3. OBJECTIFS ET METHODOLOGIE DE DEVELOPPEMENT
3.1. A NALYSE DES BESOINS
3.1.1. Analyse des outils existants
A organização do trabalho e as relações sociais na pesca em Penalva estruturam-se, especialmente, com o trabalho conjunto entre dois pescadores que, entre si, consideram-se companheiros ou, na termologia local “cumpanheiros”, e formam as duplas de trabalhadores da pesca. Essas duplas são formadas livremente, levando em conta os critérios de parentesco, amizade, relação de vizinhança e compadrio, sem vínculo empregatício. Os dois pescadores trabalham em uma canoa, na qual a forma de parceria é a forma de relação social vigente entre os “cumpanheiros”. “Eu tenho 68 anos, mas eu nunca gostei de botar rede sozinho. Eu gosto sempre de ir com um cumpanheiro” (Benedito de Jesus - Entrevista realizada em 15/11/2014).
Os dois pescadores que compõem a dupla de trabalho possuem posições determinadas, em geral, no percurso entre o porto e o ponto de pesca, um se localiza na popa, manobrando a canoa, e o outro segue na proa, é o responsável por “botar” a rede. Portanto, eles se denominam de popeiro e proeiro respectivamente. A tarefa de pilotar a canoa demanda habilidades e conhecimentos náuticos e sobre a natureza, os quais nem sempre todos pescadores possuem. Da mesma forma, “botar rede” é uma tarefa destinada àqueles que possuem conhecimentos sobre o ofício de pescar. Entretanto, em geral, muito embora, exista essa organização na divisão das tarefas, os dois que formam a dupla possui o conhecimento sobre as duas funções, o que afasta a possibilidade de existirem hierarquias. Sobre a função do proeiro e do popeiro, José Ribamar fala com detalhes no trecho da narrativa abaixo:
Quer dizer que eu pesco na frente, eu sou o proeiro, ele é o popeiro. Eu sou o proeiro, trabalho na proa da canoa botando rede. Ele [o companheiro] é o popeiro, vem só governando a canoa. Mas, tem muita gente que pesca só. Eu já não gosto de pescar só, tem que ter meu cumpanheiro, ele aqui que pesca comigo é meu amigo, meu cumpade, nós somos como se fosse irmão (José Ribamar - Entrevista realizada em 04/06/2015).
157 Além da ajuda nas tarefas durante o deslocamento e durante as pescarias, um dos principais motivos alegados pelos pescadores sobre a necessidade de formar as duplas de trabalho, tem a ver com os perigos e imprevisibilidades que a atividade da pesca apresenta, ou seja, é muito recorrente nos depoimentos os pescadores expressarem que, por se tratar de um trabalho em que o pescador corre riscos constantemente e que não é possível prever algumas situações inesperadas, eles reconhecem a importância de contar com a companhia de alguém que pode prestar socorro e ajuda na hora da “nicissidade”. Sobre isto podemos observar na fala de Seu José Carlos, pescador de Penalva, que nos diz que outrora pescava sozinho, mas decidiu contar sempre com o “cumpanheiro”, pois “é perigoso tá nos campo sozinho, corro o risco de uma piranha morder a gente, a gente aduicê e não ter ninguém pra socorrer na hora de uma nicissidade”.
Eu pesco sempre com meus filho. Sempre vou com um deles (Pedro Penha - Entrevista realizada em 07/06/2015).
Eu sempre vou com minha mulher. Ela que me acumpanha sempre, Às vez que eu vou com meu pai (Valbelino Santos - Entrevista realizada em 28/11/2014).
Todos pescador hoje tem um cumpanheiro de trabáio. Antigamente eu pescava só, mas depois de uns tempo, a gente foi conhecer que é perigoso tá nos campo sozinho, corro o risco de uma piranha morder a gente, a gente aduicê e não ter ninguém pra socorrer na hora de uma nicissidade, né? Porque sozinho... não é bom não, não é bom não. E a gente tem que levar alguém que entenda da pescaria, também, porque se não suber não vai ajudá em nada, nê? Aí, esse cumpaneiro é o filho, as vez é a mulher,
um amigo...mesmo um cumpade da gente, assim que é... (José Carlos - Entrevista realizada em 28/01/2015) (Grifos nossos).
Fato curioso observado ainda na fala de Seu José Carlos é o que ele diz no seguinte trecho: “E a gente tem que levar alguém que entenda da pescaria, também, porque se não suber não vai ajudá em nada, nê?”. O que é possível entender a partir dessa fala é que a um pescador interessa formar dupla com outro pescador, com alguém que “entenda da pescaria”. Então, além do parentesco, da amizade e da solidariedade, existem outros critérios que são levados em conta na formação das duplas do trabalho na pesca, como o conhecimento e a arte de pescar, o qual compreende saberes sobre navegação, sobre as mudanças do tempo, sobre o ritmo das águas, sobre o comportamento das espécies de peixe,
158 conhecer o lago e identificar um ponto de pesca. Conhecimentos que são adquiridos ao longo dos anos e que refletem no saber local.
No trecho abaixo da fala de Seu Domingos, observa-se que ele compartilha da mesma ideia do outro pescador mencionado anteriormente, no que diz respeito à importância de trabalhar na pescaria sempre acompanhado. Observe o trecho abaixo:
Eu nunca me habituei a botar rede sozinho, sempre vou com meu piquenho [filhos]. Aí eu não gosto de ir sozinho, porque dirrepente, a gente adoece... alguma coisa assim, aí a gente tem um cumpanheiro ali com a gente, né?(Entrevista realizada em 12/11/2015).
Imagem 16: Dupla de “cumpanheiros” no trabalho da pesca em Penalva
Fonte: Arquivo pessoal
A partir desse sistema de parceria, os pescadores artesanais de Penalva formam as duplas de trabalho e organizam o sistema de “meia”. O sistema de “meia” consiste em estabelecer relações de partilhas da produção obtida em uma determinada pescaria. Em geral, na dupla, um é o dono da canoa, do motor e das redes; o outro muitas vezes leva, também, suas redes como forma de complementação dos instrumentos para realizar a pescaria. Então, a partilha da produção se dá após a venda do pescado e após a dedução dos
159 gastos com investimento para a realização da pescaria, gastos com combustível, gelo, alimentação, entre outros. Somente após essa matemática é que se realiza a partilha do rendimento obtido com a venda da produção diária. A dupla de pescadores, quando de famílias diferentes, separa primeiramente a “boia” de cada um. Seu João Mariano informa como isso acontece:
Eu não gosto de pescar sozinho, eu vou sempre com um companheiro. Aí, a divisa é assim: a gente chega com o peixe, vende aí o total a gente tira a despesa, que é o combustive que a gente compra, o gelo, uma merenda que sempre a gente leva, né? Aí, divide o capital com o cumpanheiro. Assim que é a partilha (Entrevista realizada em 06/06/2015).
Através dos dados levantados em campo, constatei que a forma de trabalho baseada na parceria em que é dividido o ganho da produção diária por meio de partilha, é uma das características da pesca artesanal em Penalva. É por conta da condição de partilha que muitos pescadores preferem trabalhar com um membro familiar – o filho, a esposa, o pai – considerando que, na hora da partilha da renda obtida com a pesca, a mesma fica integralmente no mesmo núcleo familiar.