6.1 -. O ciclo gestação-parto-puerpério como rito de passagem
Conforme exposto de forma mais detalhada no capítulo anterior, Van Gennep (1960/1978), o grande teorizador dos ritos de passagem, divide estes ritos em três fases: separação (pré-liminaridade), transição (liminaridade) e incorporação (ou pós-
liminaridade). Esses tempos formais de cerimônia têm como propósito essencial tornar o indivíduo apto a passar de uma posição definida a uma outra que é, da mesma forma, bem definida.
Na cultura Xavante, as fases de desenvolvimento são bem delimitadas, com regras claras a respeito do que é permitido ou não. Eles dedicam especial atenção à transição da fase adolescente para a fase jovem, marcada por ritos de passagem bem específicos, que têm como principal objetivo prepará-los para o casamento e para a procriação.
Sendo assim, os parentes, padrinho e demais membros da comunidade se envolvem na organização desses ritos de passagem. Eles são constituídos por celebrações carregadas de simbolismo, que desenvolvem características físicas e emocionais nos neófitos e os capacitam para lidar com as obrigações da nova fase.
Os ritos de passagem das meninas são marcados pela cerimônia de noivado, na qual o pai escolhe e comunica o nome do rapaz que irá desposar sua filha, e pela cerimônia de escolha do padrinho, que irá ocupar a função paterna em relação ao casamento da jovem. Ambas as cerimônias têm o objetivo de prepará-las para as funções de esposa e de mãe.
Na cultura Xavante, o casal vivencia o ciclo gestação-parto-puerpério como um ritual de passagem, cuja lógica fundante é metafísica, baseada na cosmologia dessa cultura. Na gravidez, os rituais efetuados pelo casal influenciam a escolha do sexo do bebê, seu nome e seu desenvolvimento saudável. Estes rituais possibilitam que os Xavante elaborem simbolicamente a transição do estado anterior à gestação para o estado de mãe e pai, e os preparam para assumir seus novos papéis na família e na sociedade: cuidadores, provedores e transmissores da cultura Xavante para seus próprios filhos.
O parto Xavante é realizado na oca em que a mulher mora e é tratado como assunto de família, restrito às mulheres, sendo a mãe da parturiente a principal facilitadora do processo. A parteira, quase sempre uma “velha” da comunidade, na maioria das vezes, assume apenas a função de auxiliar a mãe da parturiente. O parto é marcado por atos ritualísticos que possuem significado e valor simbólico para todos os envolvidos no evento como, por exemplo, a tradição de enterrar a placenta no local da oca onde o bebê nasceu.
A mulher Xavante, no período do pós-parto imediato, é poupada da obrigação de cuidar do recém-nascido até que se restabeleça, período no qual ela é maternada por outras mulheres, que utilizam os conhecimentos tradicionais da cultura Xavante sobre alimentação e medicamentos naturais.
A Xavante, desde a infância, participa ativamente dos cuidados dedicados aos sobrinhos e irmãos, costume que a ajuda a se preparar para desempenhar, no futuro, o seu papel materno. Em contrapartida, quando chega o momento de cuidar dos próprios filhos, ela também divide esta função com seus familiares, não sendo, portanto, a única responsável por eles; alimenta-se, deste modo, uma rede constante de solidariedade e suporte.
Ao contrário da cultura indígena em questão, a sociedade urbana moderna ocidental, que se estrutura a partir do indivíduo independente e autônomo, não atribui papel relevante aos ritos de passagem construídos e vivenciados coletivamente. Sendo assim, a burguesia moderna, fiel aos valores individualistas, vivencia os períodos de transição, que marcam a passagem da infância para a adolescência e desta para a fase adulta, de forma empobrecida, do ponto de vista simbólico.
Os rituais de passagem que sobreviveram nesta sociedade – tais como a cerimônia de formatura, que marca o fim de uma etapa escolar e o início de outra, a festa de quinze
anos, que tem a função de apresentar a adolescente à sociedade, ou o casamento religioso, no qual o pai da noiva entrega a filha à responsabilidade do marido – foram cooptados pelos valores capitalistas. Isto ocorreu de tal modo que estes ritos de passagem, apesar de continuarem sendo executados, são constituídos por rituais que possuem pouco ou nenhum significado para quem os vive, uma vez que se transformaram em uma mercadoria, destituída de sua carga simbólica original. Em conseqüência, os jovens da sociedade moderna não possuem um espaço social apropriado para elaborar, de forma coletiva, a passagem da adolescência para a fase adulta.
