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Buscamos inicialmente, neste capítulo, fundamentar uma visão de ciência que é essencial para qualquer empreendimento de consideração de um objeto de estudo do ponto de vista histórico, social e filosófico. Isso porque a prevalência de perspectivas de objetividade e neutralidade, com um abismo entre ciência e política, e atribuição de supremacia do conhecimento científico a demais formas de conhecer, dão margem a construções ideológicas, calcadas em naturalizações e desconsideração da historicidade. A partir dessa base, procuramos abordar o tema da deficiência de modo multidimensional, apontando como, contemporaneamente, assiste-se a um complexo jogo discursivo, em que o modelo médico predominante vem sendo desafiado pela noção de deficiência enquanto construção social e elemento a constar em agendas

políticas. A análise também demonstrou, contudo, que tais modificações na concepção da deficiência não são unidirecionais ou estão acabadas. Ao contrário, encontram-se tecidas em meio a contradições e posicionamentos discordantes, que agregam elementos colhidos nas diversas posturas históricas da sociedade em relação à deficiência e originam diferentes consequências no âmbito político e nas práticas sociais.

Diante disso, consideramos essencial pensar como os trabalhos em psicologia têm se posicionado e contribuído para a discussão acerca da deficiência enquanto objeto de estudo, bem como sobre as consequências para a vivência concreta das pessoas com deficiência, afetadas pelos conhecimentos produzidos por essa ciência. Morawiski (2005) aponta o quanto o cânone da objetividade ainda se encontra presente na psicologia, afastando-a da consideração de sua dimensão reflexiva. Concebendo-se que a objetividade e a neutralidade são dimensões presentes na construção do modelo médico da deficiência, podemos hipotetizar que uma análise das produções recentes em psicologia acerca do tema pudesse revelar uma ainda baixa consciência desses estudos sobre as escolhas políticas subjacentes às metodologias e fundamentações teóricas adotadas. Conseguintemente, também um baixo reconhecimento acerca das implicações políticas e sociais que suas conclusões possuem diante das condições concretas de existência de pessoas com deficiência.

Em outro estudo produzido por nós (Wanderer & Pedroza, no prelo), a recuperação de diversos trabalhos em que adultos com deficiência figuram como sujeitos ou, em alguns casos, objetos de investigação, demonstrou que ainda é bastante presente a abordagem do tema da deficiência sob o ponto de vista do modelo médico, focalizando-se a questão da reabilitação e das perdas decorrentes de uma condição corporal diversa da norma. Embora tais estudos reconheçam, ainda que implicitamente, as condições de opressão social que configuram a experiência da deficiência, esse aspecto permanece pouco problematizado e acaba-se por privilegiar uma visão de desenvolvimento padrão esperado que serve de parâmetro de comparação para compreender aqueles que fogem a ele e que, portanto, carregam em si um pressuposto de menos valia, dificuldade, desvantagem. Constitui desafio idealizar metodologias de pesquisa que consigam abordar a reabilitação sob uma perspectiva de desenvolvimento não linear, contínuo e aberto a possibilidades diversas. Nesse ponto de vista, a deficiência precisaria ser compreendida não como interrupção de um processo de desenvolvimento normal, mas como intercorrência cabível na vida de qualquer ser humano e que compõe o processo em vez de prejudicá-lo.

Adicionalmente, as contribuições do presente capítulo apontam para a necessidade de que as produções em psicologia tornem-se politicamente conscientes, isso é, tenham clareza de que não há qualquer produção de conhecimento que se desvincule de escolhas políticas e compromissos com determinados modelos de sociedade. As evidências de que as pessoas com deficiência têm sido desvalorizadas, desqualificadas e prejudicadas em seu desenvolvimento por um contexto social perverso e excludente acumulam-se em diversos campos de conhecimento. Diante disso, entendemos que uma produção em psicologia que não se alinhe com esse reconhecimento e não se comprometa em realizar uma contribuição

acadêmica tendente a minorar tais processos acaba por confirmar e perpetuar o status-quo. A adoção de um modelo médico de reabilitação e de cura na psicologia, com base em uma pretensa objetividade advinda da inexorabilidade da consideração dos aspectos biológicos que comporiam e determinariam a subjetividade ignora os interesses políticos que, historicamente, justificam processos de exclusão e, inadvertidamente ou não, contribuem ativamente para a manutenção desse sistema.

Finalmente, concebemos que a psicologia deve, ativamente, comprometer-se com a produção de um contexto social de desenvolvimento mais igualitário para todos. Tal compromisso exige uma constante preocupação com os fundamentos teórico-epistemológicos que compõem a produção do conhecimento, a metodologia de estudo e a análise das informações obtidas no campo. Requer, além disso, um posicionamento dos psicólogos enquanto sujeitos ativos na produção de suas contribuições, explicitando suas escolhas políticas, reconhecendo suas marcas subjetivas na leitura da realidade e comprometendo-se pessoalmente com as consequências de tais escolhas.

