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Possible applications to irrationality questions

Dans le document 2 Background of the proofs (Page 24-27)

Luísa: Quando está a jogar ou quando não está a jogar e vê outros jogos e…

experiencia o jogo.

PCS: Quer dizer, eu acho que quando ele está a jogar, digamos, a sua

experiencia estética é, como disse, uma experiencia inconsciente. Não é? Ele faz coisas bonitas não para fazer coisas bonitas mas para ser eficaz. Agora, estando do lado de cá, como toda a gente, e até mais do que qualquer outro, tem uma capacidade de ler o jogo muito mais complexa do que quem não joga. E portanto, essa complexidade na capacidade de ler o jogo, permite-lhe também atribuir características estéticas mesmo que ele não saiba o que é estética, mas pode achar que aquela jogada foi particularmente bonita. Agora, quando o jogador joga, ele não quer jogar bonito, ele quer jogar bem, e jogar bem é jogar de uma forma eficaz. Agora, a pessoa que está cá fora é que acha que esse bem é bonito. Está a perceber?

Luísa: Pois, a questão que eu ponho é: será que o jogador não tem essa

consciência da indistinguibilidade do bem e do bonito, porque… Qual é a relação entre o jogar bem e o jogar bonito? Será que são separáveis? Será que são opostas?

PCS: São… aquilo que eu lhe estou a tentar dizer é que o que norteia o

jogador é a eficácia do jogo, é a necessidade de fazer boas passagens que levem à marcação do golo.

Luísa: À vitória.

PCS: E portanto, ele não vai para um sítio contrário só para fazer uma pequena

pirueta, não vai atirar a bola para o ar e fazer um jogo com a cabeça.

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PCS: Poderia ser estético naquela situação isolada, até pelo lado… porque a

estética também tem um lado muito transgressivo, não é? Até pelo lado da transgressão isso poderia ser estético, não é? Mas não seria tendo em vista a eficácia e o sentido do jogo que é alguém vencer. Não é? Está a perceber?

Luísa: O próprio desejo de vitória e a procura da vitória não eleva o valor

estético da jogada?

PCS: Eleva a… ou seja, provoca situações que dão mais dimensão estética ao

jogo porque… dimensões que têm que ver com a competição, com uma maior pulsação do próprio jogo, com uma maior tensão dentro do próprio jogo, e portanto isso são características estéticas que podemos identificar no futebol. Está a perceber?

Luísa: Sim. Como construir uma formação estética do jogador mas que vá de

encontro às necessidades de um jogo que é colectivo? Portanto, a pretendermos ou a procurarmos uma formação estética do jogador, ainda que não seja intencional, como conciliar isto: o jogador e a equipa e o todo?

PCS: Quer dizer, isto sinceramente se calhar é a questão central do seu

problema, mas é um problema para o qual eu, sinceramente, não tenho respostas porque a minha visão é que de facto o jogador quando joga não quer jogar bonito, quer jogar bem não é? E, portanto, agora o jogar bem pode ser jogar bonito não é? O gesto estético é mais eficaz porque é um gesto que eliminou o ruído, digamos assim. Portanto, o gesto do jogador que conseguiu eliminar o ruído e conseguiu ser mais claro, ser mais depurado e ser mais pertinente, é melhor e também é mais bonito.

Luísa: Portanto, o que me está a querer dizer é que ao termos preocupações

com o jogar bem, consequentemente o jogar bonito surgirá e não é necessário termos essa preocupação com o jogar bonito.

Anexos

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PCS: Pois, o que eu estou a dizer é que o jogar bonito não deve ser a

preocupação do jogador, ou seja, é um bocadinho aquilo que lhe estava a tentar dizer, é que para o jogador a estética é uma categoria passiva, para o observador a estética é uma categoria activa. Ou seja, o jogador pode jogar bonito porque joga bem não é? Agora, o observador tem a capacidade de olhar para aquela situação e dizer “esta situação é uma situação bonita, é uma situação que esteticamente me convoca”.

Luísa: Portanto, para elevar o valor estético do desempenho da equipa ou do

jogador, basta preocupar-nos com o jogar bem.

PCS: Sim, portanto, a ideia que eu tenho é justamente essa. Ou seja, é a de

que o jogar bem, de resto isso em todas as modalidades, o jogar bem dá a tal dimensão estética ao jogo porque o jogo não é uma obra de arte e como não é uma obra de arte não é estético à priori, percebe? É estético depois de observado, está a perceber? Enquanto que uma obra de arte é um objecto estético à priori, porque ela foi produzida por um artista e portanto o valor estético da obra de arte não depende do observador, está a perceber? A obra de arte tem um valor estético natural que lhe foi atribuído por um artista, não é? No caso dos objectos e das situações que não são obras de arte, o valor estético é conferido por quem o observa está a perceber?

Luísa: Não podíamos olhar para os jogadores ou para a equipa como artistas

que constroem, ainda que seja imprevisível, mas que constroem uma obra de arte?

PCS: Artistas entre aspas não é?

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PCS: Ou seja, artistas podemos considerar um cirurgião um artista percebe?