Nessa mesma perspectiva, é possível afirmar que, na sociedade moderna, o rito de passagem caracterizado pelo ciclo gestação-parto-puerpério – no qual a gestação corresponde ao momento de liminaridade, o parto corresponde ao ápice do rito e o pós- parto constitui o momento da reagregação – tem sido vivido pela mulher burguesa urbana de forma dessimbolizada (no sentido baudrillardiano do termo).
O enfraquecimento do potencial simbólico deste ciclo como rito de passagem, na sociedade moderna, está relacionado ao fato de que tanto os agentes oficiantes (profissionais de saúde guiados pelo paradigma biomédico), quanto os sujeitos rituais (as mulheres burguesas e suas famílias) partilham de uma cosmologia “científica”, que reduz o processo de gestação e parto a um evento fisiológico, desconectado da vida social.
Os procedimentos relacionados com este ciclo são guiados pelo modelo biomédico e encabeçados por um profissional da área de saúde que os limitam a ações médico- pedagógicas como, por exemplo, as consultas ao obstetra para acompanhar a saúde física da mãe e o desenvolvimento do bebê; as ecografias, momento no qual o casal
pode “ver” o/a seu/sua filho/a; e os grupos destinados aos “casais grávidos”, que os treinam para o parto e os ensinam como amamentar e cuidar do bebê.
Esses procedimentos, que marcam a passagem da gestação para o pós-parto, estão alicerçados em “evidências inquestionáveis”, construídas por resultados de exames, probabilidades, laudos médicos, teorias psicológicas, ou seja, conhecimentos científicos, que dificultam que o futuro pai e a futura mãe elaborem simbolicamente as suas experiências, uma vez que não dominam o código de signos com o qual os “especialistas” conferem um nome e um significado as vivências do casal.
Na atualidade, a própria mulher burguesa contribui para desritualizar o ciclo gestação-parto-puerpério, à medida que rejeita qualquer característica que a diferencie das mulheres não-gestantes. Com o intuito de evitar que sua vida seja “reduzida” à maternidade, ela se esforça para manter a aparência do seu corpo o mais próximo daquela do corpo não-grávido15, recusa os “trajes” confeccionados especialmente para as gestantes, mantém o mesmo ritmo de suas atividades cotidianas e profissionais com o objetivo de “continuar a vida como era antes”, e assim, provar para si mesma e para a sociedade que a maternidade é apenas mais um dos papéis que irá assumir após o nascimento do bebê, e não exatamente uma nova condição social.
Dessa forma, ela desinveste a gravidez de sua condição de liminaridade, na qual a mulher (como sujeito ritual) não possui as mesmas características, nem o mesmo status social anterior à gestação e, ao mesmo tempo, ainda não adquiriu as características e
status do seu estado futuro. Esta forma de a mulher burguesa vivenciar a gestação vem
sendo endossada pelo discurso médico, que sustenta a idéia de que “gravidez não é doença”. Assim, a mulher é, de certa forma, autorizada pelo obstetra a continuar a
15
O desejo de manter o corpo de antes manifesta-se pela reação de contentamento que se pode notar em uma grávida quando ela ouve de outra pessoa “você está tão bonita, nem parece que está grávida”
exercer as atividades cotidianas normalmente; em contrapartida, ela deverá seguir rigorosamente as prescrições médicas, com o objetivo de possibilitar o desenvolvimento saudável do bebê.
Da mesma forma, o parto também vem perdendo o seu potencial de elaboração simbólica, próprio dos rituais, e seu conteúdo de morte-renascimento. Quase sempre é realizado em um ambiente hospitalar onde, tanto a mulher, como sua família, ocupam uma posição passiva (paciente) no processo, que é totalmente dominado pelo “saber médico”.