Ressaltamos, entretanto, que trazer os desafios contidos nos parágrafos anteriores não implica afirmar, de modo algum, que a psicologia careça de propostas que os supram e que estejamos diante da necessidade da criação de formas completamente inéditas de produzir conhecimentos no campo. Ao longo deste capítulo, tivemos a oportunidade de explorar, sucintamente, as propostas de um autor que, entre outros, problematizava os objetivos da psicologia enquanto ciência, apontava seu caráter irremediavelmente político, sua inseparabilidade do coletivo e seu compromisso com a transformação social. Referimo-nos à obra de Vigotski (1896 a 1934). Em sua teorização acerca do desenvolvimento psicológico, esse estudioso ressalta que a constituição do indivíduo como ser humano depende de sua relação cooperativa com os outros, de sua inserção social e das ferramentas mediacionais oferecidas pelo contexto cultural. A relação entre sujeito e cultura é dialética, o que implica contínuas, mútuas e complexas interações e transformações.

Vigotski (1929/1995) ressalta que o desenvolvimento das funções psicológicas superiores (tipicamente humanas) ocorre por meio da cooperação coletiva inicial, antes que se tornem formas de ação individual. Com base em tal compreensão, concebe que a responsabilidade pelo não desenvolvimento dessas funções, nas crianças com deficiência, é da sociedade, que as aparta da convivência com seus pares e com os adultos, relegando-as a uma forma de educação que investe preferencialmente no desenvolvimento das funções psicológicas elementares, mais passíveis de serem diretamente afetadas pelo defeito orgânico e menos valorizadas em nosso contexto econômico de produção. Ao tratar do desenvolvimento enquanto processo e conceber a atividade como sua propulsora por meio da cooperação coletiva, o autor também acaba por focalizar que, para seu estudo, é necessário considerar o que o sujeito tem de funcional e de íntegro enquanto ser completo, em vez daquilo que lhe falta. A compensação ou os chamados caminhos isotrópicos de desenvolvimento

(Braga, 1995) que permitem a aquisição de ganhos desenvolvimentais por parte de pessoas com deficiência residem na busca de ferramentas mediacionais não típicas, a serem elaboradas pelo próprio indivíduo, bem como, e sobretudo, pelo meio social que o cerca. É com base em tais proposições que o autor também realiza análises sobre os sistemas de educação dirigidos a pessoas com deficiência, ressaltando que é papel da sociedade e do Estado garantir que eles se construam oferecendo os meios adequados a seu desenvolvimento, entendendo-se como seu objetivo a participação plena de tais indivíduos no contexto social.

Parece-nos, assim, que a obra de Vigotski constitui um exemplo interessante de como se pode buscar equacionar os desafios apresentados nesta seção, a partir do reconhecimento de que a psicologia, como ciência, não se dissocia do contexto sociocultural em que é produzida e que, ainda que não explicitamente, transforma e é transformada por esse contexto, cabendo-lhe refletir sobre os compromissos que deseja empreender quanto a tal transformação e sobre as formas de efetivá-los. Pensar sobre os motivos que levam a psicologia, atualmente, a ter que se defrontar com seu caráter sociopolítico enquanto desafio é um exercício intrigante, considerando que esse tópico, conforme expusemos, não é novo. Esse exercício revela-nos, claramente, quais os caminhos ideológicos que vêm sendo escolhidos por tal ciência e permite-nos compreender como e porque determinadas linhas teóricas e de investigação ganham mais vulto do que outras em cada período e local.

Neste estudo, ao lançar os desafios que estamos discutindo, optamos, de saída, por demarcar nosso posicionamento político na produção de um trabalho em psicologia. Entendemos, tal qual Vigotski, que a produção do conhecimento tem um papel transformador e que é responsabilidade de seus produtores a sua orientação. Neste caso, alinhamo-nos explicitamente com uma concepção de construção social da deficiência, com a inserção desse tema na arena política, defendendo que é responsabilidade da sociedade e do Estado a projeção e construção de ferramentas mediacionais que propiciem um contexto de desenvolvimento mais igualitário para todos de acordo com o paradigma da inclusão social. Concordamos com Tunes (2003) quando aponta que encarar conformações biológicas individuais atípicas como empecilhos naturais ou como desafios a serem equacionados não é uma opção atinente à ciência, de acordo com a qual ambos os pontos de vista são válidos e defensáveis. Trata-se, antes, de uma escolha que se realiza no plano ético, ancorada em valores de respeito à singularidade e unicidade de cada ser, incluindo-se aí suas diferenças biológicas.

Compreendemos, obviamente, que nossos posicionamentos encontram barreiras na estrutura societária de que dispomos na atualidade, baseada em valores individualistas, com a primazia de interesses econômicos em detrimento da construção coletiva de direitos humanos e de cidadania para todos. Não esposamos uma visão ingênua que desconsidera a força desses valores e as resistências a serem enfrentadas diante da proposição dos desafios aqui expostos. Contudo, também consideramos

que somos parte dessa sociedade e, enquanto sujeitos dialeticamente relacionados a ela, podemos realizar exercícios de proposição e de transformação da realidade, que pode ser configurada e reconfigurada, mantida ou subvertida por nossa ação.

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