Há dois anos, 2013 e 2014, em janeiro, Nair oferece em seu sítio, próximo a Piacatuba, distrito de Leopoldina, uma festa em homenagem a Santos Reis. Em janeiro de 2012, a Folia dos Colodinos, por meio do Seu Dedé, convidou-me para comparecer no próximo ano a esta cantoria, disseram que seria um “festão” já marcado para dia 3 de janeiro de 2013. Tiveram minha presença confirmada. Em 2014 também não pude faltar. A festa foi realizada no sábado, dia 4 de janeiro. Combinei com os foliões de acompanhar a Kombi que os levaria até o local, dessa forma na hora marcada estava eu no Alto do Cemitério, onde ainda moram muitos filhos do falecido Juca Colodino, com exceção do Seu Geraldo que reside em uma área mais central da cidade, local conhecido como Praça da Bandeira. Percebe-se dessa forma como Seu Geraldo, apesar de ter assumido a função do pai, não centraliza o poder. Como ele ocupa a função de dono, a Bandeira poderia sair da casa dele, mas sai do Alto do Cemitério, onde o pai residia e ainda concentra a moradia de parte dos integrantes.
Fui de carro atrás da Kombi. Chegando no local da festa pude observar que Nair aperfeiçoou a estrutura para receber a Folia, que já era adequada em 2013. Avistei de longe uma grande área verde livre para o estacionamento dos carros, luzes fora do ambiente da cantoria para o palhaço não ficar no escuro ao fazer a sua Chegada67, mesas espalhadas no salão destinadas à assistência, caixa amplificadora e microfone para os leigos assumirem o controle do evento religioso. Duas enormes mesas foram dispostas no salão: uma central para o jantar da Folia, coberta por uma toalha de renda para os foliões mais proeminentes do grupo cearem, ou seja, os mais velhos, e outra mais ao canto, perto da cozinha, para dispor o jantar destinado à assistência. A comida era a mesma, mas a Folia deve ter prioridade, pois a festa é em homenagem a Santos Reis e os foliões são representantes diretos dos santos nesse cenário devocional.
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Assim como a Folia tem os seus versos de Chegada, o palhaço também apresenta os seus. Chegada do palhaço é o nome do conjunto de versos iniciais recitados pelo bincante para pedir licença aos patrões para fazer sua performance, também conhecida como brincadeira, e se apresentar à assistência.
Foto 10: Jantar da Folia dos Colodinos no sítio de Nair Fonte: Acervo pessoal, 2014
Nair ofereceu o jantar a fim de seguir a tradição de sua família, que parecia esmorecer com a morte do patriarca. Durante minha infância, assistia à Folia do Juca Colodino na casa do Seu Fabiano68. Segundo Nair , quando o pai fazia as compras de supermercado para o jantar da Folia, não economizava, gastava com maior prazer para adorar os seus Santos de devoção. Quando ele morreu, a família preferiu que a Folia não cantasse para eles, pois traria recordações. Mas, em 2013, a filha do Seu Fabiano decidiu que seguiria a tradição de anos que seu pai sustentava em sua casa, mas agora teria novo endereço e novos patrões. E da mesma forma, reúne toda a família em torno da devoção em Santos Reis, aliás até a devoção é uma herança deixada pelo Seu Fabiano.
A Chegada da Folia no sítio foi caprichada. Começou lá da estrada de terra até o interior da propriedade. O palhaço Roninho veio dançando entre as filas, muito animado, esbanjando simpatia. Quando se aproximaram do local da cantoria, a Folia retrocedeu de costas e coreograficamente os foliões de frente puxaram as filas dando a volta por trás e se colocando novamente à frente, sempre tocando os instrumentos e dançando. Começam então a entoar esta música tocada na igreja, mas numa versão bem animada:
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Na verdade, Seu Fabiano chamava-se José de Souza Oliveira; Fabiano é apenas um apelido, mas todos o conheciam assim. Tanto que seu filho chama-se Luís Fabiano. Como aconteceu com o nome Colodino que era apenas um apelido, que veio do pai do Juca, mas que ganhou o status de sobrenome da família. Em Leopoldina, como em muitas cidades pequenas, o apelido é mais comum que o próprio nome da pessoa. Nas outras Folias isso também é notável: Sebastião Valério é o Tão, Marluce virou Maú, Victorino virou Turino, José Cristóvão é Zé Cristóvão, Marcílio é MJ e Guru, o neto de Maú, não conheço seu nome.
Está família será abençoada porque o Senhor vai derramar o seu amor. (bis) Derrama ó Senhor
Derrama ó Senhor
Derrama sobre ela o seu amor (bis)
Os devotos fazem um coro, cantando junto com a Folia. Um folião para de tocar seu violão para gesticular com as mãos como quem estivesse jogando as bênçãos dos Santos Reis sobre aquela família. Neste momento, quem segura a Bandeira é o Seu Geraldo, o responsável pela Folia. Logo depois dessa chegada atípica69, reassume seu posto junto ao seu violão e transfere o objeto sagrado ao bandeireiro. Agora se inicia a Chegada tradicional.