A desritualização e a dessimbolização da gravidez e do parto geram sofrimento para a mulher no puerpério, uma vez que ela não tem oportunidade de simbolizar a transição do estado anterior (de não-mãe, ou mãe de outros filhos) para um novo estado na família e na sociedade (mãe, ou mãe daquele filho) e, assim, se preparar emocionalmente para a chegada do bebê e para as novas obrigações e direitos que ela adquire no pós-parto. Por conseqüência, no período após o parto, as mulheres burguesas se sentem despreparadas, inadequadas e incapazes para assumir suas novas funções como mãe. Muitas vezes experimentam, com culpa, o desejo de escapar de sua nova condição e retornar à fase anterior à maternidade. Este desejo é constantemente interpretado por elas como rejeição ao bebê, o que lhes gera grande sofrimento, conforme tenho percebido no relato das puérperas que me procuram no consultório.
Para agravar tal situação, a mulher burguesa não concede a si mesma, no pós- parto, um tempo para viver “o seu estado especial”. A sociedade burguesa dos grandes centros urbanos, ao contrário do que ocorre nas sociedades onde as redes comunitárias e familiares foram preservadas, praticamente aboliu o resguardo.
Nas culturas que preservam esse hábito, como a Xavante, por exemplo, durante tal período, a nova mãe “se resguarda” de qualquer desgaste físico e emocional e se prepara
para assumir uma nova posição social, juntamente com suas atribuições. A família e a comunidade se mobilizam para fornecer à mulher as condições para que ela se alimente adequadamente (com alimentos especiais, “fortes” que irão recuperá-la do parto), descanse (para isto, ela é substituída por outra mulher nos afazeres domésticos cotidianos e ajudada nos cuidados com o bebê) e desenvolva progressivamente a sua capacidade de maternar o próprio filho (a partir da atenção e orientação que ela recebe de outras mulheres).
Na sociedade moderna, por sua vez, os rituais que compõem o resguardo na sociedade Xavante são substituídos por uma assistência medicalizada, que se limita aos primeiros dias após o nascimento do bebê e visa quase que exclusivamente a integridade física da mulher, muitas vezes associada apenas à cicatrização da cirurgia cesareana. Sendo assim, é comum a mulher burguesa das grandes cidades retornar, logo nos primeiros dias após o parto, às suas atividades cotidianas. Ao voltar do hospital, além dos cuidados com o bebê, assume prontamente o comando das funções domésticas, recebe as visitas, esforça-se para se manter bonita, bem vestida e voltar rapidamente à forma física anterior à gestação.Desta forma, a mulher moderna não tem direito a gozar de um período para se restabelecer da gestação (que, ao final, é bastante desgastante para algumas, sobretudo quando o ritmo de vida é mantido independentemente da gravidez) e do parto, bem como para se preparar emocionalmente para o seu novo papel.
Nesse contexto, podemos relacionar o sofrimento psíquico que a mulher burguesa vivencia no pós-parto ao conflito entre dois modelos inconciliáveis “a mãe do século XVIII”, que é a responsável pelo desenvolvimento físico, emocional e moral do filho e “a mulher do século XXI”, que ocupa outros importantes papéis na sociedade e na família – esposa, amante, profissional, acadêmica, entre outros. Este conflito gera
sentimentos ambivalentes em relação à maternidade e exige da mulher um alto padrão de desempenho nas suas múltiplas funções (Moura & Araújo, 2004).
6.2 - A rede de suporte comunitário e familiar
Na sociedade burguesa moderna, a maternidade é vivenciada de forma isolada da família de origem, bem como dos demais membros da comunidade. Com o desenvolvimento dos métodos contraceptivos, das técnicas de aborto seguro e das tecnologias de reprodução assistida, a mulher burguesa foi adquirindo um maior controle de sua capacidade reprodutiva e, com isto, a possibilidade de escolher o momento adequado para engravidar conforme o seu planejamento de vida.
A experiência da maternidade passou a ser vivida como se dissesse respeito exclusivamente à mulher e ao seu marido. A idéia predominante é de que o filho pertence ao casal, cabendo a ele o ônus da criação. Sendo assim, o “casal grávido” – fruto da sociedade urbana moderna, marcada pelo processo de nuclearização da família e orientada pela ideologia individualista – segue um modelo no qual as famílias de origem são alijadas do processo de criação dos seus descendentes e seus conhecimentos são considerados ultrapassados diante da velocidade com que as ciências criam novas regras para a dita criação correta dos filhos.
