Feitas essas observações iniciais, vamos ao filme, entendendo que o utilizamos para desencadear considerações sobre o trabalho de Acompanhamento Terapêutico (AT). O solista é um filme anglo-ame- ricano lançado em 2009. Foi dirigido pelo britânico Joe Wright, cujos pais tinham um teatro de fantoches. Esse diretor, até então, tinha diri- gido dois filmes, Desejo e reparação (um drama familiar de 2009) e
Orgulho e preconceito (lançado em 2006, um romance que se refere também a uma história familiar).
O solista gira em torno de dois personagens, o jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr.) e Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), nome ar- tístico de Eric Marlon Bishop (um dos milhares de moradores das ruas de Los Angeles). Baseado em “fatos reais”, contou com a participação de moradores de rua de Los Angeles. Steve se encanta com a música que ouve, vinda de um violino com duas cordas tocado por Nathaniel, e se interessa por sua história. “Descobre” que Nathaniel é músico (não é “ex-músico”), que foi diagnosticado com esquizofrenia, é apaixonado por Beethoven e tem desejo de tocar num concerto.
Steve passa a acompanhar Nathaniel (certamente não como um AT) e inverte a tríade de uma análise “Mal-estar, sofrimento, sintoma”, manifestando interesse apenas pelo sintoma de Nathaniel. Esse en- contro, cuja iniciativa parte de Steve, deve-se ao seu sintoma de busca constante de pautas para seu jornalismo. Essa compulsão certamente atrapalharia Steve, caso desejasse ser um at.10 Steve impede que sua
solitária vida pós-divórcio seja o centro do filme, e a trama capta bem essa evitação do jornalista em mergulhar em seus próprios sofrimentos e sintomas, dedicando-se aos outros, que lhe rendem o afastamento em pensar a sua própria vida, ou em pautar a sua vida como assunto a ser colocado à mostra. Assim, sua história de certo “fracasso amoroso” (também sintoma) se faz presente de forma secundária, porém, também importante para uma escuta flutuante que poderia levar Steve a variadas associações. Mas, mergulhado em sua solidão, mascarada por atividade laboral, segue em sua “preocupação” com o outro. Essa situação de Steve serve para que pensemos o AT: pode ser um sintoma para evitar pensar sua própria vida, à medida que se dedica à vida dos outros. São terapeutas sem sua própria análise competente.
Voltando ao enredo do filme. O jornalista tem a constante preo- cupação de retirar Nathaniel das ruas e fazê-lo tocar em uma orquestra. Em seu contínuo e “aparente desprendimento” de si, Steve “descobre”
10 Como de praxe, diferencia-se “AT” (Acompanhamento Terapêutico) de “at” acompa- nhante terapêutico, pelas letras maiúsculas e minúsculas, respectivamente.
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que Nathaniel foi aluno de uma prestigiada escola de arte. Ressalto “aparente desprendimento”, porque o jornalista continua sendo atraves- sado pelos fluxos de seus problemas e da sociedade de controle que o capturou e faz com que ele reproduza modos de viver impositivos de certa rotina considerada normal: não imagina que a rua pode ser espaço de acolhida e faz milhares de pessoas terem vida; não se detém para conhecer o que levou Nathaniel às ruas e sequer aventa a possibilidade do nomadismo urbano como possibilidade de vida; não se questiona se é apropriado o propósito de tirar Nathaniel do espaço urbano que o acolheu (as ruas) e de seu modo de viver. A relação entre o jornalista e o músico é rigidamente hierarquizada, a ponto de Nathaniel dizer que Steve é seu “deus”, comparando inclusive a vida do jornalista nas al- turas da redação do jornal Los Angeles Times com o céu. Certamente, essa situação de endeusamento pode aparecer em AT.