Ainda do lado de fora, o folião que gesticulava abençoando a família e o local se concentra, retira a coroa em sinal de respeito ao fazer o sinal da cruz e faz uma pequena oração antes de começar a tocar. A partir desse gesto, pode-se presumir que ali tem início a etapa sagrada do ritual. Porém, o momento sagrado está inserido no contexto profano da festa de maneira tão indissociável, que se torna uma tarefa infrutífera separá-los, pois estão fundidos neste contexto.
Iniciam então os versos tradicionais da Chegada dos Colodinos, ressaltando a importância de receber a Bandeira em sua morada:
Oi pra fazer esta Chegada Peço licença ao senhor (bis)
Oi quero dar uma boa tarde Oi pra senhora e pro senhor (bis)
Oi pá os jovem e as criança Oi que Jesus lhe abençoa (bis)
[...]
Oi meu senhor e minha senhora Oi por favor pegue a Bandeira (bis)
Oi ela mantém abençoada Oi a sua família inteira (bis)
Nesse momento, a dona da casa recebe a Bandeira das mãos do bandeireiro Zezé de frente para si e a beija. Vira o objeto de frente para a Folia para completarem o ritual da Chegada. Na Folia de Reis, as ações são conduzidas pela cantoria, há uma eficácia das palavras na condução das ações (CHAVES, 2003, p. 96).
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Geralmente a aproximação da Folia à casa do devoto, antes de entoar os versos de Chegada, é silenciosa. Nesse aspecto há uma inovação da Folia dos Colodinos: a música cantada antes da Chegada não faz parte do repertório tradicional de uma Folia de Reis, e a coreografia não faz parte do gestual dos foliões.
Então Nair cede espaço para a Folia entrar e continuar a cantoria no local a ela reservado. Depois desse longo primeiro momento, composto pela Chegada e pela cantoria das Profecias, é a hora da Comunhão. Há na mesa operada pelos foliões os objetos rituais como a vela acesa, o pão, o vinho e o peixe. Quem prepara a comunhão, sem a hóstia, é o bandeireiro Zezé, que oferece o pão e o peixe, o vinho é oferecido pelo Seu Dedé. Primeiro, os foliões fazem fila, recebem um pedacinho de pão e peixe, bebem um gole de vinho, todos na mesma taça e só depois a comunhão é oferecida à assistência. Como na igreja, em frente ao folião, forma-se uma fila de fiéis. A irmã de Nair, Luzia, pega o microfone e começa a cantar acompanhada pela assistência a música “Oração pela família” do Padre Zezinho, enquanto a comunhão é oferecida. Em sequência, lê uma pequena oração destinada à família e inicia um Pai-Nosso.
É perceptível que nesta Folia a influência dos sacramentos institucionais na Igreja Católica é maior, porém ressalto que são os leigos que dominam a cena, principalmente as mulheres. Portanto, os conceitos de circularidade, reinterpretação e apropriação criativa são adequados a esse contexto (CHAVES, 2003). Percebo que há a circularidade de elementos oficiais da Igreja Católica no ambiente popular, sendo reinterpretados à luz das vivências devocionais de um grupo social que se apropria desses símbolos, orações e cânticos da liturgia oficial de maneira criativa, compondo um novo cenário de múltiplos significados. A ideia de submissão das práticas populares em relação às práticas do Catolicismo Oficial não é adequada neste panorama. Ressurgem em uma dimensão em que a fé é experimentada no/pelo corpo e se mostra viva e pulsante, sendo reinventada e atualizada a cada instante.
Os elementos referentes à instituição e os populares se entrecruzam, e um não se apresenta como superior ao outro. Porém, as músicas da Folia parecem ter um nível maior de sacralidade, assumindo a função de oração e bênção, enquanto as outras aparecem para empolgar a assistência no momento da Chegada, sendo apropriada criativamente pela Folia, ou como fundo musical no momento da Comunhão. Pode-se perceber a sacralidade das toadas da Folia, por exemplo, no momento em que Seu Dedé retira a coroa e faz uma oração silenciosa antes de começar a tocá-las.
Foto 11: O bandeireiro Zezé preparando a comunhão da Folia, com o pão, o peixe, o vinho e a vela à mesa. Á sua direita o folião Seu Dedé, quem serve o vinho
Fonte: Acervo pessoal, 2014
Após a Comunhão, chega o momento da oferta do jantar. Nair seguiu os passos de seu pai: as mesas estavam repletas e a fartura, como marca do jantar da Folia, fez-se presente. Havia arroz, tutu, macarronada, carne de porco assada, salpicão e farofa. Foliões e assistência se fartaram e logo foi posta a mesa de sobremesas, com grande variedade: docinho de leite, de amendoim, de mamão, cocada e até palha italiana.
