilidade e fluência, uma poética da água, que, no caso particular do exemplo retirado do romance O caminho sem aventura, pode ser aproximado ao poema Praia do Sobral − cotejo que aponta para essa característica fundamental de Lêdo Ivo: o trânsito de gêneros.

Pouco importa, também aqui, a possível factualidade dessa experiência: se na Praia do Sobral realmente, se com uma Doralice ou mulher de outro nome etc. “Doralice”, aliás, parece uma palavra escolhida em função da melopeia de seu significante, em aproximação com a palavra “litoral”50; enquanto a escolha daquela “Bárbara” seria talvez presidida por

outros critérios, possivelmente ligados ao étimo do nome, à sua aproximação com a forma adjetiva etc. Sobreleva, contudo, o retorno ao tema, a reescrita, como operação de raspagem e reconfiguração, a aproximar a obra de um grande palimpsesto, um território sem fronteiras − ou de fronteiras constantemente rasuradas. E se tivermos em conta que Geraldo, o protagonista de O caminho sem aventura, tem suas angústias de partir ou ficar pensadas em função do “marco” que no romance é a Ilha de Santa Rita, a mesma que o poeta Lêdo Ivo conhecera na infância – como nos contaria anos depois, utilizando um “eu” autobiográfico em Confissões de um poeta (IVO, 2004b, p. 66-67) −, estaremos diante de uma reescrita ficcional da memória, que perturba o estatuto de ficção do romance: uma vez que sua composição precede a das Confissões, torna-se difícil saber quem reescreve o quê: se o memorialista reescreve o romancista, ou se este reescreve ficcionalmente o vivido.