Ao contrário da sociedade Xavante, onde a mãe cuida e educa os filhos orientada pelo conhecimento ancestral da família e da comunidade, o casal burguês moderno transfere esta função para os especialistas. Os profissionais de saúde “normatizam” os cuidados com os filhos desde a gestação, uma vez que cuidam da saúde da mãe visando o bom desenvolvimento do feto; orientam a grávida sobre como deve se alimentar e quais atividades pode, ou não, fazer; decidem quando, onde e como o bebê deve nascer; ensinam a forma correta de alimentar, cuidar e educar o filho, ao longo da vida.
A mulher burguesa vivencia os dias que se seguem ao parto de forma muito solitária, esforçando-se para seguir os ensinamentos dos especialistas, fruto das pesquisas mais recentes sobre amamentação, cuidados com o neném, relação mãe-bebê e padrão de sono e vigília do recém-nascido. Não há espaço para os conhecimentos e costumes familiares, pois o paradigma biomédico, criado e mantido pela burguesia, desqualifica qualquer conhecimento intuitivo, metafísico ou oriundo de práticas tradicionais.
Essa mulher se angustia e se culpa diante do seu desejo de exercer outras atividades como estudar, trabalhar ou se dedicar a ela mesma. Em conseqüência dos valores individualistas da sociedade moderna e do modelo de família nuclear, a mãe burguesa não conta com uma rede de suporte familiar, nem, muito menos, comunitária com quem possa dividir as funções maternas, restando a ela duas alternativas: deixar os filhos aos cuidados de uma babá ou de uma creche.
Assim, a mãe burguesa que exerce uma atividade profissional permanece cuidando, exclusivamente, de seu filho durante os 120 dias de licença-maternidade remunerada, garantida pela Constituição Federal de 1988 – período, muitas vezes, encurtado no caso das profissionais liberais. Após esta licença, ela transfere, na maioria das vezes com grande sentimento de culpa, os cuidados do filho a uma outra mulher de estrato social menos favorecido, que é paga para assumir as funções ditas maternas.
A mãe pobre, portanto, é obrigada a deixar seu filho com as avós, com as mães crecheiras, ou mães de criação – já que o sistema de creche pública em nosso país é precário – para trabalhar cuidando dos filhos das mulheres mais abastadas, perpetuando, assim, as desigualdades sociais entre elas. Há de se considerar, também, que em razão da hegemonia do discurso burguês que unifica as aspirações e alcança todo o espectro da nossa sociedade, as mulheres dos estratos sociais menos favorecidos aspiram, por sua
vez, a contratar babás para os seus próprios filhos, como um bem prezado no universo familiar (Segato, 2006).
Portanto, a despeito do discurso moralista dos higienistas do século XVIII, perpetua-se, no Brasil, a prática da maternidade transferida16, oriunda da época colonial escravocrata. Ao longo do tempo, a ama-de-leite escrava foi substituída pela ama-seca e, posteriormente, pela babá (Segato, 2006).
As mulheres burguesas modernas, inseridas no mercado de trabalho, que não querem deixar seus filhos com as babás, recorrem a centros alternativos de cuidados: as creches. Atualmente já existem várias instituições que oferecem – a um valor muito mais elevado do que o gasto com uma babá – serviços especializados prestados por equipes de pedagogos, psicólogos, nutricionistas e pediatras.
Tal opção, entretanto, tem gerado controvérsias tanto no meio científico como no meio leigo. Afinal, predomina ainda a idéia de que, ao longo dos três primeiros anos de vida, é mais saudável a mãe cuidar dos filhos no ambiente doméstico. E também, de que a creche é um equipamento precário de cuidado de crianças, essencialmente ligado à pobreza. Estas concepções despertam intensos sentimentos de angústia e culpa nas mães, sobretudo, naquelas que, devido ao seu bom nível socioeconômico, teriam a opção de deixar de trabalhar para cuidar dos filhos, mas não o fazem porque almejam a realização profissional (Weber, 2006). Além da culpa, elas são igualmente assombradas pelo medo de que sua/seu filha/o as substitua afetivamente por quem cuidar dele durante a sua ausência, uma vez que, em nossa sociedade, a maternagem deve ser exercida por uma só pessoa: a mãe biológica; e o afeto do filho não pode ser dividido.
16
Conceito de Suely Gomes Costa : em Proteção social, maternidade e lutas pela saúde reprodutiva. Revista de Estudos Feministas, 2, 2002: 301-323.