Usamos aí a palavra artista, muitas vezes, com sentidos diferentes e de uma forma paradoxal. Dizemos de uma pessoa: “ele é um artista”, portanto, é alguém que no seu território e na sua matéria consegue superar-se, consegue elevar-se até uma dimensão estética e dizemos: “ele é um artista” e podemos dizer justamente no sentido contrário, dizer: “ele é um artista” estilo “ele é um farsante…” percebe? Para a mesma situação e dando um tom diferente eu posso daquele cirurgião dizer: “ele é um artista porque de facto ele consegue transcender-se e aquela cirurgia que fez…aquele transplante…aquele bypass coronário é uma obra de arte” não é? Agora posso dizer do mesmo cirurgião “Ah, ele é um artista.”, portanto, é alguém que faz as coisas às três pancadas está a perceber?

Luísa: Há na literatura quem compare…quem faça esta comparação ainda que

utilize, de facto, esta expressão artista entre aspas.

PCS: Mas tem que ser entre aspas sim!

Luísa: Mas olha para o jogo como uma criação, uma construção como a obra

de arte. Ainda que tenha duas características que a obra de arte não tem que são: a intencionalidade da eficácia…da vitoria no caso concreto do futebol e imprevisibilidade dos constrangimentos do jogo não é?

PCS: Sim, mas há obras imprevisíveis. Por exemplo, há obras e há muitos

movimentos na história da arte do século XX que lidam com a imprevisibilidade, por exemplo, as situações de automatismo…de pintura automática e não sei que mais, em que o jogo mesmo do trabalho do próprio Jackson Pollack, ele não sabia exactamente no que é que aquela obra…onde é que aquilo ia parar percebe? Portanto, não é por aí. Há uma distinção que eu uso que eu acho que é muito pertinente e é eficaz. É que só há obra de arte quando há artista não é? Qualquer coisa hoje em dia pode ser uma obra de arte, mas só é obra de arte se houver um artista a dizer que aquela “qualquer coisa” é uma obra de

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arte. Portanto, o problema deixa de estar a jusante e passa para montante. O problema é: o que é um artista? E eu não creio que um jogador de futebol seja um artista no sentido de que é um produtor de obras de arte, agora produz coisas bonitas mas não são obras de arte.

Luísa: Que manifestações têm a formação estética, intencional ou não, (já

ultrapassamos essa discussão) nos desempenhos dos jogadores e das equipas de rendimento superior? O que é que há no jogo e nos jogadores, pela sua apreciação actual no jogo de futebol, que faz…

PCS: Acho que voltamos um bocadinho à mesma questão, ou seja, um jogador

que joga bem acaba por ser um jogador mais eficaz e sendo mais eficaz, o seu gesto acaba por mais bonito e, portanto, aí estamos na mesma situação está a perceber? Ou seja, o jogador não faz…o jogador não é artista, não faz obras de arte. O seu objectivo é jogar, agora desse jogo e do resultado desse jogo surgem situações que podem ser apreciadas esteticamente. Mas agora você diz-me. “Mas então, eu posso considerar um jogo de futebol uma obra de arte?”…Não! Pode considerar uma situação esteticamente interessante, mas um jogo de futebol só é uma obra de arte se, por exemplo, neste caso do Douglas Gordon que fez a partir de um jogo de futebol uma obra de arte. Agora se eu fizer uma fotografia de um jogo de futebol, aquilo só é uma obra de arte se eu for um artista, está a perceber? Ou seja, um jogo de futebol nunca é uma obra de arte, é um jogo de futebol que tem qualidades estéticas digamos assim….

Luísa: …apreciadas…

PCS: …e que eu próprio tenho a capacidade de atribuir a um jogo de futebol

capacidades estéticas. Porque nem só, como lhe disse, a obra de arte é estética não é? Um pôr-do-sol pode ser estético também não é? Mas um pôr- do-sol não é uma obra de arte. Nem quando fotografado por mim é uma obra de arte. Pode ser uma coisa agradável e bonita não é? Até pode ser, pelo

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contrário, uma coisa “kitch” não é? Porque toda a gente fotografa pores-do-sol e pode ser uma coisa até parola se quiser, não é?

Luísa: Gostaria de referir mais algum aspecto que posso contribuir para o

estudo da compreensão do tema “Novos desafios para a formação do futebol contemporâneo, que formação estética no jogo?”.

PCS: Pronto, eu acho que o olhar estético, de facto, é um olhar que enriquece

a leitura do futebol não é? Ou seja, agora eu acho que não se deve sobrecarregar o praticante com olhares. Mas o observador deve enriquecer-se com esses olhares e com a existência de múltiplas camadas e múltiplos filtros que permitem observar uma determinada situação, está a perceber?

Luísa: Claro.

PCS: Eu acho que ao jogador compete jogar bem, se ele jogar bem o seu jogo

vai ser particularmente eficaz. Agora, um treinador de futebol vai acabar por ratificar os gestos bonitos, porquê? Mas não é por serem bonitos, é por serem eficazes está a perceber?

Luísa: Claro.

PCS: E, portanto, um bom jogador de futebol acaba por ter gestos e por ter um

comportamento motor bonito, mas porquê? Porque essa beleza está associada à eficácia está a perceber?

Luísa: Para promovermos esse jogar bem, que terá como consequência jogar

bonito, resta-nos preocupar-nos com dar ferramentas para que joguem bem.

PCS: Para que joguem bem. Portanto, eu acho que o jogar bem não é? Agora,

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situação da estética passiva, justamente ratificar e pode seriar esse gestos bonitos porque se apercebe que os gestos bonitos são gestos mais eficazes. Agora, ele não vai só seriar os gestos bonitos se verificar que eles não são eficazes está a perceber?

Luísa: Claro. Professor, muito obrigada pelo seu contributo.

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