No filme, há uma referência ufanista aos EUA, em função de sua bandeira entrando em várias cenas, em aparições furtivas, flamu- lando o que poderia ser um dispositivo patente do mal-estar na cultura norte-americana e, talvez, em grande parte do mundo, relacionada a sofrimentos e sintomas, caracterizando o que os EUA vêm repre- sentando há décadas: intolerância ao diferente, ode à vida sem dor e solidão proveniente de uma cultura narcisista, onde laços de ami- zade são substituídos por laços comerciais. Ou seja, o mal-estar que aparece no filme se torna visível no sintoma do jornalista que volta para casa e se frustra, por não encontrar recados em sua secretária eletrônica, em uma vida cada vez mais mediada pela proliferação de tecnologias, as quais simulam a presença humana, privando-nos de relações públicas nas ruas, territorializando-nos em vidas privadas. A vida do jornalista é o protótipo da vida de milhares de outras pessoas, exposta nas “redes sociais”, expressando felicidade em rostos sorri- dentes, evitando o reconhecimento de suas dores, expondo sofrimento apenas quando advém de outros, mas, mesmo assim, uma exposição fortuita, como uma dor vazia, esvaziada de si, não solidária à fluidez da vida: “[...] como se a dor não tivesse objetivo” (DURAS, 1986, p. 61). Assim, funcionam como máquinas de consumo homogenei- zadas capturadas, sintomaticamente, evitando a própria vida de dores.
Correlato a esse sintoma social,11 Steve, em uma “relação passional”,
pensa ser capaz de oferecer prazer ao outro (no caso, Nathaniel), “[...] sem ser para este mesmo objeto fonte de sofrimento” (AULAGNIER, 1985, p. 155). Nesse ponto, a dor perde sua capacidade de vitalidade. Nessa relação em que um (Steve) apresenta dependência pas- sional ao outro (Nathaniel), embota-se o risco de morte, real ou sim- bólica, do outro: ao mesmo tempo em que o jornalista mostra o outro para o público, ele se torna o centro do espetáculo, sob o pretexto de estar retirando uma celebridade musical das ruas. Nesse caso, podemos começar a entender que o solista, ou aquele que quer tocar sozinho, é o jornalista. Este é um solista de si: deseja, na “sociedade do espetá- culo” (DEBORD, 1997), embotadora de sofrimentos, disfarçar os sin- tomas de solidão, expondo-se em uma vitrine virtuosa, trazendo para si os olhares sociais, mesmo que isso custe usar outros. O jornalista é “solista”, porque tem em si o foco do espetáculo. O músico é “so- lista”, porque toca para outrem, e porque não quer a luz do espetáculo sobre si, porque entende que nenhum solista toca só, visto que só é reconhecido como solista na relação com um outro, seja a orquestra, seja a plateia que o acompanha, para que a música ecoe além de si. As solidões não são iguais e não têm os mesmos efeitos. Em nossas com- parações, podemos entender que Nathaniel parece funcionar como um at para Steve, na medida em que oferece sua corporeidade ao acompa- nhar Steve; em vez de fazer desse acompanhamento vitrine para si, usa sua solidão para vibrar a solidão do jornalista, este, sim, o verdadeiro ajudado nessa relação.
11 Vale aqui uma observação: como afirma Kehl (2010), não é consensual o conceito de sintoma social em psicanálise, tendo em vista as singularidades de análise das categorias sujeito e sociedade. Por outro lado, os sintomas são manifestações de algum sofrimento, mesmo se desconhecendo as suas causas e, certamente, avançam, em cronicidade, sem tra- tamento. Portanto, podemos pensar em sintomas, individuais ou sociais, na linha argumen- tativa de Vanier (2002): “[...] condição do social e o modo particular de inscrição do sujeito no discurso, ou seja, no laço social” (p. 216). Assim, sob certas condições histórico-sociais que fazem circular modos de viver, nós nos inscrevemos em laços, favorecendo em cada um de nós certos sintomas, originados das nossas tentativas de organizar a vida humana. Podemos identificar que sintomas gerais emergem e como nos afetam singularmente.
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