Conforme Chodorow (1978/1990), o papel da mulher no cuidado com os filhos foi se tornando tanto mais exclusivo quanto menor se tornava a determinação biológica para a maternidade. Ou seja, enquanto a taxa de natalidade caía, a escolarização infantil ocorria mais precocemente, e quanto mais a mulher se tornou presente no mercado de trabalho, tanto mais crescia a ideologia da “mãe moral”, dedicada e responsável quase que exclusivamente pelos filhos. Esta mãe deveria agir ao mesmo tempo como educadora dos filhos, responsável por guiar moralmente e alimentar toda a família quando voltasse do mundo do trabalho, “imoral e competitivo” (p.19).
Desde a década de oitenta, na sociedade burguesa, as representações de maternidade e paternidade deixaram de ser percebidas pelos homens e mulheres como auto-evidentes e passaram a ser vistas como situações sujeitas à elaboração e discussão pelo casal. Este processo exigiu, e continua exigindo, grande investimento emocional de ambos os cônjuges, que buscam construir um novo modelo de maternidade e de paternidade.
Este novo modelo, que tem como ícone o “casal grávido”, prevê que o pai burguês participe de forma ativa no ciclo gestação-parto-puerpério. Por conseguinte, ele freqüenta as consultas pré-natais, se envolve com a preparação para a chegada do bebê e com a “decisão” sobre o tipo de parto, acompanha a esposa no momento do parto e “ajuda” a cuidar do bebê. Em contrapartida, o modelo preconiza que cabe à mãe cuidar diretamente da criança, dedicando-se exclusivamente a ela, pelo menos, durante a licença-maternidade. Deste modo, conforme o ideário do “casal grávido”, pai e mãe devem assumir todos os cuidados com o bebê desde o início, dispensando o auxílio de enfermeira, babá ou mesmo dos familiares.
Cabe lembrar, porém, que enquanto a mãe goza 120 dias de licença-maternidade, o pai tem direito à cinco dias apenas. Portanto, após este período de licença-paternidade,
a participação do pai no cuidado com o bebê limita-se ao tempo no qual não está trabalhando, ou seja, à noite (em alguns casos), e nos fins de semana.
Os casais burgueses contemporâneos acreditam estar aderindo a um projeto vanguardista de maternidade e paternidade, bem como de relação conjugal. Este projeto sugere a participação do pai desde o começo da gravidez e sustenta um modelo de educação dos filhos ancorado em valores como afeto, respeito à subjetividade, relacionamento mais igualitário e livre entre os cônjuges e entre pais e filhos.
Entretanto, para Salem (1985) o projeto do “casal grávido” contém um sabor de “déjà vu”, já que a sua retórica coincide com o discurso rousseauniano sobre “a boa mãe”. Para a autora, o projeto do “casal grávido” só é possível no interior do ideário de um grupo social específico (a burguesia), segundo o qual a representação de casal baseia-se na igualdade (pressuposta) entre os gêneros, na valorização do subjetivo, do emocional e dos aspectos psicológicos e individuais.
Este modelo supervaloriza a mãe como cuidadora e desinveste os outros membros da comunidade e da família, inclusive o próprio pai, de seus papéis parentais (Forna, 1988/1999). Por conseqüência, a mulher se sente sobrecarregada física e emocionalmente no período do pós-parto, relatando muitas vezes uma sensação de desespero quando, ao longo do dia, fica sozinha em casa com o bebê e, ao entardecer, quando começa a imaginar a “longa noite que terá pela frente”.
Acredito que os sentimentos de tristeza, desânimo, cansaço e depressão, que afligem algumas mulheres no pós-parto, estão relacionados com a percepção que o indivíduo moderno tem de que “vive separado do mundo por um muro invisível” (Elias, 1939/1994, p.12). O isolamento impossibilita as trocas com a rede social e comunitária, bem como com a família extensiva, predominando a sensação de vazio entre o “eu” e o “mundo”: “Se as pessoas são privadas dos benefícios das relações sociais que as
sustentam psiquicamente, acabam se deparando com a condição de indivíduos sós e associais, o que vai ser vivenciado por cada um como vazio, como perda de algo que era parte de si.” (Pereira, 1999a, p. 74).