Mais tarde, é a vez da Chula do palhaço. Do lado de fora, pedindo licença aos patrões, Roninho faz a sua Chegada:
Opa!
Que aqui eu vô viveno Apruveitano a minha vida Rima todas poesia
São meu ponto de partida [...]
Andá com a cabeça erguida Os verso eu dô valor Da rima eu quero sabê A poesia hoje eu agradeço Esse dom de hoje eu tê Muitos me julgam de mal E falam que eu sô o cão Mas sô apenas aquele soldado Naquela repartição
Mas em cima dessa terra Jesus me dá perdão
Se transformá im cristão Para quem não me conhece Eu me apresento intão O meu nome é Roninho Filho da bênção
Poeta de alta estima Que rima com perfeição Sou considerado por todos Muito bom na trovação O Roninho ninguém segura Quando tá cum inspiração A cuca jorra poesia Conforme a ocasião Jesus Cristo poderoso Num dexa faltá unção A Ele que eu devo respeito Que me insina perfeito A compor composição Em cada linha uma frase Em várias frase são rimada Na arte contagiante
Da minha cabeça danada Sempre criando e compondo É minha marca registrada Deus põe a mão na minha mão Aí eu não erro nada
As letra sai perfeita Todas elas desenhada Só isso só me acontece Quando Deus me abastece Dexando a marca inspirada Qui aqui eu peço licença Eu quero a licença dada
É ca permissão de voceis que eu vô fazê minha Chegada Intão vai...70
Depois, Roninho entra no recinto conquistando toda a assistência. Esse palhaço ganha muito dinheiro. Além de ser muito carismático, ele possui um público heterogêneo, apresentando-se tanto para as classes menos favorecidas como também para uma plateia que possui melhores condições financeiras, como esta da família do Seu Fabiano. Apresenta-se também na Praça da Igreja, onde a assistência é composta por um grande contingente de pessoas. Além daqueles que participavam da missa (um número significativo de fiéis), assistem também à performance do mascarado todos os que esperavam do lado de fora o momento da Chula e os curiosos que param ao ver a movimentação da Folia. Mais um ponto que garante seu sucesso é a sua capacidade de memorização e improvisação de versos, que parece inesgotável. Ele é capaz de conversar durante horas. No sítio de Nair não se oferece
moeda a ele, somente notas. No último giro, um homem lhe ofertou uma nota de R$ 20,00, as de R$10,00 são comuns.
A assistência no sítio é bastante criativa, coloca-se o dinheiro nos locais mais inusitados, como na aba do boné, arremedando um bigode com a nota, no cabelo, atrás da orelha, no pé, etc. Isso oferece mais possibilidade de criação ao palhaço, é aí que “a cuca jorra poesia conforme a ocasião”, como ele mesmo cita em sua Chegada.
Depois de um longo período de diversão e descontração, o mascarado faz a sua despedida e os foliões voltam a assumir o cenário. Salvam o presépio e agradecem a mesa posta e a oferta da Bandeira, que nesta casa é generosa. Muitas notas são penduradas nas fitas das Bandeira pela devota e pelas crianças, que aproveitam e participam de cada momento da festa.
Foto 12: Crianças ao lado de Nair ajudando a amarrar a oferta da Bandeira em suas fitas Fonte: Acervo pessoal, 2014
Essa família é de grande relevância na história da Folia dos Colodinos. Na parede do local, estava exposto um quadro de fotos antigas e recentes, onde aparece o Sr. José de Souza Oliveira, o Sr. Fabiano e a esposa também falecida Dona Maria Inês junto com os foliões, os palhaços, relembrando os anos em que o grupo esteve junto deles. O uniforme que os foliões utilizam no sítio foi uma doação de Nair e nele está escrito “Lembrança de José Fabiano e Maria Inês – Folia de Reis Colodino”.
Há quem pense que quem se envolve com a Folia de Reis é só para pagar promessa, tanto o folião quanto o devoto que a recebe. Muitos realmente tocam e recebem em forma de pagamento de uma graça alcançada, mas a Folia não existe só como forma de pagamento.
Mas a atitude de Nair em receber a Folia segue, também, um costume do pai que se estendeu como herança para os filhos. Seu Fabiano recebia a Folia por gosto e não por obrigação com os Santos. E a filha, que cresceu nesse ambiente devocional, tomou gosto pela festa e continua recebendo também em homenagem à memória de seu pai. A Folia é “coisa de família”, que passa de geração para geração, tanto do lado dos foliões como dos devotos.